Histórias de todos os tempos

Por Roseli Câmara, com o testemunho de Helena Martins, dirigente da Ordem Princípio e Luz

As histórias contadas neste blog apresentam registros de mergulhos feitos em exercícios místicos que foram realizados após o contato com outras pessoas que, como nós, navegam nas mesmas águas.

Quando mergulhamos no mundo místico, o que sabemos é que faremos uma viagem. Para onde iremos e o que vamos encontrar não pode ser programado por nós. Entregamos o comando, na certeza de que viajaremos para onde devemos ir.

O que estará escrito aqui, uma história por vez, são os relatos de muitas viagens. Conhecemos lugares e ouvimos, assistimos e revivemos vários acontecimentos. As histórias estão aqui. Uma delas pode ser a sua história. O nosso convite é para que nelas mergulhem e recuperem o que é seu ou que, apenas, apreciem a paisagem.

Respirem profundamente, abram a sua tela metal, entreguem o comando e se conectem com os relatos. Após a leitura, se outro acontecimento lhes for contado, escrevam, porque se isso acontecer, significa que as histórias cumpriram a sua missão: a de abrir portas internas.

Sejam bem-vindos! Boa viagem!

Determinação

A neve caia, abundante. Com os dois filhos presos ao seu corpo, ela caminha com dificuldade. Eles nasceram em meio a um inverno rigoroso. Ela sabia que se não os mantivesse presos ao corpo, eles morreriam. Assim, amarrou um nas costas e outro na frente do seu corpo e fazia tudo o que precisava com eles presos assim. Só os soltava quando lhes dava de mamar ou trocava-lhes as fraldas.

O período mais difícil foi durante os seis primeiros meses de vida. Ela tinha que soltá-los e amarrá-los de três em três horas porque choravam, exigindo comida. Ela os alimentava, um em cada seio, e depois aproveitava para limpar as suas sujeiras.

Não seria fácil, mas ela não desistiria. Seus filhos viveriam para serem grandes homens que fariam, daquele mundo, um mundo melhor. Ela ensinaria a eles as duas coisas mais importantes que aprendera com a sua mãe: respeitar o semelhante e ter força e determinação para viver e alcançar o que desejasse. Naquele momento da sua vida, o seu maior desejo era que seus filhos vivessem. Para isso, ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Isso incluía carregá-los presos ao seu corpo, pelo tempo que fosse necessário.

E assim foi. Ela os carregou até completarem um ano de vida quando, então, sentiu que eles poderiam seguir por si só. Quando tomou essa decisão, foi como se tivesse dado à luz a eles novamente.

Eles cresceram e, sempre que podiam, contavam a sua história para quem quisesse ouvir. Que a sua mãe os carregou para que sobrevivessem. Essa história passou de geração em geração e se transformou numa lenda que todos contavam, quando queriam falar sobre o que o amor de uma mãe é capaz. Que sejam todas elas, muito abençoadas!

Perda

Chorando, a menina diz:

— Não posso entrar lá.

Carinhosamente, Rosa fala: “Eu vou entrar na sua frente. Não tenha medo. Segure na minha mão. Vamos entrar juntas. Não vou largar a sua mão em nenhum momento”.

A menina olha para ela e, encontrando em seu olhar sinceridade, lhe dá a mão. Entram juntas na casa pintada de amarelo. Rosa vai à frente sabendo que, se não for assim, a menina não terá coragem de entrar. Passam por dois cômodos vazios e seguem pelo corredor que as leva até uma sala onde há muitas pessoas. Um corpo está sendo velado.

A menina aperta a mão de Rosa. Seu corpo todo treme. Abraçadas, aproximam-se de onde está o corpo e, no grito da criança, Rosa compreende.

—Mãe!

Agarrando-se a Rosa, a criança chora. Suas pequenas mãos estão tão firmemente agarradas à roupa da mulher que os nós dos pequenos dedos estão esbranquiçados.

“O quanto é grande a dor de uma criança”, pensa Rosa. São tão pequenos para aguentar tamanha aflição…

Com esse pensamento, Rosa a abraça mais forte com a intenção de dar a ela a certeza de que não está só. Conversa com a criança, explicando que o amor nunca morre e que ela sempre vai sentir a sua mãe pertinho dela. Que ela deve sempre se lembrar de que a sua mãe a ama muito e que sempre vai amá-la.

Olhando nos olhos da mulher, a menina se acalma. Para sempre se lembrará daquela mulher que, com o seu amor, salvou-a da dor permanente.

O peregrino

O homem sentou-se por um momento. Já não aguentava longas caminhadas. Sua túnica de tecido rústico de um tom avermelhado e suas sandálias de couro estavam cobertas de pó. Em seu alforje, que trazia atravessado ao peito, havia poucos pertences pessoais: uma pequena faca, um cantil com água, ervas de cura, que ele sempre renovava assim que as colhia frescas na beira da estrada, e um pequeno pedaço de pano branco para lavar o rosto e as mãos. O que mais necessitasse, encontraria nos abrigos para peregrinos.

“Que boa gente aquela”, pensou ele, “dando de comer e de dormir aos que fazem a peregrinação em busca de respostas ou, no meu caso, em busca do perdão.” Maltratara a muitos. Ferira inocentes e usou muito mal o poder que tinha. Era preciso muita caminhada e penitência para que ele sentisse que havia alcançado o perdão.

Seu estômago avisava que a hora do almoço chegara. Uma marca na estrada orientava que ele ainda estava no meio do caminho que o levaria até o próximo abrigo. Abriu o seu alforje e viu que nada tinha para comer. “Bem”, pensou, “encontrarei algo no mato”.

Levantou-se e penetrou na mata densa, vencendo os obstáculos das folhas com os braços e cuidando para não pisar em uma cobra ou cair em algum buraco. Seus ouvidos treinados escutaram um som distante de água corrente. Continuou a andar em direção ao som que escutara. “Sempre há peixes onde há água”, pensou, sentindo a sua boca salivar imaginando o peixe fresco assando na fogueira.

De fato, havia um rio que corria manso, mas era muito raso e ali não havia peixes. Ele se decepcionou, mas resolveu aproveitar a água limpa. Lavou-se e bebeu o quanto quis, enchendo o seu cantil. Depois, encostou-se numa árvore que havia ali para descansar um pouco se deliciando com o som da água que corria e com o ar fresco propiciado pela mata cerrada que impedia a forte ação dos raios solares. Na calma do lugar e olhando a água que corria, permitiu que a sua mente se enchesse de memórias. Houve um momento na sua vida em que já não pode mais ferir o seu semelhante. “Foi aquela criança”, lembrou-se ele.

Quando o seu olhar encontrou o olhar da criança cujo pai estava sendo castigado por não pagar os impostos, foi como se uma seta transpassasse o seu coração. Ela não chorava e não havia medo nos seus olhos, só uma profunda tristeza. Ele jamais esqueceria aquele olhar. O que estava lhe dizendo? Que ela tinha pena dele? Que ele, na verdade era um fraco?

Ele não sabia responder a essas perguntas, mas sentiu-se profundamente envergonhado do que havia mandado fazer. Subitamente, ordenou:

—Parem! Soltem esse homem.

Os soldados estranharam, mas obedeceram. Uma ordem de um superior não devia ser desobedecida, sob pena de prisão imediata.

Depois desse dia, nas noites em que conseguia dormir, a primeira imagem que vinha aos seus sonhos era a daquela criança com aquele olhar cheio de mensagens que ele não sabia decifrar.

Deixou tudo para traz. Vendeu tudo, guardou as economias que tinha, pediu baixa da sua patente e saiu pelo mundo. Soube daquele caminho, onde as pessoas alcançavam graças e se redimiam das dores.

Ali estava ele, buscando a paz interior e o perdão dos pecados. Não sabia se encontraria o que procurava, mas uma coisa ele já havia compreendido: um homem só precisa de um pano sobre o corpo, um bom par de sapatos para os pés, um cantil com água e boas pessoas que lhe deem abrigo e um prato de comida.

Emocionou-se com esse pensamento. Lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Primeiro devagar e, depois, como um rio que há muito tempo estava represado, elas caíram soltas e abundantes. Como uma criança, ele chorou e soluçou sentindo em seu peito uma dor que se assemelhava a de estar sozinho num buraco fundo e escuro, sem a esperança de luz.

Deitado na relva com o rosto entre as mãos, chorou todas as lágrimas guardadas por anos de isolamento. Fora uma criança maltratada pela mãe que cresceu sem conhecer o pai. Muito jovem, entrou para o exército. Toda a sua vida fora dedicada a lutar e a fazer cumprir a lei a qualquer custo. Galgara alto posto, mas não era feliz. Não tinha esposa e nem filhos. Não tinha para quem voltar. Esses pensamentos o fizeram chorar mais ainda.

Aos poucos foi se acalmando. Levantou-se, lavou o rosto na água fria do rio e deitou-se novamente, cansado e sem esperança. Um vento começou a soprar, balançando a copa das árvores e acariciando o seu rosto. “Estranho”, pensou ele, erguendo um pouco o corpo, “uma brisa repentina”.

Como respondendo ao seu pensamento, o vento soprou uma vez mais. Ele sorriu, tendo uma estranha sensação de que não estava só. Mais uma vez, o vento soprou como a confirmar o seu pensamento.

Agora ele já estava em pé, tomado por uma estranha alegria. Teve vontade de brincar como uma criança. Lembrou-se de uma canção de sua infância e começou a cantá-la. O vento soprava como se acompanhasse o seu movimento de girar enquanto cantava.

Era encantador vê-lo cantando e girando com o vento soprando a sua volta, fazendo um redemoinho com as folhas que lentamente subiam pelo seu corpo.

Ficaram assim por um bom tempo, ele e o vento, até que ele caiu no chão exausto, mas leve. Era uma sensação que ele nunca havia sentido. Um milagre havia acontecido. Disso ele tinha certeza. Havia dançado e cantado com o vento. Seguiria a sua jornada confiando que seus passos eram protegidos e, quando nada mais houvesse, ele chamaria o vento e tudo ficaria bem.

Vanirah

Felicidade. Alegria. Sensação plena de que a vida é um presente de Deus. Vanirah gira enquanto bate no pandeiro. Seu riso largo lembra um imenso céu carregado de nuvens brancas. Ela gira ao som da música e tem a sensação de que pode voar. Vez por outra, encontra o olhar de uma de suas amigas que, junto com ela, comemoram a passagem para a vida adulta.

Vanirah tem quinze anos, mas a sua sabedoria acumula muitas vidas. Seus pais a adoram. Sempre gentil e pronta a oferecer uma palavra amiga e um consolo a quem necessita; por onde ela anda, espalha a sua alegria.

— Que viva para sempre! – pede seu pai, num pensamento fervoroso, ao vê-la dançar com as outras ciganas de sua idade.

— Que encontre um belo amor que a faça feliz! – deseja a mãe, reparando que seu corpo já é de uma mulher.

A tribo toda está em festa. Mais meninas se tornam mulheres que, cheias da força feminina, farão do mundo um lugar melhor para se viver. Os rapazes olham-nas embevecidos. Não sabem por qual delas se apaixonar. Todas são lindas e alegres com uma energia que encanta a todos.

A noite cai. A fogueira é acesa e os pedidos de todos são queimados no fogo. Fazem assim para que eles rapidamente aconteçam. O fogo transforma e ilumina. Os homens se preparam para a guarda da noite e as mulheres cozinham a mistura de leite com aveia, favos de mel e especiarias, iguaria servida nessas ocasiões. Todos tomam a bebida doce que aquece e enleva os corações. Os casais dão boa noite, as crianças são recolhidas e os pais das meninas-mulheres cumprimentam-se desejando, mais uma vez, que o caminho de suas filhas seja claro e cheio de amor.

Vanirah pede a mãe que a deixe sentar-se no alto da grande pedra para apreciar a lua que, linda, brilha redonda no céu, antes de dormir. Sua mãe concorda. “Afinal, ela já é uma mulher”, pensa ela. Mas como mãe zelosa que é, enchê-a de recomendações para que se agasalhe e não se demore.

Vanirah sobe na pedra e olha diretamente para a lua. Seu coração está tão pleno de alegria que não contém a emoção. Num impulso, ela faz uma prece:

“Senhora de todos os homens, concedei-me a graça de reconhecer o melhor do meu semelhante. Concedei-me a virtude de proferir somente palavras de alento e de carinho. Que minhas mãos sirvam muito mais para o afago que para a luta. Que meus gestos sejam mansos e firmes. Que no meu caminho a tua força e luz brilhem, a fim de que eu saiba sempre para onde devo ir. Que os meus inimigos não tenham vitória em fazer-me o mal, mas sejam capazes de enxergar a tua luz que brilha em mim.
Que assim seja!”

Como em resposta à sua prece, uma estrela corre no céu e outra muda a sua luz, variando as cores. Em seu coração, Vanirah sabe que sua prece foi ouvida.

Isaac

O bom homem sempre se sentava na beira do poço. Gostava de ficar ali. Todos em algum momento do dia teriam que pegar água; então, ele poderia conversar um pouquinho com cada um.

Desde que falecera sua esposa, a boa Rute, Isaac não tinha mais com quem conversar. Seus filhos haviam saído pelo mundo. A cada seis meses, ele recebia uma notícia de um, outra notícia de outro. E assim era.

Ele não gostava de ficar sozinho e não queria importunar as pessoas. Por isso, ia à beira do poço e lá ficava. Quando era preciso, ele auxiliava uma senhora ou uma criança a pegar a água.

Com o tempo, ele passou a ser conhecido como Isaac do Poço. Quando alguém queria um conselho ou precisava de uma palavra amiga, lá ia ter com ele.

Para seu maior conforto, mandou construir um banco de dois lugares e o fixou próximo ao poço. Tinha sempre com quem conversar. Às vezes as pessoas iam até lá e voltavam para as suas casas porque ele já estava conversando com alguém e não havia hora para terminar a conversa.

E assim, as horas e os dias iam passando e Isaac estava feliz. Era útil e o seu tempo passava rápido.

A noite voltava para casa, fazia uma refeição leve com pão, queijo, azeitonas e uma taça de vinho. Já não tinha tanta fome e comer sozinho lhe tirava mais ainda o apetite.

Certa noite, ele já estava para se recolher quando ouviu batidas na porta. “Quem será a essa hora?” – perguntou-se. Atravessou o corredor em direção à porta e perguntou:

— Quem deseja?

— Perdoe-me, senhor, disse uma voz de mulher. Sou Ana, avó de Josias. Ele não está passando bem e insiste em vê-lo.

Abrindo a porta imediatamente, Isaac convidou-a a entrar.

— Deseja beber algo? Parece abatida. Sente-se um pouco e descanse.

A mulher agradeceu. Estava mesmo cansada. Subiu muito rápido até a casa dele e já não era tão jovem.

— Muito obrigada! Agradeço-lhe demais pela hospitalidade. Sinto muitíssimo importuná-lo, mas o meu neto, Josias, está delirando em febre e chama pelo seu nome. Desde que perdeu os pais, sou eu a responsável por ele. Ele é um menino muito bom, mas hoje se excedeu nas tarefas debaixo do sol. Já não posso trabalhar como antes e ele precisa fazer quase tudo. É apenas um menino de nove anos, mas é muito esperto o meu Josias– podia se ver um sorriso em seu rosto ao dizer essas palavras.

— Bem, fico feliz que seu neto lhe seja de tão boa ajuda. Tenho certeza de que também é uma boa avó para ele. Mas o que posso fazer pela senhora?

— Desculpe-me uma vez mais… Quase não falo com ninguém e quando encontro tão bons ouvidos, o que é raro, não paro de falar. Veja, lá vou eu novamente. Mas agora deixe-me dizer. O meu neto está febril e chama pelo seu nome. Ele fala sem parar no senhor. Então, pedi a uma vizinha que o olhasse para mim e vim procurá-lo, apesar da hora que já lá se vai avançada.

— Bem, disse Isaac compadecido da mulher, vou acompanhá-la de volta à sua casa e lá veremos do que se trata.

Desceram juntos, caminhando lado a lado, em direção à casa da senhora Ana. No caminho, ele lhe fez perguntas sobre a saúde de Josias, se um médico já havia sido chamado e outras coisas mais. Ela respondeu a todas as perguntas com riqueza de detalhes e, quando deram por si, já haviam chegado à casa.

— Passou rápido, não é mesmo, disse Ana

— Sim, concordou Isaac, quando temos boa companhia o tempo corre mais depressa.

Ana corou levemente com o elogio. Desviando o olhar e bateu na porta, anunciando que chegara. A vizinha abriu e ela entrou, seguida de Isaac.

— E então, minha amiga, perguntou Ana, como está meu neto. Trouxe comigo o senhor Isaac, que Deus o abençoe pela generosidade.

— Como vai senhor, cumprimentou a vizinha. Muito obrigada por ter vindo. Ana estava muito preocupada. Agora o menino está dormindo e parece que a febre cedeu.

Ana abriu um largo sorriso e disse:

— Deus seja louvado, que alegria! – e abraçou a mulher, que retribuiu o abraço.

Do canto da sala, Isaac olhou mais atentamente para Ana e pensou:

— Eis aí uma boa mulher. Apesar do perigo, venceu o seu medo para buscar ajuda para o seu neto. Esse pensamento o levou para a sua Rute, trazendo-lhe um sentimento de saudade que logo foi espantado pelas palavras de Ana

— Senhor Isaac, veja que felicidade. O meu Josias já está melhor. É um milagre que atribuo a sua generosidade e a sua presença. Muito obrigada, mais uma vez. Por favor, sente-se. Vou fazer um chá e servir-lhe um pedaço de pão feito por mim mesma ainda esta tarde.

— Preciso ir, cara Ana.  Meu marido já deve estar preocupado – disse a vizinha, e virando-se para Isaac: Até logo, senhor.

Isaac levantou-se e respondeu:

—Até logo, senhora.

Quando se viram a sós, um clima de constrangimento pairou na sala, sendo logo quebrado por Isaac.

— Bem, senhora Ana, devo me retirar. O seu neto já está bem e a senhora está a salvo em sua casa.

— Não, não. Por favor, sente-se. O chá logo ficará pronto e o senhor precisa experimentar o pão que faço. É uma receita muito antiga, passada na minha família de geração a geração.

A simpatia da mulher, juntamente com o quanto ele gostava de uma boa conversa, fez com que ele se sentasse novamente. Comeram, beberam o chá e conversaram sem parar. Um assunto levava a outro; assim, o bule de chá foi sendo esvaziado e alguns poucos raios de sol já surgiam no céu escuro. Ambos se espantaram com o passar das horas sem que nenhum dos dois notasse.

— Bem, senhora Ana. Creio que pelo adiantado da hora, vou direto para o meu banco ao lado do poço.

Os dois riram da brincadeira e Isaac saiu, dando-lhe até logo com certa dor no coração.

Naquele dia, ele voltou ao banco que ficava ao lado do poço mas, no dia seguinte, não foi e no outro também não.

Conta-se que agora ele passeia com a senhora Ana todas as tardes. Juntos, vão ao mercado e à sinagoga. Outro dia, correu a notícia de que ele a pedira em casamento e que ela aceitara. Os que vão ao poço buscar água, sentam-se para descansar no banco do Isaac do Poço, lembrando de suas histórias e dando uma pausa para o devaneio e a contemplação. Pois não é para isso que servem os bancos colocados ao ar livre?

Amidalah

Amidalah caminha apressado, atravessando o jardim de sua casa. Apesar da tarde quente, o caminho que o leva até a entrada da casa é agradável graças à maravilhosa engenhosidade do seu povo que aprendeu a cultivar plantas e folhagens, garantindo o frescor que vem delas. O seu povo era conhecido por propiciar boa estada aos hóspedes, e ela começava pela entrada das casas. Amidalah sorri, orgulhoso daquele pensamento enquanto caminha.

Ele era um comerciante bem sucedido. Não tinha muita riqueza, mas seu negócio de tecidos prosperava. As pessoas de todas as raças o conheciam e ele sabia como tratar a todos para se fazer agradável, conseguindo sempre boas vendas. Aos árabes possibilitava a barganha e aos judeus, descontos. Aos seguidores do Cristo, oferecia uma bebida para refrescá-los e ouvia-lhes as histórias antes de conversar sobre negócios. Essa estratégia sempre funcionava. Amidalah pertencia a um povo que adorava contar as suas histórias.

Para ele, o melhor de tudo era que todos viviam em harmonia. Todos tinham o seu Deus que era o mesmo Deus. Davam-lhe nomes diferentes, mas todos sabiam que se tratava do mesmo Deus. Para ele, Alá, O Único, O Onipresente, O Verdadeiro Deus a quem ele prestava homenagens em vários momentos do seu dia, colocando sua testa no chão.

Estava ansioso. Mandaram-lhe chamar. Sua mulher, Mirnarah, estava dando à luz ao seu terceiro filho. Outro homem, pensou ele. Que Alá seja louvado!

Com esse pensamento, ajoelhou-se no chão e com a testa tocou o solo em reverência ao pensamento que teve. A serva já vinha em sua direção.
— Outro menino, Senhor, outro menino!

Amidalah ajoelhou-se novamente no chão e, com voz embargada pelas lágrimas, agradeceu recitando poemas em louvor a Alá. Ficou ali alguns minutos. Quando se levantou, seu rosto mostrava a face da felicidade. Como um filho homem é bem-vindo. Mais um filho para honrar seu nome, preservá-lo e seguir com os seus negócios. Ele já podia morrer feliz. Três filhos. É muita sorte para um homem. As pessoas de seu povo encheriam a sua loja. Comprar de alguém tão afortunado assim trazia boa sorte. Sua fama correria a cidadela e as outras pessoas viriam nem que fosse por curiosidade. Esfregou as mãos de tanto entusiasmo e entrou na casa aos gritos:
— Mirnarah, Mirnarah, minha amada e adorada esposa. Dar-te-ei mais joias do que o seu braço vai conseguir carregar. Para cada dia do ano terás uma joia que eu mesmo mandarei talhar. Juro-te por Alá, minha amada.

Enquanto andava em direção ao quarto de sua mulher, ele falava:
— Digo em voz bem alta para que todos sejam testemunhas. Que Alá me fulmine se eu não cumprir com a palavra empenhada em nome Dele.

Quando estava próximo à porta, ouviu um choro fraco de criança. Seu filho!
Bateu na porta. Amidalah era um homem respeitoso. Ele não invadiria os aposentos de uma mulher que houvesse acabado de ter um filho, nem que sua mão direita fosse cortada. Aguardou ansioso para que a abrissem. Finalmente, a serva abre a porta.
— Entre, meu senhor. A senhora já pode recebê-lo.

Amidalah desejou que sua aparência fosse a melhor possível. Nestes últimos meses, vira sua esposa apenas de longe. Não era bom que o marido visse sua esposa nos últimos meses de gravidez, para não lhe criar nenhum constrangimento. Era prudente manter-se afastado. Uma mulher que espera um bebê deve ficar em paz e maridos podem fazer com que as esposas grávidas percam a paz, prejudicando o nascimento dos filhos.

Ao entrar no quarto, Amidalah percebeu o quanto sua esposa havia feito falta para ele nesses últimos tempos. O quanto o seu carinho e palavras de conforto eram abençoados e o quanto ele a amava.

Negociara casar-se com ela porque sentiu em seu peito, desde a primeira vez que a vira, um sentimento nunca experimentado. Era esse mesmo sentimento que aflorava agora que ele a via diante dele, deitada na cama. Como era bela. Que belo cabelo, longo e negro, e que pele clara e olhos brilhantes ela tinha. Sentiu o desejo invadir o seu corpo e imediatamente afastou esses pensamentos. Aquela não era hora para isso.

Mirnarah estendeu seus braços para ele que, sentando-se à beira da cama, abraçou-a desejando que esse gesto mostrasse a ela o quanto a amava. Em seguida, retirou um pequeno embrulho da faixa que trazia à cintura, entregando-o a ela.
— Que bela joia, querido esposo. Muito obrigada – disse Mirnarah com voz emocionada.
Em suas mãos, um lindo pássaro em ouro com olhos de esmeralda brilhava.
— Ela será a minha joia da sorte porque me foi dada no dia mais feliz da minha vida. Hoje completo três filhos homens que farão a alegria e a prosperidade da nossa casa.
— Dar-te-ei uma joia durante todos os dias deste ano, até que chegue esse mesmo dia no próximo ano, como prova da minha alegria e do meu amor – diz Amidalah num tom firme de quem empenha a palavra.

Mirnarah enlaça com seus braços o pescoço de seu marido, pensando no que teria ela feito em outra vida para ser tão feliz nesta.

Augustine

Por todo o lado, o cheiro da morte está no ar. “Isso só pode ser castigo” – pensa a freira, enquanto se dirige ao hospital. Ouvira falar que pessoas doentes estavam sendo instaladas nas igrejas. Não havia mais lugar nos hospitais, nem nas casas de saúde.

Irmã Augustine se apiedara daquela gente que, mesmo sofrendo, cantava e rezava. No caminho para o hospital, ela podia ouvir suas orações.

Não havia muito o que pudesse ser feito. Aqueles que ficavam doentes tinham pouca chance de sobreviver. A peste não poupava ninguém. A ela cabia levar alento, fazer compressas para baixar a febre e alimentar aqueles que ainda podiam comer.

O hospital estava repleto de doentes. Os corredores cheios de camas. Pessoas gemendo e gritando, pedindo ajuda. Eram tão poucos para atender a tantos…

Augustine fazia o que podia, mas naquele dia não estava bem. Sentiu uma leve tontura ao caminhar em direção ao hospital, mas atribuiu isso ao dia quente e ao odor forte das ruas por onde trafegavam as carroças cheias de corpos que seriam queimados e enterrados.

Sentindo-se fraca após cuidar de alguns doentes, ela vai até a porta em busca de ar fresco. A última imagem que vê são as nuvens brancas no céu azul.

Em seu delírio, ela vê uma menina de cabelos brancos e escuta um nome: Zúria. Ela lhe estende a mão, encontrando conforto e paz.

Huntah

Huntah vivia nas terras geladas e juntara-se à tribo porque, para ela, não havia mais esperança na aldeia em que vivia. Enxotada pelo povo por fazer intrigas e colocar em risco a segurança dos moradores, ela pedira asilo ao líder dos ciganos, Tirê, que a aceitou, porque se apiedara dela e confiara que entre eles, ela aprenderia algo que a levaria para a luz.

Não era bonita. Seus traços eram grosseiros e seu corpo opulento. Para ela, nunca havia tempo para as tarefas diárias. Sempre tinha uma desculpa e todos a toleravam porque o seu líder, Tirê, havia pedido que tivessem paciência com ela e eles o obedeciam porque o amavam.

O maior sentimento que Huntah nutria era a inveja. Invejava a beleza das mulheres da tribo e o colorido das suas vestes. A cada dia ela se fechava mais nos seus sentimentos escuros, criando à sua volta uma nuvem de energia que afastava as pessoas.

Certo dia, Vanirah foi buscar água no rio quando sentiu a presença de alguém. Olhou a sua volta e seu olhar encontrou um pouco distante dali a mulher que Tirê havia aceitado na tribo.

Vanirah nunca havia conversado com ela, mas ao perceber que ela também a havia visto, deu-lhe um aceno de mão amigável. A mulher não retribuiu ao aceno e baixou novamente a cabeça. Vanirah estranhou. Não estava acostumada a que não lhe respondessem a um aceno de mão e pensou que talvez a mulher não estivesse se sentindo bem.

Resolveu aproximar-se. Quando estava próxima, sentiu uma estranha energia que reconheceu ser muito diferente da sua e pensou: “Essa mulher está doente”.
— Senhora, disse, necessita de ajuda?

Huntah levantou a cabeça e respondeu:
— Não lhe respondi ao aceno, porque não desejo falar com ninguém.

Vanirah chocou-se com a resposta, mas teve a confirmação da enfermidade da mulher. Então disse:
— Perdoe-me, não quis incomodá-la, mas percebo que a Senhora não está bem.

Huntah olhou novamente a jovem cigana. Tão bela e doce. Suave como a brisa que soprava. Sua intenção em ajudá-la parecia verdadeira. “Pois bem, vamos ver o que essa pequena criança pode fazer por mim”, pensou Huntah, desdenhando.
— Será que você pode mesmo me ajudar? Você tem um corpo bonito para me dar? Ou um rosto claro e belo? Ou será que você teria aí um pouco de graça para a dança. Não, imagino que não. Então, até logo – finalizou com um tom de agressividade.

Vanirah respondeu:
— Engana-se! Tenho tudo isso para lhe dar, desde que a Senhora faça o que eu lhe disser.
— Mas ora, vejam só. A menina é petulante. E o que devo então fazer, na sua opinião?

Magia da Beleza

Na noite de Lua Cheia, em meio à natureza, dispa-se, jogue a roupa bem distante de você e banhe-se com uma água na qual deve haver pétalas de flores vermelhas e essência de almíscar.

Após banhar-se, levante os braços para o alto e diga: Que a força da natureza esteja em mim. Que eu seja contaminada pela beleza das flores e dos pássaros. Que em minha vida só haja luz e bons pensamentos e que o melhor para mim aconteça”.

Em seguida, queime a roupa e vista-se com uma túnica branca. Volte para a sua carroça, tome um chá de flores brancas e durma.

Huntah não acreditou no que ouviu. A menina estava lhe dando uma receita de como ser bela e bastava que ela seguisse essa receita?
— Isso eu quero ver, respondeu Huntah. Quando faremos?
— Vou prepará-la para esse dia e, na próxima lua cheia, faremos – respondeu Vanirah.

Vanirah passou a visitar Huntah todos os dias. Sua presença e carinho, aos poucos, foram penetrando no campo de força dela, modificando a sua energia.

Passado algum tempo, Vanirah concluiu que Huntah já estava pronta.
Huntah, sem que percebesse, já estava mais bonita. Sua energia já não era tão ácida e seu corpo havia mudado com as constantes caminhadas que Vanirah impunha a ela, como parte da preparação para o grande dia. Quando a Lua cheia chegou, foram para a floresta.

Vanirah juntou às palavras de Huntah todo o seu desejo de que ela fosse feliz e se libertasse dos seus recalques e pensamentos ruins.

No dia seguinte, Huntah acordou e encontrou na beira de sua cama um lindo xale colorido, presente de Vanirah. Correu para olhar-se no espelho. A imagem que viu chocou-a. Quem era aquela mulher? Seu rosto era o mesmo, mas a sua pele estava mais clara e seu nariz já não parecia tão grande. Seus olhos estavam brilhantes e seu cabelo sedoso.

Lágrimas brotaram dos seus olhos e ela sentiu em seu coração uma emoção até então desconhecida. Mais tarde, conversando com Vanirah, ela soube que era gratidão.

O Ferreiro

O som do martelo batendo na bigorna causava nele uma sensação única. Era como se o martelo, a bigorna e ele fossem um só. Há anos era ferreiro. Havia herdado esse ofício de seu pai, que herdara de seu avô, que herdara do pai dele.

Vonsés não sabia o quanto essa linhagem era distante. O que ele sabia é que, desde sempre, os homens da sua família ferravam animais e forjavam espadas.

Naquele dia, porém, ele havia ficado curioso e de certa forma impressionado com o cavaleiro que o visitara. Ele chegou montado em seu cavalo, um animal fabuloso, forte e garboso como era o próprio cavaleiro. Ao descer do cavalo, Vonsés pode ver que ele era alto, moreno e forte.

Com um sotaque carregado, que Vonsés não reconheceu a procedência, pediu-lhe que forjasse uma espada leve e de bom corte. Tendo dito isso, pagou-lhe adiantado pelo trabalho, pedindo urgência na confecção.

Vonsés já ia dizer que tinha muito trabalho e que a espada que o cavaleiro lhe pedia havia de demorar a ficar pronta, mas vendo a urgência na voz do homem e diante do saco de moedas, calou-se. Agora estava lá, altas horas da madrugada, batendo o ferro.

Os vizinhos já estavam reclamando. Mas o que fazer? Havia prometido que em três dias faria a espada e ele não era homem de descumprir um trato.
— Que aguentassem, pensou ele, levantando os ombros.

Com parte do dinheiro que recebera pela espada, faria um bom almoço e convidaria seus vizinhos para saboreá-lo. Sua amada Virna era prendada nas artes da cozinha e não faria feio. Todos se alegrariam e esqueceriam as noites mal dormidas por conta do bate-bate do martelo.

O fio da espada já estava quase no ponto. Era preciso bater com cuidado, caso contrário, todo o serviço estaria perdido. Seu pai o havia ensinado que é preciso sentir o ferro. Que ele se molda na mão quando tratado com gentileza e suavidade. A cada batida, devemos fazer uma prece por aqueles que a espada ferirá. Quem forja a espada é responsável por ela, e para que o ferreiro que a fez não carregue os espíritos dos que morrerão através dela, ele deve buscar o perdão da espada. Isso era o que levava mais tempo, mas era preciso fazer. O seu pai lhe contara longas histórias de ferreiros que morreram misteriosamente, e cujas almas ficaram a vagar sem saber para onde ir.

Bem, com isso não se brinca e ele é que não iria duvidar de uma tradição tão antiga. Honraria seu pai e todos os seus antepassados, fazendo uma espada que, ao final, não teria a sua energia, mas sim a energia de quem a empunhasse. Esse que acertasse, por ele mesmo, as contas com Deus.

A última martelada soou. Vonsés aproximou o ouvido do metal e escutou por um tempo. O silêncio foi a prova final. A espada estava pronta.

Cansado e dolorido do esforço físico, lavou-se e foi deitar-se. No dia seguinte o cavaleiro estaria lá bem cedo para buscar a sua espada que, graças a Deus, estava pronta.

O sol estava nascendo quando o cavaleiro se aproximou da casa do ferreiro. Ele já havia ouvido falar naquele homem. Sabia que ele tratava a espada da forma correta. Poucos faziam o ritual de purificar o metal. Essa forma antiga e cheia de magia estava se perdendo. Mas ainda havia esse ferreiro, que haveria de servir a cavaleiros como ele por muito tempo. Com esse pensamento, o cavaleiro curvou a cabeça dizendo em voz baixa: “Que assim seja!”

O ferreiro saiu da casa cumprimentando o cavaleiro. Em suas mãos via-se um embrulho feito com couro curtido de um animal que o cavaleiro não reconheceu. Pegando o pacote, desenrolou-o, segurando a espada com as duas mãos.

Assim que a teve em suas mãos, afastou-se do ferreiro e se ajoelhou, virado para o sol que nascia. Fincou a espada na terra, abaixou a sua cabeça e assim ficou.

O ferreiro ficou parado, mudo e sem mexer nenhum músculo do seu corpo, com receio de interromper o cavaleiro que parecia estar rezando. De fato, o cavaleiro devia estar fazendo o seu ritual antes de empunhar a espada. Isso ele sabia bem o que era e o que significava.

Quando o sol já havia clareado o dia, o cavaleiro levantou-se, agradeceu o ferreiro, montou em seu cavalo e partiu. Vonsés ficou olhando o homem até que a sua vista não pode mais vê-lo. Um pensamento lhe ocorreu:
— Deus permita que esse homem não precise matar, mas se tiver de fazê-lo, que seja por uma causa justa e para o benefício de muitos.

De dentro da casa, Virna o chamava para o café da manhã. Mais um dia começava.

Thiago

Com um graveto, o homem desenha figuras na areia. A suave brisa do mar sopra a areia e apaga os desenhos que ele torna a desenhar, enquanto fala.

Thiago fica curioso e se aproxima. Seu irmão João e os outros companheiros de pesca estão em torno dele. Quando está mais próximo do grupo, o homem se vira para ele e sorri.

Thiago é tomado de um sentimento estranho. Esse homem sorriu para ele. Os homens quando se conhecem não sorriem uns para os outros. Ao contrário, olham-se sempre sérios, demonstrando força. Mas esse homem lhe deu um sorriso. Thiago fica por um momento paralisado sem saber o que fazer. Após um segundo de perplexidade, ele balança a sua cabeça como resposta, permanecendo sério.

Desviando o seu olhar de Thiago, o homem continua a história que estava contando. Conforme vai falando, desenha figuras na areia.

Thiago escuta a história quando ela já está pelo meio, mas a narrativa o prende.
O homem fala de um comerciante muito rico que juntava as riquezas que obtinha, sempre pensando que um dia as gastaria. Então, ele morreu sem nunca ter usado nada do que ganhou. Seus parentes, ao contrário, gastaram tudo em pouco tempo, sem valorizar o que foi ganho à custa de muito trabalho. O homem finalizou a história, dizendo:

— De que vale acumular riquezas se não podemos tornar a nossa vida melhor de ser vivida, usufruindo delas? De que vale trabalharmos tanto se logo morreremos sem ter experimentado o que é banhar-se neste mar quente e reconfortante?

Dizendo isso, largou o graveto que usava para desenhar e disse:
— Venham todos, vamos nadar. E se atirou no mar, rindo e espalhando água para todos os lados.

Fazia um calor intenso. Thiago olhou para seus companheiros que, olhando uns para os outros, disseram:
— Se formos todos, ninguém há de dizer nada.

Assim, mergulharam todos na água do mar que, de verdade, estava maravilhosa.
As pessoas que estavam por ali lançaram olhares: uns, de perplexidade; outros, de reprovação e outros ainda, de divertimento. Mas a verdade é que, naquele dia, Thiago sentiu crescer em seu coração um sentimento especial por aquele homem alegre e bem humorado, o qual seguiu até o final dos seus dias.

Deodato

O canavial era muito grande. Até onde a vista alcançava, via-se a cana despontar por entre a folhagem que feria como uma navalha a pele dos negros que, há horas, cortavam a planta, amarrando-a em grandes feixes para depois transportá-la para a moenda e fazer a rapadura. Ali também havia negros impulsionando a moenda, mexendo grandes tachos e fervendo o líquido extraído da cana.

Mexer o tacho era o pior trabalho. Depois que a água evaporava, formava-se uma massa densa que continuava fervendo e formando bolhas que espirravam, queimando a pele.

A negra mexia o tacho procurando esquivar-se das bolhas que estouravam. Ela adquirira uma prática interessante para não se ferir no manuseio das colheres de pau usadas para mexer o tacho. Revestia o seu braço com grandes folhas de bananeira que eram amarradas por cipós. Isso a livrava das queimaduras nos braços, mas não protegia o resto do corpo. O tacho era muito grande e o fogo ateado a sua volta podia fazer arder a roupa de um escravo desavisado. Muitos tiveram queimaduras horríveis mexendo o tacho da rapadura, que os levaram à morte.

Subitamente, ela ouviu o seu nome sendo chamado por um grito distante. Era um dos negros do canavial. Mas o que teria acontecido de tão grave para que um negro deixasse o trabalho àquela hora do dia para ir chamar por ela? Sentindo a tensão endurecer o seu corpo delgado e forte e sem titubear, ela largou a enorme colher de pau que usava para mexer o tacho no chão de terra batida e correu para a porta.

— Venha Cínara, corra. Deodato está sendo espancado pelo feitor, que pode matá-lo de tanta pancada! – disse o negro, afogueado com a corrida.

Ela correu como nunca havia corrido antes. Se perdesse o seu amor, ela morreria juntamente com ele. Quando se aproximou do tronco, viu uma massa disforme, sangrando. O feitor, possuído por um espírito ruim, batia sem ver que o homem que ele espancava estava desacordado e não sentia mais nada.

Com a fúria de uma mulher apaixonada, ela se colocou à frente do feitor quando ele estava prestes a dar mais uma chicotada, gritando:

— Pare! Ele está morto!

O feitor olhou nos olhos da negra à sua frente e voltou à realidade. O que ela estava dizendo?

— Saia da minha frente negra! – disse ele empurrando-a para o lado.

E foi então que ele viu o corpo ensanguentado à sua frente. Isso não era bom. Se esse negro tivesse morrido, ele teria que prestar contas ao Coronel. Já matara outros três da mesma maneira e tinha pagado essa perda com o seu salário. Desta vez, o castigo seria pior.

— Tire-o do tronco. Vamos! – ordenou o feitor aos seus capatazes.

— E você, negra, cuide dele. Se ele morrer, vou acertar as contas contigo! – essas últimas palavras foram ditas com o chicote apontado para Cinara.

Quando o corpo foi retirado do tronco, Cinara ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Colocou-o deitado em seu colo, enquanto os capatazes traziam água para lavar os ferimentos a mando do feitor. Trouxeram também uma pasta que era usada para ajudar na cicatrização dos ferimentos que provocava uma dor horrível, mas impedia que eles infeccionassem e levassem o castigado a uma morte horrível, após uma febre intensa.

Ela chamou por ele, beijou-lhe o rosto e lavou as suas feridas devagar, ali mesmo no chão do terreiro. Os outros negros cantavam em volta dos dois, pedindo aos deuses que tivessem piedade deles. Deodato não respirava mais. Lentamente, o seu corpo foi perdendo o calor que denuncia vida. Todos já sabiam que ele morrera, mas ela ainda cuidava dos ferimentos como se, assim, ela pudesse fazer com que ele voltasse à vida.

Antes de começar a passar a pasta nas feridas, conversou como se ele ainda vivesse, dizendo que o remédio ia doer muito, mas que seria bom para ele. As lágrimas corriam pelo rosto de Cinara, e ela cuidou de cada ferimento. Quando terminou, pediu uma camisa limpa. Ajudada pelas outras mulheres, vestiu o corpo dele pela última vez.

Quando as chamas subiram, queimando o corpo que ela tantas vezes amou, podia-se da casa grande ouvir os seus gritos e o seu choro desesperado, compadecendo as mulheres que lá viviam.

A dor que ela sentia era forte demais. Foi quando Cinara percebeu, com muita força, a presença dele ao seu lado e confortou-se. Ele viveria para sempre no coração dela.

Do outro lado, ele sorriu. Ela sentira a sua presença. Tudo ficaria bem, agora.

Galileu

O lugar era escuro e fétido. Ele podia escutar os pingos de água que caiam em intervalos regulares, provocando um som ritmado ao caírem na pedra que cobria o chão sujo e escorregadio.

Muito acima da sua cabeça, via-se uma pequena janela por onde entrava um pouco de claridade que iluminava muito mal o calabouço onde ele se encontrava. Estava preso há muitos dias. Os magistrados não chegavam a uma conclusão sobre a sua sentença.

Ele era um homem de posses e muito conhecido pelo seu conhecimento das ciências e das artes. Um teórico, diriam uns. Um cientista, diriam outros. Ele mesmo não sabia quem era, sabia apenas que em sua mente havia muitas perguntas e poucas repostas.
Sempre fora curioso e essa característica havia feito com que, desde menino, construísse engenhocas, desafiando seus amigos a experimentarem-nas. Muitas pernas e dedos foram quebrados nestas tentativas heroicas, mas ele não desistia. Fora assim que construíra para sua mãe um sistema de captação da água do rio que desaguava em uma cisterna ao lado da casa.

Isso havia facilitado demais o trabalho dela. Com o tempo, foi contratado para construir esse mesmo sistema em outras casas – o que lhe trouxe fama e dinheiro. Lendas corriam: ele era um bruxo poderoso e tinha pacto com o demônio.

Depois vieram outros pequenos inventos dos quais mal se lembrava. O fato era que dessa vez desafiara a Igreja Católica com as suas afirmações. Isso eles não tolerariam.
Pois bem, pensou ele, se retrataria sem problemas. Não era uma questão de certo e de errado. Era o que era, e mais tarde ou mais cedo, eles teriam que se render aos fatos: a Terra era redonda.

Galileu ajeitou-se como pode ao ouvir os passos que vinham em direção à sua cela. A porta abriu-se, dando passagem ao magistrado.

— Chegou-se a um veredicto! – comunicou o magistrado. Concluíram que, se o senhor se retratar, será solto e perdoado. O que me diz? Perguntou, com certa impaciência na voz. Esse julgamento estava tirando o seu sono e não era para tanto. O que tinha demais saber se a Terra era redonda, quadrada, ou seja lá o que fosse? Esse homem era um lunático e pronto!

Galileu sorriu e respondeu:

— Concordo plenamente, senhor. Foi através de um delírio meu que sonhei que a Terra é redonda. Tudo não passou de mera fantasia, essa que é a verdade. Vamos lá então. Direi isso publicamente.

Diante de todo o júri e das pessoas que assistiam ao julgamento, ele disse:

— Por minha honra e pela honra de minha família, juro que a Terra não é redonda. Quando afirmei isso, estava delirando, tomado por uma noite mal dormida em que sonhamos absurdos que nos parecem verdade.

O júri sorriu aliviado. O clérigo presente relaxou na cadeira e o magistrado, batendo com o martelo na mesa, deu por encerrado o julgamento.

Ao sair para o dia claro, Galileu caminhou de volta à sua casa, apoiado pelo seu servo. Enquanto caminhava, bateu levemente no ombro de seu criado e disse:

— Sabe de uma coisa, Venâncio. Apesar de ter jurado por mim e pela minha família, arderei no fogo do inferno por perjúrio porque, de fato, a Terra é redonda.

O criado tremeu diante das palavras de seu Mestre e benzendo-se para afastar o mal, disse:

— Senhor, não fale mais isso. Se vos ouvem, voltarás para o calabouço e desta vez não haverá jura que o solte.

— Não tema, meu amigo, todos agora me tomam por um arauto de invencionices tolas. Sou agora desacreditado. Hora digo uma coisa e depois desminto o que acabei de afirmar. Quem vai acreditar em mim daqui para frente? Estou condenado à descrença, Venâncio. Para sempre.

Galileu mergulhou no seu trabalho, registrando todas as suas conclusões. Muito pouco saiu de casa depois do julgamento que o transformou em um homem desacreditado. Mais tarde, seus escritos serviram de base para o aprofundamento de vários estudos astronômicos.

Lucia bate a roupa na pedra. Os lençóis de linho precisam estar imaculados. É assim que ela gosta deles. O sol está quente. Daqui a pouco, será a hora do almoço e ela voltará para o acampamento para alimentar o seu filho único que ficou brincando com as outras crianças da tribo, enquanto ela ia até o rio lavar a roupa.

Ouvindo o trotar de um cavalo, ela levanta o rosto e vê o cigano Toráh. Ele desce do animal e caminha na direção dela. No rosto dele, ela vê a marca da tristeza. A roupa escorrega das suas mãos e um grito sai da sua garganta.

— Meu filho!

Diante de Zúria, ela pede a morte. Nenhuma mãe que perde o seu filho deve manter-se viva. A Sacerdotisa, com a voz carregada de amor, lhe diz:
— Se não queres mais a vida, toma a minha. Se não tens mais fé, usa a minha. Ficarás ao meu lado para que tomes o que é meu para que seja teu.

Por dias, ela fica ao lado de Zúria. A ferida aberta, lentamente se cura no colo da mãe.
Quando ela volta para a tribo, é uma mulher mais forte e mais sábia.

Sephi

Está muito escuro. O cavaleiro continua andando apesar da dor que sente no corpo todo. Ele sabe que a dor não é só física. É uma dor na alma. O seu peito parece que vai explodir pelo esforço, mas ele precisa continuar. Dessa vez, nada vai impedi-lo de alcançar a saída. Já tentara muitas vezes, sempre desviando o seu caminho, dando ouvidos a uma oferta sedutora ou a um apelo dolorido. Dessa vez, porém, nada o tiraria do seu objetivo.

Por entre a densa folhagem que por vezes corta o seu braço e fere os seus pés, ele continua em frente. Tropeça, cai e machuca o rosto numa pedra. A face sangra, mas ele continua. As vestes estão em farrapos e o cabelo emaranhado, mas ele não para. Algo maior o guia. É a sua definição. Ele deu um basta em tudo. Não machucaria mais ninguém, não seria mais marionete de nenhum senhor cruel. Não sacrificaria mais seres humanos como um animal enraivecido e não tiraria mais a felicidade das pessoas.

Estava acabado!

Só a morte o deteria e, mesmo assim, ele voltaria exatamente para o ponto em que parasse. Então, nem mesmo ela, a morte, tão desejada em alguns momentos, era bem vinda agora. Ele só tinha a si próprio e estava decidido. Por ele e pela sua sanidade de alma não voltaria mais. Sequer olharia para trás para que não corresse o risco de titubear. Dessa vez usaria a sua força de cavaleiro para realizar a maior de todas as travessias: aquela que nos leva do mundo das trevas para o mundo da luz.

Sabia que no começo sentiria um desconforto. Não estava acostumado. Mas sabia que encontraria ajuda e, se ela não aparecesse, ficaria lá pelo tempo que fosse necessário até que alguém se apiedasse dele e o ensinasse a como ser do outro lado.

A mata ficava cada vez mais densa. Um pavor indescritível tomava conta do seu ser, mas ele conhecia o jogo. Ou era pavor ou era sedução. Ele não se deixaria conduzir por nenhuma dessas armas. Quando não as conhecemos, é difícil vencê-las mas, para ele, elas eram velhas conhecidas e estava cansado. Não queria mais nada daquilo. Queria ser feliz e calmo. Desejava paz e experimentar o que significava possuir o olhar claro que tantas vezes vira nas vítimas que passaram pelas suas mãos.

Ele estava exausto. Se não fosse merecedor de encontrar o caminho, ficaria ali e morreria sufocado pelas plantas rasteiras e venenosas que abundavam pelo caminho.
Subitamente parou levado por um pensamento: “Por que não olha para o alto?”.

Esperou um momento, antecipando a visão que teria. Saboreou cada movimento lento de sua cabeça erguendo-se para cima. Fez isso com os olhos fechados,
propositalmente. Iria abri-los quando a sua cabeça já estivesse totalmente levantada.
Ainda de olhos fechados, sentiu um calor no rosto e viu que uma luz incidia sobre ele.

Era a luz do sol. Manteve os olhos fechados, sentindo o calor do sol sobre o seu rosto. Permitiu que aquele calor percorresse todo o seu corpo. Depois levou a mão ao rosto e acariciou a sua face machucada. Sentiu um amor imenso por ele mesmo, como se estivesse se perdoando. Ficou assim por um tempo que lhe pareceu alguns segundos, mas que tiraram dele a dor física e espiritual. Quando abriu os olhos, ele era outro em outro tempo e outro lugar.

Acmella

A doce senhora atravessava o gramado em direção ao canteiro de ervas. Ela adorava quando o vento trazia o aroma das plantas, antecipando a visão do canteiro. Era como se, assim, ela se preparasse para o mágico encontro com as ervas. Sua mãe, e antes a sua avó, e antes ainda a mãe da sua avó, haviam feito este ritual: primeiro o pensamento intuído, depois o aroma e em seguida a colheita. Esse ritual era muito antigo e pertencia às mulheres da sua linhagem há séculos. Era passado de uma para a outra, em segredo.

Os medicamentos eram preparados nas cozinhas das casas, utilizando os seus utensílios para não chamar a atenção. Para algum visitante inesperado, pareceria que a dona da casa estava cozinhando algo especial para a família. As mulheres sempre estavam às voltas com o preparo das refeições. Essa era uma tarefa que cabia a elas. Ninguém estranharia que estivessem, a qualquer hora do dia, às voltas com preparos na cozinha.

O dia estava claro e as madressilvas pareciam cantar. Afastou um pouco as flores para encontrar a erva que desejava. Era uma erva muito especial. Custara a pegar, porque gostava de lugares quentes. Sua mãe havia descoberto que, se fosse plantada por baixo de outras plantas, teria o calor que desejava. E lá estava ela: Acmella.

Suas folhas tinham um tom de verde escuro e podiam produzir um remédio poderoso que tirava a dor de qualquer lugar do corpo, permitindo-lhe terminar uma tarefa começada que não pudesse ser interrompida, devido a uma dor muito forte. Porém, ela tinha uma consequência grave: podia piorar um problema. A dor é uma aliada do homem. É ela quem avisa que algo está errado. Se não sentimos dor, continuamos a machucar o que já está machucado.

Assim, eram poucas as vezes que ela se concedia ao uso desta erva e aquele era um desses momentos. A mulher estava sofrendo muito. O bebê não nascia. Ela já tinha acompanhado outros partos difíceis, mas aquele estava demorando muito. Se ela não fizesse algo rápido, mãe e filho podiam morrer.

Tocou o arbusto com carinho, pedindo a erva que lhe concedesse o seu poder a fim de que pudesse auxiliar uma mulher que sofria para dar à luz. Como em resposta, a erva soltou um líquido em suas mãos. Então ela soube que podia arrancá-la e fazer as compressas e o chá. Retirou o que precisava e nenhuma folha a mais.

— Não se pode desperdiçar as ervas, dizia a sua mãe. São seres vivos que precisam cumprir a sua missão. Se forem jogadas fora, podem perder o seu poder trazendo consequências graves para quem as desperdice.

Eulália correu de volta à cozinha. Colocou um pano limpo dentro do pilão e, em seguida, as ervas. Pilou bastante até que, ao torcer o pano, obteve um líquido escuro e espesso. Quando tudo estava pronto, com cuidado, espalhou um pouco em cima da barriga da mulher, pedindo que dessem a ela uma colher de sopa para que bebesse do mesmo líquido. Depois queimou folhas da erva numa tigela de madeira, espalhando a sua fumaça pelo aposentou. A mulher, lentamente, foi se acalmando.

Quando ela percebeu que a erva estava fazendo efeito, espalhou o líquido por entre as pernas da mulher e, com uma tesoura, fez um pequeno corte para que a cabeça do bebê pudesse passar.

A mulher deu um pequeno gemido que foi seguido pelo choro do bebê que acabara de nascer. Eulália pegou a criança, envolvendo-a num pano limpo. Era um menino. Em seguida, deu um nó no cordão que ainda estava preso ao seu umbigo. Trouxe-o ao peito e, com a ponta dos dedos, colocou em seus lábios um pedacinho de sal. Em voz baixa, pediu que o menino soubesse conduzir a sua vida com sabedoria, assim como o sal, que, quando usado da forma correta, é o tempero da vida. Depois, com as mãos em concha, derramou um pouco da água que energizara com a luz prateada das mulheres santas na cabeça do bebê. Com gestos rápidos e quase imperceptíveis, ela o batizara colocando nele a sua força. O pequeno bebê, agora, dormia em seus braços. Entregou-o a uma das mulheres que sempre estavam com ela nessas horas. Eram suas aprendizes e amigas leais.

Agora, ela precisava cuidar da mãe. O corpo já havia expulsado de dentro o que não era mais necessário. Suas aprendizes já haviam limpado tudo. Com um fio de seda muito fino e uma agulha igualmente fina, costurou o corte que abrira entre as pernas da mulher. Felizmente, a erva ainda estava fazendo efeito e ela quase não sentiu dor.
Com o bebê repousando ao lado da mãe que dormia profundamente graças a erva que lhe fora administrada, Eulália fez sinal às suas aprendizes para que a seguissem, deixando o quarto livre para que a mulher pudesse descansar.

Os parentes que aguardavam na sala já haviam escutado o choro do bebê. Sabiam que tudo estava bem e esperavam aliviados. Quando ela entrou na sala, o marido beijou-lhe a mão e, emocionado, falou:

— A senhora é uma santa. Qualquer soma em dinheiro que lhe dermos será insuficiente para recompensá-la por tudo que fez. Que a sua luz sempre brilhe a fim de que muitos sejam trazidos ao mundo pelas suas mãos.

E assim foi. Muitos já haviam nascido pelas suas mãos e muitos ainda nasceriam. Para ela, não havia dúvida de que essa era a sua missão. Soubera disso durante um ritual secreto que a consagrara para esse serviço.

Para que tudo corresse bem, bastava que ela silenciasse o seu coração e a sua mente. Seria guiada. Poucos sabiam, mas esse era o seu verdadeiro poder: a certeza de que seria guiada sempre que assim ela o permitisse. Tudo o mais, seria resultado dessa sua permissão.

O Mouro

Havia o rio para ser atravessado. A noite estava chegando e, em breve, eles não teriam mais a luz do dia. Os companheiros estavam aflitos e falavam todos ao mesmo tempo. O que fazer? Atravessar o rio correndo o risco de serem levados pela correnteza, colocando a segurança da Senhora em risco? Dar a volta até sabe-se lá onde, para encontrar uma travessia mais segura? Acampar ali e aguardar o dia seguinte que traria novas ideias?

Enquanto todos falavam, o Mouro permanecia silencioso. Como era o seu costume, observava. Esperava que o silêncio lhe trouxesse alguma resposta. Há muito aprendera que as palavras atrapalham o pensamento inspirado. O silêncio, ao contrário, libera o pensamento para que encontre a solução mais acertada.

Os companheiros o achavam diferente, mas, com o tempo, aprenderam a respeitar aquele homem moreno, alto, forte e silencioso. Ele não falava muito, mas suas atitudes mostravam o quanto ele amava a Senhora e acreditava na causa maior: libertar os homens do mal e trazer a luz ao mundo. Aprenderam a amá-lo e respeitá-lo.

De repente, sua voz soou alto:
— Eu puxarei a carroça, disse ele com um tom de voz que continha firmeza e determinação.
Os companheiros silenciaram. Na expressão do Mouro não havia dúvida: ele faria o que estava dizendo.
— Seja, então, disse Breuk, o líder da expedição. Nós nos distribuiremos em torno da carroça para que ela não tombe. Alguns irão atrás para auxiliar, empurrando.

Num gesto tão conhecido, formaram um círculo e ao centro dele colocaram suas mãos, umas sobre as outras e juntos disseram: Um por todos e todos por um!

Dentro da carroça, Zúria aguardava. Confiava em seus cavaleiros que, com certeza, encontrariam a melhor solução e assim, em breve, seguiriam viagem.

Ao saber da decisão, cuidou de agarrar-se firme dentro da carroça. Pela pequena janela à sua frente, ela via o ombro forte do mouro onde a grossa corda se apoiava para que ele pudesse puxar a carroça. Os músculos de suas costas se retesavam a cada esforço. O coração da Sacerdotisa encheu-se de amor e gratidão por aquele homem forte e corajoso. Silenciosamente, fez uma prece na intenção de que ele tivesse forças para realizar a tarefa que havia escolhido.

O Mouro puxava a carroça por dentro do rio em direção à margem oposta, tendo a impressão de que os seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento. Sua determinação, porém, gerava dentro dele uma força que era maior que a dos seus músculos. Era uma força que vinha da sua fé.

Ao chegarem à outra margem do rio, todos caíram no solo, exaustos. O Mouro, com um sorriso quase imperceptível nos lábios, pensou: Está feito!

Quando todos se acalmaram, comemoraram alegres a vitória, sabendo que ela só fora possível graças à determinação do Mouro e à união de todos.

— Que assim sempre seja! Disseram todos em coro.

Que assim seja! Soa o som de outras vozes, neste exato momento!