Histórias de todos os tempos

Por Roseli Câmara, com o testemunho de Helena Martins, dirigente da Ordem Princípio e Luz

As histórias contadas neste blog apresentam registros de mergulhos feitos em exercícios místicos que foram realizados após o contato com outras pessoas que, como nós, navegam nas mesmas águas.

Quando mergulhamos no mundo místico, o que sabemos é que faremos uma viagem. Para onde iremos e o que vamos encontrar não pode ser programado por nós. Entregamos o comando, na certeza de que viajaremos para onde devemos ir.

O que estará escrito aqui, uma história por vez, são os relatos de muitas viagens. Conhecemos lugares e ouvimos, assistimos e revivemos vários acontecimentos. As histórias estão aqui. Uma delas pode ser a sua história. O nosso convite é para que nelas mergulhem e recuperem o que é seu ou que, apenas, apreciem a paisagem.

Respirem profundamente, abram a sua tela metal, entreguem o comando e se conectem com os relatos. Após a leitura, se outro acontecimento lhes for contado, escrevam, porque se isso acontecer, significa que as histórias cumpriram a sua missão: a de abrir portas internas.

Sejam bem-vindos! Boa viagem!

Simeão

Anoitecia. Os cavalos estavam cansados e era preciso apear para alimentá-los e para descansar. O dia seguinte seria puxado. Eles precisariam chegar ao seu destino, de qualquer maneira.

Com um gesto de mão, Aragorn deu o sinal de parada. Simeão estava bem atrás dele e repetiu o gesto que foi passado a todos os outros. Todos apearam e, de joelhos, fizeram a oração costumeira: “Mãe de todos nós, que a Tua luz nos proteja durante toda a noite a fim de que possamos levar a palavra de Vosso Filho, nosso amado Mestre Jesus, a todos que a esperam. Por amor a Vós. Amém”.

Fizeram a reverência costumeira, um círculo com os cavalos e riscaram um outro círculo em volta deles. Retiraram os alforjes e as selas, conversando com os animais e acariciando-os. Os templários amavam os seus cavalos como se amavam mutuamente.

Simeão levou o seu cavalo para a beira do rio para que ele bebesse água e aproveitou para beber também. Estava cansado. Já não era tão jovem. Os mais novos contavam com a sua sabedoria e astúcia naquelas viagens. Ele era capaz de sentir o perigo a distância e de pressentir quando uma caça estava próxima, o que rendia a todos ótimas refeições.

Esta noite comeriam em volta da fogueira, que já ardia no centro do círculo, o que restou do almoço e ele lhes contaria uma história.

Olhou para o céu e silenciosamente pediu numa prece que a Mãe Maior lhe inspirasse, para que ele encontrasse uma boa história que animasse a todos.

Simeão retornou ao acampamento e aproximou-se do fogo, servindo-se de um naco de carne e de um pedaço de pão.

Os companheiros já estavam em volta da fogueira, sentados como podiam, em tocos ou pedras, com suas mantas enroladas em torno do corpo. A noite na mata era fria e era necessário aquecer-se.

O jovem Agripino, que já havia terminado a sua refeição, falou:

— Então, caro Simeão, que história tem para nós esta noite?

—Calma, meu rapaz, respondeu Simeão. Espere até que eu termine a minha refeição. Ao final dela, saberei que história lhes contar.

Agripino sorriu feliz. Que bom, pensou, as histórias de Simeão eram sempre tão bonitas e cheias de significados.

Enquanto mastigava, Simeão transportou sua mente para outro tempo.

O Mestre dizia, enquanto todos comiam:

— Feliz do homem que tem amigos e que com eles se alimenta. Pois não é a comida o alimento para o corpo e a amizade o alimento para o espírito? Sabeis todos vós: afortunado é o homem que tem amigos, muito mais do que aquele que possui riquezas.

Lembro-me de um homem cuja riqueza somava propriedades e joias, óleos e vinhos caros. Esse homem não nasceu rico. Ao contrário, construiu a sua riqueza com o suor do seu rosto. Desde a infância, tinha um único amigo o qual visitava regularmente. Com o passar dos anos e devido ao crescimento dos negócios, afastou-se dele e quando pode procurá-lo novamente, soube que ele havia se mudado e ninguém sabia de seu paradeiro. O homem rico ficou pesaroso, mas confiou que veria novamente o seu amigo, em qualquer daqueles dias. 

Os anos se passaram. Um belo dia, ele estava sentado em sua cadeira de repouso após o almoço quando um servo veio lhe avisar que um homem, vestido em farrapos, insistia em falar com ele. O que deveriam fazer? Dar-lhe um prato de comida e mandá-lo embora? Perguntou o servo.

— Não. Nada disso. Vou ver do que se trata. 

Então, para a surpresa do homem, seu amigo estava ali, na sua frente, velho, abatido e vestido em farrapos. 

Imediatamente, o homem rico chamou os seus servos e ordenou que cuidassem dele. Que chamassem um médico e lhe oferecessem toda a assistência necessária para a sua recuperação.

 O amigo, caindo em prantos e de joelhos diante do homem rico, disse:

— Perdoe-me meu amigo. Eu fui embora porque não aguentei ver a tua prosperidade, quando eu mesmo nada tinha. Mas a vida foi dura comigo e eu não tive escolha senão bater a tua porta e pedir-te ajuda e perdão. 

Ao que o homem rico respondeu:

— Pois de agora em diante, tu morarás comigo e serás, além de meu amigo, meu conselheiro particular. Dar-te-ei um bom salário e tu viverás para sempre bem e confortável. 

Ao terminar a história Simeão completou:

— Ao verdadeiro amigo nada se nega. Tudo se concede quando ele, de boa vontade e de coração aberto, lhe pede. A um verdadeiro amigo se estende a mão. Isso honra a Deus e a nós mesmos.

Dito isso, deu boa noite a todos, virou-se para o lado e adormeceu, embalado pela intensa luz prateada que havia à sua volta e que todos podiam ver.

Descoberta

As bandeiras tremulavam em seus mastros colocados em torno da grande arena. Arquibancadas foram dispostas ao redor de onde as lutas aconteceriam para que todos pudessem assistir a cada detalhe do torneio.

De cada lado das arquibancadas se reuniam as pessoas que torciam por cada bandeira. Os que apreciavam a da Ordem sentavam-se espalhados entre os admiradores das bandeiras amigas. A Ordem não podia competir com a sua bandeira, mas usava a dos Lordes, amigos da causa.

O cavaleiro estava a postos. Em poucos minutos, estaria no centro da arena lutando com o seu adversário. Já purificara suas mãos com o óleo sagrado feito especialmente para aquela ocasião com ervas especiais que tinham o poder de protegê-las contra o mal e a sua influência. A luta levava os homens ao desejo de matar. Os cavaleiros da Ordem não podiam correr esse risco. As lutas nos jogos eram diversão, muito embora todos soubessem tratar-se de uma demonstração de força. Os que venciam ganhavam respeito, admiração e proteção durante o ano todo.

Ele sabia disso e desejava vencer. Porém, não a qualquer preço. Saberia parar quando fosse preciso, mas lutaria com coragem e desejo de vitória.

Ao sinal do juiz, montou em seu cavalo, empunhou a lança e sentiu uma estranha energia. Algo dentro dele brotava, fazendo com que se sentisse superior e orgulhoso. Sabia que era forte e se agradava disso. Essa energia fazia com que fosse tomado de uma sensação de poder muito grande. Era algo que já sentira outras vezes, mas, agora, estava muito forte. Suas mãos começaram a queimar e a suar. A lança escorregava e ele não conseguia firmá-la. Vendo que o amigo não se mexia, seu companheiro correu até ele:

— O que se passa meu amigo. Não se sente bem?

Ele estava possesso de raiva e respondeu agressivamente:

— Estou ótimo! São as minhas mãos que não param de suar, impedindo que eu empunhe a lança!

O companheiro compreendeu imediatamente. O óleo estava cumprindo a sua função, impedindo que ele lutasse. Algo de muito ruim, energeticamente, estava acontecendo.

— Meu amigo, vamos pedir a troca de cavaleiros. Assim, você poderá recuperar-se e lutar em seguida – disse o companheiro com uma voz cheia de amor.

O juiz já havia dado a partida e o tempo estava passando. Se não tomassem uma decisão rápida, a vitória seria dada ao outro cavaleiro sem que a luta houvesse acontecido. A vergonha seria maior.

— Muito bem, peça a troca! – respondeu descendo do cavalo, largando a lança no chão e afastando-se com passos largos.

O companheiro subiu no cavalo, anunciando que ele próprio competiria naquela prova. “Os outros cuidarão de nosso amigo…” – pensou enquanto batia com a sua bota no flanco do cavalo que, atendendo ao seu comando, saiu em disparada para encontrar o cavaleiro que vinha a galope à sua frente.

Inconformado, ele se dirigiu à tina de água na qual mergulhou as mãos que ardiam. O frescor da água aliviou o ardor. O que havia acontecido? Por que ele não conseguira segurar a lança? Precisava de respostas.

Montou em seu cavalo e num galope veloz subiu a montanha em direção à caverna. Precisava falar com a Sacerdotisa.

Ao chegar, encontrou o guardião da porta que o impediu de entrar na Câmara de Recolhimento. A Senhora estava em profundo transe. Se fosse incomodada, poderia morrer.

Contrariado, voltou ao salão central. Sentou-se próximo de onde estava a cisterna com a água energizada e cobriu o rosto com as mãos num gesto de desespero. O silêncio era quebrado pelo marcador de tempo. Lentamente, o som do marcador foi invadindo a sua mente, trazendo-lhe tranquilidade. Tomado por uma grande letargia, recostou-se como pode e ali mesmo entregou-se a um profundo sono.

O Mestre dizia:

— Não se pode obrigar uma pessoa a ser o que ela não é, Judas. As pessoas devem por si só perceber que podem ser diferentes e desejar mudar. Não tome o que não é seu, meu amigo. Permita que do seu coração só venham bons sentimentos e que de sua boca só saiam boas palavras.

 Judas olhou para o Mestre e pensou o quanto ele era ingênuo. As pessoas eram maldosas por natureza e nada iria mudar isso. 

— Meu amigo, vou contar-te uma história – disse o Mestre, parecendo ler os seus pensamentos. Era uma vez um menino manco. Havia nascido com uma perna menor do que a outra. Por isso não podia brincar com as outras crianças porque tropeçava e atrapalhava a brincadeira.  Elas não tinham paciência com ele. O pai dele, que muito o amava, depois de muito pensar, foi a um sapateiro. “É possível, sapateiro, fazer um calçado com um solado maior do que o outro e que seja tão confortável que uma criança possa correr com ele sem que lhe saia dos pés?” “Bem, terei que fazer alguns testes. Volte daqui a uma semana e terei a resposta.” 

O pai do menino esperou com ansiedade. Ao final de uma semana, voltou ao sapateiro que lhe apresentou um calçado fantástico. Pagou o que ele pediu e voltou correndo para casa. Quando lá chegou, encontrou, como sempre, o seu filho triste encostado no batente da porta olhando para as outras crianças que estavam brincando. “Veja o que eu trouxe para você, filho!” O menino calçou os sapatos, amarrando-os bem e… Quando ficou em pé, surpresa. Ele não mancava mais.

Com um enorme sorriso no rosto, abraçou o pai e saiu correndo em disparada para brincar com as outras crianças. 

— O que me diz, meu caro Judas? – perguntou o Mestre sorrindo. Se até para uma criança manca é possível conserto, o que dirá para um adulto que pode, por si só, tomar as próprias decisões? É preciso, entretanto, que ele reconheça quem verdadeiramente é. E, para isso, muitas vezes, precisa de ajuda. 

Judas olhou para o Mestre e nada disse. Não encontrou nada que pudesse dizer diante dessa verdade. 

Ele despertou em prantos. Com a água da cisterna, lavou o rosto banhado em lágrimas. Que o amor divino permitisse que ele reconhecesse quem era, a fim de que o seu melhor sempre aparecesse. Do fundo do coração, agradeceu ao sagrado óleo que o havia impedido de lutar naquela tarde.

Abandono

O pai se agarra às gêmeas sem compreender. A mãe beija as filhas, dizendo que as ama e que elas, um dia, compreenderão. Pede perdão ao marido e entra na carruagem que a espera.

Ela precisa ir. Está tomada por uma força que é maior que ela. Pela sua sanidade, das suas filhas e de seu marido, ela precisa ir.

Quando o conheceu, não poderia imaginar que a força desse sentimento a tomaria de tal maneira que se ele partisse levaria junto com ele a sua respiração e, portanto, a sua vida. Então, por amor as suas filhas, ela partiria para que não morresse. Um dia voltaria. Sempre poderia voltar a ver suas filhas e, quem sabe, obter delas o perdão. Mas agora, ela tinha que ir. Pierre exigira isso dela, não lhe deixando alternativa. Ou seguia com ele ou morreria.

O pai deprime a tal ponto que já não pode mais cuidar das meninas. Suas irmãs, solidárias, tinham decidido cuidar das pequenas.

— Eu levo essa, disseram as duas ao mesmo tempo, arrastando cada uma para um lado. As meninas gritavam, apavoradas.

O pai, resignado, concordou. Suas filhas estariam melhor com as suas irmãs. Moravam distante uma da outra, mas o que se havia de fazer? Uma desgraça se abatera sob a sua casa.

As meninas são separadas e gritam até não terem mais forças. São levadas pelas tias para viver cada uma em um lugar diferente. Nunca mais se encontrarão nesta vida.

A mãe volta algum tempo depois e já não há mais a casa, o marido e as filhas. Ninguém lhe responde às perguntas e nem lhe dirige a palavra. Sozinha e cheia de culpa, inicia uma busca sem fim pelas filhas que abandonou.

Rancho Querência, Piracaia. Mergulhando na alma, se lembram…

Winston

A armadura pesava. Feita em ferro, servia para proteger os cavaleiros das lanças pontiagudas dos inimigos. Nos jogos, elas eram usadas como símbolo de masculinidade e força.

Em cima de seu cavalo, Winston era a figura do cavaleiro forte e arrojado. Já não era tão jovem, mas os anos de muito treino lhe conferiam a força da sabedoria aliada à força física.

Seu cavalo empinava, aguardando a luta que se iniciaria em breve. Pela bandeira do Duque Ófillo, Winston competiria, mas por quem lutava só ele e os seus companheiros de fé sabiam.

Sua Sacerdotisa aguardava, em recolhimento, as notícias que eles levariam das vitórias obtidas. Isso garantiria mais um ano de paz para a Montanha e a Vila. Ninguém ousaria atacar lugares em que havia cavaleiros que mostravam sua força vencendo nos jogos.

Winston sabia disso e, quando fechou o seu elmo, fez uma prece silenciosa para que a Mãe de todos os homens guiasse os passos de seu cavalo e o seu braço que empunhava a lança.

Sentiu por um momento a prece silenciosa de seus companheiros invadirem o seu campo de força e soube que não estava só. Que jamais estaria só enquanto existisse nessa terra e para além dela. Havia aprendido que o amor atravessa o tempo e as dimensões. Então, tudo estava bem. Faria o seu melhor.

Ao sinal do juiz, bate com as botas no flanco do seu cavalo que, entendendo o seu comando, sai em disparada. À sua frente, no lado oposto ao seu, o cavaleiro negro dispara para chocar-se com ele. Quem derruba o cavaleiro de seu cavalo, vence a luta.

Já do outro lado da arena, Winston vê o cavaleiro negro no chão. Mal tem tempo de dar-se conta do ocorrido, quando seus companheiros o arrancam da sela e saem em desfile pela arena carregando-o nos ombros. Comemoram com grande alegria mais uma vitória da Ordem.

Em seu recolhimento, Zuria sorri e de seu pensamento sai uma prece:

— Abençoada seja a força de todos os homens, tão necessária nestes tempos de evolução humana.

Suriad

O adorno de sua cabeça subia para o alto. Ali se juntava a um diadema de pedras vermelhas, verdes e azuis que rodeavam uma imensa pedra negra. O seu rosto emoldurado por esse adorno estava pálido. O que a aguardava? Que homem seu pai havia escolhido para seu marido?

Suriad escutava as batidas de seu coração, enquanto caminhava pelo chão forrado de pétalas de rosas vermelhas. Seus pés e mãos haviam sido adornados com desenhos pintados à mão pelas artesãs contratadas para essas ocasiões. Era um trabalho muito delicado e bonito. Suas vestes riquíssimas espalhavam as pétalas com o seu balançar, enquanto ela caminhava.

As mulheres faziam aquele som alegre, batendo com a língua no céu da boca; os homens batiam palmas, fazendo um leve cumprimento com um movimento de corpo à sua passagem. Uma cortina finalmente se abriu e ela o viu, sentado na cadeira do noivo. Um rapaz não muito alto, moreno como os povos do deserto e com um olhar tão assustado quanto o dela.

Assim que ela atravessou a cortina, ele se levantou dirigindo-se a ela com um colar de flores nas mãos. Colocando o colar em seu pescoço, disse:

— Seja bem-vinda, futura esposa. Ao que ela respondeu, colocando também no  pescoço dele um colar de flores que sua mãe lhe entregara:

— Agradeço o seu cumprimento e retribuo com a minha aceitação.

Em seguida, sentaram-se nas cadeiras dos noivos enquanto esperavam o início da cerimônia.

Suriad, tão bela, não havia tido muita sorte na vida. Filha de comerciantes, cresceu coberta de cuidados. De saúde frágil, atrasara-se no tempo em que deveria casar-se. Finalmente, seu pai conseguira para ela um marido pagando um preço exorbitante pelo seu dote.

Quando entraram no quarto que lhes fora destinado, Suriad espantou-se com a elegância com que fora decorado. Sua sogra não havia poupado esforços nem dinheiro.

Ricos tapetes nas paredes e no chão, e almofadas cobertas com tecidos finos com bordados em ouro adornavam o aposento. Ao lado, uma grande cômoda servia também de penteadeira com um espelho adornado de flores douradas. Encostada na parede, via-se uma arca. Suriad levantou a tampa da arca encontrando várias túnicas, uma mais rica que a outra.

— Seja bem-vinda ao nosso quarto, esposa – disse Aman.

Suriad olhou para o homem a sua frente que mais parecia um menino, e teve pena dele.

— Muito obrigada, esposo. Sei que seremos felizes aqui.

Mas Suriad não estava feliz. Quando podia, subia ao alto da casa de onde podia ver as estrelas e conversar com o firmamento. Tinha saudade de sua mãe e de suas irmãs. Não desejava estar ali, mas o que fazer? Ela era uma mulher, e uma mulher apenas obedece primeiro ao seu pai e depois ao seu marido.

Seu marido mal a via ou tocava. Na noite de núpcias, ele fora rápido e cumprira suas funções de marido. Dormia ao lado dela, mas via-se que ele também não era feliz. Às vezes a procurava, apenas para cumprir suas obrigações de esposo. “Por que as coisas eram assim?” Perguntava-se Suriad. E não havia resposta.

Então, um dia ela sentiu algo diferente. Um filho! Sim, ela estava esperando um filho. Pela primeira vez depois de casada, seu coração encheu-se de alegria. Quando contou para a família de seu marido, todos passaram a tratá-la como uma rainha. Até seu marido antes desinteressado, agora a cobria de presentes e joias.

Quando seu primeiro filho nasceu, ela soube que a felicidade era possível. Finalmente achara uma razão para viver. O amor que nascera em seu coração por aquela criança a havia salvado da solidão e da descrença. Cuidaria de seu filho como dela mesma. Depois vieram as meninas e outro menino.

Um dia, olhando para a sua neta mais nova que já estava se tornando uma moça, ouviu dela a seguinte frase:

— Vovó, as mulheres estão se reunindo para escutar a pregação de um homem que veio de terras distantes. Ele diz que todos devem ser livres e que o amor deve ser sempre a resposta para todas as nossas perguntas.

Suriad sorriu e pensou: “Sim. Isso eu sei há muito tempo”.

Paco

O dia está frio. O sol aparece um pouco pálido, mas o suficiente para esquentar o corpo do menino que tira o pesado colete de pele de carneiro que veste sobre a roupa rústica feita de grossa de lã, tecida no tear de sua mãe. Ele reúne o rebanho de ovelhas para que não se percam pela montanha, arriscando-se a quebrarem uma pata.

Do alto da montanha, de um lado, ele vê a sua casa de cuja chaminé sai a fumaça do fogão a lenha de sua mãe que prepara o almoço, enquanto bate a roupa na pedra agachada no chão ao lado da cozinha.

Mais ao longe ele vê o seu pai que, sentado num pequeno banco, cuida da horta retirando as ervas daninhas e o mato que, do dia para a noite, cresce por ali.

Seus três irmãos menores brincam correndo atrás das galinhas e dos patos numa brincadeira alegre que termina por jogar todos ao solo, exaustos.

Do outro lado da montanha ele vê a cidade onde as pessoas caminham apressadas pelas ruas com os seus negócios por realizar e compras por fazer. Ele não gosta de ir muito à cidade. Sempre que vai, volta aturdido com a multidão. Tem gente de toda a espécie. Árabes, judeus, cristãos, brancos e negros. Todos convivem em harmonia e se respeitam mutuamente. As diferentes religiões são professadas sem preconceito. Todos entendem que há um único Deus e não importa de que maneira Ele seja louvado.

Paco tinha quinze anos, mas apesar de jovem, compreendia as diferenças e aprendera a respeitá-las. Ele frequentava a Ordem da Rosa que não professava nenhuma religião, mas estudava e se valia do melhor de todas elas.

Era uma Ordem muito antiga que passara de geração em geração pela sua família. Sua mãe o levara nas reuniões desde que se tornara capaz de entender o que se estudava lá. Ele gostava de ir às reuniões e aprender sobre o mistério das coisas.

Como todos os que frequentavam a Ordem da Rosa, ele tinha o compromisso de manter em segredo o que aprendia e cumpria à risca esse acordo.

Naquela manhã, algo o estava incomodando. Na última reunião, os Iniciados disseram que Jesus havia sido um homem comum e que tivera uma família. Paco sentiu algo diferente dentro dele ao ouvir essa história. Ele não sabia explicar, mas sabia como buscar a resposta para esse sentimento de familiaridade que brotara dentro dele ao escutar aquele ensinamento.

Assim, reuniu as ovelhas próximas a ele e pediu a elas que não se afastassem enquanto ele estivesse com os olhos fechados. Por uma estranha razão que nem ele entendia, as ovelhas sempre obedeciam ao que ele lhes pedia.

Feito o pedido as ovelhas, Paco sentou-se encostado numa árvore frondosa, fechou os olhos, respirou profundamente e limpou a sua mente de qualquer pensamento, entregando-se para escutar a sua alma.

Jesus desenha na terra fofa, enquanto conta histórias para seus filhos menores, sendo escutado pelos mais velhos que, mesmo estando crescidos, continuam adorando as histórias de seu pai e sempre que podem se juntam aos menores para escutá-las.

— Então o menino assobiou, chamando as ovelhas porque já era hora de todos descerem da montanha para o jantar. Ele conhecia a todas elas e jamais perdera alguma.
Naquele dia, porém, ele deu falta de uma delas. Preocupado, assobiou novamente e esperou. Nada. A ovelha não apareceu. Então ele pensou:

— Será que ela se perdeu na montanha ou foi pega por algum lobo? Não! Isso é impossível. As ovelhas conhecem o terreno e não há lobos por esses lados. Então ele decidiu:
— Vou procurá-la. Levarei as outras para casa e depois vou voltar à montanha para procurá-la.

E assim ele fez. Desceu até a sua casa, guardou as ovelhas no cercado e foi avisar a sua mãe que subiria a montanha novamente para procurar a ovelha que se perdera. Sua mãe preocupada disse:
— Meu filho, já vai anoitecer e pode ser perigoso. Amanhã você procura por essa ovelha.
— Mãe, respondeu o menino, se eu for procurá-la somente amanhã, ela poderá estar morta. Fique tranquila, sei caminhar pela montanha e nada vai me acontecer.

A mãe não teve alternativa, senão concordar.
— Leve ao menos esse pedaço de pão e esse cantil com água, disse a zelosa mãe estendendo-lhe o pequeno pacote.
— Obrigado, mãe, respondeu o menino saindo em disparada de volta à montanha.

Ele precisava se apressar. Em breve não teria mais a luz do dia e a busca ficaria difícil. Mas ele confiava na sua intuição e ela lhe dizia que encontraria a ovelha perdida.
E realmente a encontrou. Lá estava ela, com uma das patas presa num buraco entre as pedras. Ao vê-la, o seu coração se encheu de alegria e, carinhosamente, retirou-a do buraco conversando com ela para que se acalmasse.

Voltou para casa quando o céu já se tingia de negro com o cair da noite. Lavou-se, comeu o jantar que a sua mãe lhe ofereceu e dormiu em paz.

— O que vocês acharam da história crianças, perguntou Jesus.
O seu filho mais novo, sempre silencioso e muito observador, perguntou:
— Pai, a ovelha perdida chorou muito?
— Enquanto ela estava sozinha e presa na pedra, ela chorou sim, filho. Mas quando viu o seu pastor e recebeu dele o carinho e o salvamento, tudo ficou bem. Essa ovelha para sempre vai acreditar que quando ela estiver perdida e sozinha poderá contar com o seu pastor que jamais vai abandoná-la. Assim é com o amor de Deus para conosco. Ele nos ama tanto que jamais nos abandona. Basta que confiemos que Ele nos salvará, sempre.

As crianças correram para abraçar Jesus que, feliz, deixou que o beijassem, retribuindo o carinho.

Paco respirou profundamente, voltando do transe. Por uma dádiva do divino, ele havia estado com Jesus. Compreendeu, então, que aquele momento vivia dentro dele. Levantou-se feliz e foi cuidar das suas ovelhas.

Gentileza

Ela não sabia dizer com certeza. Talvez fosse oito ou nove horas da noite. No inverno ficava mais difícil precisar as horas porque o dia se ia mais cedo e a noite demorava-se a ir embora.

O castelo estava em silêncio. O jantar já havia sido servido e as crianças já estavam na cama com suas amas. As coisas todas estavam em seus lugares. Com uma xícara de chá fumegante nas mãos, ela se senta diante da lareira na qual arde a lenha, recém colocada. Eles eram tão importantes, os empregados. O que ela faria sem eles? Sempre que podia, dava a eles um agrado. Uma peça de carne, uma saca de farinha ou de grãos para que levassem para as suas casas a fim de darem o sustento às suas famílias. Seu marido e senhor não se importava – sabia que era generosa quando se casou com ela.

Seus pensamentos soltos, uma vez mais, a fazem enxergar aquele dia em que um homem alto, forte e com um ar de poderoso pediu a sua mão ao seu pai. Ela não sabia direito o que fazer, mas ele foi gentil e, com o tempo, o amor foi crescendo. Eles se amavam. Ela confiava nele e ele, nela. Ele a escolheu porque observou nela as suas atenções para com as outras pessoas. Ele queria uma mulher generosa. Aprendera com a sua mãe o poder da gentileza. As pessoas gratas são aquelas que seguem ao seu lado mais felizes e, portanto, mais leais. Lealdade era algo muito precioso naqueles tempos.

Ela sorriu ao lembrar-se disso. Ele havia lhe contado essa história várias vezes e, em todas elas, podia sentir o sorriso brotar em seus lábios. Sentia-se especial por ter sido escolhida por algo que era seu de verdade, e não pelo seu dinheiro ou posses. Claro que isso ajudou, mas ele poderia ter qualquer uma, inclusive, mais ricas do que ela.

Gostava de pensar que seus filhos seguiriam seus passos e que seriam mulheres e homens fortes como o seu pai e gentis como a sua mãe.

Bocejou, cansada. Sentia a sua falta. Quando ele voltaria? Tudo estava tão calmo… Era bom, mas ela sentia falta da presença dele indo de lá para cá e de cá para lá, a dar ordens e fazer reuniões.

O fogo trepidando na lareira soava calmo e ela foi se embalando naquele trepidar das chamas. Ajeitou-se ali como pode. Pensou que só fecharia um pouco os olhos e que, logo em seguida, levantaria para deitar-se em sua cama. Adormeceu profundamente.

Ele entra silencioso. Não quer acordar a casa toda. Está muito frio e ele vai direto para o salão onde sabe que a lenha arde na lareira. Então, ele a vê. Ali adormecida, tão linda como sempre foi. Sua beleza agora era de mulher, mãe e senhora de um castelo. Mas, ali adormecida, ela só era bela. Ele ficou olhando para ela sem conseguir desviar o olhar, pensando em como era grato por ter seguido a sua intuição, tão treinada para acessar os mistérios. Era ela, sempre seria ela. Sua companheira de jornada, seu amor.

Então, ela abriu os olhos, despertando. Encontrou os olhos dele e pensou que devia estar sonhando. Uma emoção tomou o seu peito e ela se deixou levar por aqueles braços fortes que ela amou, até o fim da sua vida.

Contam que ele se foi primeiro. Logo depois, ela. Também contam que ali houve prosperidade para todos enquanto eles viveram. Os que olham suas lápides, que estão lado a lado, podem ler a inscrição: “Aqui estão os senhores desta terra, cuja gentileza fez prosperar a todos. Que descansem em paz!”

Fuga

“Se for preciso, atirem!”

Um arrepio percorreu a sua espinha. Uma coisa era empunhar uma arma para impor respeito, outra era matar. E por qual razão? Porque tinham fome! Ele sabia o que era a fome. Estava ali como guarda do galpão de suprimentos para que ele e sua família não passassem por isso.

Porém, a fome chegou; não para ele, mas para muitos – e com ela a raiva e o desespero que faz os homens tornarem-se animais e, para seu senhor, merecedores de serem mortos.

… não para ele. Ele sabia que dor era aquela. O que fazer? Sua família dependia desse emprego para ter garantido o sustento. Ele não podia conviver com a culpa de largar o trabalho e colocar todos na condição de fome.

Matar? Ele sabia que não faria isso. Então… perderia seu emprego de qualquer maneira. Melhor que saísse agora. E se não houvesse o saque? E se, por um milagre, chegassem doações? De onde elas viriam? Afinal, todos estavam na mesma situação. Já não havia ricos nem pobres. As colheitas foram escassas. Só os fazendeiros tinham algum estoque e, assim mesmo, não se podia prever até quando. O que fazer? Sair agora? Esperar? Se saísse, traria tristeza para a sua família. Uns diriam: “Você saiu porque não quis atirar e, por isso, vai matar todos nós de fome?!” Outros entenderiam, e ele se sentiria pior porque não merecia essa compreensão.

A dor que estava sentindo era imensa. Não sabia o que fazer. Os pensamentos iam e vinham. A favor e contra. Já não respirava direito e sentiu um pavor tomar conta do seu corpo. Não conseguia parar de tremer. Não podia continuar ali. Num impulso, largou a arma no chão e correu. Correu mata adentro até cair exausto e sem forças. A noite chegou. Ele ficou ali. Adormeceu de cansaço.

O dia clareou. Os pensamentos vieram novamente. Retorno? Vou embora aproveitando que estou longe? E de novo a culpa e a dor. Mas, agora, era diferente. Não seria ele o responsável por matar ou morrer. Estava livre. Aliviou-se com esse pensamento e decidiu seguir em frente. E assim foi. Diante de cada decisão, descobriu que se fugisse não precisaria decidir. E, então, descobriu que fugir sempre foi uma decisão.

Um poema

No quarto escuro tremula a luz de uma única vela que já estava pela metade. O chão de terra batida mostrava a pobreza do cômodo. No entanto, o velho homem estava deitado em lençóis limpos e tudo estava organizado.

A pequena cômoda encostada na parede debaixo da janela ficava em frente à sua cama. Ainda guardava em seu tampo os últimos escritos. O poeta estava doente. Seus pulmões não resistiram ao frio intenso em condições de extrema pobreza.

Sem família, só lhe restavam os amigos que se revezavam para cuidar dele. Dora fazia o serviço mais pesado de limpeza do cômodo e dele. Fazia-lhe a barba e, com um pano úmido, lavava-lhe o corpo como podia. A febre estava alta. O médico já o havia desenganado. Era apenas uma questão de tempo. Mas Dora estava ali, ao lado de sua cama, cochilando, a pobre mulher. Cuidava dos filhos e do marido e depois ia ao seu quarto para ajudá-lo como podia.

— Queria tanto fazer algo por ela, pensou ele, olhando para o seu rosto tranquilo que dormia. Mas não tinha nada. Só os seus poemas. E de que valiam? Em toda a sua trajetória literária conseguira vender alguns poucos poemas a algum apaixonado angustiado ou um amante enlevado. No jornal publicara um ou dois, sem grande repercussão. Vivia da caridade dos poucos amigos que tinha e de uns trocados ganhos por escrever textos para lápides aos que podiam pagar por esse luxo. Que ironia! A morte havia lhe dado o sustento e agora vinha buscá-lo. Era a sua paga. Estava certo.

Respirava com dificuldade e a tosse acordou a mulher.

— Você está bem? Perguntou-lhe Dora, aproximando-se, preocupada, da beirada de sua cama.

— Fique tranquila, minha cara. A minha hora não tarda, mas ainda não chegou, respondeu ele num tom de brincadeira.

— Não diga isso, meu amigo. Você vai se recuperar, respondeu ela sem muita convicção na voz.

Ele deu um sorriso e ficou em silêncio. Agradava-lhe que ela quisesse despertar-lhe esperanças. De repente, tomou-se de um sentimento doce que o inspirou. Precisava registrar isso num poema. Mas não tinha forças para levantar-se até a cômoda, então pediu:

— Dora, minha cara. Você poderia me fazer um favor?

— Sim, claro, respondeu prontamente a mulher.

— Poderia anotar um poema para mim?

Por um momento, Dora não soube o que dizer. Ela, escrever? Suas mãos, que sempre eram usadas para cozinhar, lavar e cozer, agora iriam escrever? Há muito tempo não fazia isso. Ela nem sabia direito se conseguiria.

— Meu amigo, disse ela, o que me pede é um tanto inusitado. Se me pedisse uma sopa ou mais uma manta eu saberia rapidamente atendê-lo, mas escrever, temo que não  consiga realizá-lo.

— Não se preocupe minha cara. Serei paciente e saberei esperar até que conclua cada palavra. E se por acaso não terminar hoje, continuaremos amanhã. Mas me permita escrever um último poema, peço-lhe.

Dora não tinha como recusar o pedido de um moribundo. Assim, sentou-se diante da cômoda, que a colocava de costas para ele, apanhou uma folha de papel em branco, verificou se havia tinta no tinteiro e se a ponta da pena estava afiada e esperou.

As palavras do poeta foram ditas devagar, como ele havia prometido.

Àquela a quem devo a vida

A tua respiração é como um sopro na manhã ensolarada

Os teus gestos doces e amorosos espalham luz

Se me olha enquanto durmo, posso sentir a vida que pulsa

Na intenção dos teus cuidados

Sou um homem tocado pela beleza sem volta

Porque assim o desejo e assim é.

Minha alma se enleva no aprendizado que me inspira os

teus cuidados de mulher bondosa e destemida

Se me tocas é como se um bálsamo curasse meu corpo

Se fala comigo é como se a voz dos anjos cantassem para mim

Se me alimenta, saboreio vida

Se está ao meu lado, sou afortunado em poder olhá-la

Salvaste-me de uma morte dolorosa e solitária

Tua presença me trouxe a possibilidade da redenção eterna aqui e além

Amo-te com um amor que atravessará o tempo.

Até qualquer dia, minha amiga.

Dora esperou um tempo. Enquanto escrevia, não prestou atenção ao sentido do que estava sendo dito. Preocupada em acertar as palavras, não se deu conta de que foram ditas para ela.

Após um silêncio um tanto longo, ela repousou a pena, compreendendo que o poema estava terminado. Pegou o papel e assoprou para que a tinta secasse mais depressa. Depois arrastou devagar a cadeira para levantar-se na intenção de não perturbar o seu amigo que devia ter adormecido.

Olhou para ele e viu que os seus olhos estavam abertos e que ali não havia mais vida.

Hassan

Quanto maior o turbante, maior a importância de quem o usava. Hassan ostentava um bem alto, adornado com uma pena de ave real azul. Tinha a barba rente ao queixo que se juntava ao bigode, rodeando a boca. Seu nariz adunco se projetada por entre os olhos pequenos e astutos. Era magro e tinha uma agilidade invejável. Há quem diga que numa ocasião, seu camelo tropeçou e ele pulou antes caindo no chão em pé e sem nenhum arranhão! Muito esperto, Hassan construiu sua fortuna sabendo a quem servir na hora certa.

Ele agora aguardava calmamente que o recebessem. Era um homem influente na sua aldeia e sabia que o marajá queria usar essa influência para conseguir ampliar seu poder. Se ele tivesse em suas mãos o comércio das sedas, seu poder seria ilimitado. Os comerciantes locais sabiam como produzi-la e guardavam esse segredo a sete chaves.

Mas Hassan sabia como descobrir um segredo. Uma mulher apaixonada é capaz de qualquer coisa. Até mesmo trair o seu próprio sangue. E ele já estava atento em qual delas jogaria a sua rede. Havia umas três ou quatro solteiras, bem-apanhadas e em idade de casar. Ele poderia cortejá-la, descobrir o segredo e depois forjar uma traição para livrar-se do casamento. “Muito fácil”, pensou ele com um leve sorriso no rosto, enquanto aguardava ser anunciado.

Quando o criado o convidou a entrar, ele levantou-se calmamente. Era parte do seu plano não mostrar nenhuma ansiedade e calmamente aguardar que o seu interlocutor falasse tudo o que desejava. Depois disso, sim, ele falaria, já com todo o plano traçado o que dava ao seu oponente pouca chance de raciocinar.

Ao entrar na sala de visitas do palácio, seu olhar perdeu-se em tanta riqueza. Ele era um homem acostumado ao conforto e a opulência, mas aquilo era além de qualquer coisa que ele tivesse visto algum dia em sua vida. Até o teto da sala era pintado em ouro, sem falar nas colunas, tapetes, lustres, pinturas e estátuas. Tudo arranjado com muito bom gosto e requinte.

Outra porta se abriu, dando passagem ao marajá. Com uma inclinação de corpo, Hassan o cumprimentou retribuindo o gesto de saudação convencional: com a mão direita encostava-se a ponta dos dedos no coração, nos lábios e na testa, o que representava que ambos estariam colocando o seu coração, as suas palavras e o seu melhor pensamento naquela conversa.

Após os cumprimentos, sentaram-se nas almofadas que estavam distribuídas em torno de uma mesa. Ao som das palmas do marajá, os criados entraram trazendo várias bandejas com iguarias finas, doces e salgadas e um bule de chá quente e outro com uma bebida fria a base de tamarindo e mel, muito consumida na época de calor intenso.

Conversaram amenidades enquanto provavam de um ou outro alimento. Ao fundo, três músicos tocavam seus instrumentos e trazendo ao ambiente um clima de leveza e sofisticação.

— Bem, disse o marajá, vejo que o senhor é bem versado nas artes da hospitalidade. Tem paciência e não atropela as etapas da boa convivência. Acho que seremos bons parceiros.

— Meu caro senhor, respondeu Hassan cauteloso, para mim já é uma honra estar aqui ao seu lado usufruindo de sua magnânima hospitalidade. Para mim, só isso já seria motivo de alegrar-me por muitos dias e muitas noites.

— Mas poderíamos aumentar para mais dias e mais noites a sua alegria – respondeu o marajá, olhando atentamente aquele rosto que não deixava transparecer nenhum sentimento.

— Isso seria muita bondade sua, senhor. Proponho então que o nosso próximo encontro seja em minha casa. Não chega aos pés da sua e não tenho a intenção de ofendê-lo convidando-o para conhecê-la. A minha intenção é apenas retribuir com a minha humilde hospitalidade tudo o que hoje recebo. Que a sua casa floresça e seja prospera. Que Alá o abençoe, senhor! – dizendo isso, ajoelhou-se e tocou o chão com a testa num gesto que reforçava os seus desejos, sendo seguido no gesto pelo marajá, como previa o protocolo.

Assim permaneceram por algumas horas. Um insinuava e o outro fingia que não havia compreendido. Esse era o jogo. Um bom negócio se baseava no quanto os negociantes se respeitassem pela esperteza e inteligência demonstrados durante a negociação. Hassan era um mestre nisso e o marajá deu por concluída a conversa, quando percebeu que as cartas não estariam em suas mãos, mas sim nas do homem a sua frente. Ele precisaria medir melhor as consequências disso.

— Muito obrigado pela maravilhosa tarde, senhor – disse Hassan fazendo o cumprimento de praxe.

— Eu que agradeço por sua presença em minha casa. Muito me alegrou conversar consigo. Nos falaremos em breve, com certeza – disse o marajá, retribuindo o cumprimento formal.

Hassan saiu e, enquanto atravessava os jardins do palácio em direção à sua carruagem que o esperava fora dos portões, pensou que devia dar início ao processo de descobrir o segredo da seda. Esse marajá era um homem esperto. Não tanto quanto ele, mas não devia ser subestimado. Escolheria uma das moças e marcaria a conversa com o seu pai para acertar as visitas pré-matrimoniais. Essa escolha teria que ter como base aquela que fosse a mais romântica e inocente. Para isso, seguiria a todas e obteria informações, utilizando os seus contatos.

Hassan: um homem calculista. O que lhe dava prazer era montar estratagemas para obter aquilo que desejasse. Sua mente ardilosa estava sempre em busca de desafios. Viveu assim até a sua morte, deitado em uma cama rica e trancado em seu quarto. Os criados só perceberam que ele havia morrido quando o seu corpo já estava em avançado estado de putrefação.

Determinação

A neve caia, abundante. Com os dois filhos presos ao seu corpo, ela caminha com dificuldade. Eles nasceram em meio a um inverno rigoroso. Ela sabia que se não os mantivesse presos ao corpo, eles morreriam. Assim, amarrou um nas costas e outro na frente do seu corpo e fazia tudo o que precisava com eles presos assim. Só os soltava quando lhes dava de mamar ou trocava-lhes as fraldas.

O período mais difícil foi durante os seis primeiros meses de vida. Ela tinha que soltá-los e amarrá-los de três em três horas porque choravam, exigindo comida. Ela os alimentava, um em cada seio, e depois aproveitava para limpar as suas sujeiras.

Não seria fácil, mas ela não desistiria. Seus filhos viveriam para serem grandes homens que fariam, daquele mundo, um mundo melhor. Ela ensinaria a eles as duas coisas mais importantes que aprendera com a sua mãe: respeitar o semelhante e ter força e determinação para viver e alcançar o que desejasse. Naquele momento da sua vida, o seu maior desejo era que seus filhos vivessem. Para isso, ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Isso incluía carregá-los presos ao seu corpo, pelo tempo que fosse necessário.

E assim foi. Ela os carregou até completarem um ano de vida quando, então, sentiu que eles poderiam seguir por si só. Quando tomou essa decisão, foi como se tivesse dado à luz a eles novamente.

Eles cresceram e, sempre que podiam, contavam a sua história para quem quisesse ouvir. Que a sua mãe os carregou para que sobrevivessem. Essa história passou de geração em geração e se transformou numa lenda que todos contavam, quando queriam falar sobre o que o amor de uma mãe é capaz. Que sejam todas elas, muito abençoadas!

Perda

Chorando, a menina diz:

— Não posso entrar lá.

Carinhosamente, Rosa fala: “Eu vou entrar na sua frente. Não tenha medo. Segure na minha mão. Vamos entrar juntas. Não vou largar a sua mão em nenhum momento”.

A menina olha para ela e, encontrando em seu olhar sinceridade, lhe dá a mão. Entram juntas na casa pintada de amarelo. Rosa vai à frente sabendo que, se não for assim, a menina não terá coragem de entrar. Passam por dois cômodos vazios e seguem pelo corredor que as leva até uma sala onde há muitas pessoas. Um corpo está sendo velado.

A menina aperta a mão de Rosa. Seu corpo todo treme. Abraçadas, aproximam-se de onde está o corpo e, no grito da criança, Rosa compreende.

—Mãe!

Agarrando-se a Rosa, a criança chora. Suas pequenas mãos estão tão firmemente agarradas à roupa da mulher que os nós dos pequenos dedos estão esbranquiçados.

“O quanto é grande a dor de uma criança”, pensa Rosa. São tão pequenos para aguentar tamanha aflição…

Com esse pensamento, Rosa a abraça mais forte com a intenção de dar a ela a certeza de que não está só. Conversa com a criança, explicando que o amor nunca morre e que ela sempre vai sentir a sua mãe pertinho dela. Que ela deve sempre se lembrar de que a sua mãe a ama muito e que sempre vai amá-la.

Olhando nos olhos da mulher, a menina se acalma. Para sempre se lembrará daquela mulher que, com o seu amor, salvou-a da dor permanente.

O peregrino

O homem sentou-se por um momento. Já não aguentava longas caminhadas. Sua túnica de tecido rústico de um tom avermelhado e suas sandálias de couro estavam cobertas de pó. Em seu alforje, que trazia atravessado ao peito, havia poucos pertences pessoais: uma pequena faca, um cantil com água, ervas de cura, que ele sempre renovava assim que as colhia frescas na beira da estrada, e um pequeno pedaço de pano branco para lavar o rosto e as mãos. O que mais necessitasse, encontraria nos abrigos para peregrinos.

“Que boa gente aquela”, pensou ele, “dando de comer e de dormir aos que fazem a peregrinação em busca de respostas ou, no meu caso, em busca do perdão.” Maltratara a muitos. Ferira inocentes e usou muito mal o poder que tinha. Era preciso muita caminhada e penitência para que ele sentisse que havia alcançado o perdão.

Seu estômago avisava que a hora do almoço chegara. Uma marca na estrada orientava que ele ainda estava no meio do caminho que o levaria até o próximo abrigo. Abriu o seu alforje e viu que nada tinha para comer. “Bem”, pensou, “encontrarei algo no mato”.

Levantou-se e penetrou na mata densa, vencendo os obstáculos das folhas com os braços e cuidando para não pisar em uma cobra ou cair em algum buraco. Seus ouvidos treinados escutaram um som distante de água corrente. Continuou a andar em direção ao som que escutara. “Sempre há peixes onde há água”, pensou, sentindo a sua boca salivar imaginando o peixe fresco assando na fogueira.

De fato, havia um rio que corria manso, mas era muito raso e ali não havia peixes. Ele se decepcionou, mas resolveu aproveitar a água limpa. Lavou-se e bebeu o quanto quis, enchendo o seu cantil. Depois, encostou-se numa árvore que havia ali para descansar um pouco se deliciando com o som da água que corria e com o ar fresco propiciado pela mata cerrada que impedia a forte ação dos raios solares. Na calma do lugar e olhando a água que corria, permitiu que a sua mente se enchesse de memórias. Houve um momento na sua vida em que já não pode mais ferir o seu semelhante. “Foi aquela criança”, lembrou-se ele.

Quando o seu olhar encontrou o olhar da criança cujo pai estava sendo castigado por não pagar os impostos, foi como se uma seta transpassasse o seu coração. Ela não chorava e não havia medo nos seus olhos, só uma profunda tristeza. Ele jamais esqueceria aquele olhar. O que estava lhe dizendo? Que ela tinha pena dele? Que ele, na verdade era um fraco?

Ele não sabia responder a essas perguntas, mas sentiu-se profundamente envergonhado do que havia mandado fazer. Subitamente, ordenou:

—Parem! Soltem esse homem.

Os soldados estranharam, mas obedeceram. Uma ordem de um superior não devia ser desobedecida, sob pena de prisão imediata.

Depois desse dia, nas noites em que conseguia dormir, a primeira imagem que vinha aos seus sonhos era a daquela criança com aquele olhar cheio de mensagens que ele não sabia decifrar.

Deixou tudo para traz. Vendeu tudo, guardou as economias que tinha, pediu baixa da sua patente e saiu pelo mundo. Soube daquele caminho, onde as pessoas alcançavam graças e se redimiam das dores.

Ali estava ele, buscando a paz interior e o perdão dos pecados. Não sabia se encontraria o que procurava, mas uma coisa ele já havia compreendido: um homem só precisa de um pano sobre o corpo, um bom par de sapatos para os pés, um cantil com água e boas pessoas que lhe deem abrigo e um prato de comida.

Emocionou-se com esse pensamento. Lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Primeiro devagar e, depois, como um rio que há muito tempo estava represado, elas caíram soltas e abundantes. Como uma criança, ele chorou e soluçou sentindo em seu peito uma dor que se assemelhava a de estar sozinho num buraco fundo e escuro, sem a esperança de luz.

Deitado na relva com o rosto entre as mãos, chorou todas as lágrimas guardadas por anos de isolamento. Fora uma criança maltratada pela mãe que cresceu sem conhecer o pai. Muito jovem, entrou para o exército. Toda a sua vida fora dedicada a lutar e a fazer cumprir a lei a qualquer custo. Galgara alto posto, mas não era feliz. Não tinha esposa e nem filhos. Não tinha para quem voltar. Esses pensamentos o fizeram chorar mais ainda.

Aos poucos foi se acalmando. Levantou-se, lavou o rosto na água fria do rio e deitou-se novamente, cansado e sem esperança. Um vento começou a soprar, balançando a copa das árvores e acariciando o seu rosto. “Estranho”, pensou ele, erguendo um pouco o corpo, “uma brisa repentina”.

Como respondendo ao seu pensamento, o vento soprou uma vez mais. Ele sorriu, tendo uma estranha sensação de que não estava só. Mais uma vez, o vento soprou como a confirmar o seu pensamento.

Agora ele já estava em pé, tomado por uma estranha alegria. Teve vontade de brincar como uma criança. Lembrou-se de uma canção de sua infância e começou a cantá-la. O vento soprava como se acompanhasse o seu movimento de girar enquanto cantava.

Era encantador vê-lo cantando e girando com o vento soprando a sua volta, fazendo um redemoinho com as folhas que lentamente subiam pelo seu corpo.

Ficaram assim por um bom tempo, ele e o vento, até que ele caiu no chão exausto, mas leve. Era uma sensação que ele nunca havia sentido. Um milagre havia acontecido. Disso ele tinha certeza. Havia dançado e cantado com o vento. Seguiria a sua jornada confiando que seus passos eram protegidos e, quando nada mais houvesse, ele chamaria o vento e tudo ficaria bem.

Vanirah

Felicidade. Alegria. Sensação plena de que a vida é um presente de Deus. Vanirah gira enquanto bate no pandeiro. Seu riso largo lembra um imenso céu carregado de nuvens brancas. Ela gira ao som da música e tem a sensação de que pode voar. Vez por outra, encontra o olhar de uma de suas amigas que, junto com ela, comemoram a passagem para a vida adulta.

Vanirah tem quinze anos, mas a sua sabedoria acumula muitas vidas. Seus pais a adoram. Sempre gentil e pronta a oferecer uma palavra amiga e um consolo a quem necessita; por onde ela anda, espalha a sua alegria.

— Que viva para sempre! – pede seu pai, num pensamento fervoroso, ao vê-la dançar com as outras ciganas de sua idade.

— Que encontre um belo amor que a faça feliz! – deseja a mãe, reparando que seu corpo já é de uma mulher.

A tribo toda está em festa. Mais meninas se tornam mulheres que, cheias da força feminina, farão do mundo um lugar melhor para se viver. Os rapazes olham-nas embevecidos. Não sabem por qual delas se apaixonar. Todas são lindas e alegres com uma energia que encanta a todos.

A noite cai. A fogueira é acesa e os pedidos de todos são queimados no fogo. Fazem assim para que eles rapidamente aconteçam. O fogo transforma e ilumina. Os homens se preparam para a guarda da noite e as mulheres cozinham a mistura de leite com aveia, favos de mel e especiarias, iguaria servida nessas ocasiões. Todos tomam a bebida doce que aquece e enleva os corações. Os casais dão boa noite, as crianças são recolhidas e os pais das meninas-mulheres cumprimentam-se desejando, mais uma vez, que o caminho de suas filhas seja claro e cheio de amor.

Vanirah pede a mãe que a deixe sentar-se no alto da grande pedra para apreciar a lua que, linda, brilha redonda no céu, antes de dormir. Sua mãe concorda. “Afinal, ela já é uma mulher”, pensa ela. Mas como mãe zelosa que é, enchê-a de recomendações para que se agasalhe e não se demore.

Vanirah sobe na pedra e olha diretamente para a lua. Seu coração está tão pleno de alegria que não contém a emoção. Num impulso, ela faz uma prece:

“Senhora de todos os homens, concedei-me a graça de reconhecer o melhor do meu semelhante. Concedei-me a virtude de proferir somente palavras de alento e de carinho. Que minhas mãos sirvam muito mais para o afago que para a luta. Que meus gestos sejam mansos e firmes. Que no meu caminho a tua força e luz brilhem, a fim de que eu saiba sempre para onde devo ir. Que os meus inimigos não tenham vitória em fazer-me o mal, mas sejam capazes de enxergar a tua luz que brilha em mim.
Que assim seja!”

Como em resposta à sua prece, uma estrela corre no céu e outra muda a sua luz, variando as cores. Em seu coração, Vanirah sabe que sua prece foi ouvida.

Isaac

O bom homem sempre se sentava na beira do poço. Gostava de ficar ali. Todos em algum momento do dia teriam que pegar água; então, ele poderia conversar um pouquinho com cada um.

Desde que falecera sua esposa, a boa Rute, Isaac não tinha mais com quem conversar. Seus filhos haviam saído pelo mundo. A cada seis meses, ele recebia uma notícia de um, outra notícia de outro. E assim era.

Ele não gostava de ficar sozinho e não queria importunar as pessoas. Por isso, ia à beira do poço e lá ficava. Quando era preciso, ele auxiliava uma senhora ou uma criança a pegar a água.

Com o tempo, ele passou a ser conhecido como Isaac do Poço. Quando alguém queria um conselho ou precisava de uma palavra amiga, lá ia ter com ele.

Para seu maior conforto, mandou construir um banco de dois lugares e o fixou próximo ao poço. Tinha sempre com quem conversar. Às vezes as pessoas iam até lá e voltavam para as suas casas porque ele já estava conversando com alguém e não havia hora para terminar a conversa.

E assim, as horas e os dias iam passando e Isaac estava feliz. Era útil e o seu tempo passava rápido.

A noite voltava para casa, fazia uma refeição leve com pão, queijo, azeitonas e uma taça de vinho. Já não tinha tanta fome e comer sozinho lhe tirava mais ainda o apetite.

Certa noite, ele já estava para se recolher quando ouviu batidas na porta. “Quem será a essa hora?” – perguntou-se. Atravessou o corredor em direção à porta e perguntou:

— Quem deseja?

— Perdoe-me, senhor, disse uma voz de mulher. Sou Ana, avó de Josias. Ele não está passando bem e insiste em vê-lo.

Abrindo a porta imediatamente, Isaac convidou-a a entrar.

— Deseja beber algo? Parece abatida. Sente-se um pouco e descanse.

A mulher agradeceu. Estava mesmo cansada. Subiu muito rápido até a casa dele e já não era tão jovem.

— Muito obrigada! Agradeço-lhe demais pela hospitalidade. Sinto muitíssimo importuná-lo, mas o meu neto, Josias, está delirando em febre e chama pelo seu nome. Desde que perdeu os pais, sou eu a responsável por ele. Ele é um menino muito bom, mas hoje se excedeu nas tarefas debaixo do sol. Já não posso trabalhar como antes e ele precisa fazer quase tudo. É apenas um menino de nove anos, mas é muito esperto o meu Josias– podia se ver um sorriso em seu rosto ao dizer essas palavras.

— Bem, fico feliz que seu neto lhe seja de tão boa ajuda. Tenho certeza de que também é uma boa avó para ele. Mas o que posso fazer pela senhora?

— Desculpe-me uma vez mais… Quase não falo com ninguém e quando encontro tão bons ouvidos, o que é raro, não paro de falar. Veja, lá vou eu novamente. Mas agora deixe-me dizer. O meu neto está febril e chama pelo seu nome. Ele fala sem parar no senhor. Então, pedi a uma vizinha que o olhasse para mim e vim procurá-lo, apesar da hora que já lá se vai avançada.

— Bem, disse Isaac compadecido da mulher, vou acompanhá-la de volta à sua casa e lá veremos do que se trata.

Desceram juntos, caminhando lado a lado, em direção à casa da senhora Ana. No caminho, ele lhe fez perguntas sobre a saúde de Josias, se um médico já havia sido chamado e outras coisas mais. Ela respondeu a todas as perguntas com riqueza de detalhes e, quando deram por si, já haviam chegado à casa.

— Passou rápido, não é mesmo, disse Ana

— Sim, concordou Isaac, quando temos boa companhia o tempo corre mais depressa.

Ana corou levemente com o elogio. Desviando o olhar e bateu na porta, anunciando que chegara. A vizinha abriu e ela entrou, seguida de Isaac.

— E então, minha amiga, perguntou Ana, como está meu neto. Trouxe comigo o senhor Isaac, que Deus o abençoe pela generosidade.

— Como vai senhor, cumprimentou a vizinha. Muito obrigada por ter vindo. Ana estava muito preocupada. Agora o menino está dormindo e parece que a febre cedeu.

Ana abriu um largo sorriso e disse:

— Deus seja louvado, que alegria! – e abraçou a mulher, que retribuiu o abraço.

Do canto da sala, Isaac olhou mais atentamente para Ana e pensou:

— Eis aí uma boa mulher. Apesar do perigo, venceu o seu medo para buscar ajuda para o seu neto. Esse pensamento o levou para a sua Rute, trazendo-lhe um sentimento de saudade que logo foi espantado pelas palavras de Ana

— Senhor Isaac, veja que felicidade. O meu Josias já está melhor. É um milagre que atribuo a sua generosidade e a sua presença. Muito obrigada, mais uma vez. Por favor, sente-se. Vou fazer um chá e servir-lhe um pedaço de pão feito por mim mesma ainda esta tarde.

— Preciso ir, cara Ana.  Meu marido já deve estar preocupado – disse a vizinha, e virando-se para Isaac: Até logo, senhor.

Isaac levantou-se e respondeu:

—Até logo, senhora.

Quando se viram a sós, um clima de constrangimento pairou na sala, sendo logo quebrado por Isaac.

— Bem, senhora Ana, devo me retirar. O seu neto já está bem e a senhora está a salvo em sua casa.

— Não, não. Por favor, sente-se. O chá logo ficará pronto e o senhor precisa experimentar o pão que faço. É uma receita muito antiga, passada na minha família de geração a geração.

A simpatia da mulher, juntamente com o quanto ele gostava de uma boa conversa, fez com que ele se sentasse novamente. Comeram, beberam o chá e conversaram sem parar. Um assunto levava a outro; assim, o bule de chá foi sendo esvaziado e alguns poucos raios de sol já surgiam no céu escuro. Ambos se espantaram com o passar das horas sem que nenhum dos dois notasse.

— Bem, senhora Ana. Creio que pelo adiantado da hora, vou direto para o meu banco ao lado do poço.

Os dois riram da brincadeira e Isaac saiu, dando-lhe até logo com certa dor no coração.

Naquele dia, ele voltou ao banco que ficava ao lado do poço mas, no dia seguinte, não foi e no outro também não.

Conta-se que agora ele passeia com a senhora Ana todas as tardes. Juntos, vão ao mercado e à sinagoga. Outro dia, correu a notícia de que ele a pedira em casamento e que ela aceitara. Os que vão ao poço buscar água, sentam-se para descansar no banco do Isaac do Poço, lembrando de suas histórias e dando uma pausa para o devaneio e a contemplação. Pois não é para isso que servem os bancos colocados ao ar livre?

Amidalah

Amidalah caminha apressado, atravessando o jardim de sua casa. Apesar da tarde quente, o caminho que o leva até a entrada da casa é agradável graças à maravilhosa engenhosidade do seu povo que aprendeu a cultivar plantas e folhagens, garantindo o frescor que vem delas. O seu povo era conhecido por propiciar boa estada aos hóspedes, e ela começava pela entrada das casas. Amidalah sorri, orgulhoso daquele pensamento enquanto caminha.

Ele era um comerciante bem sucedido. Não tinha muita riqueza, mas seu negócio de tecidos prosperava. As pessoas de todas as raças o conheciam e ele sabia como tratar a todos para se fazer agradável, conseguindo sempre boas vendas. Aos árabes possibilitava a barganha e aos judeus, descontos. Aos seguidores do Cristo, oferecia uma bebida para refrescá-los e ouvia-lhes as histórias antes de conversar sobre negócios. Essa estratégia sempre funcionava. Amidalah pertencia a um povo que adorava contar as suas histórias.

Para ele, o melhor de tudo era que todos viviam em harmonia. Todos tinham o seu Deus que era o mesmo Deus. Davam-lhe nomes diferentes, mas todos sabiam que se tratava do mesmo Deus. Para ele, Alá, O Único, O Onipresente, O Verdadeiro Deus a quem ele prestava homenagens em vários momentos do seu dia, colocando sua testa no chão.

Estava ansioso. Mandaram-lhe chamar. Sua mulher, Mirnarah, estava dando à luz ao seu terceiro filho. Outro homem, pensou ele. Que Alá seja louvado!

Com esse pensamento, ajoelhou-se no chão e com a testa tocou o solo em reverência ao pensamento que teve. A serva já vinha em sua direção.
— Outro menino, Senhor, outro menino!

Amidalah ajoelhou-se novamente no chão e, com voz embargada pelas lágrimas, agradeceu recitando poemas em louvor a Alá. Ficou ali alguns minutos. Quando se levantou, seu rosto mostrava a face da felicidade. Como um filho homem é bem-vindo. Mais um filho para honrar seu nome, preservá-lo e seguir com os seus negócios. Ele já podia morrer feliz. Três filhos. É muita sorte para um homem. As pessoas de seu povo encheriam a sua loja. Comprar de alguém tão afortunado assim trazia boa sorte. Sua fama correria a cidadela e as outras pessoas viriam nem que fosse por curiosidade. Esfregou as mãos de tanto entusiasmo e entrou na casa aos gritos:
— Mirnarah, Mirnarah, minha amada e adorada esposa. Dar-te-ei mais joias do que o seu braço vai conseguir carregar. Para cada dia do ano terás uma joia que eu mesmo mandarei talhar. Juro-te por Alá, minha amada.

Enquanto andava em direção ao quarto de sua mulher, ele falava:
— Digo em voz bem alta para que todos sejam testemunhas. Que Alá me fulmine se eu não cumprir com a palavra empenhada em nome Dele.

Quando estava próximo à porta, ouviu um choro fraco de criança. Seu filho!
Bateu na porta. Amidalah era um homem respeitoso. Ele não invadiria os aposentos de uma mulher que houvesse acabado de ter um filho, nem que sua mão direita fosse cortada. Aguardou ansioso para que a abrissem. Finalmente, a serva abre a porta.
— Entre, meu senhor. A senhora já pode recebê-lo.

Amidalah desejou que sua aparência fosse a melhor possível. Nestes últimos meses, vira sua esposa apenas de longe. Não era bom que o marido visse sua esposa nos últimos meses de gravidez, para não lhe criar nenhum constrangimento. Era prudente manter-se afastado. Uma mulher que espera um bebê deve ficar em paz e maridos podem fazer com que as esposas grávidas percam a paz, prejudicando o nascimento dos filhos.

Ao entrar no quarto, Amidalah percebeu o quanto sua esposa havia feito falta para ele nesses últimos tempos. O quanto o seu carinho e palavras de conforto eram abençoados e o quanto ele a amava.

Negociara casar-se com ela porque sentiu em seu peito, desde a primeira vez que a vira, um sentimento nunca experimentado. Era esse mesmo sentimento que aflorava agora que ele a via diante dele, deitada na cama. Como era bela. Que belo cabelo, longo e negro, e que pele clara e olhos brilhantes ela tinha. Sentiu o desejo invadir o seu corpo e imediatamente afastou esses pensamentos. Aquela não era hora para isso.

Mirnarah estendeu seus braços para ele que, sentando-se à beira da cama, abraçou-a desejando que esse gesto mostrasse a ela o quanto a amava. Em seguida, retirou um pequeno embrulho da faixa que trazia à cintura, entregando-o a ela.
— Que bela joia, querido esposo. Muito obrigada – disse Mirnarah com voz emocionada.
Em suas mãos, um lindo pássaro em ouro com olhos de esmeralda brilhava.
— Ela será a minha joia da sorte porque me foi dada no dia mais feliz da minha vida. Hoje completo três filhos homens que farão a alegria e a prosperidade da nossa casa.
— Dar-te-ei uma joia durante todos os dias deste ano, até que chegue esse mesmo dia no próximo ano, como prova da minha alegria e do meu amor – diz Amidalah num tom firme de quem empenha a palavra.

Mirnarah enlaça com seus braços o pescoço de seu marido, pensando no que teria ela feito em outra vida para ser tão feliz nesta.

Augustine

Por todo o lado, o cheiro da morte está no ar. “Isso só pode ser castigo” – pensa a freira, enquanto se dirige ao hospital. Ouvira falar que pessoas doentes estavam sendo instaladas nas igrejas. Não havia mais lugar nos hospitais, nem nas casas de saúde.

Irmã Augustine se apiedara daquela gente que, mesmo sofrendo, cantava e rezava. No caminho para o hospital, ela podia ouvir suas orações.

Não havia muito o que pudesse ser feito. Aqueles que ficavam doentes tinham pouca chance de sobreviver. A peste não poupava ninguém. A ela cabia levar alento, fazer compressas para baixar a febre e alimentar aqueles que ainda podiam comer.

O hospital estava repleto de doentes. Os corredores cheios de camas. Pessoas gemendo e gritando, pedindo ajuda. Eram tão poucos para atender a tantos…

Augustine fazia o que podia, mas naquele dia não estava bem. Sentiu uma leve tontura ao caminhar em direção ao hospital, mas atribuiu isso ao dia quente e ao odor forte das ruas por onde trafegavam as carroças cheias de corpos que seriam queimados e enterrados.

Sentindo-se fraca após cuidar de alguns doentes, ela vai até a porta em busca de ar fresco. A última imagem que vê são as nuvens brancas no céu azul.

Em seu delírio, ela vê uma menina de cabelos brancos e escuta um nome: Zúria. Ela lhe estende a mão, encontrando conforto e paz.

Huntah

Huntah vivia nas terras geladas e juntara-se à tribo porque, para ela, não havia mais esperança na aldeia em que vivia. Enxotada pelo povo por fazer intrigas e colocar em risco a segurança dos moradores, ela pedira asilo ao líder dos ciganos, Tirê, que a aceitou, porque se apiedara dela e confiara que entre eles, ela aprenderia algo que a levaria para a luz.

Não era bonita. Seus traços eram grosseiros e seu corpo opulento. Para ela, nunca havia tempo para as tarefas diárias. Sempre tinha uma desculpa e todos a toleravam porque o seu líder, Tirê, havia pedido que tivessem paciência com ela e eles o obedeciam porque o amavam.

O maior sentimento que Huntah nutria era a inveja. Invejava a beleza das mulheres da tribo e o colorido das suas vestes. A cada dia ela se fechava mais nos seus sentimentos escuros, criando à sua volta uma nuvem de energia que afastava as pessoas.

Certo dia, Vanirah foi buscar água no rio quando sentiu a presença de alguém. Olhou a sua volta e seu olhar encontrou um pouco distante dali a mulher que Tirê havia aceitado na tribo.

Vanirah nunca havia conversado com ela, mas ao perceber que ela também a havia visto, deu-lhe um aceno de mão amigável. A mulher não retribuiu ao aceno e baixou novamente a cabeça. Vanirah estranhou. Não estava acostumada a que não lhe respondessem a um aceno de mão e pensou que talvez a mulher não estivesse se sentindo bem.

Resolveu aproximar-se. Quando estava próxima, sentiu uma estranha energia que reconheceu ser muito diferente da sua e pensou: “Essa mulher está doente”.
— Senhora, disse, necessita de ajuda?

Huntah levantou a cabeça e respondeu:
— Não lhe respondi ao aceno, porque não desejo falar com ninguém.

Vanirah chocou-se com a resposta, mas teve a confirmação da enfermidade da mulher. Então disse:
— Perdoe-me, não quis incomodá-la, mas percebo que a Senhora não está bem.

Huntah olhou novamente a jovem cigana. Tão bela e doce. Suave como a brisa que soprava. Sua intenção em ajudá-la parecia verdadeira. “Pois bem, vamos ver o que essa pequena criança pode fazer por mim”, pensou Huntah, desdenhando.
— Será que você pode mesmo me ajudar? Você tem um corpo bonito para me dar? Ou um rosto claro e belo? Ou será que você teria aí um pouco de graça para a dança. Não, imagino que não. Então, até logo – finalizou com um tom de agressividade.

Vanirah respondeu:
— Engana-se! Tenho tudo isso para lhe dar, desde que a Senhora faça o que eu lhe disser.
— Mas ora, vejam só. A menina é petulante. E o que devo então fazer, na sua opinião?

Magia da Beleza

Na noite de Lua Cheia, em meio à natureza, dispa-se, jogue a roupa bem distante de você e banhe-se com uma água na qual deve haver pétalas de flores vermelhas e essência de almíscar.

Após banhar-se, levante os braços para o alto e diga: Que a força da natureza esteja em mim. Que eu seja contaminada pela beleza das flores e dos pássaros. Que em minha vida só haja luz e bons pensamentos e que o melhor para mim aconteça”.

Em seguida, queime a roupa e vista-se com uma túnica branca. Volte para a sua carroça, tome um chá de flores brancas e durma.

Huntah não acreditou no que ouviu. A menina estava lhe dando uma receita de como ser bela e bastava que ela seguisse essa receita?
— Isso eu quero ver, respondeu Huntah. Quando faremos?
— Vou prepará-la para esse dia e, na próxima lua cheia, faremos – respondeu Vanirah.

Vanirah passou a visitar Huntah todos os dias. Sua presença e carinho, aos poucos, foram penetrando no campo de força dela, modificando a sua energia.

Passado algum tempo, Vanirah concluiu que Huntah já estava pronta.
Huntah, sem que percebesse, já estava mais bonita. Sua energia já não era tão ácida e seu corpo havia mudado com as constantes caminhadas que Vanirah impunha a ela, como parte da preparação para o grande dia. Quando a Lua cheia chegou, foram para a floresta.

Vanirah juntou às palavras de Huntah todo o seu desejo de que ela fosse feliz e se libertasse dos seus recalques e pensamentos ruins.

No dia seguinte, Huntah acordou e encontrou na beira de sua cama um lindo xale colorido, presente de Vanirah. Correu para olhar-se no espelho. A imagem que viu chocou-a. Quem era aquela mulher? Seu rosto era o mesmo, mas a sua pele estava mais clara e seu nariz já não parecia tão grande. Seus olhos estavam brilhantes e seu cabelo sedoso.

Lágrimas brotaram dos seus olhos e ela sentiu em seu coração uma emoção até então desconhecida. Mais tarde, conversando com Vanirah, ela soube que era gratidão.

O Ferreiro

O som do martelo batendo na bigorna causava nele uma sensação única. Era como se o martelo, a bigorna e ele fossem um só. Há anos era ferreiro. Havia herdado esse ofício de seu pai, que herdara de seu avô, que herdara do pai dele.

Vonsés não sabia o quanto essa linhagem era distante. O que ele sabia é que, desde sempre, os homens da sua família ferravam animais e forjavam espadas.

Naquele dia, porém, ele havia ficado curioso e de certa forma impressionado com o cavaleiro que o visitara. Ele chegou montado em seu cavalo, um animal fabuloso, forte e garboso como era o próprio cavaleiro. Ao descer do cavalo, Vonsés pode ver que ele era alto, moreno e forte.

Com um sotaque carregado, que Vonsés não reconheceu a procedência, pediu-lhe que forjasse uma espada leve e de bom corte. Tendo dito isso, pagou-lhe adiantado pelo trabalho, pedindo urgência na confecção.

Vonsés já ia dizer que tinha muito trabalho e que a espada que o cavaleiro lhe pedia havia de demorar a ficar pronta, mas vendo a urgência na voz do homem e diante do saco de moedas, calou-se. Agora estava lá, altas horas da madrugada, batendo o ferro.

Os vizinhos já estavam reclamando. Mas o que fazer? Havia prometido que em três dias faria a espada e ele não era homem de descumprir um trato.
— Que aguentassem, pensou ele, levantando os ombros.

Com parte do dinheiro que recebera pela espada, faria um bom almoço e convidaria seus vizinhos para saboreá-lo. Sua amada Virna era prendada nas artes da cozinha e não faria feio. Todos se alegrariam e esqueceriam as noites mal dormidas por conta do bate-bate do martelo.

O fio da espada já estava quase no ponto. Era preciso bater com cuidado, caso contrário, todo o serviço estaria perdido. Seu pai o havia ensinado que é preciso sentir o ferro. Que ele se molda na mão quando tratado com gentileza e suavidade. A cada batida, devemos fazer uma prece por aqueles que a espada ferirá. Quem forja a espada é responsável por ela, e para que o ferreiro que a fez não carregue os espíritos dos que morrerão através dela, ele deve buscar o perdão da espada. Isso era o que levava mais tempo, mas era preciso fazer. O seu pai lhe contara longas histórias de ferreiros que morreram misteriosamente, e cujas almas ficaram a vagar sem saber para onde ir.

Bem, com isso não se brinca e ele é que não iria duvidar de uma tradição tão antiga. Honraria seu pai e todos os seus antepassados, fazendo uma espada que, ao final, não teria a sua energia, mas sim a energia de quem a empunhasse. Esse que acertasse, por ele mesmo, as contas com Deus.

A última martelada soou. Vonsés aproximou o ouvido do metal e escutou por um tempo. O silêncio foi a prova final. A espada estava pronta.

Cansado e dolorido do esforço físico, lavou-se e foi deitar-se. No dia seguinte o cavaleiro estaria lá bem cedo para buscar a sua espada que, graças a Deus, estava pronta.

O sol estava nascendo quando o cavaleiro se aproximou da casa do ferreiro. Ele já havia ouvido falar naquele homem. Sabia que ele tratava a espada da forma correta. Poucos faziam o ritual de purificar o metal. Essa forma antiga e cheia de magia estava se perdendo. Mas ainda havia esse ferreiro, que haveria de servir a cavaleiros como ele por muito tempo. Com esse pensamento, o cavaleiro curvou a cabeça dizendo em voz baixa: “Que assim seja!”

O ferreiro saiu da casa cumprimentando o cavaleiro. Em suas mãos via-se um embrulho feito com couro curtido de um animal que o cavaleiro não reconheceu. Pegando o pacote, desenrolou-o, segurando a espada com as duas mãos.

Assim que a teve em suas mãos, afastou-se do ferreiro e se ajoelhou, virado para o sol que nascia. Fincou a espada na terra, abaixou a sua cabeça e assim ficou.

O ferreiro ficou parado, mudo e sem mexer nenhum músculo do seu corpo, com receio de interromper o cavaleiro que parecia estar rezando. De fato, o cavaleiro devia estar fazendo o seu ritual antes de empunhar a espada. Isso ele sabia bem o que era e o que significava.

Quando o sol já havia clareado o dia, o cavaleiro levantou-se, agradeceu o ferreiro, montou em seu cavalo e partiu. Vonsés ficou olhando o homem até que a sua vista não pode mais vê-lo. Um pensamento lhe ocorreu:
— Deus permita que esse homem não precise matar, mas se tiver de fazê-lo, que seja por uma causa justa e para o benefício de muitos.

De dentro da casa, Virna o chamava para o café da manhã. Mais um dia começava.

Thiago

Com um graveto, o homem desenha figuras na areia. A suave brisa do mar sopra a areia e apaga os desenhos que ele torna a desenhar, enquanto fala.

Thiago fica curioso e se aproxima. Seu irmão João e os outros companheiros de pesca estão em torno dele. Quando está mais próximo do grupo, o homem se vira para ele e sorri.

Thiago é tomado de um sentimento estranho. Esse homem sorriu para ele. Os homens quando se conhecem não sorriem uns para os outros. Ao contrário, olham-se sempre sérios, demonstrando força. Mas esse homem lhe deu um sorriso. Thiago fica por um momento paralisado sem saber o que fazer. Após um segundo de perplexidade, ele balança a sua cabeça como resposta, permanecendo sério.

Desviando o seu olhar de Thiago, o homem continua a história que estava contando. Conforme vai falando, desenha figuras na areia.

Thiago escuta a história quando ela já está pelo meio, mas a narrativa o prende.
O homem fala de um comerciante muito rico que juntava as riquezas que obtinha, sempre pensando que um dia as gastaria. Então, ele morreu sem nunca ter usado nada do que ganhou. Seus parentes, ao contrário, gastaram tudo em pouco tempo, sem valorizar o que foi ganho à custa de muito trabalho. O homem finalizou a história, dizendo:

— De que vale acumular riquezas se não podemos tornar a nossa vida melhor de ser vivida, usufruindo delas? De que vale trabalharmos tanto se logo morreremos sem ter experimentado o que é banhar-se neste mar quente e reconfortante?

Dizendo isso, largou o graveto que usava para desenhar e disse:
— Venham todos, vamos nadar. E se atirou no mar, rindo e espalhando água para todos os lados.

Fazia um calor intenso. Thiago olhou para seus companheiros que, olhando uns para os outros, disseram:
— Se formos todos, ninguém há de dizer nada.

Assim, mergulharam todos na água do mar que, de verdade, estava maravilhosa.
As pessoas que estavam por ali lançaram olhares: uns, de perplexidade; outros, de reprovação e outros ainda, de divertimento. Mas a verdade é que, naquele dia, Thiago sentiu crescer em seu coração um sentimento especial por aquele homem alegre e bem humorado, o qual seguiu até o final dos seus dias.

Deodato

O canavial era muito grande. Até onde a vista alcançava, via-se a cana despontar por entre a folhagem que feria como uma navalha a pele dos negros que, há horas, cortavam a planta, amarrando-a em grandes feixes para depois transportá-la para a moenda e fazer a rapadura. Ali também havia negros impulsionando a moenda, mexendo grandes tachos e fervendo o líquido extraído da cana.

Mexer o tacho era o pior trabalho. Depois que a água evaporava, formava-se uma massa densa que continuava fervendo e formando bolhas que espirravam, queimando a pele.

A negra mexia o tacho procurando esquivar-se das bolhas que estouravam. Ela adquirira uma prática interessante para não se ferir no manuseio das colheres de pau usadas para mexer o tacho. Revestia o seu braço com grandes folhas de bananeira que eram amarradas por cipós. Isso a livrava das queimaduras nos braços, mas não protegia o resto do corpo. O tacho era muito grande e o fogo ateado a sua volta podia fazer arder a roupa de um escravo desavisado. Muitos tiveram queimaduras horríveis mexendo o tacho da rapadura, que os levaram à morte.

Subitamente, ela ouviu o seu nome sendo chamado por um grito distante. Era um dos negros do canavial. Mas o que teria acontecido de tão grave para que um negro deixasse o trabalho àquela hora do dia para ir chamar por ela? Sentindo a tensão endurecer o seu corpo delgado e forte e sem titubear, ela largou a enorme colher de pau que usava para mexer o tacho no chão de terra batida e correu para a porta.

— Venha Cínara, corra. Deodato está sendo espancado pelo feitor, que pode matá-lo de tanta pancada! – disse o negro, afogueado com a corrida.

Ela correu como nunca havia corrido antes. Se perdesse o seu amor, ela morreria juntamente com ele. Quando se aproximou do tronco, viu uma massa disforme, sangrando. O feitor, possuído por um espírito ruim, batia sem ver que o homem que ele espancava estava desacordado e não sentia mais nada.

Com a fúria de uma mulher apaixonada, ela se colocou à frente do feitor quando ele estava prestes a dar mais uma chicotada, gritando:

— Pare! Ele está morto!

O feitor olhou nos olhos da negra à sua frente e voltou à realidade. O que ela estava dizendo?

— Saia da minha frente negra! – disse ele empurrando-a para o lado.

E foi então que ele viu o corpo ensanguentado à sua frente. Isso não era bom. Se esse negro tivesse morrido, ele teria que prestar contas ao Coronel. Já matara outros três da mesma maneira e tinha pagado essa perda com o seu salário. Desta vez, o castigo seria pior.

— Tire-o do tronco. Vamos! – ordenou o feitor aos seus capatazes.

— E você, negra, cuide dele. Se ele morrer, vou acertar as contas contigo! – essas últimas palavras foram ditas com o chicote apontado para Cinara.

Quando o corpo foi retirado do tronco, Cinara ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Colocou-o deitado em seu colo, enquanto os capatazes traziam água para lavar os ferimentos a mando do feitor. Trouxeram também uma pasta que era usada para ajudar na cicatrização dos ferimentos que provocava uma dor horrível, mas impedia que eles infeccionassem e levassem o castigado a uma morte horrível, após uma febre intensa.

Ela chamou por ele, beijou-lhe o rosto e lavou as suas feridas devagar, ali mesmo no chão do terreiro. Os outros negros cantavam em volta dos dois, pedindo aos deuses que tivessem piedade deles. Deodato não respirava mais. Lentamente, o seu corpo foi perdendo o calor que denuncia vida. Todos já sabiam que ele morrera, mas ela ainda cuidava dos ferimentos como se, assim, ela pudesse fazer com que ele voltasse à vida.

Antes de começar a passar a pasta nas feridas, conversou como se ele ainda vivesse, dizendo que o remédio ia doer muito, mas que seria bom para ele. As lágrimas corriam pelo rosto de Cinara, e ela cuidou de cada ferimento. Quando terminou, pediu uma camisa limpa. Ajudada pelas outras mulheres, vestiu o corpo dele pela última vez.

Quando as chamas subiram, queimando o corpo que ela tantas vezes amou, podia-se da casa grande ouvir os seus gritos e o seu choro desesperado, compadecendo as mulheres que lá viviam.

A dor que ela sentia era forte demais. Foi quando Cinara percebeu, com muita força, a presença dele ao seu lado e confortou-se. Ele viveria para sempre no coração dela.

Do outro lado, ele sorriu. Ela sentira a sua presença. Tudo ficaria bem, agora.

Galileu

O lugar era escuro e fétido. Ele podia escutar os pingos de água que caiam em intervalos regulares, provocando um som ritmado ao caírem na pedra que cobria o chão sujo e escorregadio.

Muito acima da sua cabeça, via-se uma pequena janela por onde entrava um pouco de claridade que iluminava muito mal o calabouço onde ele se encontrava. Estava preso há muitos dias. Os magistrados não chegavam a uma conclusão sobre a sua sentença.

Ele era um homem de posses e muito conhecido pelo seu conhecimento das ciências e das artes. Um teórico, diriam uns. Um cientista, diriam outros. Ele mesmo não sabia quem era, sabia apenas que em sua mente havia muitas perguntas e poucas repostas.
Sempre fora curioso e essa característica havia feito com que, desde menino, construísse engenhocas, desafiando seus amigos a experimentarem-nas. Muitas pernas e dedos foram quebrados nestas tentativas heroicas, mas ele não desistia. Fora assim que construíra para sua mãe um sistema de captação da água do rio que desaguava em uma cisterna ao lado da casa.

Isso havia facilitado demais o trabalho dela. Com o tempo, foi contratado para construir esse mesmo sistema em outras casas – o que lhe trouxe fama e dinheiro. Lendas corriam: ele era um bruxo poderoso e tinha pacto com o demônio.

Depois vieram outros pequenos inventos dos quais mal se lembrava. O fato era que dessa vez desafiara a Igreja Católica com as suas afirmações. Isso eles não tolerariam.
Pois bem, pensou ele, se retrataria sem problemas. Não era uma questão de certo e de errado. Era o que era, e mais tarde ou mais cedo, eles teriam que se render aos fatos: a Terra era redonda.

Galileu ajeitou-se como pode ao ouvir os passos que vinham em direção à sua cela. A porta abriu-se, dando passagem ao magistrado.

— Chegou-se a um veredicto! – comunicou o magistrado. Concluíram que, se o senhor se retratar, será solto e perdoado. O que me diz? Perguntou, com certa impaciência na voz. Esse julgamento estava tirando o seu sono e não era para tanto. O que tinha demais saber se a Terra era redonda, quadrada, ou seja lá o que fosse? Esse homem era um lunático e pronto!

Galileu sorriu e respondeu:

— Concordo plenamente, senhor. Foi através de um delírio meu que sonhei que a Terra é redonda. Tudo não passou de mera fantasia, essa que é a verdade. Vamos lá então. Direi isso publicamente.

Diante de todo o júri e das pessoas que assistiam ao julgamento, ele disse:

— Por minha honra e pela honra de minha família, juro que a Terra não é redonda. Quando afirmei isso, estava delirando, tomado por uma noite mal dormida em que sonhamos absurdos que nos parecem verdade.

O júri sorriu aliviado. O clérigo presente relaxou na cadeira e o magistrado, batendo com o martelo na mesa, deu por encerrado o julgamento.

Ao sair para o dia claro, Galileu caminhou de volta à sua casa, apoiado pelo seu servo. Enquanto caminhava, bateu levemente no ombro de seu criado e disse:

— Sabe de uma coisa, Venâncio. Apesar de ter jurado por mim e pela minha família, arderei no fogo do inferno por perjúrio porque, de fato, a Terra é redonda.

O criado tremeu diante das palavras de seu Mestre e benzendo-se para afastar o mal, disse:

— Senhor, não fale mais isso. Se vos ouvem, voltarás para o calabouço e desta vez não haverá jura que o solte.

— Não tema, meu amigo, todos agora me tomam por um arauto de invencionices tolas. Sou agora desacreditado. Hora digo uma coisa e depois desminto o que acabei de afirmar. Quem vai acreditar em mim daqui para frente? Estou condenado à descrença, Venâncio. Para sempre.

Galileu mergulhou no seu trabalho, registrando todas as suas conclusões. Muito pouco saiu de casa depois do julgamento que o transformou em um homem desacreditado. Mais tarde, seus escritos serviram de base para o aprofundamento de vários estudos astronômicos.

Lucia bate a roupa na pedra. Os lençóis de linho precisam estar imaculados. É assim que ela gosta deles. O sol está quente. Daqui a pouco, será a hora do almoço e ela voltará para o acampamento para alimentar o seu filho único que ficou brincando com as outras crianças da tribo, enquanto ela ia até o rio lavar a roupa.

Ouvindo o trotar de um cavalo, ela levanta o rosto e vê o cigano Toráh. Ele desce do animal e caminha na direção dela. No rosto dele, ela vê a marca da tristeza. A roupa escorrega das suas mãos e um grito sai da sua garganta.

— Meu filho!

Diante de Zúria, ela pede a morte. Nenhuma mãe que perde o seu filho deve manter-se viva. A Sacerdotisa, com a voz carregada de amor, lhe diz:
— Se não queres mais a vida, toma a minha. Se não tens mais fé, usa a minha. Ficarás ao meu lado para que tomes o que é meu para que seja teu.

Por dias, ela fica ao lado de Zúria. A ferida aberta, lentamente se cura no colo da mãe.
Quando ela volta para a tribo, é uma mulher mais forte e mais sábia.

Sephi

Está muito escuro. O cavaleiro continua andando apesar da dor que sente no corpo todo. Ele sabe que a dor não é só física. É uma dor na alma. O seu peito parece que vai explodir pelo esforço, mas ele precisa continuar. Dessa vez, nada vai impedi-lo de alcançar a saída. Já tentara muitas vezes, sempre desviando o seu caminho, dando ouvidos a uma oferta sedutora ou a um apelo dolorido. Dessa vez, porém, nada o tiraria do seu objetivo.

Por entre a densa folhagem que por vezes corta o seu braço e fere os seus pés, ele continua em frente. Tropeça, cai e machuca o rosto numa pedra. A face sangra, mas ele continua. As vestes estão em farrapos e o cabelo emaranhado, mas ele não para. Algo maior o guia. É a sua definição. Ele deu um basta em tudo. Não machucaria mais ninguém, não seria mais marionete de nenhum senhor cruel. Não sacrificaria mais seres humanos como um animal enraivecido e não tiraria mais a felicidade das pessoas.

Estava acabado!

Só a morte o deteria e, mesmo assim, ele voltaria exatamente para o ponto em que parasse. Então, nem mesmo ela, a morte, tão desejada em alguns momentos, era bem vinda agora. Ele só tinha a si próprio e estava decidido. Por ele e pela sua sanidade de alma não voltaria mais. Sequer olharia para trás para que não corresse o risco de titubear. Dessa vez usaria a sua força de cavaleiro para realizar a maior de todas as travessias: aquela que nos leva do mundo das trevas para o mundo da luz.

Sabia que no começo sentiria um desconforto. Não estava acostumado. Mas sabia que encontraria ajuda e, se ela não aparecesse, ficaria lá pelo tempo que fosse necessário até que alguém se apiedasse dele e o ensinasse a como ser do outro lado.

A mata ficava cada vez mais densa. Um pavor indescritível tomava conta do seu ser, mas ele conhecia o jogo. Ou era pavor ou era sedução. Ele não se deixaria conduzir por nenhuma dessas armas. Quando não as conhecemos, é difícil vencê-las mas, para ele, elas eram velhas conhecidas e estava cansado. Não queria mais nada daquilo. Queria ser feliz e calmo. Desejava paz e experimentar o que significava possuir o olhar claro que tantas vezes vira nas vítimas que passaram pelas suas mãos.

Ele estava exausto. Se não fosse merecedor de encontrar o caminho, ficaria ali e morreria sufocado pelas plantas rasteiras e venenosas que abundavam pelo caminho.
Subitamente parou levado por um pensamento: “Por que não olha para o alto?”.

Esperou um momento, antecipando a visão que teria. Saboreou cada movimento lento de sua cabeça erguendo-se para cima. Fez isso com os olhos fechados,
propositalmente. Iria abri-los quando a sua cabeça já estivesse totalmente levantada.
Ainda de olhos fechados, sentiu um calor no rosto e viu que uma luz incidia sobre ele.

Era a luz do sol. Manteve os olhos fechados, sentindo o calor do sol sobre o seu rosto. Permitiu que aquele calor percorresse todo o seu corpo. Depois levou a mão ao rosto e acariciou a sua face machucada. Sentiu um amor imenso por ele mesmo, como se estivesse se perdoando. Ficou assim por um tempo que lhe pareceu alguns segundos, mas que tiraram dele a dor física e espiritual. Quando abriu os olhos, ele era outro em outro tempo e outro lugar.

Acmella

A doce senhora atravessava o gramado em direção ao canteiro de ervas. Ela adorava quando o vento trazia o aroma das plantas, antecipando a visão do canteiro. Era como se, assim, ela se preparasse para o mágico encontro com as ervas. Sua mãe, e antes a sua avó, e antes ainda a mãe da sua avó, haviam feito este ritual: primeiro o pensamento intuído, depois o aroma e em seguida a colheita. Esse ritual era muito antigo e pertencia às mulheres da sua linhagem há séculos. Era passado de uma para a outra, em segredo.

Os medicamentos eram preparados nas cozinhas das casas, utilizando os seus utensílios para não chamar a atenção. Para algum visitante inesperado, pareceria que a dona da casa estava cozinhando algo especial para a família. As mulheres sempre estavam às voltas com o preparo das refeições. Essa era uma tarefa que cabia a elas. Ninguém estranharia que estivessem, a qualquer hora do dia, às voltas com preparos na cozinha.

O dia estava claro e as madressilvas pareciam cantar. Afastou um pouco as flores para encontrar a erva que desejava. Era uma erva muito especial. Custara a pegar, porque gostava de lugares quentes. Sua mãe havia descoberto que, se fosse plantada por baixo de outras plantas, teria o calor que desejava. E lá estava ela: Acmella.

Suas folhas tinham um tom de verde escuro e podiam produzir um remédio poderoso que tirava a dor de qualquer lugar do corpo, permitindo-lhe terminar uma tarefa começada que não pudesse ser interrompida, devido a uma dor muito forte. Porém, ela tinha uma consequência grave: podia piorar um problema. A dor é uma aliada do homem. É ela quem avisa que algo está errado. Se não sentimos dor, continuamos a machucar o que já está machucado.

Assim, eram poucas as vezes que ela se concedia ao uso desta erva e aquele era um desses momentos. A mulher estava sofrendo muito. O bebê não nascia. Ela já tinha acompanhado outros partos difíceis, mas aquele estava demorando muito. Se ela não fizesse algo rápido, mãe e filho podiam morrer.

Tocou o arbusto com carinho, pedindo a erva que lhe concedesse o seu poder a fim de que pudesse auxiliar uma mulher que sofria para dar à luz. Como em resposta, a erva soltou um líquido em suas mãos. Então ela soube que podia arrancá-la e fazer as compressas e o chá. Retirou o que precisava e nenhuma folha a mais.

— Não se pode desperdiçar as ervas, dizia a sua mãe. São seres vivos que precisam cumprir a sua missão. Se forem jogadas fora, podem perder o seu poder trazendo consequências graves para quem as desperdice.

Eulália correu de volta à cozinha. Colocou um pano limpo dentro do pilão e, em seguida, as ervas. Pilou bastante até que, ao torcer o pano, obteve um líquido escuro e espesso. Quando tudo estava pronto, com cuidado, espalhou um pouco em cima da barriga da mulher, pedindo que dessem a ela uma colher de sopa para que bebesse do mesmo líquido. Depois queimou folhas da erva numa tigela de madeira, espalhando a sua fumaça pelo aposentou. A mulher, lentamente, foi se acalmando.

Quando ela percebeu que a erva estava fazendo efeito, espalhou o líquido por entre as pernas da mulher e, com uma tesoura, fez um pequeno corte para que a cabeça do bebê pudesse passar.

A mulher deu um pequeno gemido que foi seguido pelo choro do bebê que acabara de nascer. Eulália pegou a criança, envolvendo-a num pano limpo. Era um menino. Em seguida, deu um nó no cordão que ainda estava preso ao seu umbigo. Trouxe-o ao peito e, com a ponta dos dedos, colocou em seus lábios um pedacinho de sal. Em voz baixa, pediu que o menino soubesse conduzir a sua vida com sabedoria, assim como o sal, que, quando usado da forma correta, é o tempero da vida. Depois, com as mãos em concha, derramou um pouco da água que energizara com a luz prateada das mulheres santas na cabeça do bebê. Com gestos rápidos e quase imperceptíveis, ela o batizara colocando nele a sua força. O pequeno bebê, agora, dormia em seus braços. Entregou-o a uma das mulheres que sempre estavam com ela nessas horas. Eram suas aprendizes e amigas leais.

Agora, ela precisava cuidar da mãe. O corpo já havia expulsado de dentro o que não era mais necessário. Suas aprendizes já haviam limpado tudo. Com um fio de seda muito fino e uma agulha igualmente fina, costurou o corte que abrira entre as pernas da mulher. Felizmente, a erva ainda estava fazendo efeito e ela quase não sentiu dor.
Com o bebê repousando ao lado da mãe que dormia profundamente graças a erva que lhe fora administrada, Eulália fez sinal às suas aprendizes para que a seguissem, deixando o quarto livre para que a mulher pudesse descansar.

Os parentes que aguardavam na sala já haviam escutado o choro do bebê. Sabiam que tudo estava bem e esperavam aliviados. Quando ela entrou na sala, o marido beijou-lhe a mão e, emocionado, falou:

— A senhora é uma santa. Qualquer soma em dinheiro que lhe dermos será insuficiente para recompensá-la por tudo que fez. Que a sua luz sempre brilhe a fim de que muitos sejam trazidos ao mundo pelas suas mãos.

E assim foi. Muitos já haviam nascido pelas suas mãos e muitos ainda nasceriam. Para ela, não havia dúvida de que essa era a sua missão. Soubera disso durante um ritual secreto que a consagrara para esse serviço.

Para que tudo corresse bem, bastava que ela silenciasse o seu coração e a sua mente. Seria guiada. Poucos sabiam, mas esse era o seu verdadeiro poder: a certeza de que seria guiada sempre que assim ela o permitisse. Tudo o mais, seria resultado dessa sua permissão.

O Mouro

Havia o rio para ser atravessado. A noite estava chegando e, em breve, eles não teriam mais a luz do dia. Os companheiros estavam aflitos e falavam todos ao mesmo tempo. O que fazer? Atravessar o rio correndo o risco de serem levados pela correnteza, colocando a segurança da Senhora em risco? Dar a volta até sabe-se lá onde, para encontrar uma travessia mais segura? Acampar ali e aguardar o dia seguinte que traria novas ideias?

Enquanto todos falavam, o Mouro permanecia silencioso. Como era o seu costume, observava. Esperava que o silêncio lhe trouxesse alguma resposta. Há muito aprendera que as palavras atrapalham o pensamento inspirado. O silêncio, ao contrário, libera o pensamento para que encontre a solução mais acertada.

Os companheiros o achavam diferente, mas, com o tempo, aprenderam a respeitar aquele homem moreno, alto, forte e silencioso. Ele não falava muito, mas suas atitudes mostravam o quanto ele amava a Senhora e acreditava na causa maior: libertar os homens do mal e trazer a luz ao mundo. Aprenderam a amá-lo e respeitá-lo.

De repente, sua voz soou alto:
— Eu puxarei a carroça, disse ele com um tom de voz que continha firmeza e determinação.
Os companheiros silenciaram. Na expressão do Mouro não havia dúvida: ele faria o que estava dizendo.
— Seja, então, disse Breuk, o líder da expedição. Nós nos distribuiremos em torno da carroça para que ela não tombe. Alguns irão atrás para auxiliar, empurrando.

Num gesto tão conhecido, formaram um círculo e ao centro dele colocaram suas mãos, umas sobre as outras e juntos disseram: Um por todos e todos por um!

Dentro da carroça, Zúria aguardava. Confiava em seus cavaleiros que, com certeza, encontrariam a melhor solução e assim, em breve, seguiriam viagem.

Ao saber da decisão, cuidou de agarrar-se firme dentro da carroça. Pela pequena janela à sua frente, ela via o ombro forte do mouro onde a grossa corda se apoiava para que ele pudesse puxar a carroça. Os músculos de suas costas se retesavam a cada esforço. O coração da Sacerdotisa encheu-se de amor e gratidão por aquele homem forte e corajoso. Silenciosamente, fez uma prece na intenção de que ele tivesse forças para realizar a tarefa que havia escolhido.

O Mouro puxava a carroça por dentro do rio em direção à margem oposta, tendo a impressão de que os seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento. Sua determinação, porém, gerava dentro dele uma força que era maior que a dos seus músculos. Era uma força que vinha da sua fé.

Ao chegarem à outra margem do rio, todos caíram no solo, exaustos. O Mouro, com um sorriso quase imperceptível nos lábios, pensou: Está feito!

Quando todos se acalmaram, comemoraram alegres a vitória, sabendo que ela só fora possível graças à determinação do Mouro e à união de todos.

— Que assim sempre seja! Disseram todos em coro.

Que assim seja! Soa o som de outras vozes, neste exato momento!