Histórias de todos os tempos

Por Roseli Câmara, com o testemunho de Helena Martins, dirigente da Ordem Princípio e Luz

As histórias contadas neste blog apresentam registros de mergulhos feitos em exercícios místicos que foram realizados após o contato com outras pessoas que, como nós, navegam nas mesmas águas.

Quando mergulhamos no mundo místico, o que sabemos é que faremos uma viagem. Para onde iremos e o que vamos encontrar não pode ser programado por nós. Entregamos o comando, na certeza de que viajaremos para onde devemos ir.

O que estará escrito aqui, uma história por vez, são os relatos de muitas viagens. Conhecemos lugares e ouvimos, assistimos e revivemos vários acontecimentos. As histórias estão aqui. Uma delas pode ser a sua história. O nosso convite é para que nelas mergulhem e recuperem o que é seu ou que, apenas, apreciem a paisagem.

Respirem profundamente, abram a sua tela metal, entreguem o comando e se conectem com os relatos. Após a leitura, se outro acontecimento lhes for contado, escrevam, porque se isso acontecer, significa que as histórias cumpriram a sua missão: a de abrir portas internas.

Sejam bem-vindos! Boa viagem!

Anita

Os dois corriam alegres. Ela na frente e ele atrás, tentando alcançá-la. O vestido comprido atrapalhava um pouco a sua corrida. Quando finalmente ele conseguiu alcançá-la, enlaçou-a pela cintura e os dois caíram no chão rindo muito. Eram tão amigos! Adoravam estar juntos. As famílias viviam apostando que dali sairia casamento, mas nada! Eram ainda crianças e não davam nenhum sinal de algo a mais que amizade. Suas conversas avançavam horas e horas e era preciso que fossem chamados insistentemente para dentro de casa.

— Anita, venha minha filha, o almoço está servido, gritou de dentro da casa grande a sua mãe.

— Tenho que ir, se não minha mãe vem me buscar de vara na mão e olha que a varinha de marmelo dela dói muito, disse Anita, ainda sentindo a dor da última surra.

— Vá então, disse Lívio. Nos encontraremos mais tarde na beira do rio, combinado?

— Combinado, respondeu Anita, saindo em disparada.

Entrou na casa pela porta da cozinha, para dar tempo de lavar o rosto e arrumar-se um pouco. Encontrou com a preta Lina enchendo as travessas com a comida.

— Vá Sinhá, vossa mãe há de lhe dar outra surra se a Sinhazinha não se apressar.

— Já vou Lina, já vou, respondeu Anita desgostosa. Ela preferia mil vezes ficar conversando com Lívio do que sentar-se para almoçar. Com esse pensamento, bufou antes de chegar à sala. Entrou no aposento, pediu benção aos avós e aos pais, e sentando-se à mesa.

Sua mãe olhou-a com reprovação e posicionou as mãos para a oração.

— Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dê a graça de sempre termos o alimento em nossas mesas. Amém.

— Amém, responderam todos.

— Lina, pode trazer o almoço, gritou sua mãe.

Comeram em silêncio. Quando finalmente acabaram, seu pai deu, o que lhe pareceu à época, a sua sentença de morte.

— Anita, dentro de uma semana irás para o colégio das freiras a ver se te aprumas na vida e dás em algo bom.

Com os olhos arregalados, Anita olha para a mãe pedindo socorro. Sua mãe nem se abala. De certo estava de acordo com aquele absurdo, pensa Anita.

Ela nada podia falar. Desobedecer significaria levar uma surra de seu pai, que era muito pior que a de sua mãe.

Terminou o jantar engolindo o choro, pedindo licença para sair, ao que o pai lhe concedeu dizendo:

— Por hoje não sairás mais de casa. Ficarás em teu quarto preparando-te para a viagem. Lina, disse ele voltando-se para a negra, tu cuidarás para que ela não saia mais por aí como se fosse um moleque.

— Sim senhor, respondeu a preta.

Anita levantou-se, fez uma mesura e saiu. Subiu as escadas de dois em dois degraus e chegando em seu quarto tratou de escrever para Lívio, explicando o que lhe acontecera. Em seguida, encarregou a preta Lina de entregar o bilhete, dando-lhe em troca um par de brincos valiosos. Diria depois que os perdera.

Os anos se passaram e Anita tornou-se uma linda mulher. Certo dia, passeando no largo da basílica, reparou que um rapaz não tirava os olhos dela. De braços dados com uma amiga, disse:

— Clara, disse ela ao ouvido da amiga, olha discretamente para um rapaz parado ali do outro lado, que não tira os olhos de mim. Já estou corando feito uma brasa acesa.

— É verdade, ele olha fixamente para ti, respondeu Clara após avaliar a situação.

— Pois vou lá ter com ele para saber o que deseja de mim, disse Anita.

— Qual o quê Anita, isso seria uma vergonha. Se te veem fazendo isso, vão rápido dizer ao teu pai que vai te prender no quarto outra vez, disse Clara em tom de preocupação.

— Que nada, vamos lá. Diz Anita, já cruzando o largo na direção do rapaz. Parou a um metro de distância dele que, com olhar divertido, a observava.

— Senhor, vejo que me olha atentamente. Por acaso nos conhecemos? Perguntou Anita, levantando ligeiramente o queixo.

— Creio que nos vimos sim, senhora. Muitas vezes nos passeios à margem do rio, ou sentados no tronco da árvore velha que ficava próxima à porteira, ou ainda lambuzados de caldo de milho verde que nos servia a preta Lina, escondido de vossa mãe. Deixe ver, são tantas as situações que precisaria da sua memória para me ajudar a lembrar, disse o rapaz já às gargalhadas e de mãos dadas com Anita, que girava com ele, enquanto ele ia lembrando os fatos da infância de ambos.

— Querido Lívio. Que saudade. Essa é minha amiga Clara. Mas por que não te aproximaste? Ao contrário, ficaste zombando de mim. Que rapaz cruel você se tornou, disse ela enquanto dava-lhe tapinhas nos braços.

— Bem, já que nos encontramos, que tal um copo de refresco? Convidou Lívio

— Sim claro, vamos Clara, vamos conosco, voltou-se Anita para a amiga, radiante de felicidade.

— Obrigada minha amiga, respondeu Clara, mas tenho que ir. Minha mãe deu-me até as três da tarde e já preciso voltar.

— Está bem querida, dê lembranças a sua mãe, disse Anita em tom pesaroso.

Lívio tocou a beira de seu chapéu com a mão e fez um cumprimento com um leve inclinar do corpo.

— Até logo, senhorita Clara, espero que nos reencontremos em breve.

Quando Clara se afastou, ela tomou o braço que ele lhe oferecia e os dois seguiram caminhando pela calçada.

Os anos se passaram e eles sempre se lembravam dessa história quando juntavam os filhos e os netos, dando a ela diferentes versões. Ora ele é que a tinha abordado, ora ela que havia ido falar com ele. Acabavam por rir muito e fazer rir a todos os ouvintes, encantados com aquela bela história de amor.

Laurinha

Sentada no degrau da escada da entrada da casa, Laurinha esperava. Já estava pronta há algum tempo. Vestia o vestido azul cheio de anáguas brancas por baixo. Por cima do vestido, um aventalzinho de organza com enfeites de renda.

Quando chegassem à igreja, a sua mãe o tiraria. Na festa, ela o vestiria novamente. Nos pés ela calçava sapatinhos brancos com fivela prateada e meias brancas. Cachinhos castanho claro caiam ao lado do seu rosto e uma fita larga e branca, amarrada com um laço no alto da cabeça, completava o enfeite dos cabelos.

Ela já estava cansada de esperar. Sua mãe havia lhe dado uma ordem para que esperasse ali sentada. Que não corresse para não arriscar sujar-se. Mas já fazia muito tempo que ela estava ali sentada. Não faria mal dar uma espiadinha através do portão com grades altas que ficava permanentemente fechado. Só quando batiam é que ele era aberto para deixar passar uma visita ou um entregador qualquer.

Laurinha olhou para os lados e vendo que não estava sendo observada levantou-se bem devagar e, pé ante pé, foi até o portão. Na rua, a criançada era uma correria só. O Carlinhos corria para pegar as outras crianças no pega-pega. As gêmeas brincavam de casinha na calçada em frente à sua casa. Ao vê-la no portão saíram em disparada, correndo em sua direção.

— Oi Laurinha. Você não quer brincar com a gente? – perguntou alegre uma das meninas.

— Não posso. Vou ao casamento do meu tio, respondeu Laurinha.

— Está bem, então. Quando você voltar a gente brinca, respondeu a menina.

— Tchau Laurinha, disseram as gêmeas em coro.

— Tchau, respondeu Laurinha, voltando para o degrau onde a sua mãe a havia mandado esperar.

E Laurinha ficou lá sentada, esperando…esperando…

Até que a sua mãe apareceu na janela da sala.

— Laurinha, minha filha, venha para dentro. Já está tarde.

— Está bem, mamãe, disse ela.

Já estava mesmo cansada de brincar de faz de conta. Qualquer dia desses pediria a sua mãe para costurar um vestido azul com um avental branco, exatamente igual ao do mundo do faz de conta.

Tenório

O coco estava bem duro. Era bom assim. Quando estava bem duro por fora significava que, dentro, a carne era macia e suculenta.

Tenório forçou a barra de ferro para dentro do coco com uma martelada bem dada. Na sua frente o coco se partiu em dois, revelando uma carne branca e suculenta. Sua irmã haveria de gostar do fruto.

Tanta gente ia lá ter com ela… Era um entra e sai danado naquela casa. Sua irmã, benzedeira de mão cheia, tirava quebranto, curava cobreiro; de quebra fazia uma garrafada e levava para o doente que não podia andar. Isso quando não saia pedindo aos ricos para depois sair dando aos pobres.

— Ela é mesmo arretada, pensou Tenório, dando uma gargalhada de satisfação.

Tinha orgulho dela. Era sua irmã do meio, um pouco mais velha que ele. Eram amigos e companheiros. Ele ajudava no que podia. Ajeitava o povo, oferecia uma caneca de água, colhia as ervas, fazia os escalda pés, e assim a vida ia sendo tocada.

Debaixo daquele poeirão era duro conseguir boa pousada, mas a sua casa sempre estava aberta a um viajante cansado. Era só esticar a rede na varanda e estava posto.

A Lua embalava o sono. Refletida nas águas do rio, servia de inspiração para as histórias contadas à beira da fogueira, regadas a uma bebida forte que levava cajuína, mel e limão. Todos se agradavam de beber dela. Era muito boa para trazer o sono.

Tenório deixou-se de divagação, apanhou o coco aberto e dirigiu-se para a cozinha. Já estava na hora do ponto da canjica e sua irmã já devia estar precisada do fruto.

Quem de longe o visse caminhando, pensaria que aquele homem estava com todo o tempo da vida à sua disposição. Seu caminhar era lento, na certeza de que o tempo passava independente do tanto que ele corresse. Então, iria no seu passo mesmo. Com esse pensamento, Tenório deu mais uma gargalhada e entrou na cozinha.

Aninha

Se não fosse tão tarde, ela ainda poderia brincar mais. “Que coisa chata”, pensou Aninha. Por que o tempo era dia e noite? Devia ser só dia para as crianças brincarem bastante e não precisarem dormir.

Ela não gostava de dormir. Tinha que ficar parada e às vezes sentia medo. Não gostava. Hoje ela fez um bonequinho de lama que virou seu amigo com nome e tudo. Ia pedir para a sua mãe que o deixasse dormir com ela.

— Oba! Uma borboleta! – grita feliz.

Rápido se levanta e corre atrás da borboleta. O bonequinho de lama fica ali esquecido. Na correria, tropeça numa pedra e cai, machucando o joelho. Seu choro atrai a mãe que a pega nos braços ralhando com ela.

— Mas que menina mais sapeca! Vive caindo.

Aninha chora. O ferimento dói enquanto a mãe o lava. Agora vai ter que ficar dentro de casa. O que fazer? Todas as outras crianças estão brincando lá fora. Triste, ela se senta numa cadeira, enquanto sua mãe cozinha.

— Vou te contar uma história Aninha, você quer ouvir? Pergunta a mãe enquanto escorre o arroz.

— Quero sim, mamãe, responde Aninha já animada. Conta aquela do menino perdido? Ela adorava essa história porque o menino conhecia vários lugares diferentes e depois voltava para casa. Ela também queria conhecer lugares diferentes, com gente diferente, de olhinhos puxados e tudo, como na história.

— Não filhinha, hoje eu vou contar a história da menina sapeca, falou a mãe olhando para ela com um sorriso no rosto.

— Essa não mamãe. Essa é chata, retrucou Aninha pressentindo algo que não sabia bem o que era, mas sentia que tinha algo a ver com ela.

— Por que querida? Diz a mãe. Essa menina da história foi muito feliz por ser sapeca.

Aninha se interessou.

— É mesmo mamãe. E como ela foi feliz?

— Bem, disse a mãe, ela ajudou muita gente e conheceu muitos lugares. Seu jeito sapeca fez com que ela não tivesse medo de conhecer novos lugares e novas pessoas.

Os olhos de Aninha se arregalaram e ela perguntou para a mãe:

— Então ser sapeca é bom, mamãe?

— Tudo nesta vida pode ser bom ou ruim, minha querida. É a gente quem faz com que as coisas sejam de um jeito ou de outro. Para a menina da história, ser sapeca ajudou-a a ter o que sempre sonhou.

— Então eu posso ser sapeca, mamãe?

— Claro que sim, minha querida, desde que você olhe para onde está indo e observe tudo o que estiver a sua volta. Assim, você não sofrerá muitos acidentes.

Aninha ficou pensando que, da próxima vez que corresse atrás de uma borboleta, precisaria da ajuda de um amigo para olhar para onde ia a borboleta, quando ela olhasse para o chão.

Aninha. Linda Aninha. Cresceu sendo amada por todos e trouxe alegria e amor para aqueles que a cercaram. Por onde passou, distribuiu bondade. Quando se foi, as pessoas diziam que um raio de sol havia se recolhido da terra.

Isabel

Sentada numa cadeira de rodas, poucas coisas ela podia fazer. Ficava na janela do seu quarto durante várias horas ao longo do dia, a olhar quem passava. Vez por outra, alguém lhe acenava ou puxava um dedinho de prosa.

Nascera assim a menina Isabel. Desde criança, apresentara pernas fracas e nada a fazia ficar em pé. Os médicos diziam que não tinha jeito. Fora malformada na barriga da mãe. Esta se desdobrava em cuidados pelo amor que lhe tinha e um pouquinho, também, porque achava que em parte tinha culpa.

Devia ter insistido que o marido achasse o pé de jaca e lhe trouxesse o fruto. Na ocasião, um pensamento maldoso, resultado da raiva, lhe ocorreu: Podia ficar sem pernas aquele um. Quem sabe, assim, valorizasse mais as que tinha e ia buscar o que ela estava pedindo. Mas qual, ele nem se abalou!

Achava aquilo chilique de mulher prenha e ele é que não ia dar-se a esse desfrute, ora veja! Pensou o marido que ficou a ler o seu jornal sem mexer um músculo do corpo.

Pois aí estava. Nasceu a menina fraca das pernas. Os médicos diziam que se insistissem podia ser que andasse, mas com o tempo foram desistindo e ela ficou foi mesmo na cadeira de rodas.

Era bonita a menina, mas não tinha futuro. Quem haveria de querer uma mulher sem as pernas? Não. Para o casamento ela não daria. Mas o que faria da vida sua filha, pensava a mãe, balançando a cabeça sem encontrar a resposta. Um dia, a resposta chegou.

Soube pela vizinha que havia chegado à escola uma professora.

— Professora mulher? – perguntou à vizinha, com ar de espanto.

— Sim, senhora! – disse a vizinha, enfatizando a notícia. Uma mulher.

Então, ela pensou: Esta ai a resposta. Sua filha não tinha pernas, mas cabeça ela tinha e era bem boa.

Entrou em casa, chamando pela filha:

— Isabel! Isabel…

A menina, que do quarto olhava da janela para fora, respondeu:

— Estou aqui, mãe. Onde sempre estive e onde sempre estarei – disse Isabel com certa melancolia.

— Que nada, minha filha. Hoje soube de uma notícia que há de te alegrar. Chegou à cidade uma professora – disse a mãe com entusiasmo na voz.

— Professora? Mas existem professoras? – perguntou Isabel com ar de quem não tinha entendido direito.

— Pois não é o que estou lhe dizendo?

Isabel sentiu uma alegria no coração. Olhando para a mãe, cujo rosto mostrava o contentamento que sentia, disse:

— Mãe. Eu posso dar aula!

— Sim, minha filha. Pode. Falarei com o seu pai e nós construiremos, aqui mesmo, no nosso quintal, um galpão não muito grande, por enquanto, e veremos se você consegue alunos. Podem ser os pobres primeiro porque esses não têm muita escolha e virão com certeza.

A obra começou e em pouco tempo o galpão já estava construído e as crianças foram chegando. Sua mãe servia refresco de limão e bolachinhas de nata no lanche. As crianças adoravam. Com o tempo, precisaram fazer um puxado no galpão e ela se revezava em duas turmas, atravessando de uma sala para a outra por uma rampa construída especialmente para ela e a sua cadeira com rodas.

Os anos se passaram e Isabel continuou dando aulas até não poder mais enxergar. Quando já estava bem velhinha, numa tarde acordou com um barulho embaixo de sua janela. Ajudada pela criada, abriu as cortinas e olhou para fora. Na rua havia mais de uma centena dos seus ex-alunos que, ao vê-la, cantaram em coro, numa homenagem pelo dia do seu aniversário e pelo tanto que tinham a lhe agradecer.

Tal homenagem jamais seria esquecida por todos daquela cidade. Professora Isabel. Vive até hoje na memória das pessoas que contam as suas histórias e falam do quanto ela fez por todos.

Eithan

O menino Eithan corre pelo campo para buscar ajuda. Corre muito, mas as suas pernas de criança não são suficientes para a urgência da situação. Seu coração ameaça saltar do peito e seus pulmões parecem que vão explodir.

— Poderia haver menos montanhas neste caminho, pensa ele.

Ao longe, ele vê a vila. Precisa chegar o mais depressa possível à casa de Zustra, a maga das ervas. Quase desfalecendo, chega ao seu destino aceitando, de bom grado, a cadeira e o copo com água que lhe foram oferecidos.

As ervas que ela iria precisar já estavam acomodadas no recipiente de barro próprio. Eram ervas especiais, plantadas em lugares secretos. Como sempre, ela buscava a resposta do que iria precisar elevando a sua mente. Quando soube que as ervas seriam aquelas, ela rezou para que a sua amiga ficasse em segurança. Rapidamente, os dois subiram na carroça e partiram em direção à casa onde estava Mirna, a mãe do menino Eithan e grande amiga de Zustra.

Mirna está na cama e delira. O encontro com o cavaleiro negro a deixou impregnada de energia maligna. Zustra fala palavras de encantamento, invocando a luz maior, enquanto macera as ervas, gerando um líquido espesso. O líquido é colocado, aos poucos, na boca da mulher que lentamente se acalma.

A noite cai. O fogo da lareira é aceso e Zustra faz uma sopa com cevada, que todos comem satisfeitos. O ambiente está calmo. Eithan percebe que sua mãe dorme tranquila. Zustra passa a noite ao lado dela. Pela manhã, o canto dos pássaros acorda a todos. Mirna abre os olhos e encontra os olhos de Zustra que lhe sorri, perguntando como ela está.

— Estou bem, responde Mirna. Graças ao meu querido filho e a você, minha amiga.

— Agora me conte o que aconteceu, disse Zustra, sabendo que seria bom para Mirna compartilhar o que havia acontecido.

— Um cavaleiro que serve ao senhor em cujo castelo trabalho, tentou me possuir a força. Eu me debati e consegui escapar. Agora tenho medo de sua represália, disse Mirna assustada.

— Não tema, minha amiga. Você e seu filho são muito bem-vindos à minha casa. Ficarão lá o tempo que for necessário. Os cavaleiros do castelo não ousam arrumar problemas na Vila que está sob a proteção de várias bandeiras de Lordes simpáticos à nossa causa.

E assim foi. Os dois se mudaram para a casa de Zustra e passaram a conviver em harmonia. Com o passar do tempo, Zustra percebe que o menino tem o dom para manipular as ervas. Aos poucos, ele passa a auxiliá-la nos trabalhos de cura. Sua presença constante ao lado dela e sua agilidade em buscar ajuda, torna-o conhecido em toda a Vila e redondezas. Passa a frequentar as reuniões no Templo e é iniciado nos conhecimentos.

Resgate

Estava escurecendo. O homem caminhava apressado pelo atalho feito por muitos que por ali passaram antes dele. O céu estava repleto de nuvens negras e o vento anunciava a chuva que não tardava. A grama baixa que ladeava o caminho permitia que ele visse a montanha a sua frente. Precisaria transpô-la para chegar até a Vila. Por mais que se apressasse, não conseguiria tal feito antes que desabasse o aguaceiro. Decidiu, então, encontrar um abrigo na mata. Quem sabe um tronco oco de árvore ou uma caverna feita por pedras. Não importava. Desde que ele não ficasse ao relento arriscando-se a ser queimado por um raio, qualquer lugar estaria bem.

Entrou na mata e apurou os ouvidos. Se escutasse um rio correndo ou algum som humano, se encaminharia para lá.  Para a sua surpresa, não tardou a escutar vozes. Estavam distantes. O vento as trazia de longe. Resolveu seguir na direção delas, respeitando a sua intuição. Ela já o salvara de várias situações. Aprendeu a respeitá-la.

Olhou para o céu que dera uma trégua. O vento havia espalhado as nuvens e a chuva tardaria. Acelerou o seu passo em direção às vozes.

Através da mata caminhou cortando galhos e vencendo obstáculos. As vozes foram aumentando, somadas agora ao som do correr das águas de um rio. De repente, ele avistou o acampamento. Eram carroças grandes e coloridas paradas em círculo. De onde ele estava, podia ver os cavalos pastando próximos e uma grande fogueira prestes a ser acesa.

— O senhor deseja algo? – soou uma voz atrás dele.

Antero deu um pulo com o susto que levou e respondeu, afogueado, ao cigano alto e forte à sua frente:

— Chamo-me Antero. Estava subindo a montanha em direção à Vila pelo atalho. Fiquei com medo da tormenta que ameaçava cair e me embrenhei pelo mato, seguindo o som das vozes que o vento levou até mim. Não tive a intenção de ofendê-lo. Perdoe-me. – e fez uma inclinação respeitosa.

— Ora, vamos, deixe disso. Os visitantes são sempre muito bem-vindos em nosso acampamento. Venha, passe esta noite conosco. Prove do nosso assado e do nosso vinho. Amanhã seguirá viagem.

Impressionado com a cortesia do homem, Antero respondeu:

— Sou muito grato, senhor, mas não tenho como pagar. A minha viagem está sendo feita a pé por falta de recursos. Preciso chegar à Vila para encontrar ajuda para minha mãe muito doente. Ficarei apenas por perto para me proteger dos animais durante a noite, mas não devo importuná-los.

— O que lhe faço é um convite – disse o cigano num tom sério. Considerarei uma ofensa se recusar a minha hospitalidade.

— Bem, se é assim, eu aceito e agradeço a generosa oferta.

— Ora, homem, deixe disso. Venha, vou apresentá-lo aos outros.

Antero ficou encantado. Jamais imaginou que pudesse haver pessoas como aquelas. Os homens eram fortes e altos, e as mulheres lindas, atenciosas e prendadas. A alegria que ali reinava era algo diferente. Havia uma luz naquela gente. Uma luz diferente. Todos pareciam compartilhar da mesma natureza, onde não cabia tristeza ou revolta. Todos serviam uns aos outros. Os pratos com alimentos passavam de mão em mão em torno da fogueira. O vinho era servido pelos homens e a comida pelas mulheres. Quando todos já estavam servidos, um homem levantou-se e com voz alta disse:

— Esta noite é especial para nós. Temos um convidado inesperado e, por essa razão, muito bem-vindo. O acaso o trouxe até nós. Que a sua vida sempre floresça!

Dito isso, levantou o seu cálice de vinho, acompanhado por todos e bebeu um gole, dizendo:

—Vamos comer.

Ao final da refeição, houve música e dança. Todos dançavam. Mulheres, homens, crianças e velhos.

Quando a lua já estava alta, o mesmo homem que ergueu o brinde abençoou a todos, dando por encerrada a noite.

Antero foi acomodado em uma carroça que servia para transportar mantimentos e que estava vazia. Dormiu como uma criança que não teme o perigo e se sente protegida. Pela manhã, acordou e foi ao rio lavar-se. Quando estava terminando, ouviu um cumprimento às suas costas:

— Bom dia, disse a jovem.

— Bom dia, respondeu ele, compondo-se como pode.

— Vejo que o senhor dormiu bem. A sua expressão acusa isso, disse ela sorrindo.

— Sim, dormi maravilhosamente bem, graças a todos vocês. Há muitos anos não me sentia assim, tão feliz. Não há palavras que expressem o meu agradecimento.

— O prazer foi nosso em poder ajudá-lo. Espero que o senhor possa vir visitar-nos outras vezes, disse ela corando um pouco.

Antero observou com mais atenção a moça a sua frente. Sua beleza não era estética, mas dela emanava uma energia tão leve que a tornava bonita.

— Talvez fique difícil, pois moro um pouco distante daqui, mas quem sabe um dia destes nos encontraremos novamente, não é?

— Sim, quem sabe, respondeu ela, afastando-se na direção do rio.

Ele a acompanhou com o olhar por um breve tempo. Quando ela estava a alguns passos de distância, virou-se e acenou para ele.

— Até um dia.

Ele acenou de volta.

— Até um dia.

De repente, Antero constatou que não sabia o nome dela, mas ela já estava distante demais para perguntar-lhe.

— Bem, que importa. Nunca mais a verei. – esse pensamento, estranhamente, causou-lhe tristeza.

— Mas o que estou sentindo? É a primeira vez que vejo essa mulher e estou triste porque não a verei mais. Muito estranho.

Com esse pensamento, voltou ao acampamento na intenção de despedir-se de todos e seguir seu caminho. Ao aproximar-se do acampamento, encontrou uma das ciganas mais velhas que o cumprimentou olhando fundo em seus olhos.

— Como vai? Passou bem a noite?!

— Vou muito bem, senhora, obrigado. Tive uma excelente noite de sono, mas agora preciso seguir o meu caminho. – respondeu ele com uma tristeza na voz que espantou a ele próprio.

— Vejo que tem tristeza em seu coração por partir. – disse a cigana.

— A senhora é muito observadora. Realmente, estou triste em partir e não compreendo por quê. Todos foram muito gentis comigo, mas eu não teria tempo de me apegar em apenas uma noite, disse ele com certa angústia na voz.

— O senhor tem um tempo para que possamos conversar? – perguntou a cigana, gentilmente.

— Sim, minha senhora. Claro que sim. – respondeu Antero satisfeito; afinal, ficaria um pouco mais na companhia daquelas pessoas.

Os dois caminharam, adentrando um pouco na mata. Sentaram-se num tronco de árvore e a cigana começou a falar:

— O que vou lhe dizer é um conhecimento herdado pelo meu povo há muitos séculos. Esse conhecimento é passado de pai para filho e de mãe para filha. O meu coração me diz que o senhor precisa dele para poder tomar uma decisão.

Antero ficou perplexo. Ela falava como se ele fosse um deles. E o mais estranho é que isso não o desagradava.

— Muito obrigado pela sua generosidade, senhora. Escutarei com atenção e respeito.

— Muito bem, disse a cigana. Nós acreditamos que uma pessoa não vive uma única vez. Nascemos, morremos e nascemos novamente. A cada vida vivida, aprendemos coisas que ficam registradas em nós, assim como as pessoas que conhecemos em outra vida também ficam guardadas em nossa memória. Quando renascemos e reencontramos com elas, sentimos como se já as conhecêssemos. Ou quando aprendemos algo com facilidade, temos a sensação de que já sabíamos como fazer aquilo. Sou levada a acreditar que uma antiga memória foi despertada. E que, talvez, seja essa a razão da sua tristeza.

— Sim, senhora. Isso explicaria a minha tristeza em partir. Sinto como se estivesse em casa. Mas porque, então, não nasci nessa tribo cigana?

— Aquilo que escolhemos para nós antes de nascer só nós sabemos, mas, com conhecimento, podemos despertar também essa memória e compreender muitas coisas na nossa vida. O senhor deve fazer uma escolha. Ficar ou partir. Se ficar, um mundo novo se abrirá na sua vida. Se partir, continuará a viver como sempre viveu e esse dia ficará na sua memória como um presente, mas cada vez que se lembrar dele terá saudades porque devo dizer-lhe, Antero, aqui há um lugar para você.

Antero pensou na sua vida, na sua mãe e na sensação que sempre o acompanhava: a de que nenhum lugar era onde ele queria estar. Mas ali, com os ciganos, ele queria estar.

— Já tomei a minha decisão, senhora. Vou ficar. Devo antes cuidar de minha mãe que está doente. Depois voltarei, e espero que me aceitem.

Com as bênçãos da lua crescente e diante do Conselho da Tribo, ele bebeu o vinho sagrado, sendo recebido por toda a tribo que se alegrou por aquele que voltava.

Num outro tempo de dores e desavenças, ele havia sido expulso. Mas, agora, voltava e isso era tudo o que importava.

Ensinamento

Rosália caminha dançando por entre as pessoas, seguida pelas crianças que se divertem com a brincadeira. A fogueira alta ilumina a noite fria que começa a cair. O vinho e a dança esquentam o corpo. Os sapatos fortes com solado de madeira ajudam a esquentar os pés. A neve ainda não chegara, mas as noites estavam cada vez mais frias. Isso era indício de que em breve a neve cairia e as atividades da tribo seriam interrompidas. As famílias ficariam reclusas nas carroças, esperando até que o mal tempo passasse.

Durante o inverno, era comum as mulheres e as crianças se reunirem em uma das carroças maiores para beber chá quente, contar histórias e costurar. Rosália era boa contadora de histórias. As crianças a adoravam. Ela contava histórias que ouvira nos lugares por onde a tribo já havia passado ou inventava outras que sempre traziam algum ensinamento. Por isso, ela, juntamente com outras moças, era escolhida para cuidar das crianças quando havia trabalho para os adultos, como agora. As mulheres dançavam e jogavam, e os homens faziam negócios com os comerciantes da aldeia próxima de onde a tribo estava acampada.

Ela caminhava dançando, seguida pelas crianças que, com ela, entravam na brincadeira de seguir o mestre. A noite já caíra e Rosália precisava colocar as crianças para dormir. Então, conduziu todas até a carroça destinada para abrigar as cinco crianças que estavam sob a sua responsabilidade naquela noite. Ao chegar diante da carroça, reuniu-as a sua volta e disse:

— Agora nós vamos entrar na carroça e eu vou contar uma história para vocês.

As crianças bateram palmas de alegria.

Quando todas estavam aconchegadas nas almofadas e cobertas pelas peles e mantas, Rosália começou:

Era uma vez um lobo muito malvado. Ele corria atrás dos lobos pequenos, dizendo que iria arranhá-los com as suas garras grandes e suas unhas afiadas. Os lobinhos viviam com medo dele e não conseguiam brincar em paz, sempre pensando que ele poderia aparecer a qualquer momento. Um dia, um lobinho muito valente disse:

— Se ele aparecer, eu não vou correr.

— Mas ele vai arranhar você! – disse um.

— Vai machucá-lo! – disse outro.

— Não vai, não. Vocês vão ver! – respondeu o lobinho valente, cheio de si.

Os outros não acreditaram nele e continuaram a brincadeira. De repente, ouviram o uivo do lobo malvado, anunciando que estava perto. Todos se prepararam para correr para perto de seus pais. O lobinho corajoso, porém, permaneceu onde estava.

Seus amigos, vendo que ele não se mexia e que também não atendia ao apelo deles para que corresse, saíram em disparada, pensando que avisariam os seus pais de que ele corria perigo.

O lobinho corajoso esperou. Quando o lobo malvado chegou e deu com o lobinho parado ali sem medo, espantou-se.

— Ora, ora, disse ele. Temos um lobinho corajoso aqui.

— Olá, senhor lobo – disse o lobinho. Eu não sou corajoso. Na verdade, eu fiquei aqui porque queria vê-lo de perto. Há muito tempo que ouço os meus pais falarem do senhor e do quanto todos o temem. Agora, vendo o senhor de perto, eu entendo o porquê. O senhor é mesmo muito bonito, com essas patas tão grandes e unhas tão afiadas. Seus dentes são muito fortes mesmo e seu pelo parece o manto de um rei. Sinto vontade de me curvar diante do senhor.

Dizendo isso, o lobinho corajoso ajoelhou-se nas suas duas patas dianteiras, em frente ao lobo malvado.

— Bem, disse o lobo malvado, pigarreando. Tudo isso que você está vendo eu já sei há muito tempo. – completou cheio de si.

O lobinho corajoso, ainda de joelhos, respondeu:

— Sim, meu senhor, é verdade, mas eu não sabia. E os meus pais e os pais dos meus amigos também não sabem. Quando o senhor aparece, todos correm perdendo a oportunidade de admirá-lo.

— Eu nunca havia pensado nisso… – refletiu o lobo malvado.

— É como estou lhe dizendo: precisa permitir que todos o vejam para que possam curvar-se diante do senhor, respeitando a sua realeza. Se o senhor quiser, eu posso chamar os outros para que o vejam. – disse o lobinho corajoso.

O lobo malvado pensou que seria muito bom ver o bando todo curvar-se diante dele, como estava fazendo aquele lobinho. Sentiu crescer dentro dele a vontade de brilhar diante de todos e respondeu:

— Muito bem, vá buscar os outros que esperarei aqui. Mas não tente me enganar. Se você não aparecer com o bando todo, eu o encontrarei e você não me escapará.

O lobinho saiu correndo, disposto a chamar seus pais e todos os outros para ver que maravilha era o lobo malvado.

Quando estava no meio do caminho, encontrou com seus pais e os outros que estavam indo em seu socorro. Todos se espantaram ao vê-lo. Rapidamente, ele contou o trato que havia feito com o lobo malvado. Quando terminou a sua história, todos estavam de queixo caído.

— Como é possível? – perguntou o pai do lobinho. Bem, não importa. Nós temos é que ver isso de perto. Com tantos de nós juntos, ele não terá coragem de atacar e pode ser que resolvamos esse problema de uma vez por todas.

Quando chegaram ao local onde o lobinho corajoso havia deixado o lobo malvado, encontraram-no dormindo.

— Ei, acorde! – disse o pai do lobinho corajoso.

O lobo malvado acordou. Olhando em volta, viu que havia muitos lobos. Todos eram maiores do que ele. Virou-se para o lobinho corajoso e perguntou:

— Por que você disse que eu era bonito e forte quando, na verdade, eu sou o menor e o mais feio de todos eles?

— Porque, para mim, você pareceu tudo o que eu lhe disse. Estou vendo, agora, que você é mais fraco do que todos. – respondeu o lobinho tão surpreso quanto o lobo malvado.

— Sim. – disse o lobo malvado. Agora eu sei a verdade, e sei também que vocês não vão me deixar ir embora sem me dar uma boa lição, não é?

— Você já teve a sua boa lição. – disse o pai do lobinho corajoso. Fique em paz e nos deixe em paz.

O lobo malvado saiu de cabeça baixa, envergonhado. O lobinho corajoso olhou para o seu pai e disse cheio de orgulho:

— Pai, você é muito mais bonito do que ele.

Todos riram, e saíram correndo de volta para casa.

Rosália terminou a história quando as crianças já estavam dormindo. Menos o pequeno Amoriah, que permaneceu acordado até o final. Assim que ela terminou a história, ele disse:

— Rosália, por que o lobo malvado não sabia que os outros eram maiores do que ele?

— Porque, meu querido Amoriah, às vezes teimamos em não acreditar numa verdade e até convencemos alguns de que estamos certos. Até que chega um dia em que alguém nos mostra qual é a verdadeira verdade. Nesse dia, não conseguimos mais não vê-la e tudo a nossa volta se modifica.

Ele não entendeu direito. Estava com muito sono.  Amanhã perguntaria novamente para Rosália. Com esse pensamento, fechou os olhos e dormiu.

Mombaça

O chicote estalava no chão. O castigo ia começar. Os olhos do feitor eram como duas bolas negras cheias de ódio. O negro amarrado ao tronco tremia, antecipando a dor que sentiria. Os outros negros estavam em volta do tronco, aterrorizados e sem poder fazer qualquer movimento. Apenas encostavam uns nos outros como se buscassem proteção.

O feitor não batia. Parecia que lhe dava prazer estalar o chicote no chão e ver o negro que estava no tronco encolher o corpo como se já tivesse levado a chibatada. Ou poderia ser que ele estivesse apenas se aquecendo e preparando o seu braço para que aguentasse bater mais.

Os minutos que se passaram foram como horas. O negro no tronco já estava emporcalhado com urina e fezes. O medo faz essas coisas com um ser humano.

A negra Mombaça, altiva e forte, da linhagem de reis africanos, desejou que a mãe das tormentas intercedesse por eles e enviasse do céu um raio que partisse o feitor ao meio. A tormenta podia não vir, mas que ela faria uma boa mandinga para aquele homem cruel e maldito, ela faria. Após esse pensamento, ela jurou em silêncio.

E assim foi. Quando tudo acabou, o negro jazia pendurado no tronco, envolto em uma poça de sangue. Morreu de tanto apanhar. Na senzala, o lamento da morte soava – mas Mombaça não tinha tempo a perder. Precisava reunir os ingredientes para a mandinga que não podia passar desta noite, a noite em que a raiva do povo negro se juntaria ao trabalho, dando a ele mais força.

A negra moldou a cabeça de um homem com barro, deixando oco o seu interior. Batizou-a com o nome do feitor e iniciou o trabalho. Quando terminou, a noite escura e sem lua já ia alta. Adentrou na mata em busca do local para a entrega do trabalho. Realizou o ritual de arriamento, deu as costas e voltou em silêncio para a senzala. Muito em breve, ela veria o feitor enlouquecer e a vingança estaria feita.

A notícia correu por toda a fazenda. O feitor acordou no meio da noite aos gritos, gritos de quem estava sendo enforcado enquanto dormia. Deu-se busca na casa toda e não havia ninguém.

Toda noite era a mesma gritaria, até que o senhor da fazenda mandou interná-lo num hospital para loucos. Naqueles tempos, virava e mexia, um feitor enlouquecia. Isso era coisa dos negros. Não se podia judiar demais deles. O senhor da fazenda avisara. Mandou ter cautela. Devia bater quando preciso, mas não humilhar ou torturar. Uma surra bem dada bastava. Aquele feitor havia passado dos limites.

— Teve o que merecia. – disse o senhor da fazenda em voz baixa, dando de ombros e já preocupado em contratar um novo feitor.

Castigo e libertação

Para ele, era insuportável vê-la dançar diante de toda a tribo. Somente ele devia vê-la assim, linda e sedutora. Ela parecia não se importar com ele e com os seus sentimentos. A música parecia fazer com que ela levitasse. Seu corpo girava ao som dos tambores e pandeiros. As palmas davam um ritmo frenético a sua dança. Quando ela girava, sua saia, em vários tons de verde, se abria num leque colorido. Seu sorriso encantava a todos: homens, mulheres e crianças.

Brigas sucessivas haviam feito com que quase não se falassem. Ele a amava e não compreendia por que ela insistia em se expor desse jeito, como se fosse solteira e sem ninguém por ela. “As mulheres deviam manter-se recatadas depois de casadas” –  pensava Ramirez. O seu rei havia falado, certa vez, o contrário disso. Que as mulheres eram tão livres quanto os homens. Para Ramirez, essa ideia era avançada demais. Ele não a compreendia. A mulher era do marido e dos filhos, e era nisso que ele acreditava.

Triste e angustiado, ele se afasta da festa, sentando-se solitário. De repente, sente que alguém se aproxima. Levanta a cabeça e a vê. Ela vem em sua direção. Ele sabe o que ela vai falar. Sabia que ela já tinha consultado o conselho da tribo, mas se recusava a acreditar.

Quando ela lhe comunica que vai deixá-lo, o seu coração se fecha e esfria como uma pedra de gelo. Todo o seu corpo endurece e já não sente qualquer emoção. Silencioso e com um ódio que beira a insanidade, ele arranca seu punhal da cintura, abraça-se a ela e, num golpe só, arranca-lhe a vida.

Ela cai desfalecida. Um lampejo de consciência toma conta dele e, antes que enterre a faca em seu próprio peito, condena-se a nunca mais ser feliz.

O soldado

O sentimento patriótico enchia o seu coração. Sentia-se honrado em vestir aquele uniforme e ser parte da multidão de soldados enfileirados. Ele fazia parte de algo grandioso. A sua solidão tinha se acabado desde que se alistara para aquele exército que agia sobre o comando daquele homem que falava de uma raça superior e de homens valentes que lutavam pela sua pátria e pela sua gente.

Ele era um deles. Passou a vida sendo escorraçado pelos seus companheiros de infância por ser muito magro e alto. Chamavam-no de tudo que era nome. Salsicha comprida era o que ele mais odiava. Mas ele se tornara um homem grande e forte. Os anos de serviço no exército deram-lhe ombros largos, braços musculosos e uma força invejável. Sempre vencia na queda de braço e a sua reputação fazia com que o temessem. Ninguém mais o insultava. Ao contrário, ele era admirado por homens e mulheres. Gostava disso e procurava se exibir sempre que podia.

Naquele dia especial, o exército estava na praça para comemorar mais uma vitória. As tropas sob o comando dos seus oficiais estavam alinhadas. O próprio comandante, em instantes, desceria do palanque para apertar a mão dos oficiais e dos soldados que mais se destacaram nas batalhas. Ele era um deles. Isso era uma grande honra. Depois ele iria para um salão onde seria servido um banquete para todos os oficiais e os melhores soldados e ele poderia, finalmente, aproximar-se do grande líder.

Quando entrou no salão onde o banquete seria servido, encontrou vários oficiais e alguns soldados conhecidos. Cumprimentou a todos com cordialidade, mantendo-se educadamente em pé enquanto o líder máximo da nação não chegava. Quando ele entrou no salão, uma salva de palmas arrebentou num crescendo, seguida da saudação costumeira: todos erguiam o braço direito saudando seu comandante em chefe.

O grande homem sentou-se para escutar a música que seria tocada ao piano antes que servissem o banquete. Em silêncio, todos ouviram a música de Wagner tocada magistralmente pelo seu pianista preferido.

O soldado emocionou-se, ao ponto de sentir que seus olhos marejavam. Que líder magnífico! Além de grande estrategista militar e político, era um homem que sabia admirar as artes. O amor por aquele homem brotou no seu peito fazendo com que ele tivesse certeza de que jamais abandonaria os exércitos, enquanto fossem comandados por ele.

Quando tudo foi revelado, ele, juntamente com outros soldados e oficiais, lideraram um grupo que forjaria provas para inocentá-lo. Se para o inimigo não havia pudor em forjar provas para acusá-lo, para eles também não haveria pudor em forjar provas para inocentá-lo.

Mas eles eram muito poucos contra várias nações ultrajadas e o movimento sucumbiu, sem ter conseguido apresentar uma defesa sequer.

Ele não acreditava em nada do que diziam. Era impossível para ele acreditar que aquele homem que ele vira no banquete, com uma personalidade encantadora, teria sido capaz de ordenar aqueles horrores dos quais estava sendo acusado.

Quando não havia mais pelo que lutar e tudo estava acabado, ele voltou para o campo e guardou o seu uniforme como recordação de um tempo em que havia sido muito feliz.

Marguerite

Marguerite caminha com passos acelerados pela rua calçada com pedras grandes e irregulares que dificultam a caminhada. Seus sapatos, já gastos, machucam os pés em contato com a irregularidade das pedras.

Ela está apressada. As pessoas precisam da sua ajuda. Está calor e o bafo morno faz com que o suor escorra pelo seu rosto. Com a barra da saia de tecido rústico, ela enxuga a testa após parar por um instante para descansar. Ela sabe que não está bem. Não se alimenta há muitas horas e não há água que seja confiável. Dizem que a urina dos ratos é que trouxe a doença e isso pode estar contaminando as águas. É preciso ferver a água para depois beber. “Mas quem tem tempo para isso com tanta coisa a fazer e pessoas a acudir?” – pensa ela.

Sente que tudo a sua volta começa a girar. Tenta gritar pedindo ajuda aos que passam apressados como ela, mas não consegue. Cai e ninguém a ajuda. Todos têm medo da doença. Dizem que só de olhar, a pessoa já se contamina. Rapidamente arrastam seu corpo para um vão existente entre duas construções e lá a deixam, imaginando que ela está morta.

Agonizante e com o corpo coberto de ratos que devoram as extremidades do seu corpo, Marguerite pede a morte – que chega, após uma intensa hemorragia causada pelos ferimentos.

Encontro

Os três homens montados em seus cavalos correm no campo aberto liderados pelo cigano Igor, jovem, belo e forte. Sua força e determinação em vencer o colocam na liderança da corrida. Essa força vem da certeza de que, ao voltar para a tribo como campeão, receberá o olhar orgulhoso de Sarah, a linda cigana pela qual se apaixonara perdidamente.

Nuvens negras se juntam no céu, anunciando o temporal que não tarda a cair. É preciso buscar abrigo fora das copas das árvores e em lugar fechado e seguro.

Igor, Ramirez e Solano se dirigem para a casa pequena que veem ao longe. Ao se aproximarem, os ciganos são saudados por um homem velho que os convida a entrar. Eles entram e se acomodam como é possível no pequeno espaço da sala onde há uma lareira, uma mesa de madeira grossa e duas cadeiras. Acomodada em um pequeno banco de madeira está uma menina que não teria mais do que quatorze anos.

— É minha neta, Ashmira, diz o velho. Ela perdeu seus pais numa emboscada e hoje vive comigo.

O cigano jovem cumprimenta-a:

— Meu nome é Igor – diz ele com um largo sorriso.

O rosto da jovem avermelha-se e ela não consegue dizer palavra alguma…

A chuva rapidamente passa e os homens, agradecidos, despedem-se convidando seu anfitrião e sua neta a irem ao acampamento para a festa da primavera que acontecerá em alguns dias. Igor se compromete a ir buscá-los em agradecimento pela acolhida.

O dia da festa chegou. As carroças, em círculo, estão enfeitadas com fitas coloridas e lampiões que à noite, quando forem acesos, darão brilho e alegria à festa. A grande fogueira ao centro já está montada.

Igor se prepara para cumprir a promessa feita ao velho senhor e sua neta. Enquanto se dirige à pequena carroça utilizada para fazer pequenas viagens, encontra Sarah que lhe acena ao longe, sem muito entusiasmo. Igor sempre soube que ela não o queria. Alimentara falsas esperanças, mas agora ele já estava determinado a esquecê-la e, para isso, sabia que precisava encontrar um novo amor.

Durante a festa, Igor fica bastante tempo com Ashmira e seu avô. Nasce entre os dois uma bela amizade que, com o tempo, vai se transformando em amor.

Igor a pede em casamento – para a felicidade do seu avô que, agora, não precisa mais se preocupar: Ashmira tem quem cuide dela.

Depois de casados, passam a viver na tribo. Certa noite, Ashmira começa a ficar aflita. Igor já deveria ter chegado… Por onde andará?

Quando está prestes a dar o alerta, ouve a voz dele. Ela olha pela janela da carroça e vê uma mulher de costas que conversa com o seu marido. A energia que emana deles é de intimidade. Ashmira havia sido iniciada nos conhecimentos e podia sentir essa energia.

Igor entra na carroça, calado e de olhos baixos. Ela se aproxima dele e, cheia de sabedoria, diz:

— Que o meu amor te proteja de ti mesmo. Que o meu amor seja para mim e para ti. Que ele te salve de tuas fraquezas e te liberte dos sonhos que não são realidade, fazendo com que me enxergues ao teu lado, pronta para amar-te e acolher-te. Não importa pelo que foste vencido. Estarei ao teu lado sempre.

Tomado de forte emoção, Igor cai em prantos pedindo-lhe que o perdoe. Ashmira o abraça. Em seu coração, ela sabe que, por um instante, ele se fora dela mas, agora, ele estava ali. Isso bastava para ela.

Um presente

A noite está fria. Sozinha no alto do castelo, Anne chora.

Todos dormem. Ela não consegue dormir porque se arrepende de tê-lo mandado embora. É seu grande amor.

Apesar de não ser de linhagem real, é o comandante da guarda e seu pai, por certo, pesaria isso e não o puniria, caso viesse a descobrir. Do que ela tem medo então? Por que o mandou embora?

No silêncio da noite, Anne ouve passos que sobem silenciosamente as escadas em direção à torre. “Provavelmente, algum guarda fazendo a ronda”, pensa. Dar-lhe-á qualquer desculpa. Atrás dela, ouve uma voz conhecida:

— Senhora.

Ela se volta e ele está lá, como um milagre.

— Mas como? Diz ela sem acreditar. Eu o mandei embora.

O cavaleiro alto e forte ajoelha-se e, emocionado, declara:

— Sinto senhora, não pude ir e não posso deixá-la. Mesmo que me enxote como a um cão, eu permanecerei na sua porta até que me aceites novamente. Não posso viver sem a vossa presença e sem o vosso amor. Perdoa-me.

As lágrimas correm pela face de Anne e seu coração parece que vai explodir. Fica tonta e sente que suas pernas amolecem.

Percebendo que ela vai cair, ele a segura em seus braços. Ao se tocarem, é como se tudo em volta deixasse de existir. São levados por um sentimento que é maior que eles próprios. É além da compreensão humana. É quase divino. São um do outro. São complementares. Não podem viver separados. São um só. Duas partes que se juntam e são todo o Universo. Juntos, são capazes de explicar a criação e de traduzir a unicidade.

Naquele momento, tudo isso lhes é revelado e descobrem que por toda a eternidade se buscarão. Pela graça divina, puderam se reencontrar naquela vida. Isso é um presente.

Acerto de contas

O que ele sentia o deixava confuso. Como uma mulher podia provocar isso num homem? Era algo que ele se perguntava e não encontrava a resposta. Sempre que a via por trás da cerca viva que separava a sua casa da estrada, o seu coração batia acelerado no peito e um calor tomava conta do seu corpo. Era desejo, misturado a um sentimento que ele nunca havia sentido. Era como se ele pudesse ser capaz de dar a sua vida para salvá-la, se fosse necessário.

— Aquilo era uma loucura, pensou o Cavaleiro. Um ser humano não pode ser invadido assim por outra pessoa e entregar-se a isso sem lutar.

Ele lutaria. Trataria de saber dos defeitos da sua amada para colocá-la num lugar mais real dentro dele. Não podia permitir que ela se tornasse dona dele, mesmo não tendo a menor ideia de que tinha esse poder. Ele cuidaria de modificar isso antes que ela percebesse o poder que tinha sobre ele.

Com esses pensamentos fervilhando na sua mente, o Cavaleiro acelerou a cavalgada que o levaria à casa de seu amigo, cuja filha havia lhe tirado o sossego desde a primeira vez que a vira.

Ao chegar à casa foi saudado pelo amigo que o convidou para entrar, oferecendo-lhe uma caneca de vinho e convidando-o para o almoço. “O convite veio em boa hora”, pensou o Cavaleiro. Seria uma boa oportunidade de observar a sua amada mais de perto.

Ao vê-la entrar no aposento, levantou-se e fez a reverência de praxe.

— Como vai, senhora? Perguntou num tom cortês que em nada denunciava a sua emoção ao vê-la.

— Muito bem. E o senhor, como tem passado? – perguntou a moça educadamente.

— Sinto-me muito bem e agradeço pela hospitalidade de seu pai e a vossa.

— Sinta-se à vontade. – respondeu ela, e voltando-se para o pai completou:

— O almoço está pronto. Devo pedir que o sirvam?

O pai olhou para a filha com orgulho. Ela crescera sem a mãe que morreu ao dar-lhe a luz. Assim que se tornou adulta, assumiu as responsabilidades da casa com graça e competência.

— Sim, estou faminto e creio que o nosso convidado não se importará em ter um suculento prato de cozido de carneiro a sua frente, não é meu caro? – disse o pai voltando-se para o Cavaleiro.

— Pelo contrário, senhor. Será muitíssimo bem-vindo nesse momento. – respondeu prontamente o Cavaleiro.

Os dois riram do comentário e levantaram-se indo em direção ao aposento onde a mesa estava posta.

Os três sentaram-se, sendo servidos pelos empregados que aos poucos foram trazendo os pratos: cozido de carneiro com ervilhas, uma torta de galinha, alcachofras cozidas no azeite e favas ao molho de ervas. Um vinho tinto seco acompanhava a refeição.

Todos comeram satisfeitos enquanto conversavam sobre a época do ano, as colheitas, a segurança nas estradas e outros assuntos do cotidiano.

O Cavaleiro, entretanto, discretamente, observava o comportamento da sua amada. Era uma mulher simples que tratava os empregados com carinho. Alimentava-se bem e sem pudor. Não era como as outras moças que comiam pouco diante de um homem para que parecessem regradas e frágeis a um possível pretendente. Ela parecia não se importar se ele era ou não um possível pretendente. “Isso podia ser um mal sinal”, pensou ele. Um sinal de que, para ela, ele nada significava. Bem, suspirou, teria que conviver com isso, caso fosse verdade.

Terminado o almoço, levantaram-se e passaram para a outra sala para saborear um licor. Quando se viram novamente a sós, o Cavaleiro e seu amigo, ele encheu-se de coragem e disse:

— Meu caro amigo, devo lhe dizer o que me trouxe aqui sem me fazer anunciar com a antecedência que requer a boa educação.

Vendo que o amigo ia interrompê-lo para dizer que ele era sempre bem-vindo a qualquer hora em sua casa, o Cavaleiro fez um gesto com a mão, dizendo:

— Sei que sou bem-vindo a sua casa e espero não ofendê-lo com o que vou dizer, mas preciso ser leal a sua amizade. Apaixonei-me por sua filha e desejo fazer-lhe a corte.

O pai ficou em silêncio por um tempo, sentindo certa pena do rapaz a sua frente. Mais um apaixonado pela sua filha. Ele tivera pelo menos umas cinco visitas antes desta, com o mesmo objetivo. Como sempre, a sua resposta seria a mesma.

— Meu caro amigo, a mim alegraria enormemente que você cortejasse a minha filha. Sei que você seria capaz de fazê-la muito feliz e de honrá-la, mas eu a criei para ser livre e cabe a ela dar a resposta. Para que isso não se estenda por mais tempo, peço-lhe que espere aqui, enquanto falo com ela.

Dito isso, levantou-se, sendo seguido pelo Cavaleiro que, polidamente, também se levantou e saiu da sala. Enquanto caminhava para encontrar a filha, pensava se a havia educado da forma correta, livre para decidir sobre a sua vida. Ele não aguentava mais dizer não aos pretendentes que visitavam a sua casa. “Quem sabe ela aceita esse.” –  pensou, dando um suspiro que indicava desesperança.

— E, então, filha, o que me diz? – perguntou ansioso.

— Pai, não me sinto envolvida por ele e nem preparada para o casamento. Desejo estudar e conhecer outros lugares. Se me casar agora, não terei essa oportunidade. Não estou apaixonada por ele e nem por ninguém. – respondeu a moça olhando fundo nos olhos de seu pai para que ele tivesse a segurança de que ela dizia a verdade que habitava o seu coração.

— Está bem, minha filha. Farei com que ele não se ofenda e que se conforme com a sua decisão. – respondeu o pai pesaroso.

Enquanto retornava para a sala onde estava o Cavaleiro, o pai pensou que era melhor permitir que a filha viajasse e estudasse antes que todos os homens solteiros da região fossem até a sua casa e ele tivesse que dizer não a todos eles.

Ao entrar na sala, encontrou o Cavaleiro em pé, aguardando ansioso. Respirou profundamente e falou com o tom mais suave que conseguiu imprimir à sua voz:

— Meu caro amigo, a minha filha vai viajar e estudar. Eu prometi isso a ela e, antes que eu cumpra essa promessa, ela não aceitará a corte de nenhum pretendente. Quem sabe quando ela retornar possamos conversar novamente sobre isso.

O Cavaleiro levantou-se, fez uma mesura, agradeceu a hospedagem e partiu. Quando já estava na estrada um pensamento o confortou: “Se ela não foi capaz de enxergar o que tenho para lhe oferecer é sinal de que não me merece.”

E seguiu o seu caminho cantarolando uma canção, sentindo-se liberto do poder dela. A sua recusa o havia libertado. No que dependesse dele, nunca mais a veria.

Mirah

Mirah estava linda! Seu vestido amarelo, bordado com fios dourados, e a coroa de flores coloridas que trazia em sua cabeça faziam com que ela parecesse uma fada saída da floresta. Seus dez anos estavam sendo comemorados por toda a tribo. Ela era uma criança muito amada. Toda a tribo estava em festa pelo seu aniversário.

Quando Mirah nasceu, trouxe grande alegria. Ela não era esperada. Mavna, sua mãe, morrera ao dar-lhe a luz, deixando duas outras filhas: Sanmira e Sarah que já eram mulheres feitas.

— Ganhei muitos presentes, mas o melhor deles estava sendo aquela festa, pensou Mirah.

Sua irmã, Sarah, dançava lindamente em torno da fogueira e, de vez em quando, pegava em suas mãos e a girava, brincando com ela. Mirah amava a sua irmã. Sarah era tão alegre e linda… Mirah queria ser como ela. Alegre e linda. Sua outra irmã, Sanmira, estava noiva de Solano, com quem se casaria em breve.

Mirah nasceu antes do tempo e cresceu uma criança franzina e doente. Sanmira cuidava dela como se fosse sua filha. Sarah também ficava com ela, mas era livre demais para preocupar-se com remédios e cuidados. Sarah trazia para Mirah a festa e o riso, e Sanmira, os cuidados e o conforto.

Quando Sanmira atendia as pessoas que vinham para ler as cartas e saber de negócios, amores ou saúde, Mirah sempre ficava junto a ela e, muitas vezes, dormia aconchegada nas almofadas da tenda.

Solano, noivo de Sanmira, amava a menina e ela a ele. Viviam as gargalhadas e, para Mirah, era muito doloroso vê-lo partir para caçadas ou para fazer algum negócio em terras distantes. Sentia sempre muita saudade dele.

Com a chegada do frio, Mirah foi acometida por uma doença grave nos pulmões. Sanmira, Solano e Sarah desdobraram-se em cuidados e não saíam de perto dela, em nenhum momento. Revezavam-se à beira de sua cama até que, numa noite fria de inverno, ela morreu.

Antes de morrer, de mãos dadas com Solano e com a cabeça apoiada no peito de Sarah, ela desejou encontrá-los novamente num outro tempo e num outro lugar.

Quando Sanmira chegou, Mirah já estava morta. Sanmira sentiu em torno deles uma forte vibração energética e pediu aos Mentores de Luz que pudesse estar por perto para que, na hora e no tempo certo, ela fosse digna de auxiliar no que fosse preciso.

Solidariedade

Poline corre. Suas pernas já não respondem. Ela não aguenta mais. Quer esquecer tudo. Nada mais há na sua vida. Tudo lhe foi tirado. A dor que sente no peito colocará fim à sua vida. Ela vai correr até que não tenha mais forças para viver. Com um último suspiro, cai desfalecida.

O cheiro da comida desperta em seu corpo a luta pela vida. Geme baixinho. Mal tem forças para respirar. Sente que a erguem da cama. Com uma colher, a mulher força a sua boca a abrir-se, derramando dentro dela um líquido quente e saboroso.

Aos poucos, seu corpo esquenta. A mulher, carinhosamente, fala com ela pedindo-lhe que seja forte, dizendo que para tudo nesta vida há conserto. E a sopa é devorada lentamente e em pequenos goles. Poline dorme mais uma vez. Seus sonhos são povoados de imagens.

Uma fogueira. Festa. Seu vestido de noiva lindo, feito com renda comprada por sua mãe que amorosamente o havia costurado para ela. Um pedaço enorme de carne é assado no espeto que é girado pelos homens da tribo. As mulheres dançam ao som dos pandeiros e tambores. Cantam e bebem o vinho da celebração. Uma mulher se aproxima. Seu rosto está desfigurado pela dor. Ela grita loucamente. Uma faca. Seu amado sangra. Dá-lhe um último adeus.

Com um grito, acorda. Seu corpo arde em febre. A mulher canta ao lado da cama. Ou seriam palavras mágicas o que ela diz? Ervas queimam ao seu lado. Um líquido quente é colocado em sua boca. O ar fresco entra pela janela da carroça. Ela se acalma.

Em meio ao seu delirar, Poline ouve a mulher conversando com alguém, cuja voz lhe é familiar.

— Não se preocupe senhora, cuidarei dela até que se recupere fisicamente. A tragédia que lhe aconteceu tirou dela a vontade de viver. Ela precisa de cuidados espirituais para que o mal acontecido em torno dela não a contamine mais. Venha todos os dias se desejar e eu lhe darei notícias mas, agora, ela precisa de cuidados energéticos e espirituais.

Poline se recupera ao longo de dias. Os cuidados de Sanmira são fundamentais para que ela volte à vida.

— Há quanto tempo estou aqui? – pergunta Poline.

—Há três semanas, minha querida. O tempo necessário para que você desperte novamente para a vida. – responde Sanmira.

— Não sei como lhe agradecer. – diz Poline tomada pela emoção da gratidão.

— Apenas lute pela sua vida. Fortaleça a sua fé no amor e na vida, buscando a compreensão mais profunda. Faça sempre uma oração ao deitar-se e ao levantar-se. Seja grata pela vida e por tudo o que possui: o amor de seus familiares e amigos, seus bens materiais e sua força interior. Com o tempo, todas as feridas cicatrizam. O remédio para curá-las é o amor divino que encontramos nas boas ações e nos bons pensamentos. – fala Sanmira com voz doce e aveludada.

— Muito obrigada, senhora! – diz Poline, dando-lhe um forte abraço.

Sanmira acompanha a jovem mulher com o olhar até que a vista já não mais pode alcançá-la. Em seu coração, agradece pelo seu amado e por ser uma iniciada nos mistérios.

Esperança

O cavalo empinou reagindo ao susto que lhe provocou a cobra que, displicentemente, passava pelo caminho. O cavaleiro praguejou e tratou de firmar-se na sela.

— Com tantos perigos a enfrentar, ainda mais essa, pensou.

Seu manto cor de terra cobria todo o flanco do cavalo que, por ser marrom, tornava aquela figura um tanto mágica. Quem os visse de longe, poderia imaginar que ali havia um centauro, meio homem meio cavalo.

De fato, a ligação que aqueles Cavaleiros tinham com o seu animal era algo muito especial. Conversavam com ele e sentiam um ao outro. Nas batalhas, essa relação era imprescindível. Ele mesmo já havia sido salvo por ela algumas vezes. Numa delas, o seu cavalo antecipou um golpe de espada, desviando-se dele, quanto ele mesmo não o havia percebido.

As batalhas eram muitas naquela época. Lutava-se por tudo, e ele lutava para que a palavra do Mestre fosse dita nas terras mais distantes.

Sua roupa era seu passaporte. Com a cruz vermelha entalhada no peito da roupa que vestia, ele atravessava longas distâncias sem ser incomodado. Os templários eram conhecidos pela sua força e generosidade.

Quando chegavam a alguma aldeia, logo as pessoas se reuniam para ouvi-los falar. Falavam de um lugar onde a dor tinha conforto e onde os homens eram livres. Falavam do amor e da caridade. Suas palavras tinham o poder de aliviar os aflitos e dar esperança aos desesperados. Era como se uma luz entrasse no coração dos homens. Eram temidos também, por serem bravos guerreiros possuidores de uma força desconhecida.

Arianto desceu do cavalo e com palavras suaves e carinhosas o acalmou. Num riacho que havia próximo dali, deu de beber ao seu animal e refrescou-se também.

A jornada ainda era longa, mas seu coração estava em paz. Levaria a palavra do Mestre. Essa era toda a sua verdade.

Madeleine

Ela não sabia mais para onde ir. Sentia fome e frio. Fora enxotada da casa onde trabalhava por comida e abrigo. Esfregava o chão, limpava os urinóis, lavava e passava a roupa, dia após dia.

Antes de dormir, comia as sobras dos donos da casa. Essa era a sua única refeição do dia. Quando todos se recolhiam, ela estendia um pano surrado ao lado do fogão e dormia um sono sem sonhos. Há dias não tomava banho. A senhora dizia que ela não podia gastar água lavando-se a si mesma. Ela aproveitava a água da roupa suja para lavar-se às escondidas. Se fosse pega, levaria uma surra que deixaria marcas doloridas em seu corpo por vários dias.

Ela não teve culpa. Fora o senhor que no meio da noite tentou agarrá-la a força. Ela gritou e foi acusada de tê-lo seduzido.

— Sua zonza, dizia a senhora. Fica andando pela casa como uma cobra sorrateira. Eu que lhe dei cama e comida. Ponha-se daqui para fora, sua meretriz.

Tudo isso foi dito aos berros enquanto ela era arrastada no meio da noite pelos cabelos e jogada na rua gelada em meio a neve que caia.

Madeleine não tinha ninguém por ela. Seus pais haviam morrido com a peste e seus irmãos foram doados para famílias que precisavam de empregados. Ela também fora doada, mas era bonita demais e, apesar de ter somente doze anos, despertava o ciúme das senhoras.

Gelada e cansada, ela encontrou abrigo no vão de uma escada. Encolheu-se como pode e caiu no sono, desligando-se de tudo. Acordou com um chute na costela. Uma mulher muito bem vestida e muito bonita estava a sua frente. Quando viu que ela abriu os olhos disse:

— O que faz aqui, mendiga? Vamos, saia debaixo da minha escada. Daqui a pouco os clientes chegarão e não vai ficar nada bem eles virem uma mendiga na porta do meu estabelecimento.

— Me desculpe senhora, respondeu a menina levantando-se e arrumando a saia.

— Ora, vejam só. Até que você é educada. Como se chama?

— Madeleine, senhora, disse a menina abaixando o corpo num cumprimento.

— Olhe para mim, Madeleine, disse a mulher num tom autoritário.

A menina, receosa de que pudesse levar outra surra, levantou o rosto para a senhora que pegou em seu queixo, examinando-a.

— Abra a boca! – ordenou, analisando os dentes da menina.

— Já se deitou com algum homem? Perguntou a mulher olhando fundo nos seus olhos.

A menina corou muito e nada disse.

— Pelo rubor no seu rosto vejo que ainda não conheceu um homem. Muito bem. Você quer trabalhar para mim, mocinha?

A menina não acreditou no que ouviu. Era muita sorte. No dia seguinte à expulsão da casa onde trabalhava, conseguir um emprego assim, caído do céu. Ela não teve dúvida. Com um aceno de cabeça aceitou o convite, acompanhando a mulher.

Anos depois, quando se lembrava daquele dia, ficava imaginando o que teria acontecido se ela não tivesse dormido debaixo daquela escada e se aquele homem não tivesse tentado violentá-la. No final, ela sempre concluía que jamais saberia.

O fato é que, apesar da dor sofrida por todas as humilhações pelas quais passou, ela tinha um teto seu para morar, comida na sua mesa e uma pequena fortuna em joias e propriedades. Perdera a conta de quantos abortos havia feito e com quantos homens se deitara. Tivera a febre das prostitutas e conseguira sobreviver. Foi ameaçada de morte e escorraçada nas ruas pelas senhoras de família, mas sobrevivera a tudo isso e sobreviveria sempre. A sua vida lhe pertencia e ela faria dela o que bem entendesse, a qualquer dia, hora ou lugar.

Cheia de determinação, terminou a maquiagem, colocou o chapéu alto, última moda naquele verão em Paris, apanhou a bolsa e desceu para pegar a carruagem que a levaria ao castelo.

Simeão

Anoitecia. Os cavalos estavam cansados e era preciso apear para alimentá-los e para descansar. O dia seguinte seria puxado. Eles precisariam chegar ao seu destino, de qualquer maneira.

Com um gesto de mão, Aragorn deu o sinal de parada. Simeão estava bem atrás dele e repetiu o gesto que foi passado a todos os outros. Todos apearam e, de joelhos, fizeram a oração costumeira: “Mãe de todos nós, que a Tua luz nos proteja durante toda a noite a fim de que possamos levar a palavra de Vosso Filho, nosso amado Mestre Jesus, a todos que a esperam. Por amor a Vós. Amém”.

Fizeram a reverência costumeira, um círculo com os cavalos e riscaram um outro círculo em volta deles. Retiraram os alforjes e as selas, conversando com os animais e acariciando-os. Os templários amavam os seus cavalos como se amavam mutuamente.

Simeão levou o seu cavalo para a beira do rio para que ele bebesse água e aproveitou para beber também. Estava cansado. Já não era tão jovem. Os mais novos contavam com a sua sabedoria e astúcia naquelas viagens. Ele era capaz de sentir o perigo a distância e de pressentir quando uma caça estava próxima, o que rendia a todos ótimas refeições.

Esta noite comeriam em volta da fogueira, que já ardia no centro do círculo, o que restou do almoço e ele lhes contaria uma história.

Olhou para o céu e silenciosamente pediu numa prece que a Mãe Maior lhe inspirasse, para que ele encontrasse uma boa história que animasse a todos.

Simeão retornou ao acampamento e aproximou-se do fogo, servindo-se de um naco de carne e de um pedaço de pão.

Os companheiros já estavam em volta da fogueira, sentados como podiam, em tocos ou pedras, com suas mantas enroladas em torno do corpo. A noite na mata era fria e era necessário aquecer-se.

O jovem Agripino, que já havia terminado a sua refeição, falou:

— Então, caro Simeão, que história tem para nós esta noite?

—Calma, meu rapaz, respondeu Simeão. Espere até que eu termine a minha refeição. Ao final dela, saberei que história lhes contar.

Agripino sorriu feliz. Que bom, pensou, as histórias de Simeão eram sempre tão bonitas e cheias de significados.

Enquanto mastigava, Simeão transportou sua mente para outro tempo.

O Mestre dizia, enquanto todos comiam:

— Feliz do homem que tem amigos e que com eles se alimenta. Pois não é a comida o alimento para o corpo e a amizade o alimento para o espírito? Sabeis todos vós: afortunado é o homem que tem amigos, muito mais do que aquele que possui riquezas.

Lembro-me de um homem cuja riqueza somava propriedades e joias, óleos e vinhos caros. Esse homem não nasceu rico. Ao contrário, construiu a sua riqueza com o suor do seu rosto. Desde a infância, tinha um único amigo o qual visitava regularmente. Com o passar dos anos e devido ao crescimento dos negócios, afastou-se dele e quando pode procurá-lo novamente, soube que ele havia se mudado e ninguém sabia de seu paradeiro. O homem rico ficou pesaroso, mas confiou que veria novamente o seu amigo, em qualquer daqueles dias. 

Os anos se passaram. Um belo dia, ele estava sentado em sua cadeira de repouso após o almoço quando um servo veio lhe avisar que um homem, vestido em farrapos, insistia em falar com ele. O que deveriam fazer? Dar-lhe um prato de comida e mandá-lo embora? Perguntou o servo.

— Não. Nada disso. Vou ver do que se trata. 

Então, para a surpresa do homem, seu amigo estava ali, na sua frente, velho, abatido e vestido em farrapos. 

Imediatamente, o homem rico chamou os seus servos e ordenou que cuidassem dele. Que chamassem um médico e lhe oferecessem toda a assistência necessária para a sua recuperação.

 O amigo, caindo em prantos e de joelhos diante do homem rico, disse:

— Perdoe-me meu amigo. Eu fui embora porque não aguentei ver a tua prosperidade, quando eu mesmo nada tinha. Mas a vida foi dura comigo e eu não tive escolha senão bater a tua porta e pedir-te ajuda e perdão. 

Ao que o homem rico respondeu:

— Pois de agora em diante, tu morarás comigo e serás, além de meu amigo, meu conselheiro particular. Dar-te-ei um bom salário e tu viverás para sempre bem e confortável. 

Ao terminar a história Simeão completou:

— Ao verdadeiro amigo nada se nega. Tudo se concede quando ele, de boa vontade e de coração aberto, lhe pede. A um verdadeiro amigo se estende a mão. Isso honra a Deus e a nós mesmos.

Dito isso, deu boa noite a todos, virou-se para o lado e adormeceu, embalado pela intensa luz prateada que havia à sua volta e que todos podiam ver.

Descoberta

As bandeiras tremulavam em seus mastros colocados em torno da grande arena. Arquibancadas foram dispostas ao redor de onde as lutas aconteceriam para que todos pudessem assistir a cada detalhe do torneio.

De cada lado das arquibancadas se reuniam as pessoas que torciam por cada bandeira. Os que apreciavam a da Ordem sentavam-se espalhados entre os admiradores das bandeiras amigas. A Ordem não podia competir com a sua bandeira, mas usava a dos Lordes, amigos da causa.

O cavaleiro estava a postos. Em poucos minutos, estaria no centro da arena lutando com o seu adversário. Já purificara suas mãos com o óleo sagrado feito especialmente para aquela ocasião com ervas especiais que tinham o poder de protegê-las contra o mal e a sua influência. A luta levava os homens ao desejo de matar. Os cavaleiros da Ordem não podiam correr esse risco. As lutas nos jogos eram diversão, muito embora todos soubessem tratar-se de uma demonstração de força. Os que venciam ganhavam respeito, admiração e proteção durante o ano todo.

Ele sabia disso e desejava vencer. Porém, não a qualquer preço. Saberia parar quando fosse preciso, mas lutaria com coragem e desejo de vitória.

Ao sinal do juiz, montou em seu cavalo, empunhou a lança e sentiu uma estranha energia. Algo dentro dele brotava, fazendo com que se sentisse superior e orgulhoso. Sabia que era forte e se agradava disso. Essa energia fazia com que fosse tomado de uma sensação de poder muito grande. Era algo que já sentira outras vezes, mas, agora, estava muito forte. Suas mãos começaram a queimar e a suar. A lança escorregava e ele não conseguia firmá-la. Vendo que o amigo não se mexia, seu companheiro correu até ele:

— O que se passa meu amigo. Não se sente bem?

Ele estava possesso de raiva e respondeu agressivamente:

— Estou ótimo! São as minhas mãos que não param de suar, impedindo que eu empunhe a lança!

O companheiro compreendeu imediatamente. O óleo estava cumprindo a sua função, impedindo que ele lutasse. Algo de muito ruim, energeticamente, estava acontecendo.

— Meu amigo, vamos pedir a troca de cavaleiros. Assim, você poderá recuperar-se e lutar em seguida – disse o companheiro com uma voz cheia de amor.

O juiz já havia dado a partida e o tempo estava passando. Se não tomassem uma decisão rápida, a vitória seria dada ao outro cavaleiro sem que a luta houvesse acontecido. A vergonha seria maior.

— Muito bem, peça a troca! – respondeu descendo do cavalo, largando a lança no chão e afastando-se com passos largos.

O companheiro subiu no cavalo, anunciando que ele próprio competiria naquela prova. “Os outros cuidarão de nosso amigo…” – pensou enquanto batia com a sua bota no flanco do cavalo que, atendendo ao seu comando, saiu em disparada para encontrar o cavaleiro que vinha a galope à sua frente.

Inconformado, ele se dirigiu à tina de água na qual mergulhou as mãos que ardiam. O frescor da água aliviou o ardor. O que havia acontecido? Por que ele não conseguira segurar a lança? Precisava de respostas.

Montou em seu cavalo e num galope veloz subiu a montanha em direção à caverna. Precisava falar com a Sacerdotisa.

Ao chegar, encontrou o guardião da porta que o impediu de entrar na Câmara de Recolhimento. A Senhora estava em profundo transe. Se fosse incomodada, poderia morrer.

Contrariado, voltou ao salão central. Sentou-se próximo de onde estava a cisterna com a água energizada e cobriu o rosto com as mãos num gesto de desespero. O silêncio era quebrado pelo marcador de tempo. Lentamente, o som do marcador foi invadindo a sua mente, trazendo-lhe tranquilidade. Tomado por uma grande letargia, recostou-se como pode e ali mesmo entregou-se a um profundo sono.

O Mestre dizia:

— Não se pode obrigar uma pessoa a ser o que ela não é, Judas. As pessoas devem por si só perceber que podem ser diferentes e desejar mudar. Não tome o que não é seu, meu amigo. Permita que do seu coração só venham bons sentimentos e que de sua boca só saiam boas palavras.

 Judas olhou para o Mestre e pensou o quanto ele era ingênuo. As pessoas eram maldosas por natureza e nada iria mudar isso. 

— Meu amigo, vou contar-te uma história – disse o Mestre, parecendo ler os seus pensamentos. Era uma vez um menino manco. Havia nascido com uma perna menor do que a outra. Por isso não podia brincar com as outras crianças porque tropeçava e atrapalhava a brincadeira.  Elas não tinham paciência com ele. O pai dele, que muito o amava, depois de muito pensar, foi a um sapateiro. “É possível, sapateiro, fazer um calçado com um solado maior do que o outro e que seja tão confortável que uma criança possa correr com ele sem que lhe saia dos pés?” “Bem, terei que fazer alguns testes. Volte daqui a uma semana e terei a resposta.” 

O pai do menino esperou com ansiedade. Ao final de uma semana, voltou ao sapateiro que lhe apresentou um calçado fantástico. Pagou o que ele pediu e voltou correndo para casa. Quando lá chegou, encontrou, como sempre, o seu filho triste encostado no batente da porta olhando para as outras crianças que estavam brincando. “Veja o que eu trouxe para você, filho!” O menino calçou os sapatos, amarrando-os bem e… Quando ficou em pé, surpresa. Ele não mancava mais.

Com um enorme sorriso no rosto, abraçou o pai e saiu correndo em disparada para brincar com as outras crianças. 

— O que me diz, meu caro Judas? – perguntou o Mestre sorrindo. Se até para uma criança manca é possível conserto, o que dirá para um adulto que pode, por si só, tomar as próprias decisões? É preciso, entretanto, que ele reconheça quem verdadeiramente é. E, para isso, muitas vezes, precisa de ajuda. 

Judas olhou para o Mestre e nada disse. Não encontrou nada que pudesse dizer diante dessa verdade. 

Ele despertou em prantos. Com a água da cisterna, lavou o rosto banhado em lágrimas. Que o amor divino permitisse que ele reconhecesse quem era, a fim de que o seu melhor sempre aparecesse. Do fundo do coração, agradeceu ao sagrado óleo que o havia impedido de lutar naquela tarde.

Abandono

O pai se agarra às gêmeas sem compreender. A mãe beija as filhas, dizendo que as ama e que elas, um dia, compreenderão. Pede perdão ao marido e entra na carruagem que a espera.

Ela precisa ir. Está tomada por uma força que é maior que ela. Pela sua sanidade, das suas filhas e de seu marido, ela precisa ir.

Quando o conheceu, não poderia imaginar que a força desse sentimento a tomaria de tal maneira que se ele partisse levaria junto com ele a sua respiração e, portanto, a sua vida. Então, por amor as suas filhas, ela partiria para que não morresse. Um dia voltaria. Sempre poderia voltar a ver suas filhas e, quem sabe, obter delas o perdão. Mas agora, ela tinha que ir. Pierre exigira isso dela, não lhe deixando alternativa. Ou seguia com ele ou morreria.

O pai deprime a tal ponto que já não pode mais cuidar das meninas. Suas irmãs, solidárias, tinham decidido cuidar das pequenas.

— Eu levo essa, disseram as duas ao mesmo tempo, arrastando cada uma para um lado. As meninas gritavam, apavoradas.

O pai, resignado, concordou. Suas filhas estariam melhor com as suas irmãs. Moravam distante uma da outra, mas o que se havia de fazer? Uma desgraça se abatera sob a sua casa.

As meninas são separadas e gritam até não terem mais forças. São levadas pelas tias para viver cada uma em um lugar diferente. Nunca mais se encontrarão nesta vida.

A mãe volta algum tempo depois e já não há mais a casa, o marido e as filhas. Ninguém lhe responde às perguntas e nem lhe dirige a palavra. Sozinha e cheia de culpa, inicia uma busca sem fim pelas filhas que abandonou.

Rancho Querência, Piracaia. Mergulhando na alma, se lembram…

Winston

A armadura pesava. Feita em ferro, servia para proteger os cavaleiros das lanças pontiagudas dos inimigos. Nos jogos, elas eram usadas como símbolo de masculinidade e força.

Em cima de seu cavalo, Winston era a figura do cavaleiro forte e arrojado. Já não era tão jovem, mas os anos de muito treino lhe conferiam a força da sabedoria aliada à força física.

Seu cavalo empinava, aguardando a luta que se iniciaria em breve. Pela bandeira do Duque Ófillo, Winston competiria, mas por quem lutava só ele e os seus companheiros de fé sabiam.

Sua Sacerdotisa aguardava, em recolhimento, as notícias que eles levariam das vitórias obtidas. Isso garantiria mais um ano de paz para a Montanha e a Vila. Ninguém ousaria atacar lugares em que havia cavaleiros que mostravam sua força vencendo nos jogos.

Winston sabia disso e, quando fechou o seu elmo, fez uma prece silenciosa para que a Mãe de todos os homens guiasse os passos de seu cavalo e o seu braço que empunhava a lança.

Sentiu por um momento a prece silenciosa de seus companheiros invadirem o seu campo de força e soube que não estava só. Que jamais estaria só enquanto existisse nessa terra e para além dela. Havia aprendido que o amor atravessa o tempo e as dimensões. Então, tudo estava bem. Faria o seu melhor.

Ao sinal do juiz, bate com as botas no flanco do seu cavalo que, entendendo o seu comando, sai em disparada. À sua frente, no lado oposto ao seu, o cavaleiro negro dispara para chocar-se com ele. Quem derruba o cavaleiro de seu cavalo, vence a luta.

Já do outro lado da arena, Winston vê o cavaleiro negro no chão. Mal tem tempo de dar-se conta do ocorrido, quando seus companheiros o arrancam da sela e saem em desfile pela arena carregando-o nos ombros. Comemoram com grande alegria mais uma vitória da Ordem.

Em seu recolhimento, Zuria sorri e de seu pensamento sai uma prece:

— Abençoada seja a força de todos os homens, tão necessária nestes tempos de evolução humana.

Suriad

O adorno de sua cabeça subia para o alto. Ali se juntava a um diadema de pedras vermelhas, verdes e azuis que rodeavam uma imensa pedra negra. O seu rosto emoldurado por esse adorno estava pálido. O que a aguardava? Que homem seu pai havia escolhido para seu marido?

Suriad escutava as batidas de seu coração, enquanto caminhava pelo chão forrado de pétalas de rosas vermelhas. Seus pés e mãos haviam sido adornados com desenhos pintados à mão pelas artesãs contratadas para essas ocasiões. Era um trabalho muito delicado e bonito. Suas vestes riquíssimas espalhavam as pétalas com o seu balançar, enquanto ela caminhava.

As mulheres faziam aquele som alegre, batendo com a língua no céu da boca; os homens batiam palmas, fazendo um leve cumprimento com um movimento de corpo à sua passagem. Uma cortina finalmente se abriu e ela o viu, sentado na cadeira do noivo. Um rapaz não muito alto, moreno como os povos do deserto e com um olhar tão assustado quanto o dela.

Assim que ela atravessou a cortina, ele se levantou dirigindo-se a ela com um colar de flores nas mãos. Colocando o colar em seu pescoço, disse:

— Seja bem-vinda, futura esposa. Ao que ela respondeu, colocando também no  pescoço dele um colar de flores que sua mãe lhe entregara:

— Agradeço o seu cumprimento e retribuo com a minha aceitação.

Em seguida, sentaram-se nas cadeiras dos noivos enquanto esperavam o início da cerimônia.

Suriad, tão bela, não havia tido muita sorte na vida. Filha de comerciantes, cresceu coberta de cuidados. De saúde frágil, atrasara-se no tempo em que deveria casar-se. Finalmente, seu pai conseguira para ela um marido pagando um preço exorbitante pelo seu dote.

Quando entraram no quarto que lhes fora destinado, Suriad espantou-se com a elegância com que fora decorado. Sua sogra não havia poupado esforços nem dinheiro.

Ricos tapetes nas paredes e no chão, e almofadas cobertas com tecidos finos com bordados em ouro adornavam o aposento. Ao lado, uma grande cômoda servia também de penteadeira com um espelho adornado de flores douradas. Encostada na parede, via-se uma arca. Suriad levantou a tampa da arca encontrando várias túnicas, uma mais rica que a outra.

— Seja bem-vinda ao nosso quarto, esposa – disse Aman.

Suriad olhou para o homem a sua frente que mais parecia um menino, e teve pena dele.

— Muito obrigada, esposo. Sei que seremos felizes aqui.

Mas Suriad não estava feliz. Quando podia, subia ao alto da casa de onde podia ver as estrelas e conversar com o firmamento. Tinha saudade de sua mãe e de suas irmãs. Não desejava estar ali, mas o que fazer? Ela era uma mulher, e uma mulher apenas obedece primeiro ao seu pai e depois ao seu marido.

Seu marido mal a via ou tocava. Na noite de núpcias, ele fora rápido e cumprira suas funções de marido. Dormia ao lado dela, mas via-se que ele também não era feliz. Às vezes a procurava, apenas para cumprir suas obrigações de esposo. “Por que as coisas eram assim?” Perguntava-se Suriad. E não havia resposta.

Então, um dia ela sentiu algo diferente. Um filho! Sim, ela estava esperando um filho. Pela primeira vez depois de casada, seu coração encheu-se de alegria. Quando contou para a família de seu marido, todos passaram a tratá-la como uma rainha. Até seu marido antes desinteressado, agora a cobria de presentes e joias.

Quando seu primeiro filho nasceu, ela soube que a felicidade era possível. Finalmente achara uma razão para viver. O amor que nascera em seu coração por aquela criança a havia salvado da solidão e da descrença. Cuidaria de seu filho como dela mesma. Depois vieram as meninas e outro menino.

Um dia, olhando para a sua neta mais nova que já estava se tornando uma moça, ouviu dela a seguinte frase:

— Vovó, as mulheres estão se reunindo para escutar a pregação de um homem que veio de terras distantes. Ele diz que todos devem ser livres e que o amor deve ser sempre a resposta para todas as nossas perguntas.

Suriad sorriu e pensou: “Sim. Isso eu sei há muito tempo”.

Paco

O dia está frio. O sol aparece um pouco pálido, mas o suficiente para esquentar o corpo do menino que tira o pesado colete de pele de carneiro que veste sobre a roupa rústica feita de grossa de lã, tecida no tear de sua mãe. Ele reúne o rebanho de ovelhas para que não se percam pela montanha, arriscando-se a quebrarem uma pata.

Do alto da montanha, de um lado, ele vê a sua casa de cuja chaminé sai a fumaça do fogão a lenha de sua mãe que prepara o almoço, enquanto bate a roupa na pedra agachada no chão ao lado da cozinha.

Mais ao longe ele vê o seu pai que, sentado num pequeno banco, cuida da horta retirando as ervas daninhas e o mato que, do dia para a noite, cresce por ali.

Seus três irmãos menores brincam correndo atrás das galinhas e dos patos numa brincadeira alegre que termina por jogar todos ao solo, exaustos.

Do outro lado da montanha ele vê a cidade onde as pessoas caminham apressadas pelas ruas com os seus negócios por realizar e compras por fazer. Ele não gosta de ir muito à cidade. Sempre que vai, volta aturdido com a multidão. Tem gente de toda a espécie. Árabes, judeus, cristãos, brancos e negros. Todos convivem em harmonia e se respeitam mutuamente. As diferentes religiões são professadas sem preconceito. Todos entendem que há um único Deus e não importa de que maneira Ele seja louvado.

Paco tinha quinze anos, mas apesar de jovem, compreendia as diferenças e aprendera a respeitá-las. Ele frequentava a Ordem da Rosa que não professava nenhuma religião, mas estudava e se valia do melhor de todas elas.

Era uma Ordem muito antiga que passara de geração em geração pela sua família. Sua mãe o levara nas reuniões desde que se tornara capaz de entender o que se estudava lá. Ele gostava de ir às reuniões e aprender sobre o mistério das coisas.

Como todos os que frequentavam a Ordem da Rosa, ele tinha o compromisso de manter em segredo o que aprendia e cumpria à risca esse acordo.

Naquela manhã, algo o estava incomodando. Na última reunião, os Iniciados disseram que Jesus havia sido um homem comum e que tivera uma família. Paco sentiu algo diferente dentro dele ao ouvir essa história. Ele não sabia explicar, mas sabia como buscar a resposta para esse sentimento de familiaridade que brotara dentro dele ao escutar aquele ensinamento.

Assim, reuniu as ovelhas próximas a ele e pediu a elas que não se afastassem enquanto ele estivesse com os olhos fechados. Por uma estranha razão que nem ele entendia, as ovelhas sempre obedeciam ao que ele lhes pedia.

Feito o pedido as ovelhas, Paco sentou-se encostado numa árvore frondosa, fechou os olhos, respirou profundamente e limpou a sua mente de qualquer pensamento, entregando-se para escutar a sua alma.

Jesus desenha na terra fofa, enquanto conta histórias para seus filhos menores, sendo escutado pelos mais velhos que, mesmo estando crescidos, continuam adorando as histórias de seu pai e sempre que podem se juntam aos menores para escutá-las.

— Então o menino assobiou, chamando as ovelhas porque já era hora de todos descerem da montanha para o jantar. Ele conhecia a todas elas e jamais perdera alguma.
Naquele dia, porém, ele deu falta de uma delas. Preocupado, assobiou novamente e esperou. Nada. A ovelha não apareceu. Então ele pensou:

— Será que ela se perdeu na montanha ou foi pega por algum lobo? Não! Isso é impossível. As ovelhas conhecem o terreno e não há lobos por esses lados. Então ele decidiu:
— Vou procurá-la. Levarei as outras para casa e depois vou voltar à montanha para procurá-la.

E assim ele fez. Desceu até a sua casa, guardou as ovelhas no cercado e foi avisar a sua mãe que subiria a montanha novamente para procurar a ovelha que se perdera. Sua mãe preocupada disse:
— Meu filho, já vai anoitecer e pode ser perigoso. Amanhã você procura por essa ovelha.
— Mãe, respondeu o menino, se eu for procurá-la somente amanhã, ela poderá estar morta. Fique tranquila, sei caminhar pela montanha e nada vai me acontecer.

A mãe não teve alternativa, senão concordar.
— Leve ao menos esse pedaço de pão e esse cantil com água, disse a zelosa mãe estendendo-lhe o pequeno pacote.
— Obrigado, mãe, respondeu o menino saindo em disparada de volta à montanha.

Ele precisava se apressar. Em breve não teria mais a luz do dia e a busca ficaria difícil. Mas ele confiava na sua intuição e ela lhe dizia que encontraria a ovelha perdida.
E realmente a encontrou. Lá estava ela, com uma das patas presa num buraco entre as pedras. Ao vê-la, o seu coração se encheu de alegria e, carinhosamente, retirou-a do buraco conversando com ela para que se acalmasse.

Voltou para casa quando o céu já se tingia de negro com o cair da noite. Lavou-se, comeu o jantar que a sua mãe lhe ofereceu e dormiu em paz.

— O que vocês acharam da história crianças, perguntou Jesus.
O seu filho mais novo, sempre silencioso e muito observador, perguntou:
— Pai, a ovelha perdida chorou muito?
— Enquanto ela estava sozinha e presa na pedra, ela chorou sim, filho. Mas quando viu o seu pastor e recebeu dele o carinho e o salvamento, tudo ficou bem. Essa ovelha para sempre vai acreditar que quando ela estiver perdida e sozinha poderá contar com o seu pastor que jamais vai abandoná-la. Assim é com o amor de Deus para conosco. Ele nos ama tanto que jamais nos abandona. Basta que confiemos que Ele nos salvará, sempre.

As crianças correram para abraçar Jesus que, feliz, deixou que o beijassem, retribuindo o carinho.

Paco respirou profundamente, voltando do transe. Por uma dádiva do divino, ele havia estado com Jesus. Compreendeu, então, que aquele momento vivia dentro dele. Levantou-se feliz e foi cuidar das suas ovelhas.

Gentileza

Ela não sabia dizer com certeza. Talvez fosse oito ou nove horas da noite. No inverno ficava mais difícil precisar as horas porque o dia se ia mais cedo e a noite demorava-se a ir embora.

O castelo estava em silêncio. O jantar já havia sido servido e as crianças já estavam na cama com suas amas. As coisas todas estavam em seus lugares. Com uma xícara de chá fumegante nas mãos, ela se senta diante da lareira na qual arde a lenha, recém colocada. Eles eram tão importantes, os empregados. O que ela faria sem eles? Sempre que podia, dava a eles um agrado. Uma peça de carne, uma saca de farinha ou de grãos para que levassem para as suas casas a fim de darem o sustento às suas famílias. Seu marido e senhor não se importava – sabia que era generosa quando se casou com ela.

Seus pensamentos soltos, uma vez mais, a fazem enxergar aquele dia em que um homem alto, forte e com um ar de poderoso pediu a sua mão ao seu pai. Ela não sabia direito o que fazer, mas ele foi gentil e, com o tempo, o amor foi crescendo. Eles se amavam. Ela confiava nele e ele, nela. Ele a escolheu porque observou nela as suas atenções para com as outras pessoas. Ele queria uma mulher generosa. Aprendera com a sua mãe o poder da gentileza. As pessoas gratas são aquelas que seguem ao seu lado mais felizes e, portanto, mais leais. Lealdade era algo muito precioso naqueles tempos.

Ela sorriu ao lembrar-se disso. Ele havia lhe contado essa história várias vezes e, em todas elas, podia sentir o sorriso brotar em seus lábios. Sentia-se especial por ter sido escolhida por algo que era seu de verdade, e não pelo seu dinheiro ou posses. Claro que isso ajudou, mas ele poderia ter qualquer uma, inclusive, mais ricas do que ela.

Gostava de pensar que seus filhos seguiriam seus passos e que seriam mulheres e homens fortes como o seu pai e gentis como a sua mãe.

Bocejou, cansada. Sentia a sua falta. Quando ele voltaria? Tudo estava tão calmo… Era bom, mas ela sentia falta da presença dele indo de lá para cá e de cá para lá, a dar ordens e fazer reuniões.

O fogo trepidando na lareira soava calmo e ela foi se embalando naquele trepidar das chamas. Ajeitou-se ali como pode. Pensou que só fecharia um pouco os olhos e que, logo em seguida, levantaria para deitar-se em sua cama. Adormeceu profundamente.

Ele entra silencioso. Não quer acordar a casa toda. Está muito frio e ele vai direto para o salão onde sabe que a lenha arde na lareira. Então, ele a vê. Ali adormecida, tão linda como sempre foi. Sua beleza agora era de mulher, mãe e senhora de um castelo. Mas, ali adormecida, ela só era bela. Ele ficou olhando para ela sem conseguir desviar o olhar, pensando em como era grato por ter seguido a sua intuição, tão treinada para acessar os mistérios. Era ela, sempre seria ela. Sua companheira de jornada, seu amor.

Então, ela abriu os olhos, despertando. Encontrou os olhos dele e pensou que devia estar sonhando. Uma emoção tomou o seu peito e ela se deixou levar por aqueles braços fortes que ela amou, até o fim da sua vida.

Contam que ele se foi primeiro. Logo depois, ela. Também contam que ali houve prosperidade para todos enquanto eles viveram. Os que olham suas lápides, que estão lado a lado, podem ler a inscrição: “Aqui estão os senhores desta terra, cuja gentileza fez prosperar a todos. Que descansem em paz!”

Fuga

“Se for preciso, atirem!”

Um arrepio percorreu a sua espinha. Uma coisa era empunhar uma arma para impor respeito, outra era matar. E por qual razão? Porque tinham fome! Ele sabia o que era a fome. Estava ali como guarda do galpão de suprimentos para que ele e sua família não passassem por isso.

Porém, a fome chegou; não para ele, mas para muitos – e com ela a raiva e o desespero que faz os homens tornarem-se animais e, para seu senhor, merecedores de serem mortos.

… não para ele. Ele sabia que dor era aquela. O que fazer? Sua família dependia desse emprego para ter garantido o sustento. Ele não podia conviver com a culpa de largar o trabalho e colocar todos na condição de fome.

Matar? Ele sabia que não faria isso. Então… perderia seu emprego de qualquer maneira. Melhor que saísse agora. E se não houvesse o saque? E se, por um milagre, chegassem doações? De onde elas viriam? Afinal, todos estavam na mesma situação. Já não havia ricos nem pobres. As colheitas foram escassas. Só os fazendeiros tinham algum estoque e, assim mesmo, não se podia prever até quando. O que fazer? Sair agora? Esperar? Se saísse, traria tristeza para a sua família. Uns diriam: “Você saiu porque não quis atirar e, por isso, vai matar todos nós de fome?!” Outros entenderiam, e ele se sentiria pior porque não merecia essa compreensão.

A dor que estava sentindo era imensa. Não sabia o que fazer. Os pensamentos iam e vinham. A favor e contra. Já não respirava direito e sentiu um pavor tomar conta do seu corpo. Não conseguia parar de tremer. Não podia continuar ali. Num impulso, largou a arma no chão e correu. Correu mata adentro até cair exausto e sem forças. A noite chegou. Ele ficou ali. Adormeceu de cansaço.

O dia clareou. Os pensamentos vieram novamente. Retorno? Vou embora aproveitando que estou longe? E de novo a culpa e a dor. Mas, agora, era diferente. Não seria ele o responsável por matar ou morrer. Estava livre. Aliviou-se com esse pensamento e decidiu seguir em frente. E assim foi. Diante de cada decisão, descobriu que se fugisse não precisaria decidir. E, então, descobriu que fugir sempre foi uma decisão.

Um poema

No quarto escuro tremula a luz de uma única vela que já estava pela metade. O chão de terra batida mostrava a pobreza do cômodo. No entanto, o velho homem estava deitado em lençóis limpos e tudo estava organizado.

A pequena cômoda encostada na parede debaixo da janela ficava em frente à sua cama. Ainda guardava em seu tampo os últimos escritos. O poeta estava doente. Seus pulmões não resistiram ao frio intenso em condições de extrema pobreza.

Sem família, só lhe restavam os amigos que se revezavam para cuidar dele. Dora fazia o serviço mais pesado de limpeza do cômodo e dele. Fazia-lhe a barba e, com um pano úmido, lavava-lhe o corpo como podia. A febre estava alta. O médico já o havia desenganado. Era apenas uma questão de tempo. Mas Dora estava ali, ao lado de sua cama, cochilando, a pobre mulher. Cuidava dos filhos e do marido e depois ia ao seu quarto para ajudá-lo como podia.

— Queria tanto fazer algo por ela, pensou ele, olhando para o seu rosto tranquilo que dormia. Mas não tinha nada. Só os seus poemas. E de que valiam? Em toda a sua trajetória literária conseguira vender alguns poucos poemas a algum apaixonado angustiado ou um amante enlevado. No jornal publicara um ou dois, sem grande repercussão. Vivia da caridade dos poucos amigos que tinha e de uns trocados ganhos por escrever textos para lápides aos que podiam pagar por esse luxo. Que ironia! A morte havia lhe dado o sustento e agora vinha buscá-lo. Era a sua paga. Estava certo.

Respirava com dificuldade e a tosse acordou a mulher.

— Você está bem? Perguntou-lhe Dora, aproximando-se, preocupada, da beirada de sua cama.

— Fique tranquila, minha cara. A minha hora não tarda, mas ainda não chegou, respondeu ele num tom de brincadeira.

— Não diga isso, meu amigo. Você vai se recuperar, respondeu ela sem muita convicção na voz.

Ele deu um sorriso e ficou em silêncio. Agradava-lhe que ela quisesse despertar-lhe esperanças. De repente, tomou-se de um sentimento doce que o inspirou. Precisava registrar isso num poema. Mas não tinha forças para levantar-se até a cômoda, então pediu:

— Dora, minha cara. Você poderia me fazer um favor?

— Sim, claro, respondeu prontamente a mulher.

— Poderia anotar um poema para mim?

Por um momento, Dora não soube o que dizer. Ela, escrever? Suas mãos, que sempre eram usadas para cozinhar, lavar e cozer, agora iriam escrever? Há muito tempo não fazia isso. Ela nem sabia direito se conseguiria.

— Meu amigo, disse ela, o que me pede é um tanto inusitado. Se me pedisse uma sopa ou mais uma manta eu saberia rapidamente atendê-lo, mas escrever, temo que não  consiga realizá-lo.

— Não se preocupe minha cara. Serei paciente e saberei esperar até que conclua cada palavra. E se por acaso não terminar hoje, continuaremos amanhã. Mas me permita escrever um último poema, peço-lhe.

Dora não tinha como recusar o pedido de um moribundo. Assim, sentou-se diante da cômoda, que a colocava de costas para ele, apanhou uma folha de papel em branco, verificou se havia tinta no tinteiro e se a ponta da pena estava afiada e esperou.

As palavras do poeta foram ditas devagar, como ele havia prometido.

Àquela a quem devo a vida

A tua respiração é como um sopro na manhã ensolarada

Os teus gestos doces e amorosos espalham luz

Se me olha enquanto durmo, posso sentir a vida que pulsa

Na intenção dos teus cuidados

Sou um homem tocado pela beleza sem volta

Porque assim o desejo e assim é.

Minha alma se enleva no aprendizado que me inspira os

teus cuidados de mulher bondosa e destemida

Se me tocas é como se um bálsamo curasse meu corpo

Se fala comigo é como se a voz dos anjos cantassem para mim

Se me alimenta, saboreio vida

Se está ao meu lado, sou afortunado em poder olhá-la

Salvaste-me de uma morte dolorosa e solitária

Tua presença me trouxe a possibilidade da redenção eterna aqui e além

Amo-te com um amor que atravessará o tempo.

Até qualquer dia, minha amiga.

Dora esperou um tempo. Enquanto escrevia, não prestou atenção ao sentido do que estava sendo dito. Preocupada em acertar as palavras, não se deu conta de que foram ditas para ela.

Após um silêncio um tanto longo, ela repousou a pena, compreendendo que o poema estava terminado. Pegou o papel e assoprou para que a tinta secasse mais depressa. Depois arrastou devagar a cadeira para levantar-se na intenção de não perturbar o seu amigo que devia ter adormecido.

Olhou para ele e viu que os seus olhos estavam abertos e que ali não havia mais vida.

Hassan

Quanto maior o turbante, maior a importância de quem o usava. Hassan ostentava um bem alto, adornado com uma pena de ave real azul. Tinha a barba rente ao queixo que se juntava ao bigode, rodeando a boca. Seu nariz adunco se projetada por entre os olhos pequenos e astutos. Era magro e tinha uma agilidade invejável. Há quem diga que numa ocasião, seu camelo tropeçou e ele pulou antes caindo no chão em pé e sem nenhum arranhão! Muito esperto, Hassan construiu sua fortuna sabendo a quem servir na hora certa.

Ele agora aguardava calmamente que o recebessem. Era um homem influente na sua aldeia e sabia que o marajá queria usar essa influência para conseguir ampliar seu poder. Se ele tivesse em suas mãos o comércio das sedas, seu poder seria ilimitado. Os comerciantes locais sabiam como produzi-la e guardavam esse segredo a sete chaves.

Mas Hassan sabia como descobrir um segredo. Uma mulher apaixonada é capaz de qualquer coisa. Até mesmo trair o seu próprio sangue. E ele já estava atento em qual delas jogaria a sua rede. Havia umas três ou quatro solteiras, bem-apanhadas e em idade de casar. Ele poderia cortejá-la, descobrir o segredo e depois forjar uma traição para livrar-se do casamento. “Muito fácil”, pensou ele com um leve sorriso no rosto, enquanto aguardava ser anunciado.

Quando o criado o convidou a entrar, ele levantou-se calmamente. Era parte do seu plano não mostrar nenhuma ansiedade e calmamente aguardar que o seu interlocutor falasse tudo o que desejava. Depois disso, sim, ele falaria, já com todo o plano traçado o que dava ao seu oponente pouca chance de raciocinar.

Ao entrar na sala de visitas do palácio, seu olhar perdeu-se em tanta riqueza. Ele era um homem acostumado ao conforto e a opulência, mas aquilo era além de qualquer coisa que ele tivesse visto algum dia em sua vida. Até o teto da sala era pintado em ouro, sem falar nas colunas, tapetes, lustres, pinturas e estátuas. Tudo arranjado com muito bom gosto e requinte.

Outra porta se abriu, dando passagem ao marajá. Com uma inclinação de corpo, Hassan o cumprimentou retribuindo o gesto de saudação convencional: com a mão direita encostava-se a ponta dos dedos no coração, nos lábios e na testa, o que representava que ambos estariam colocando o seu coração, as suas palavras e o seu melhor pensamento naquela conversa.

Após os cumprimentos, sentaram-se nas almofadas que estavam distribuídas em torno de uma mesa. Ao som das palmas do marajá, os criados entraram trazendo várias bandejas com iguarias finas, doces e salgadas e um bule de chá quente e outro com uma bebida fria a base de tamarindo e mel, muito consumida na época de calor intenso.

Conversaram amenidades enquanto provavam de um ou outro alimento. Ao fundo, três músicos tocavam seus instrumentos e trazendo ao ambiente um clima de leveza e sofisticação.

— Bem, disse o marajá, vejo que o senhor é bem versado nas artes da hospitalidade. Tem paciência e não atropela as etapas da boa convivência. Acho que seremos bons parceiros.

— Meu caro senhor, respondeu Hassan cauteloso, para mim já é uma honra estar aqui ao seu lado usufruindo de sua magnânima hospitalidade. Para mim, só isso já seria motivo de alegrar-me por muitos dias e muitas noites.

— Mas poderíamos aumentar para mais dias e mais noites a sua alegria – respondeu o marajá, olhando atentamente aquele rosto que não deixava transparecer nenhum sentimento.

— Isso seria muita bondade sua, senhor. Proponho então que o nosso próximo encontro seja em minha casa. Não chega aos pés da sua e não tenho a intenção de ofendê-lo convidando-o para conhecê-la. A minha intenção é apenas retribuir com a minha humilde hospitalidade tudo o que hoje recebo. Que a sua casa floresça e seja prospera. Que Alá o abençoe, senhor! – dizendo isso, ajoelhou-se e tocou o chão com a testa num gesto que reforçava os seus desejos, sendo seguido no gesto pelo marajá, como previa o protocolo.

Assim permaneceram por algumas horas. Um insinuava e o outro fingia que não havia compreendido. Esse era o jogo. Um bom negócio se baseava no quanto os negociantes se respeitassem pela esperteza e inteligência demonstrados durante a negociação. Hassan era um mestre nisso e o marajá deu por concluída a conversa, quando percebeu que as cartas não estariam em suas mãos, mas sim nas do homem a sua frente. Ele precisaria medir melhor as consequências disso.

— Muito obrigado pela maravilhosa tarde, senhor – disse Hassan fazendo o cumprimento de praxe.

— Eu que agradeço por sua presença em minha casa. Muito me alegrou conversar consigo. Nos falaremos em breve, com certeza – disse o marajá, retribuindo o cumprimento formal.

Hassan saiu e, enquanto atravessava os jardins do palácio em direção à sua carruagem que o esperava fora dos portões, pensou que devia dar início ao processo de descobrir o segredo da seda. Esse marajá era um homem esperto. Não tanto quanto ele, mas não devia ser subestimado. Escolheria uma das moças e marcaria a conversa com o seu pai para acertar as visitas pré-matrimoniais. Essa escolha teria que ter como base aquela que fosse a mais romântica e inocente. Para isso, seguiria a todas e obteria informações, utilizando os seus contatos.

Hassan: um homem calculista. O que lhe dava prazer era montar estratagemas para obter aquilo que desejasse. Sua mente ardilosa estava sempre em busca de desafios. Viveu assim até a sua morte, deitado em uma cama rica e trancado em seu quarto. Os criados só perceberam que ele havia morrido quando o seu corpo já estava em avançado estado de putrefação.

Determinação

A neve caia, abundante. Com os dois filhos presos ao seu corpo, ela caminha com dificuldade. Eles nasceram em meio a um inverno rigoroso. Ela sabia que se não os mantivesse presos ao corpo, eles morreriam. Assim, amarrou um nas costas e outro na frente do seu corpo e fazia tudo o que precisava com eles presos assim. Só os soltava quando lhes dava de mamar ou trocava-lhes as fraldas.

O período mais difícil foi durante os seis primeiros meses de vida. Ela tinha que soltá-los e amarrá-los de três em três horas porque choravam, exigindo comida. Ela os alimentava, um em cada seio, e depois aproveitava para limpar as suas sujeiras.

Não seria fácil, mas ela não desistiria. Seus filhos viveriam para serem grandes homens que fariam, daquele mundo, um mundo melhor. Ela ensinaria a eles as duas coisas mais importantes que aprendera com a sua mãe: respeitar o semelhante e ter força e determinação para viver e alcançar o que desejasse. Naquele momento da sua vida, o seu maior desejo era que seus filhos vivessem. Para isso, ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Isso incluía carregá-los presos ao seu corpo, pelo tempo que fosse necessário.

E assim foi. Ela os carregou até completarem um ano de vida quando, então, sentiu que eles poderiam seguir por si só. Quando tomou essa decisão, foi como se tivesse dado à luz a eles novamente.

Eles cresceram e, sempre que podiam, contavam a sua história para quem quisesse ouvir. Que a sua mãe os carregou para que sobrevivessem. Essa história passou de geração em geração e se transformou numa lenda que todos contavam, quando queriam falar sobre o que o amor de uma mãe é capaz. Que sejam todas elas, muito abençoadas!

Perda

Chorando, a menina diz:

— Não posso entrar lá.

Carinhosamente, Rosa fala: “Eu vou entrar na sua frente. Não tenha medo. Segure na minha mão. Vamos entrar juntas. Não vou largar a sua mão em nenhum momento”.

A menina olha para ela e, encontrando em seu olhar sinceridade, lhe dá a mão. Entram juntas na casa pintada de amarelo. Rosa vai à frente sabendo que, se não for assim, a menina não terá coragem de entrar. Passam por dois cômodos vazios e seguem pelo corredor que as leva até uma sala onde há muitas pessoas. Um corpo está sendo velado.

A menina aperta a mão de Rosa. Seu corpo todo treme. Abraçadas, aproximam-se de onde está o corpo e, no grito da criança, Rosa compreende.

—Mãe!

Agarrando-se a Rosa, a criança chora. Suas pequenas mãos estão tão firmemente agarradas à roupa da mulher que os nós dos pequenos dedos estão esbranquiçados.

“O quanto é grande a dor de uma criança”, pensa Rosa. São tão pequenos para aguentar tamanha aflição…

Com esse pensamento, Rosa a abraça mais forte com a intenção de dar a ela a certeza de que não está só. Conversa com a criança, explicando que o amor nunca morre e que ela sempre vai sentir a sua mãe pertinho dela. Que ela deve sempre se lembrar de que a sua mãe a ama muito e que sempre vai amá-la.

Olhando nos olhos da mulher, a menina se acalma. Para sempre se lembrará daquela mulher que, com o seu amor, salvou-a da dor permanente.

O peregrino

O homem sentou-se por um momento. Já não aguentava longas caminhadas. Sua túnica de tecido rústico de um tom avermelhado e suas sandálias de couro estavam cobertas de pó. Em seu alforje, que trazia atravessado ao peito, havia poucos pertences pessoais: uma pequena faca, um cantil com água, ervas de cura, que ele sempre renovava assim que as colhia frescas na beira da estrada, e um pequeno pedaço de pano branco para lavar o rosto e as mãos. O que mais necessitasse, encontraria nos abrigos para peregrinos.

“Que boa gente aquela”, pensou ele, “dando de comer e de dormir aos que fazem a peregrinação em busca de respostas ou, no meu caso, em busca do perdão.” Maltratara a muitos. Ferira inocentes e usou muito mal o poder que tinha. Era preciso muita caminhada e penitência para que ele sentisse que havia alcançado o perdão.

Seu estômago avisava que a hora do almoço chegara. Uma marca na estrada orientava que ele ainda estava no meio do caminho que o levaria até o próximo abrigo. Abriu o seu alforje e viu que nada tinha para comer. “Bem”, pensou, “encontrarei algo no mato”.

Levantou-se e penetrou na mata densa, vencendo os obstáculos das folhas com os braços e cuidando para não pisar em uma cobra ou cair em algum buraco. Seus ouvidos treinados escutaram um som distante de água corrente. Continuou a andar em direção ao som que escutara. “Sempre há peixes onde há água”, pensou, sentindo a sua boca salivar imaginando o peixe fresco assando na fogueira.

De fato, havia um rio que corria manso, mas era muito raso e ali não havia peixes. Ele se decepcionou, mas resolveu aproveitar a água limpa. Lavou-se e bebeu o quanto quis, enchendo o seu cantil. Depois, encostou-se numa árvore que havia ali para descansar um pouco se deliciando com o som da água que corria e com o ar fresco propiciado pela mata cerrada que impedia a forte ação dos raios solares. Na calma do lugar e olhando a água que corria, permitiu que a sua mente se enchesse de memórias. Houve um momento na sua vida em que já não pode mais ferir o seu semelhante. “Foi aquela criança”, lembrou-se ele.

Quando o seu olhar encontrou o olhar da criança cujo pai estava sendo castigado por não pagar os impostos, foi como se uma seta transpassasse o seu coração. Ela não chorava e não havia medo nos seus olhos, só uma profunda tristeza. Ele jamais esqueceria aquele olhar. O que estava lhe dizendo? Que ela tinha pena dele? Que ele, na verdade era um fraco?

Ele não sabia responder a essas perguntas, mas sentiu-se profundamente envergonhado do que havia mandado fazer. Subitamente, ordenou:

—Parem! Soltem esse homem.

Os soldados estranharam, mas obedeceram. Uma ordem de um superior não devia ser desobedecida, sob pena de prisão imediata.

Depois desse dia, nas noites em que conseguia dormir, a primeira imagem que vinha aos seus sonhos era a daquela criança com aquele olhar cheio de mensagens que ele não sabia decifrar.

Deixou tudo para traz. Vendeu tudo, guardou as economias que tinha, pediu baixa da sua patente e saiu pelo mundo. Soube daquele caminho, onde as pessoas alcançavam graças e se redimiam das dores.

Ali estava ele, buscando a paz interior e o perdão dos pecados. Não sabia se encontraria o que procurava, mas uma coisa ele já havia compreendido: um homem só precisa de um pano sobre o corpo, um bom par de sapatos para os pés, um cantil com água e boas pessoas que lhe deem abrigo e um prato de comida.

Emocionou-se com esse pensamento. Lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Primeiro devagar e, depois, como um rio que há muito tempo estava represado, elas caíram soltas e abundantes. Como uma criança, ele chorou e soluçou sentindo em seu peito uma dor que se assemelhava a de estar sozinho num buraco fundo e escuro, sem a esperança de luz.

Deitado na relva com o rosto entre as mãos, chorou todas as lágrimas guardadas por anos de isolamento. Fora uma criança maltratada pela mãe que cresceu sem conhecer o pai. Muito jovem, entrou para o exército. Toda a sua vida fora dedicada a lutar e a fazer cumprir a lei a qualquer custo. Galgara alto posto, mas não era feliz. Não tinha esposa e nem filhos. Não tinha para quem voltar. Esses pensamentos o fizeram chorar mais ainda.

Aos poucos foi se acalmando. Levantou-se, lavou o rosto na água fria do rio e deitou-se novamente, cansado e sem esperança. Um vento começou a soprar, balançando a copa das árvores e acariciando o seu rosto. “Estranho”, pensou ele, erguendo um pouco o corpo, “uma brisa repentina”.

Como respondendo ao seu pensamento, o vento soprou uma vez mais. Ele sorriu, tendo uma estranha sensação de que não estava só. Mais uma vez, o vento soprou como a confirmar o seu pensamento.

Agora ele já estava em pé, tomado por uma estranha alegria. Teve vontade de brincar como uma criança. Lembrou-se de uma canção de sua infância e começou a cantá-la. O vento soprava como se acompanhasse o seu movimento de girar enquanto cantava.

Era encantador vê-lo cantando e girando com o vento soprando a sua volta, fazendo um redemoinho com as folhas que lentamente subiam pelo seu corpo.

Ficaram assim por um bom tempo, ele e o vento, até que ele caiu no chão exausto, mas leve. Era uma sensação que ele nunca havia sentido. Um milagre havia acontecido. Disso ele tinha certeza. Havia dançado e cantado com o vento. Seguiria a sua jornada confiando que seus passos eram protegidos e, quando nada mais houvesse, ele chamaria o vento e tudo ficaria bem.

Vanirah

Felicidade. Alegria. Sensação plena de que a vida é um presente de Deus. Vanirah gira enquanto bate no pandeiro. Seu riso largo lembra um imenso céu carregado de nuvens brancas. Ela gira ao som da música e tem a sensação de que pode voar. Vez por outra, encontra o olhar de uma de suas amigas que, junto com ela, comemoram a passagem para a vida adulta.

Vanirah tem quinze anos, mas a sua sabedoria acumula muitas vidas. Seus pais a adoram. Sempre gentil e pronta a oferecer uma palavra amiga e um consolo a quem necessita; por onde ela anda, espalha a sua alegria.

— Que viva para sempre! – pede seu pai, num pensamento fervoroso, ao vê-la dançar com as outras ciganas de sua idade.

— Que encontre um belo amor que a faça feliz! – deseja a mãe, reparando que seu corpo já é de uma mulher.

A tribo toda está em festa. Mais meninas se tornam mulheres que, cheias da força feminina, farão do mundo um lugar melhor para se viver. Os rapazes olham-nas embevecidos. Não sabem por qual delas se apaixonar. Todas são lindas e alegres com uma energia que encanta a todos.

A noite cai. A fogueira é acesa e os pedidos de todos são queimados no fogo. Fazem assim para que eles rapidamente aconteçam. O fogo transforma e ilumina. Os homens se preparam para a guarda da noite e as mulheres cozinham a mistura de leite com aveia, favos de mel e especiarias, iguaria servida nessas ocasiões. Todos tomam a bebida doce que aquece e enleva os corações. Os casais dão boa noite, as crianças são recolhidas e os pais das meninas-mulheres cumprimentam-se desejando, mais uma vez, que o caminho de suas filhas seja claro e cheio de amor.

Vanirah pede a mãe que a deixe sentar-se no alto da grande pedra para apreciar a lua que, linda, brilha redonda no céu, antes de dormir. Sua mãe concorda. “Afinal, ela já é uma mulher”, pensa ela. Mas como mãe zelosa que é, enchê-a de recomendações para que se agasalhe e não se demore.

Vanirah sobe na pedra e olha diretamente para a lua. Seu coração está tão pleno de alegria que não contém a emoção. Num impulso, ela faz uma prece:

“Senhora de todos os homens, concedei-me a graça de reconhecer o melhor do meu semelhante. Concedei-me a virtude de proferir somente palavras de alento e de carinho. Que minhas mãos sirvam muito mais para o afago que para a luta. Que meus gestos sejam mansos e firmes. Que no meu caminho a tua força e luz brilhem, a fim de que eu saiba sempre para onde devo ir. Que os meus inimigos não tenham vitória em fazer-me o mal, mas sejam capazes de enxergar a tua luz que brilha em mim.
Que assim seja!”

Como em resposta à sua prece, uma estrela corre no céu e outra muda a sua luz, variando as cores. Em seu coração, Vanirah sabe que sua prece foi ouvida.

Isaac

O bom homem sempre se sentava na beira do poço. Gostava de ficar ali. Todos em algum momento do dia teriam que pegar água; então, ele poderia conversar um pouquinho com cada um.

Desde que falecera sua esposa, a boa Rute, Isaac não tinha mais com quem conversar. Seus filhos haviam saído pelo mundo. A cada seis meses, ele recebia uma notícia de um, outra notícia de outro. E assim era.

Ele não gostava de ficar sozinho e não queria importunar as pessoas. Por isso, ia à beira do poço e lá ficava. Quando era preciso, ele auxiliava uma senhora ou uma criança a pegar a água.

Com o tempo, ele passou a ser conhecido como Isaac do Poço. Quando alguém queria um conselho ou precisava de uma palavra amiga, lá ia ter com ele.

Para seu maior conforto, mandou construir um banco de dois lugares e o fixou próximo ao poço. Tinha sempre com quem conversar. Às vezes as pessoas iam até lá e voltavam para as suas casas porque ele já estava conversando com alguém e não havia hora para terminar a conversa.

E assim, as horas e os dias iam passando e Isaac estava feliz. Era útil e o seu tempo passava rápido.

A noite voltava para casa, fazia uma refeição leve com pão, queijo, azeitonas e uma taça de vinho. Já não tinha tanta fome e comer sozinho lhe tirava mais ainda o apetite.

Certa noite, ele já estava para se recolher quando ouviu batidas na porta. “Quem será a essa hora?” – perguntou-se. Atravessou o corredor em direção à porta e perguntou:

— Quem deseja?

— Perdoe-me, senhor, disse uma voz de mulher. Sou Ana, avó de Josias. Ele não está passando bem e insiste em vê-lo.

Abrindo a porta imediatamente, Isaac convidou-a a entrar.

— Deseja beber algo? Parece abatida. Sente-se um pouco e descanse.

A mulher agradeceu. Estava mesmo cansada. Subiu muito rápido até a casa dele e já não era tão jovem.

— Muito obrigada! Agradeço-lhe demais pela hospitalidade. Sinto muitíssimo importuná-lo, mas o meu neto, Josias, está delirando em febre e chama pelo seu nome. Desde que perdeu os pais, sou eu a responsável por ele. Ele é um menino muito bom, mas hoje se excedeu nas tarefas debaixo do sol. Já não posso trabalhar como antes e ele precisa fazer quase tudo. É apenas um menino de nove anos, mas é muito esperto o meu Josias– podia se ver um sorriso em seu rosto ao dizer essas palavras.

— Bem, fico feliz que seu neto lhe seja de tão boa ajuda. Tenho certeza de que também é uma boa avó para ele. Mas o que posso fazer pela senhora?

— Desculpe-me uma vez mais… Quase não falo com ninguém e quando encontro tão bons ouvidos, o que é raro, não paro de falar. Veja, lá vou eu novamente. Mas agora deixe-me dizer. O meu neto está febril e chama pelo seu nome. Ele fala sem parar no senhor. Então, pedi a uma vizinha que o olhasse para mim e vim procurá-lo, apesar da hora que já lá se vai avançada.

— Bem, disse Isaac compadecido da mulher, vou acompanhá-la de volta à sua casa e lá veremos do que se trata.

Desceram juntos, caminhando lado a lado, em direção à casa da senhora Ana. No caminho, ele lhe fez perguntas sobre a saúde de Josias, se um médico já havia sido chamado e outras coisas mais. Ela respondeu a todas as perguntas com riqueza de detalhes e, quando deram por si, já haviam chegado à casa.

— Passou rápido, não é mesmo, disse Ana

— Sim, concordou Isaac, quando temos boa companhia o tempo corre mais depressa.

Ana corou levemente com o elogio. Desviando o olhar e bateu na porta, anunciando que chegara. A vizinha abriu e ela entrou, seguida de Isaac.

— E então, minha amiga, perguntou Ana, como está meu neto. Trouxe comigo o senhor Isaac, que Deus o abençoe pela generosidade.

— Como vai senhor, cumprimentou a vizinha. Muito obrigada por ter vindo. Ana estava muito preocupada. Agora o menino está dormindo e parece que a febre cedeu.

Ana abriu um largo sorriso e disse:

— Deus seja louvado, que alegria! – e abraçou a mulher, que retribuiu o abraço.

Do canto da sala, Isaac olhou mais atentamente para Ana e pensou:

— Eis aí uma boa mulher. Apesar do perigo, venceu o seu medo para buscar ajuda para o seu neto. Esse pensamento o levou para a sua Rute, trazendo-lhe um sentimento de saudade que logo foi espantado pelas palavras de Ana

— Senhor Isaac, veja que felicidade. O meu Josias já está melhor. É um milagre que atribuo a sua generosidade e a sua presença. Muito obrigada, mais uma vez. Por favor, sente-se. Vou fazer um chá e servir-lhe um pedaço de pão feito por mim mesma ainda esta tarde.

— Preciso ir, cara Ana.  Meu marido já deve estar preocupado – disse a vizinha, e virando-se para Isaac: Até logo, senhor.

Isaac levantou-se e respondeu:

—Até logo, senhora.

Quando se viram a sós, um clima de constrangimento pairou na sala, sendo logo quebrado por Isaac.

— Bem, senhora Ana, devo me retirar. O seu neto já está bem e a senhora está a salvo em sua casa.

— Não, não. Por favor, sente-se. O chá logo ficará pronto e o senhor precisa experimentar o pão que faço. É uma receita muito antiga, passada na minha família de geração a geração.

A simpatia da mulher, juntamente com o quanto ele gostava de uma boa conversa, fez com que ele se sentasse novamente. Comeram, beberam o chá e conversaram sem parar. Um assunto levava a outro; assim, o bule de chá foi sendo esvaziado e alguns poucos raios de sol já surgiam no céu escuro. Ambos se espantaram com o passar das horas sem que nenhum dos dois notasse.

— Bem, senhora Ana. Creio que pelo adiantado da hora, vou direto para o meu banco ao lado do poço.

Os dois riram da brincadeira e Isaac saiu, dando-lhe até logo com certa dor no coração.

Naquele dia, ele voltou ao banco que ficava ao lado do poço mas, no dia seguinte, não foi e no outro também não.

Conta-se que agora ele passeia com a senhora Ana todas as tardes. Juntos, vão ao mercado e à sinagoga. Outro dia, correu a notícia de que ele a pedira em casamento e que ela aceitara. Os que vão ao poço buscar água, sentam-se para descansar no banco do Isaac do Poço, lembrando de suas histórias e dando uma pausa para o devaneio e a contemplação. Pois não é para isso que servem os bancos colocados ao ar livre?

Amidalah

Amidalah caminha apressado, atravessando o jardim de sua casa. Apesar da tarde quente, o caminho que o leva até a entrada da casa é agradável graças à maravilhosa engenhosidade do seu povo que aprendeu a cultivar plantas e folhagens, garantindo o frescor que vem delas. O seu povo era conhecido por propiciar boa estada aos hóspedes, e ela começava pela entrada das casas. Amidalah sorri, orgulhoso daquele pensamento enquanto caminha.

Ele era um comerciante bem sucedido. Não tinha muita riqueza, mas seu negócio de tecidos prosperava. As pessoas de todas as raças o conheciam e ele sabia como tratar a todos para se fazer agradável, conseguindo sempre boas vendas. Aos árabes possibilitava a barganha e aos judeus, descontos. Aos seguidores do Cristo, oferecia uma bebida para refrescá-los e ouvia-lhes as histórias antes de conversar sobre negócios. Essa estratégia sempre funcionava. Amidalah pertencia a um povo que adorava contar as suas histórias.

Para ele, o melhor de tudo era que todos viviam em harmonia. Todos tinham o seu Deus que era o mesmo Deus. Davam-lhe nomes diferentes, mas todos sabiam que se tratava do mesmo Deus. Para ele, Alá, O Único, O Onipresente, O Verdadeiro Deus a quem ele prestava homenagens em vários momentos do seu dia, colocando sua testa no chão.

Estava ansioso. Mandaram-lhe chamar. Sua mulher, Mirnarah, estava dando à luz ao seu terceiro filho. Outro homem, pensou ele. Que Alá seja louvado!

Com esse pensamento, ajoelhou-se no chão e com a testa tocou o solo em reverência ao pensamento que teve. A serva já vinha em sua direção.
— Outro menino, Senhor, outro menino!

Amidalah ajoelhou-se novamente no chão e, com voz embargada pelas lágrimas, agradeceu recitando poemas em louvor a Alá. Ficou ali alguns minutos. Quando se levantou, seu rosto mostrava a face da felicidade. Como um filho homem é bem-vindo. Mais um filho para honrar seu nome, preservá-lo e seguir com os seus negócios. Ele já podia morrer feliz. Três filhos. É muita sorte para um homem. As pessoas de seu povo encheriam a sua loja. Comprar de alguém tão afortunado assim trazia boa sorte. Sua fama correria a cidadela e as outras pessoas viriam nem que fosse por curiosidade. Esfregou as mãos de tanto entusiasmo e entrou na casa aos gritos:
— Mirnarah, Mirnarah, minha amada e adorada esposa. Dar-te-ei mais joias do que o seu braço vai conseguir carregar. Para cada dia do ano terás uma joia que eu mesmo mandarei talhar. Juro-te por Alá, minha amada.

Enquanto andava em direção ao quarto de sua mulher, ele falava:
— Digo em voz bem alta para que todos sejam testemunhas. Que Alá me fulmine se eu não cumprir com a palavra empenhada em nome Dele.

Quando estava próximo à porta, ouviu um choro fraco de criança. Seu filho!
Bateu na porta. Amidalah era um homem respeitoso. Ele não invadiria os aposentos de uma mulher que houvesse acabado de ter um filho, nem que sua mão direita fosse cortada. Aguardou ansioso para que a abrissem. Finalmente, a serva abre a porta.
— Entre, meu senhor. A senhora já pode recebê-lo.

Amidalah desejou que sua aparência fosse a melhor possível. Nestes últimos meses, vira sua esposa apenas de longe. Não era bom que o marido visse sua esposa nos últimos meses de gravidez, para não lhe criar nenhum constrangimento. Era prudente manter-se afastado. Uma mulher que espera um bebê deve ficar em paz e maridos podem fazer com que as esposas grávidas percam a paz, prejudicando o nascimento dos filhos.

Ao entrar no quarto, Amidalah percebeu o quanto sua esposa havia feito falta para ele nesses últimos tempos. O quanto o seu carinho e palavras de conforto eram abençoados e o quanto ele a amava.

Negociara casar-se com ela porque sentiu em seu peito, desde a primeira vez que a vira, um sentimento nunca experimentado. Era esse mesmo sentimento que aflorava agora que ele a via diante dele, deitada na cama. Como era bela. Que belo cabelo, longo e negro, e que pele clara e olhos brilhantes ela tinha. Sentiu o desejo invadir o seu corpo e imediatamente afastou esses pensamentos. Aquela não era hora para isso.

Mirnarah estendeu seus braços para ele que, sentando-se à beira da cama, abraçou-a desejando que esse gesto mostrasse a ela o quanto a amava. Em seguida, retirou um pequeno embrulho da faixa que trazia à cintura, entregando-o a ela.
— Que bela joia, querido esposo. Muito obrigada – disse Mirnarah com voz emocionada.
Em suas mãos, um lindo pássaro em ouro com olhos de esmeralda brilhava.
— Ela será a minha joia da sorte porque me foi dada no dia mais feliz da minha vida. Hoje completo três filhos homens que farão a alegria e a prosperidade da nossa casa.
— Dar-te-ei uma joia durante todos os dias deste ano, até que chegue esse mesmo dia no próximo ano, como prova da minha alegria e do meu amor – diz Amidalah num tom firme de quem empenha a palavra.

Mirnarah enlaça com seus braços o pescoço de seu marido, pensando no que teria ela feito em outra vida para ser tão feliz nesta.

Augustine

Por todo o lado, o cheiro da morte está no ar. “Isso só pode ser castigo” – pensa a freira, enquanto se dirige ao hospital. Ouvira falar que pessoas doentes estavam sendo instaladas nas igrejas. Não havia mais lugar nos hospitais, nem nas casas de saúde.

Irmã Augustine se apiedara daquela gente que, mesmo sofrendo, cantava e rezava. No caminho para o hospital, ela podia ouvir suas orações.

Não havia muito o que pudesse ser feito. Aqueles que ficavam doentes tinham pouca chance de sobreviver. A peste não poupava ninguém. A ela cabia levar alento, fazer compressas para baixar a febre e alimentar aqueles que ainda podiam comer.

O hospital estava repleto de doentes. Os corredores cheios de camas. Pessoas gemendo e gritando, pedindo ajuda. Eram tão poucos para atender a tantos…

Augustine fazia o que podia, mas naquele dia não estava bem. Sentiu uma leve tontura ao caminhar em direção ao hospital, mas atribuiu isso ao dia quente e ao odor forte das ruas por onde trafegavam as carroças cheias de corpos que seriam queimados e enterrados.

Sentindo-se fraca após cuidar de alguns doentes, ela vai até a porta em busca de ar fresco. A última imagem que vê são as nuvens brancas no céu azul.

Em seu delírio, ela vê uma menina de cabelos brancos e escuta um nome: Zúria. Ela lhe estende a mão, encontrando conforto e paz.

Huntah

Huntah vivia nas terras geladas e juntara-se à tribo porque, para ela, não havia mais esperança na aldeia em que vivia. Enxotada pelo povo por fazer intrigas e colocar em risco a segurança dos moradores, ela pedira asilo ao líder dos ciganos, Tirê, que a aceitou, porque se apiedara dela e confiara que entre eles, ela aprenderia algo que a levaria para a luz.

Não era bonita. Seus traços eram grosseiros e seu corpo opulento. Para ela, nunca havia tempo para as tarefas diárias. Sempre tinha uma desculpa e todos a toleravam porque o seu líder, Tirê, havia pedido que tivessem paciência com ela e eles o obedeciam porque o amavam.

O maior sentimento que Huntah nutria era a inveja. Invejava a beleza das mulheres da tribo e o colorido das suas vestes. A cada dia ela se fechava mais nos seus sentimentos escuros, criando à sua volta uma nuvem de energia que afastava as pessoas.

Certo dia, Vanirah foi buscar água no rio quando sentiu a presença de alguém. Olhou a sua volta e seu olhar encontrou um pouco distante dali a mulher que Tirê havia aceitado na tribo.

Vanirah nunca havia conversado com ela, mas ao perceber que ela também a havia visto, deu-lhe um aceno de mão amigável. A mulher não retribuiu ao aceno e baixou novamente a cabeça. Vanirah estranhou. Não estava acostumada a que não lhe respondessem a um aceno de mão e pensou que talvez a mulher não estivesse se sentindo bem.

Resolveu aproximar-se. Quando estava próxima, sentiu uma estranha energia que reconheceu ser muito diferente da sua e pensou: “Essa mulher está doente”.
— Senhora, disse, necessita de ajuda?

Huntah levantou a cabeça e respondeu:
— Não lhe respondi ao aceno, porque não desejo falar com ninguém.

Vanirah chocou-se com a resposta, mas teve a confirmação da enfermidade da mulher. Então disse:
— Perdoe-me, não quis incomodá-la, mas percebo que a Senhora não está bem.

Huntah olhou novamente a jovem cigana. Tão bela e doce. Suave como a brisa que soprava. Sua intenção em ajudá-la parecia verdadeira. “Pois bem, vamos ver o que essa pequena criança pode fazer por mim”, pensou Huntah, desdenhando.
— Será que você pode mesmo me ajudar? Você tem um corpo bonito para me dar? Ou um rosto claro e belo? Ou será que você teria aí um pouco de graça para a dança. Não, imagino que não. Então, até logo – finalizou com um tom de agressividade.

Vanirah respondeu:
— Engana-se! Tenho tudo isso para lhe dar, desde que a Senhora faça o que eu lhe disser.
— Mas ora, vejam só. A menina é petulante. E o que devo então fazer, na sua opinião?

Magia da Beleza

Na noite de Lua Cheia, em meio à natureza, dispa-se, jogue a roupa bem distante de você e banhe-se com uma água na qual deve haver pétalas de flores vermelhas e essência de almíscar.

Após banhar-se, levante os braços para o alto e diga: Que a força da natureza esteja em mim. Que eu seja contaminada pela beleza das flores e dos pássaros. Que em minha vida só haja luz e bons pensamentos e que o melhor para mim aconteça”.

Em seguida, queime a roupa e vista-se com uma túnica branca. Volte para a sua carroça, tome um chá de flores brancas e durma.

Huntah não acreditou no que ouviu. A menina estava lhe dando uma receita de como ser bela e bastava que ela seguisse essa receita?
— Isso eu quero ver, respondeu Huntah. Quando faremos?
— Vou prepará-la para esse dia e, na próxima lua cheia, faremos – respondeu Vanirah.

Vanirah passou a visitar Huntah todos os dias. Sua presença e carinho, aos poucos, foram penetrando no campo de força dela, modificando a sua energia.

Passado algum tempo, Vanirah concluiu que Huntah já estava pronta.
Huntah, sem que percebesse, já estava mais bonita. Sua energia já não era tão ácida e seu corpo havia mudado com as constantes caminhadas que Vanirah impunha a ela, como parte da preparação para o grande dia. Quando a Lua cheia chegou, foram para a floresta.

Vanirah juntou às palavras de Huntah todo o seu desejo de que ela fosse feliz e se libertasse dos seus recalques e pensamentos ruins.

No dia seguinte, Huntah acordou e encontrou na beira de sua cama um lindo xale colorido, presente de Vanirah. Correu para olhar-se no espelho. A imagem que viu chocou-a. Quem era aquela mulher? Seu rosto era o mesmo, mas a sua pele estava mais clara e seu nariz já não parecia tão grande. Seus olhos estavam brilhantes e seu cabelo sedoso.

Lágrimas brotaram dos seus olhos e ela sentiu em seu coração uma emoção até então desconhecida. Mais tarde, conversando com Vanirah, ela soube que era gratidão.

O Ferreiro

O som do martelo batendo na bigorna causava nele uma sensação única. Era como se o martelo, a bigorna e ele fossem um só. Há anos era ferreiro. Havia herdado esse ofício de seu pai, que herdara de seu avô, que herdara do pai dele.

Vonsés não sabia o quanto essa linhagem era distante. O que ele sabia é que, desde sempre, os homens da sua família ferravam animais e forjavam espadas.

Naquele dia, porém, ele havia ficado curioso e de certa forma impressionado com o cavaleiro que o visitara. Ele chegou montado em seu cavalo, um animal fabuloso, forte e garboso como era o próprio cavaleiro. Ao descer do cavalo, Vonsés pode ver que ele era alto, moreno e forte.

Com um sotaque carregado, que Vonsés não reconheceu a procedência, pediu-lhe que forjasse uma espada leve e de bom corte. Tendo dito isso, pagou-lhe adiantado pelo trabalho, pedindo urgência na confecção.

Vonsés já ia dizer que tinha muito trabalho e que a espada que o cavaleiro lhe pedia havia de demorar a ficar pronta, mas vendo a urgência na voz do homem e diante do saco de moedas, calou-se. Agora estava lá, altas horas da madrugada, batendo o ferro.

Os vizinhos já estavam reclamando. Mas o que fazer? Havia prometido que em três dias faria a espada e ele não era homem de descumprir um trato.
— Que aguentassem, pensou ele, levantando os ombros.

Com parte do dinheiro que recebera pela espada, faria um bom almoço e convidaria seus vizinhos para saboreá-lo. Sua amada Virna era prendada nas artes da cozinha e não faria feio. Todos se alegrariam e esqueceriam as noites mal dormidas por conta do bate-bate do martelo.

O fio da espada já estava quase no ponto. Era preciso bater com cuidado, caso contrário, todo o serviço estaria perdido. Seu pai o havia ensinado que é preciso sentir o ferro. Que ele se molda na mão quando tratado com gentileza e suavidade. A cada batida, devemos fazer uma prece por aqueles que a espada ferirá. Quem forja a espada é responsável por ela, e para que o ferreiro que a fez não carregue os espíritos dos que morrerão através dela, ele deve buscar o perdão da espada. Isso era o que levava mais tempo, mas era preciso fazer. O seu pai lhe contara longas histórias de ferreiros que morreram misteriosamente, e cujas almas ficaram a vagar sem saber para onde ir.

Bem, com isso não se brinca e ele é que não iria duvidar de uma tradição tão antiga. Honraria seu pai e todos os seus antepassados, fazendo uma espada que, ao final, não teria a sua energia, mas sim a energia de quem a empunhasse. Esse que acertasse, por ele mesmo, as contas com Deus.

A última martelada soou. Vonsés aproximou o ouvido do metal e escutou por um tempo. O silêncio foi a prova final. A espada estava pronta.

Cansado e dolorido do esforço físico, lavou-se e foi deitar-se. No dia seguinte o cavaleiro estaria lá bem cedo para buscar a sua espada que, graças a Deus, estava pronta.

O sol estava nascendo quando o cavaleiro se aproximou da casa do ferreiro. Ele já havia ouvido falar naquele homem. Sabia que ele tratava a espada da forma correta. Poucos faziam o ritual de purificar o metal. Essa forma antiga e cheia de magia estava se perdendo. Mas ainda havia esse ferreiro, que haveria de servir a cavaleiros como ele por muito tempo. Com esse pensamento, o cavaleiro curvou a cabeça dizendo em voz baixa: “Que assim seja!”

O ferreiro saiu da casa cumprimentando o cavaleiro. Em suas mãos via-se um embrulho feito com couro curtido de um animal que o cavaleiro não reconheceu. Pegando o pacote, desenrolou-o, segurando a espada com as duas mãos.

Assim que a teve em suas mãos, afastou-se do ferreiro e se ajoelhou, virado para o sol que nascia. Fincou a espada na terra, abaixou a sua cabeça e assim ficou.

O ferreiro ficou parado, mudo e sem mexer nenhum músculo do seu corpo, com receio de interromper o cavaleiro que parecia estar rezando. De fato, o cavaleiro devia estar fazendo o seu ritual antes de empunhar a espada. Isso ele sabia bem o que era e o que significava.

Quando o sol já havia clareado o dia, o cavaleiro levantou-se, agradeceu o ferreiro, montou em seu cavalo e partiu. Vonsés ficou olhando o homem até que a sua vista não pode mais vê-lo. Um pensamento lhe ocorreu:
— Deus permita que esse homem não precise matar, mas se tiver de fazê-lo, que seja por uma causa justa e para o benefício de muitos.

De dentro da casa, Virna o chamava para o café da manhã. Mais um dia começava.

Thiago

Com um graveto, o homem desenha figuras na areia. A suave brisa do mar sopra a areia e apaga os desenhos que ele torna a desenhar, enquanto fala.

Thiago fica curioso e se aproxima. Seu irmão João e os outros companheiros de pesca estão em torno dele. Quando está mais próximo do grupo, o homem se vira para ele e sorri.

Thiago é tomado de um sentimento estranho. Esse homem sorriu para ele. Os homens quando se conhecem não sorriem uns para os outros. Ao contrário, olham-se sempre sérios, demonstrando força. Mas esse homem lhe deu um sorriso. Thiago fica por um momento paralisado sem saber o que fazer. Após um segundo de perplexidade, ele balança a sua cabeça como resposta, permanecendo sério.

Desviando o seu olhar de Thiago, o homem continua a história que estava contando. Conforme vai falando, desenha figuras na areia.

Thiago escuta a história quando ela já está pelo meio, mas a narrativa o prende.
O homem fala de um comerciante muito rico que juntava as riquezas que obtinha, sempre pensando que um dia as gastaria. Então, ele morreu sem nunca ter usado nada do que ganhou. Seus parentes, ao contrário, gastaram tudo em pouco tempo, sem valorizar o que foi ganho à custa de muito trabalho. O homem finalizou a história, dizendo:

— De que vale acumular riquezas se não podemos tornar a nossa vida melhor de ser vivida, usufruindo delas? De que vale trabalharmos tanto se logo morreremos sem ter experimentado o que é banhar-se neste mar quente e reconfortante?

Dizendo isso, largou o graveto que usava para desenhar e disse:
— Venham todos, vamos nadar. E se atirou no mar, rindo e espalhando água para todos os lados.

Fazia um calor intenso. Thiago olhou para seus companheiros que, olhando uns para os outros, disseram:
— Se formos todos, ninguém há de dizer nada.

Assim, mergulharam todos na água do mar que, de verdade, estava maravilhosa.
As pessoas que estavam por ali lançaram olhares: uns, de perplexidade; outros, de reprovação e outros ainda, de divertimento. Mas a verdade é que, naquele dia, Thiago sentiu crescer em seu coração um sentimento especial por aquele homem alegre e bem humorado, o qual seguiu até o final dos seus dias.

Deodato

O canavial era muito grande. Até onde a vista alcançava, via-se a cana despontar por entre a folhagem que feria como uma navalha a pele dos negros que, há horas, cortavam a planta, amarrando-a em grandes feixes para depois transportá-la para a moenda e fazer a rapadura. Ali também havia negros impulsionando a moenda, mexendo grandes tachos e fervendo o líquido extraído da cana.

Mexer o tacho era o pior trabalho. Depois que a água evaporava, formava-se uma massa densa que continuava fervendo e formando bolhas que espirravam, queimando a pele.

A negra mexia o tacho procurando esquivar-se das bolhas que estouravam. Ela adquirira uma prática interessante para não se ferir no manuseio das colheres de pau usadas para mexer o tacho. Revestia o seu braço com grandes folhas de bananeira que eram amarradas por cipós. Isso a livrava das queimaduras nos braços, mas não protegia o resto do corpo. O tacho era muito grande e o fogo ateado a sua volta podia fazer arder a roupa de um escravo desavisado. Muitos tiveram queimaduras horríveis mexendo o tacho da rapadura, que os levaram à morte.

Subitamente, ela ouviu o seu nome sendo chamado por um grito distante. Era um dos negros do canavial. Mas o que teria acontecido de tão grave para que um negro deixasse o trabalho àquela hora do dia para ir chamar por ela? Sentindo a tensão endurecer o seu corpo delgado e forte e sem titubear, ela largou a enorme colher de pau que usava para mexer o tacho no chão de terra batida e correu para a porta.

— Venha Cínara, corra. Deodato está sendo espancado pelo feitor, que pode matá-lo de tanta pancada! – disse o negro, afogueado com a corrida.

Ela correu como nunca havia corrido antes. Se perdesse o seu amor, ela morreria juntamente com ele. Quando se aproximou do tronco, viu uma massa disforme, sangrando. O feitor, possuído por um espírito ruim, batia sem ver que o homem que ele espancava estava desacordado e não sentia mais nada.

Com a fúria de uma mulher apaixonada, ela se colocou à frente do feitor quando ele estava prestes a dar mais uma chicotada, gritando:

— Pare! Ele está morto!

O feitor olhou nos olhos da negra à sua frente e voltou à realidade. O que ela estava dizendo?

— Saia da minha frente negra! – disse ele empurrando-a para o lado.

E foi então que ele viu o corpo ensanguentado à sua frente. Isso não era bom. Se esse negro tivesse morrido, ele teria que prestar contas ao Coronel. Já matara outros três da mesma maneira e tinha pagado essa perda com o seu salário. Desta vez, o castigo seria pior.

— Tire-o do tronco. Vamos! – ordenou o feitor aos seus capatazes.

— E você, negra, cuide dele. Se ele morrer, vou acertar as contas contigo! – essas últimas palavras foram ditas com o chicote apontado para Cinara.

Quando o corpo foi retirado do tronco, Cinara ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Colocou-o deitado em seu colo, enquanto os capatazes traziam água para lavar os ferimentos a mando do feitor. Trouxeram também uma pasta que era usada para ajudar na cicatrização dos ferimentos que provocava uma dor horrível, mas impedia que eles infeccionassem e levassem o castigado a uma morte horrível, após uma febre intensa.

Ela chamou por ele, beijou-lhe o rosto e lavou as suas feridas devagar, ali mesmo no chão do terreiro. Os outros negros cantavam em volta dos dois, pedindo aos deuses que tivessem piedade deles. Deodato não respirava mais. Lentamente, o seu corpo foi perdendo o calor que denuncia vida. Todos já sabiam que ele morrera, mas ela ainda cuidava dos ferimentos como se, assim, ela pudesse fazer com que ele voltasse à vida.

Antes de começar a passar a pasta nas feridas, conversou como se ele ainda vivesse, dizendo que o remédio ia doer muito, mas que seria bom para ele. As lágrimas corriam pelo rosto de Cinara, e ela cuidou de cada ferimento. Quando terminou, pediu uma camisa limpa. Ajudada pelas outras mulheres, vestiu o corpo dele pela última vez.

Quando as chamas subiram, queimando o corpo que ela tantas vezes amou, podia-se da casa grande ouvir os seus gritos e o seu choro desesperado, compadecendo as mulheres que lá viviam.

A dor que ela sentia era forte demais. Foi quando Cinara percebeu, com muita força, a presença dele ao seu lado e confortou-se. Ele viveria para sempre no coração dela.

Do outro lado, ele sorriu. Ela sentira a sua presença. Tudo ficaria bem, agora.

Galileu

O lugar era escuro e fétido. Ele podia escutar os pingos de água que caiam em intervalos regulares, provocando um som ritmado ao caírem na pedra que cobria o chão sujo e escorregadio.

Muito acima da sua cabeça, via-se uma pequena janela por onde entrava um pouco de claridade que iluminava muito mal o calabouço onde ele se encontrava. Estava preso há muitos dias. Os magistrados não chegavam a uma conclusão sobre a sua sentença.

Ele era um homem de posses e muito conhecido pelo seu conhecimento das ciências e das artes. Um teórico, diriam uns. Um cientista, diriam outros. Ele mesmo não sabia quem era, sabia apenas que em sua mente havia muitas perguntas e poucas repostas.
Sempre fora curioso e essa característica havia feito com que, desde menino, construísse engenhocas, desafiando seus amigos a experimentarem-nas. Muitas pernas e dedos foram quebrados nestas tentativas heroicas, mas ele não desistia. Fora assim que construíra para sua mãe um sistema de captação da água do rio que desaguava em uma cisterna ao lado da casa.

Isso havia facilitado demais o trabalho dela. Com o tempo, foi contratado para construir esse mesmo sistema em outras casas – o que lhe trouxe fama e dinheiro. Lendas corriam: ele era um bruxo poderoso e tinha pacto com o demônio.

Depois vieram outros pequenos inventos dos quais mal se lembrava. O fato era que dessa vez desafiara a Igreja Católica com as suas afirmações. Isso eles não tolerariam.
Pois bem, pensou ele, se retrataria sem problemas. Não era uma questão de certo e de errado. Era o que era, e mais tarde ou mais cedo, eles teriam que se render aos fatos: a Terra era redonda.

Galileu ajeitou-se como pode ao ouvir os passos que vinham em direção à sua cela. A porta abriu-se, dando passagem ao magistrado.

— Chegou-se a um veredicto! – comunicou o magistrado. Concluíram que, se o senhor se retratar, será solto e perdoado. O que me diz? Perguntou, com certa impaciência na voz. Esse julgamento estava tirando o seu sono e não era para tanto. O que tinha demais saber se a Terra era redonda, quadrada, ou seja lá o que fosse? Esse homem era um lunático e pronto!

Galileu sorriu e respondeu:

— Concordo plenamente, senhor. Foi através de um delírio meu que sonhei que a Terra é redonda. Tudo não passou de mera fantasia, essa que é a verdade. Vamos lá então. Direi isso publicamente.

Diante de todo o júri e das pessoas que assistiam ao julgamento, ele disse:

— Por minha honra e pela honra de minha família, juro que a Terra não é redonda. Quando afirmei isso, estava delirando, tomado por uma noite mal dormida em que sonhamos absurdos que nos parecem verdade.

O júri sorriu aliviado. O clérigo presente relaxou na cadeira e o magistrado, batendo com o martelo na mesa, deu por encerrado o julgamento.

Ao sair para o dia claro, Galileu caminhou de volta à sua casa, apoiado pelo seu servo. Enquanto caminhava, bateu levemente no ombro de seu criado e disse:

— Sabe de uma coisa, Venâncio. Apesar de ter jurado por mim e pela minha família, arderei no fogo do inferno por perjúrio porque, de fato, a Terra é redonda.

O criado tremeu diante das palavras de seu Mestre e benzendo-se para afastar o mal, disse:

— Senhor, não fale mais isso. Se vos ouvem, voltarás para o calabouço e desta vez não haverá jura que o solte.

— Não tema, meu amigo, todos agora me tomam por um arauto de invencionices tolas. Sou agora desacreditado. Hora digo uma coisa e depois desminto o que acabei de afirmar. Quem vai acreditar em mim daqui para frente? Estou condenado à descrença, Venâncio. Para sempre.

Galileu mergulhou no seu trabalho, registrando todas as suas conclusões. Muito pouco saiu de casa depois do julgamento que o transformou em um homem desacreditado. Mais tarde, seus escritos serviram de base para o aprofundamento de vários estudos astronômicos.

Lucia bate a roupa na pedra. Os lençóis de linho precisam estar imaculados. É assim que ela gosta deles. O sol está quente. Daqui a pouco, será a hora do almoço e ela voltará para o acampamento para alimentar o seu filho único que ficou brincando com as outras crianças da tribo, enquanto ela ia até o rio lavar a roupa.

Ouvindo o trotar de um cavalo, ela levanta o rosto e vê o cigano Toráh. Ele desce do animal e caminha na direção dela. No rosto dele, ela vê a marca da tristeza. A roupa escorrega das suas mãos e um grito sai da sua garganta.

— Meu filho!

Diante de Zúria, ela pede a morte. Nenhuma mãe que perde o seu filho deve manter-se viva. A Sacerdotisa, com a voz carregada de amor, lhe diz:
— Se não queres mais a vida, toma a minha. Se não tens mais fé, usa a minha. Ficarás ao meu lado para que tomes o que é meu para que seja teu.

Por dias, ela fica ao lado de Zúria. A ferida aberta, lentamente se cura no colo da mãe.
Quando ela volta para a tribo, é uma mulher mais forte e mais sábia.

Sephi

Está muito escuro. O cavaleiro continua andando apesar da dor que sente no corpo todo. Ele sabe que a dor não é só física. É uma dor na alma. O seu peito parece que vai explodir pelo esforço, mas ele precisa continuar. Dessa vez, nada vai impedi-lo de alcançar a saída. Já tentara muitas vezes, sempre desviando o seu caminho, dando ouvidos a uma oferta sedutora ou a um apelo dolorido. Dessa vez, porém, nada o tiraria do seu objetivo.

Por entre a densa folhagem que por vezes corta o seu braço e fere os seus pés, ele continua em frente. Tropeça, cai e machuca o rosto numa pedra. A face sangra, mas ele continua. As vestes estão em farrapos e o cabelo emaranhado, mas ele não para. Algo maior o guia. É a sua definição. Ele deu um basta em tudo. Não machucaria mais ninguém, não seria mais marionete de nenhum senhor cruel. Não sacrificaria mais seres humanos como um animal enraivecido e não tiraria mais a felicidade das pessoas.

Estava acabado!

Só a morte o deteria e, mesmo assim, ele voltaria exatamente para o ponto em que parasse. Então, nem mesmo ela, a morte, tão desejada em alguns momentos, era bem vinda agora. Ele só tinha a si próprio e estava decidido. Por ele e pela sua sanidade de alma não voltaria mais. Sequer olharia para trás para que não corresse o risco de titubear. Dessa vez usaria a sua força de cavaleiro para realizar a maior de todas as travessias: aquela que nos leva do mundo das trevas para o mundo da luz.

Sabia que no começo sentiria um desconforto. Não estava acostumado. Mas sabia que encontraria ajuda e, se ela não aparecesse, ficaria lá pelo tempo que fosse necessário até que alguém se apiedasse dele e o ensinasse a como ser do outro lado.

A mata ficava cada vez mais densa. Um pavor indescritível tomava conta do seu ser, mas ele conhecia o jogo. Ou era pavor ou era sedução. Ele não se deixaria conduzir por nenhuma dessas armas. Quando não as conhecemos, é difícil vencê-las mas, para ele, elas eram velhas conhecidas e estava cansado. Não queria mais nada daquilo. Queria ser feliz e calmo. Desejava paz e experimentar o que significava possuir o olhar claro que tantas vezes vira nas vítimas que passaram pelas suas mãos.

Ele estava exausto. Se não fosse merecedor de encontrar o caminho, ficaria ali e morreria sufocado pelas plantas rasteiras e venenosas que abundavam pelo caminho.
Subitamente parou levado por um pensamento: “Por que não olha para o alto?”.

Esperou um momento, antecipando a visão que teria. Saboreou cada movimento lento de sua cabeça erguendo-se para cima. Fez isso com os olhos fechados,
propositalmente. Iria abri-los quando a sua cabeça já estivesse totalmente levantada.
Ainda de olhos fechados, sentiu um calor no rosto e viu que uma luz incidia sobre ele.

Era a luz do sol. Manteve os olhos fechados, sentindo o calor do sol sobre o seu rosto. Permitiu que aquele calor percorresse todo o seu corpo. Depois levou a mão ao rosto e acariciou a sua face machucada. Sentiu um amor imenso por ele mesmo, como se estivesse se perdoando. Ficou assim por um tempo que lhe pareceu alguns segundos, mas que tiraram dele a dor física e espiritual. Quando abriu os olhos, ele era outro em outro tempo e outro lugar.

Acmella

A doce senhora atravessava o gramado em direção ao canteiro de ervas. Ela adorava quando o vento trazia o aroma das plantas, antecipando a visão do canteiro. Era como se, assim, ela se preparasse para o mágico encontro com as ervas. Sua mãe, e antes a sua avó, e antes ainda a mãe da sua avó, haviam feito este ritual: primeiro o pensamento intuído, depois o aroma e em seguida a colheita. Esse ritual era muito antigo e pertencia às mulheres da sua linhagem há séculos. Era passado de uma para a outra, em segredo.

Os medicamentos eram preparados nas cozinhas das casas, utilizando os seus utensílios para não chamar a atenção. Para algum visitante inesperado, pareceria que a dona da casa estava cozinhando algo especial para a família. As mulheres sempre estavam às voltas com o preparo das refeições. Essa era uma tarefa que cabia a elas. Ninguém estranharia que estivessem, a qualquer hora do dia, às voltas com preparos na cozinha.

O dia estava claro e as madressilvas pareciam cantar. Afastou um pouco as flores para encontrar a erva que desejava. Era uma erva muito especial. Custara a pegar, porque gostava de lugares quentes. Sua mãe havia descoberto que, se fosse plantada por baixo de outras plantas, teria o calor que desejava. E lá estava ela: Acmella.

Suas folhas tinham um tom de verde escuro e podiam produzir um remédio poderoso que tirava a dor de qualquer lugar do corpo, permitindo-lhe terminar uma tarefa começada que não pudesse ser interrompida, devido a uma dor muito forte. Porém, ela tinha uma consequência grave: podia piorar um problema. A dor é uma aliada do homem. É ela quem avisa que algo está errado. Se não sentimos dor, continuamos a machucar o que já está machucado.

Assim, eram poucas as vezes que ela se concedia ao uso desta erva e aquele era um desses momentos. A mulher estava sofrendo muito. O bebê não nascia. Ela já tinha acompanhado outros partos difíceis, mas aquele estava demorando muito. Se ela não fizesse algo rápido, mãe e filho podiam morrer.

Tocou o arbusto com carinho, pedindo a erva que lhe concedesse o seu poder a fim de que pudesse auxiliar uma mulher que sofria para dar à luz. Como em resposta, a erva soltou um líquido em suas mãos. Então ela soube que podia arrancá-la e fazer as compressas e o chá. Retirou o que precisava e nenhuma folha a mais.

— Não se pode desperdiçar as ervas, dizia a sua mãe. São seres vivos que precisam cumprir a sua missão. Se forem jogadas fora, podem perder o seu poder trazendo consequências graves para quem as desperdice.

Eulália correu de volta à cozinha. Colocou um pano limpo dentro do pilão e, em seguida, as ervas. Pilou bastante até que, ao torcer o pano, obteve um líquido escuro e espesso. Quando tudo estava pronto, com cuidado, espalhou um pouco em cima da barriga da mulher, pedindo que dessem a ela uma colher de sopa para que bebesse do mesmo líquido. Depois queimou folhas da erva numa tigela de madeira, espalhando a sua fumaça pelo aposentou. A mulher, lentamente, foi se acalmando.

Quando ela percebeu que a erva estava fazendo efeito, espalhou o líquido por entre as pernas da mulher e, com uma tesoura, fez um pequeno corte para que a cabeça do bebê pudesse passar.

A mulher deu um pequeno gemido que foi seguido pelo choro do bebê que acabara de nascer. Eulália pegou a criança, envolvendo-a num pano limpo. Era um menino. Em seguida, deu um nó no cordão que ainda estava preso ao seu umbigo. Trouxe-o ao peito e, com a ponta dos dedos, colocou em seus lábios um pedacinho de sal. Em voz baixa, pediu que o menino soubesse conduzir a sua vida com sabedoria, assim como o sal, que, quando usado da forma correta, é o tempero da vida. Depois, com as mãos em concha, derramou um pouco da água que energizara com a luz prateada das mulheres santas na cabeça do bebê. Com gestos rápidos e quase imperceptíveis, ela o batizara colocando nele a sua força. O pequeno bebê, agora, dormia em seus braços. Entregou-o a uma das mulheres que sempre estavam com ela nessas horas. Eram suas aprendizes e amigas leais.

Agora, ela precisava cuidar da mãe. O corpo já havia expulsado de dentro o que não era mais necessário. Suas aprendizes já haviam limpado tudo. Com um fio de seda muito fino e uma agulha igualmente fina, costurou o corte que abrira entre as pernas da mulher. Felizmente, a erva ainda estava fazendo efeito e ela quase não sentiu dor.
Com o bebê repousando ao lado da mãe que dormia profundamente graças a erva que lhe fora administrada, Eulália fez sinal às suas aprendizes para que a seguissem, deixando o quarto livre para que a mulher pudesse descansar.

Os parentes que aguardavam na sala já haviam escutado o choro do bebê. Sabiam que tudo estava bem e esperavam aliviados. Quando ela entrou na sala, o marido beijou-lhe a mão e, emocionado, falou:

— A senhora é uma santa. Qualquer soma em dinheiro que lhe dermos será insuficiente para recompensá-la por tudo que fez. Que a sua luz sempre brilhe a fim de que muitos sejam trazidos ao mundo pelas suas mãos.

E assim foi. Muitos já haviam nascido pelas suas mãos e muitos ainda nasceriam. Para ela, não havia dúvida de que essa era a sua missão. Soubera disso durante um ritual secreto que a consagrara para esse serviço.

Para que tudo corresse bem, bastava que ela silenciasse o seu coração e a sua mente. Seria guiada. Poucos sabiam, mas esse era o seu verdadeiro poder: a certeza de que seria guiada sempre que assim ela o permitisse. Tudo o mais, seria resultado dessa sua permissão.

O Mouro

Havia o rio para ser atravessado. A noite estava chegando e, em breve, eles não teriam mais a luz do dia. Os companheiros estavam aflitos e falavam todos ao mesmo tempo. O que fazer? Atravessar o rio correndo o risco de serem levados pela correnteza, colocando a segurança da Senhora em risco? Dar a volta até sabe-se lá onde, para encontrar uma travessia mais segura? Acampar ali e aguardar o dia seguinte que traria novas ideias?

Enquanto todos falavam, o Mouro permanecia silencioso. Como era o seu costume, observava. Esperava que o silêncio lhe trouxesse alguma resposta. Há muito aprendera que as palavras atrapalham o pensamento inspirado. O silêncio, ao contrário, libera o pensamento para que encontre a solução mais acertada.

Os companheiros o achavam diferente, mas, com o tempo, aprenderam a respeitar aquele homem moreno, alto, forte e silencioso. Ele não falava muito, mas suas atitudes mostravam o quanto ele amava a Senhora e acreditava na causa maior: libertar os homens do mal e trazer a luz ao mundo. Aprenderam a amá-lo e respeitá-lo.

De repente, sua voz soou alto:
— Eu puxarei a carroça, disse ele com um tom de voz que continha firmeza e determinação.
Os companheiros silenciaram. Na expressão do Mouro não havia dúvida: ele faria o que estava dizendo.
— Seja, então, disse Breuk, o líder da expedição. Nós nos distribuiremos em torno da carroça para que ela não tombe. Alguns irão atrás para auxiliar, empurrando.

Num gesto tão conhecido, formaram um círculo e ao centro dele colocaram suas mãos, umas sobre as outras e juntos disseram: Um por todos e todos por um!

Dentro da carroça, Zúria aguardava. Confiava em seus cavaleiros que, com certeza, encontrariam a melhor solução e assim, em breve, seguiriam viagem.

Ao saber da decisão, cuidou de agarrar-se firme dentro da carroça. Pela pequena janela à sua frente, ela via o ombro forte do mouro onde a grossa corda se apoiava para que ele pudesse puxar a carroça. Os músculos de suas costas se retesavam a cada esforço. O coração da Sacerdotisa encheu-se de amor e gratidão por aquele homem forte e corajoso. Silenciosamente, fez uma prece na intenção de que ele tivesse forças para realizar a tarefa que havia escolhido.

O Mouro puxava a carroça por dentro do rio em direção à margem oposta, tendo a impressão de que os seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento. Sua determinação, porém, gerava dentro dele uma força que era maior que a dos seus músculos. Era uma força que vinha da sua fé.

Ao chegarem à outra margem do rio, todos caíram no solo, exaustos. O Mouro, com um sorriso quase imperceptível nos lábios, pensou: Está feito!

Quando todos se acalmaram, comemoraram alegres a vitória, sabendo que ela só fora possível graças à determinação do Mouro e à união de todos.

— Que assim sempre seja! Disseram todos em coro.

Que assim seja! Soa o som de outras vozes, neste exato momento!