Histórias de todos os tempos

Por Roseli Câmara, com o testemunho de Helena Martins, dirigente da Ordem Princípio e Luz

As histórias contadas neste blog apresentam registros de mergulhos feitos em exercícios místicos que foram realizados após o contato com outras pessoas que, como nós, navegam nas mesmas águas.

Quando mergulhamos no mundo místico, o que sabemos é que faremos uma viagem. Para onde iremos e o que vamos encontrar não pode ser programado por nós. Entregamos o comando, na certeza de que viajaremos para onde devemos ir.

O que estará escrito aqui, uma história por vez, são os relatos de muitas viagens. Conhecemos lugares e ouvimos, assistimos e revivemos vários acontecimentos. As histórias estão aqui. Uma delas pode ser a sua história. O nosso convite é para que nelas mergulhem e recuperem o que é seu ou que, apenas, apreciem a paisagem.

Respirem profundamente, abram a sua tela metal, entreguem o comando e se conectem com os relatos. Após a leitura, se outro acontecimento lhes for contado, escrevam, porque se isso acontecer, significa que as histórias cumpriram a sua missão: a de abrir portas internas.

Sejam bem-vindos! Boa viagem!

Saulo

O sol castigava a pele do rosto. O calor era intenso e a multidão gritava enfurecida.

— Abram caminho! – dizia o soldado, empurrando as pessoas que se aglomeravam.

Saulo servia a Roma havia alguns anos. Sua patente ainda era baixa, porque não havia feitos heroicos em sua jornada como soldado. Sempre se mantinha distante dos acontecimentos políticos e de grande repercussão. Gostava de não ser notado. Sua família dependia dele. Por isso não se arriscava. Quem levaria o pão para a sua mesa se algo lhe acontecesse? Mas, naquele dia, ele não poderia ficar alheio à grande confusão que se formara. Para seu azar, estava de serviço. Tinha que tentar acalmar aquela multidão.

Seus colegas usavam o chicote, mas ele não iria chicotear velhos, crianças e mulheres. Não era de sua natureza ter esse sangue frio.

Usando os braços e o próprio corpo, Saulo ia empurrando as pessoas para que deixassem passar o homem que carregava a cruz.

“Por todos os deuses” – pensou Saulo. “Nenhum homem merece ser castigado dessa maneira.”

Mas ele sabia que se sentisse pena do homem, não conseguiria cumprir a sua tarefa. E ela precisava ser cumprida ou seus superiores iriam queixar-se dele e ele teria problemas. Muitos já o olhavam com desprezo por ele não passar de um soldado depois de tantos anos servindo ao exército de Roma, mas isso não o incomodava. Ele sabia o que valia mais: sua mulher e seus três filhos.

O homem cambaleava carregando a cruz pelas ruas estreitas. Já se via o monte. Mais alguns passos e chegariam. Saulo assistiu pregarem o homem na cruz juntamente com outros dois bandidos. Esses sim, ladrões e assassinos, mas aquele homem? Seu único pecado foi falar aquilo que os governantes não gostavam de ouvir. Mas quantos faziam o mesmo, inclusive ele que achava os impostos cobrados um roubo e nem por isso eram crucificados. Bem, trata-se de um azarado. “É muito azar para um homem só” – pensou Saulo balançando a cabeça.

Faria uma oferenda à Apolo para que o recebesse em sua casa depois que ele morresse. O tempo passava e o homem não morria. Uma tempestade estava se formando. Os homens estavam famintos e cansados.

Da multidão que os acompanhara até o monte, só restaram a mãe do homem e dois de seus seguidores. Os outros que haviam sido crucificados já haviam morrido e seus corpos retirados da cruz, mas aquele homem resistia, como a mostrar que a sentença estava errada. De repente alguém gritou:

— Está morto!

— Finalmente! – disseram os outros.

— Venha confirmar – disse um soldado olhando para Saulo. A cruz já havia sido baixada, e o corpo jazia deitado no chão.

Saulo aproximou-se do homem, uma massa humana disforme, e desejou que ele estivesse morto. Seria terrível ter de pregá-lo novamente naquela cruz. Saulo, então, sentiu um lampejo de ar saindo dos pulmões do homem e soube que ele ainda vivia. Por um segundo, ele pensou que não poderia assistir novamente a sua crucificação, mas poderia enterrar sua espada em seu coração. Seus colegas não o condenariam e aquela mãe, que há tantas horas esperava o corpo de seu filho poderia, finalmente, carregá-lo. Mas algo dentro de Saulo o impediu de fazer isso e ele disse:

— Sim, está morto!

A mãe correu e, ajoelhando-se diante dele, pediu-lhe o corpo do filho. Saulo afastou-se dizendo:

— Podeis abraçá-lo, Senhora.

Seus companheiros já estavam descendo o morro. Saulo seguiu atrás deles com passos lentos. Enquanto descia, teve dúvida se o que fez foi o melhor. Aquele homem poderia ainda viver, mas como seria? Um homem disforme e cheio de dores. Bem, estava feito. Ele havia ganhado o direito de viver pela sua persistência. Saulo também sabia que tudo o que aconteceu àquele homem foi de uma injustiça sem precedentes. Pois bem, se o seu ato trouxesse alguma punição, que fosse. Não havia como voltar atrás e, no fundo do seu coração, Saulo desejou que o homem ficasse bem.

Punição

Uma repressão insana se iniciou. Todos os seguidores do Cristo eram perseguidos e punidos com a morte. O império romano temia que a pregação daquele homem se alastrasse e novos líderes do movimento surgissem por toda a parte. Quem fosse pego professando a fé do Cristo seria morto de maneira a servir de exemplo para aqueles que, porventura, tivessem o desejo de se juntar àquela seita que professava a igualdade entre os homens e falava de um Deus que perdoava e não punia.

Mesmo assim, os cristãos se reuniam secretamente para lembrar a palavra deixada por Jesus, e espalhar a boa nova. Alguns soldados romanos sabiam onde eles se reuniam, mas faziam vista grossa. Ou porque tinham interesses pessoais, ou porque não queriam problemas.

Gládios sabia que ela era cristã e não se importava. Estava apaixonado pela bela jovem que ele sempre via passar pelo seu posto de trabalho, indo na direção do poço para pegar água. Todos os dias, ele a via e ficava encantado com a sua graça, beleza e simpatia.

Todas as tardes ela o cumprimentava, sorridente. Ele começou a achar que aquele sorriso podia significar mais do que pura simpatia. Então, um dia, resolveu declarar-se.

Esperou ansioso que ela passasse e, quando a viu, colocou-se na sua frente, dizendo:

— Senhora, poderia me dar um minuto da sua atenção?

Ela parou, mostrando preocupação no rosto e disse:

— O senhor está bem? Posso ajudá-lo em alguma coisa?

— Não, senhora, muito obrigado. Eu estou bem. Apenas gostaria de conversar um pouco consigo. Posso acompanhá-la até o poço? – disse Gládios que havia combinado com um colega para que o substituísse por alguns minutos.

Ela continuou estranhando, mas não quis ser grosseira e, então, respondeu:

— Sim, claro que sim. O senhor pode me acompanhar até o poço.

Ele sentiu um calor envolver o seu corpo e pensou que a concordância dela, com certeza, era um sinal de que ele a agradara.

Assim, os dois foram caminhando juntos até o poço que ficava bem próximo. Ela concedeu a ele levar-lhe o jarro e, depois, que o enchesse com a água do poço. Quando já estavam para voltar, ele falou:

— Perdoe-me, mas todos os dias a vejo passar e meu coração se aquece quando a vê. Todos os dias, anseio pela hora em que a verei e não posso mais ocultar os meus sentimentos. Gostaria de me casar com a senhora. Se me aceitar, serei o mais feliz dos homens.

Ela ficou boquiaberta por um segundo. Pela sua mente passou a imagem do seu adorado Nicodemos, a quem ela amava com todas as forças do seu coração. Como dizer isso a um homem apaixonado?

— E, então, senhora, qual é a sua resposta? – perguntou o soldado, ansioso.

Ela não titubeou. Criada na fé cristã, aprendera que se deve respeitar o semelhante e ser sincera sempre. Então, ela disse:

— Senhor, muito me honra as suas palavras, mas o meu coração tem dono e vamos nos casar em breve. Sinto muito não corresponder ao seu sentimento que é nobre. Rezarei a Deus para que o ilumine e o ajude a encontrar uma moça que vai amá-lo, como o senhor merece ser amado.

Ele sentiu como se o chão sumisse debaixo dos seus pés. Tinha vontade de voltar no tempo e não ter feito nada daquilo. Ele tinha entendido tudo errado. A raiva fez com que ele tivesse um pensamento que terminou por guiar o que mais tarde ele faria para vingar-se. Ele pensou: “Esses cristãos, com a sua simpatia e alegria, confundem e enganam as pessoas”. E disse:

— Muito bem, senhora. Desejo que seja feliz. Adeus! – disse ele com a cabeça altiva, tentando parecer que as palavras dela não o haviam incomodado.

Depois desse dia, ela não o viu mais. “Com certeza, pediu a troca de posto”, pensou ela. “Eu entendo perfeitamente. É uma vergonha ser rejeitado por quem se ama”. Mas não havia nada que ela pudesse fazer. Não mentiria para ele e nem para ninguém, nunca.

Quando ela foi presa com os outros, pensou nele como alguém a quem poderia pedir ajuda. Mas como encontrá-lo?

No dia da sua execução, enquanto aguardava juntamente com os outros, que o carrasco ateasse o fogo nas cruzes onde estavam amarrados, ela o viu. O seu olhar encontrou-se com o dele, que era gelado e cheio de ódio. Sua boca se abriu levemente num sorriso, como se o agradasse aquilo que estava acontecendo a ela. Um arrepio percorreu o seu corpo e ela soube que tinha sido ele quem denunciara o lugar onde ela e seus amigos se encontravam para professar a sua fé.

Uma calma se instalou dentro dela com essa descoberta. Ela sabia que o havia feito sofrer, mas não imaginava quanto. Ele fora capaz de denunciá-la, sabendo que a sua punição seria a morte. Que tipo de amor era o que ele, um dia, disse sentir por ela? Ela não compreendia, mas o seu coração estava em paz. Fizera o que era certo.

Pois bem, ele agora podia erguer a cabeça. O que ela não tinha certeza: se ele poderia dormir em paz a partir daquele dia.

Orgulho

O soldado sentia a raiva crescer dentro dele. Porque aquele homem não falava? Porque não respondia às perguntas que lhe faziam? Quem ele pensava que era?

Os homens estavam ficando violentos e as pancadas aumentavam. Entre uma pergunta e outra sem resposta, mais pancadas. Até que o soldado disse:

— Me deem um chicote. Eu o farei abrir a boca.

Entre uma chicotada e outra, o soldado sente crescer dentro dele uma força nunca antes sentida. Só parou quando outro soldado quis bater.

Seu braço doía pelo movimento feito. Cansado e com a respiração acelerada, foi sentar-se num canto. A mãe do condenado lhe dirigia blasfêmias. Já a haviam expulsado várias vezes, mas ela voltava sempre, cada vez mais raivosa.

As batidas do seu coração foram se acalmando. Olhou para o condenado sem entender. “Por que aquele homem não se defendia?” Então percebeu que o orgulho o impedia de fazê-lo. Sentiu nascer dentro dele certo respeito por aquele homem. Ele estava certo. Como podia fraquejar diante dos seus seguidores? Seria uma desonra.

Ele já estava desmaiado há algum tempo e os homens continuavam batendo. O soldado, então, se levantou e avisou:

— Ele está desmaiado. Já não sente dor e nem pode dizer mais nada.

A loucura que havia se instalado ali foi diminuindo até que todos saíram. O soldado virou-se para a mãe do condenado e disse:

— Tens alguns minutos. Podes aproximar-te e aliviar-lhe a dor, caso isso seja possível.

O carrasco

Uma multidão assistia à crucificação. Os seguidores do homem, dispersos na multidão, não sabiam o que fazer. Pareciam não acreditar no que estava acontecendo.

As outras cruzes já haviam subido, carregando dois outros condenados. Faltava a terceira e última.

O soldado posiciona o braço do condenado na madeira e bate o prego com uma força que penetra a carne e a grossa madeira. O soldado escolhido para fazer isso é um homem forte e capaz de, num único golpe, pregar com firmeza o condenado na cruz.

Diante da tragédia, essa era a maneira menos dolorosa. Um golpe só e estava feito. O soldado terminou o braço esquerdo e foi para o direito. Os pés eram a parte mais difícil. Precisava acertar o ponto exato para não atingir o osso. Se isso acontecesse, o peso do corpo faria romper o tecido com as lascas do osso quebrado e deixaria o condenado pendurado pelos braços.

Ele já vira isso acontecer e era uma cena horrível. Por esta razão, treinava sempre em animais, para não correr o risco de errar. Todos assistiam ao que ele fazia e esperavam, assim como ele, que aquilo acabasse logo. Suando muito, ele caminhou em direção aos pés do condenado e martelou primeiro um e depois o outro, lado a lado. Finalmente, aliviado, disse:
— Está pronto. Podem erguê-lo.

Havia uma vantagem na tarefa que ele realizava. Após executá-la, podia ir embora. Aos outros soldados, caberia esperar até que o condenado morresse. Isso não era comum. Em geral, assim que a cruz subia, os soldados iam embora, mas tratava-se de um prisioneiro importante. Havia uma multidão em volta que poderia, a qualquer momento, revoltar-se.

Com a prerrogativa que o seu trabalho lhe dava, ele reuniu suas coisas e desceu a montanha pelo lado oposto ao de onde estava a multidão. Não queria correr o risco de ser apedrejado por ela.

Conforme ia se afastando, foi sentindo um peso em seu coração e uma tristeza tomou conta dele. Já havia executado muitos outros antes daquele homem, mas todos eram assassinos e ladrões e haviam merecido o castigo que tiveram. Mas aquele homem não era nada disso. Não havia matado ninguém e nem roubado. A acusação que pesava sobre ele era de discordar de Roma e de seus líderes. Pelo menos era isso que ele sabia. “Bem, está feito”, pensou tentando afastar os pensamentos.

Cumprira com a tarefa que lhe fora ordenada. Não adiantava agora lamentar-se e nem procurar explicações. O homem morreria muito em breve e ele, mais uma vez, cumprira com o seu dever.

Caminhou pelas ruas vazias em direção a sua casa. Parecia que todas as pessoas estavam no monte, assistindo à crucificação daquele homem.

Ao chegar em casa, sua esposa e filhos também não estavam. Provavelmente, assistiam também à crucificação.

Cansado, deitou-se e adormeceu. De repente, se viu novamente no monte, que não estava como o havia deixado. As cruzes não estavam mais lá e as pessoas desciam a montanha como se nada houvesse lá para ser visto. De repente, ele escutou o seu nome e virou-se. Em pé, atrás dele, estava o homem que ele pregara na cruz.

Tomado de um sentimento enorme de culpa, ele explode num choro alto e se ajoelha aos pés do homem. Entre soluços, ele pede perdão. Ao levantar o rosto, o que ele vê é a figura de um animal horrível que lhe arreganha os dentes, pronto para abocanhar-lhe a garganta. Ele acorda suado e com o coração aos pulos. Imediatamente, vai ao altar de Apolo e acende um incenso pedindo proteção.

Noite após noite, esse sonho se repete. Aos poucos, ele adoece e é afastado do seu cargo. Até o final dos seus dias, poucas foram as noites em que conseguiu dormir sem pesadelos, que eram sempre os mesmos. Ele pedia perdão ao último homem que crucificara e acordava assustado pela figura de um animal raivoso que ameaçava avançar sobre ele.

Martino

Ela estava diante dele. Sua aparência delatava o quanto já sofrera com as torturas. Ele não podia fazer nada por ela. Havia muita coisa em jogo. Até mesmo a credibilidade dos fieis estaria comprometida se todos soubessem que era ele o amante da freira que fora encontrada nua em uma cama de casal. Ele conseguira escapar por muito pouco. Ela não tinha tido a mesma sorte.

Ele sabia que ela iria para a fogueira, mas era melhor que ela morresse do que desacreditar uma instituição inteira que envolvia muitos que dela dependiam e nela depositavam a sua fé. Ele estava seguro de que era o melhor a ser feito. Se ela o delatasse, ele diria que aquela mulher estava louca. Seria a sua palavra contra a dela, e ninguém daria crédito a uma mulher.

Martino podia ser um homem frio quando necessário. Fizera a sua fortuna e poder controlando as suas emoções e fazendo o que fosse necessário por aquilo em que acreditava. E ele acreditava na igreja. O que acontecera com ele e a freira, pelo qual agora ela estava sendo julgada, tinha sido obra do demônio.

Ela o tentara com seus olhares cheios de promessas. Ela é que tinha que ter se controlado e não permitido que tudo acontecesse. Afinal, ela era a mulher. A ela cabia o decoro e a compostura, principalmente em se tratando de uma freira. Ele, apesar de padre, era um homem. Para ele era mais difícil resistir aos apelos da carne. Já fizera a sua penitência. Entregou uma grande soma em dinheiro para os pobres e jejuara por três dias, rezando trezentos terços. Deus já o perdoara. Ele, como padre, sabia disso. Era ele o intermediário dos homens com Deus. O seu acesso era direto com o altíssimo e entre eles tudo já estava resolvido. Tinha alcançado a sua absolvição.

O que poderia fazer por ela era rezar e pedir para que a generosidade divina não permitisse que ela ardesse no fogo do inferno. Um pensamento quase arrancou-lhe uma gargalhada: “Ela já ia arder na Terra. Quem sabe isso lhe dava crédito para não arder depois da morte”.

Imediatamente se recompôs. Não cabia bem a um clérigo da sua importância sorrir numa audiência como aquela.

Estranhamente, ela não havia lhe dirigido um olhar sequer. Com certeza, tinha vergonha de tudo o que viveram. Ou, então, tinha medo de que o seu olhar delatasse o amor que ele sabia que ela ainda sentia por ele. “Não importa”, pensou. O que ele mais desejava é que aquilo tudo acabasse logo para que ele continuasse a tocar a sua vida. Tinha muitos afazeres e aquela história já era uma página virada.

Ela estava sendo interrogada sem piedade. A lei determinava que deveria haver interrogatórios públicos antes que a sentença de morte pela fogueira fosse decretada. A formalidade estava sendo cumprida. Todos sabiam que ela não diria o nome do amante. Se não o fez sob tortura, não seria agora que o faria. Isso deixava Martino aliviado. Menos um problema para resolver.

— Pois bem, determinou o inquisidor que presidia aquela audiência, determino que a ré seja enviada aos porões guardados por Frei Bernardo. Ele arrancará dela a confissão que precisamos.

Martino arrepiou-se. Pobre mulher. Agora sim ela saberá o que é sofrimento. “Que Deus permita que ela morra logo”, desejou Martino num último fio de compaixão pela mulher a quem ele fez inúmeras juras de amor, nas muitas noites que passaram juntos.

Bernardo

Bernardo se encaminha para o calabouço, tendo ao seu lado Frei Bento, seu aliado e amigo. Hoje vai interrogar uma freira. Ela é acusada de fornicação e insiste em não querer dizer o nome do seu amante. Foi pega nua numa cama. Seu amante fugiu e ninguém sabe de quem se trata.

Foi encaminhada a ele para que arrancasse dela um nome qualquer, a fim de ocultar o verdadeiro culpado, que todos sabem tratar-se de um eclesiástico. Seria um escândalo para a Igreja dado que o religioso em questão ocupa alto cargo na hierarquia da Inquisição.

“Mais um covarde que não assume seus atos”, pensa Bernardo. Ele sabe que a freira não escapará da fogueira. Esteve a manhã toda com Frei Giuseppe Mariano que, com toda a astucia e conhecimento jurídico que possui, não conseguiu achar uma saída para o caso.

— O crime de fornicação é indefensável. Considere-se aqui o flagrante, meu caro Bernardo, disse Giusepe Mariano, dando um suspiro de pesar.

— Desta vez você perdeu, caro amigo, ironizou Giusepe Mariano que sabe o que move Bernardo a realizar um trabalho tão absolutamente insano.

Bernardo não se abala. Nada o tira de seu intento. Portanto, mais uma vez, faria o que tinha de ser feito.

Ao chegar ao calabouço, encontra uma mulher muito machucada. Ajoelha-se ao lado dela e lhe fala ao ouvido: “Não vou te fazer mal, não encostarei um dedo em ti, mas deves gritar como se um ferro em brasa estivesse atravessando o teu corpo”.

E assim, enquanto ela grita, auxiliado por Frei Bento, ele prepara uma poção que a fará ficar amortecida. Não sentirá nenhuma dor. Antes, falará ao seu ouvido palavras de encorajamento. Dirá a ela que seu gesto é a maior prova de amor que alguém pode dar a outra pessoa. Ela confiará nele e beberá a poção. Ao sair de lá, Bernardo ordenará que a fogueira seja acesa.

A mulher será queimada a vista de todos, mas não sentirá dor e ele terá vencido novamente. Esse era o método. Enganar a todos. Na sua incompreensão, ele desafiava a Deus salvando as suas vítimas. Como podia haver um Deus que permitia que seres humanos fossem tratados daquela forma? Não! Enquanto ele pudesse e usando o que fosse preciso, não permitiria que isso acontecesse.

Deus castigava e ele, Bernardo, limpava e tratava as feridas. Muitas vezes, libertava os prisioneiros debaixo do nariz da Santa Madre Igreja porque não compreendia o que esse Deus cruel estava fazendo. Atravessava os corredores do prédio da Inquisição carregando um prisioneiro vivo e desacordado, embrulhado em lençóis. Os guardas não ousavam questionar as decisões daquele homem temido e respeitado pela aura de poder que tinha e pela sua influência. A ele eram trazidos os casos mais graves. A ele cabia decidir quem morria e quem vivia.

Muitas vezes, Bernardo usou seus ganhos em dinheiro para ajudar um condenado a fugir para outras terras. Quando, porém, se encontrava sozinho em sua cela, ajoelhava-se e rezava pedindo que lhe explicassem: Por quê?

Toda noite, reafirmava o seu juramento de continuar a desfazer o que Deus fazia até que soubesse a verdade. No fundo do seu coração, Bernardo sabia que, em algum lugar, em algum momento, a verdade lhe seria revelada.

Angus

Olhando para o menino, Angus refletia que a sua aparência talvez tivesse sido o motivo pelo qual o adotara. Ele tinha os mesmos olhos azuis e os cabelos loiros que ele próprio. Vira naquele menino sem pai e filho de mãe escrava, ele próprio consumido na dor pelo abandono daquele a quem ele um dia venerara? O que teria feito de tão terrível o seu Mestre para que fizessem dele um trapo humano?

Angus se fez essa pergunta milhares de vezes. Antes de Bailon entrar em sua vida, essa pergunta era feita mentalmente. Depois que o menino se tornou seu criado de quarto e cavalariço de confiança, passou a fazer essa mesma pergunta em voz alta e a falar tudo o que lhe vinha à mente. O menino ficava horas a escutá-lo. Angus sentia que no menino não havia tédio nem indiferença, ao contrário, Bailon parecia beber cada palavra sua.

Bailon nascera na casa de seu pai e Angus o vira crescer sempre solto no jardim florido de sua mãe e sempre permitia, quando mais tarde cresceu o garoto, que esse lhe levasse o cavalo quando visitava os pais.

Com o passar do tempo, afeiçoou-se ao menino e levou-o para servi-lo em sua casa. O que Angus não sabia era o quanto se tornaria importante na sua vida. Sozinho e decidido a não permitir que nascessem mais homens santos, reivindicava a primeira noite das noivas para si próprio.

Sua autoridade na província que governava lhe permitia isso. Para que não sofressem, administrava-lhes uma poção que as deixava sonolentas. Nada sentiam e, na manhã seguinte, encontravam uma grande soma em dinheiro que lhes permitia começar sua vida de esposa com um dote de princesa.

Angus fazia o que sua consciência lhe impunha. Ele havia visto seu Mestre, um homem santo, ser preso e morto na cruz. Ele não permitiria que mais homens santos nascessem de virgens. Só ele sabia, entretanto, o quanto isso lhe amargurava o peito e lhe tirava as noites de sono. O fantasma das mulheres possuídas por ele sem amor povoava os seus sonhos.

Só Bailon sabia desse sofrimento e nada dizia a ninguém. Sofria pelo seu amo porque o amava. Sabia que mestre Angus era um homem generoso e não compreendia por que sofria tanto.

Seu coração de menino sabia que fazia bem a mestre Angus falar, e ele escutava. Às vezes, seu mestre não dizia coisa com coisa, mas Bailon não se importava por não entender o que ele dizia. Para ele, bastava estar ali e oferecer os seus ouvidos.

Para Angus, Bailon foi seu amigo e confidente. O amor que Angus via nos olhos do menino o salvou várias vezes do suicídio. Como lhe fazia bem a presença daquele anjo enviado por Deus. Tão grato se sentia, que Angus o transformou em seu herdeiro. Numa batalha, cansado de sofrer, permitiu que uma espada atravessasse o seu peito. Bailon herdou uma fortuna que o possibilitou viver tranquilo e feliz, oferecendo à sua mãe dias de conforto e descanso.

Incompreensão

Pedro não se conformava. Tanto podia ser feito e ele nada fez. O Mestre o havia proibido de fazer qualquer movimento. E tinha sido muito claro na sua colocação:

— Pedro, você não deve desejar que haja diferenças entre os amigos e os seguidores da palavra. A diferença afasta os homens do amor divino que é o mesmo para todos. Para Deus, não há o menor ou o maior. Todos são igualmente seus filhos e Ele os ama com o mesmo amor que ama a mim e a você. Então, por que teimas em querer criar escalas de importância entre nós? Cuida dos teus afazeres e terás sucesso em tudo o que desejares fazer. Não tenhas atitudes que te farão parecer arrogante e afastarão de ti teus amigos e leais companheiros. Acalma o teu coração. Tudo está de acordo com o que a suprema vontade divina assim determinou. A nós todos cabe obedecermos, porque somos muito pequenos diante de tudo o que há para ser visto. Devemos seguir, tendo como o nosso guia a luz que ilumina o nosso caminho.

Balançando a cabeça como se quisesse afastar os pensamentos que teimavam em ocupar a sua mente, Pedro resmungou em voz baixa:

— Como Jesus é ingênuo. Pois ele não vê que há diferenças? Que é impossível que todos sejam iguais? E então não é verdade que ele próprio tem mais conhecimento acerca do que é necessário ser feito do que qualquer um que neste dia se aproxime?

Não estava certo. Havia diferenças sim. Jesus podia não ver, mas ele via.

De longe, o Mestre observava Pedro. Ele sabia que para Pedro era difícil compreender, mas o amava e era-lhe difícil vê-lo sofrer. Então, aproximou-se uma vez mais. Ao vê-lo chegar, Pedro levantou-se. Com um olhar cheio de ternura, Jesus disse:

— Amo-te Pedro, como um pai ama a um filho, mas precisas acalmar o teu coração. Talvez não vejamos os frutos do nosso trabalho, mas ele continuará a ser grande aos olhos de Deus. Abençoo a tua escolha em me seguir, mas és livre para partir se assim o desejares. Saberei respeitar a tua decisão. Se resolveres partir, leva contigo o amor que sinto por ti e que jamais deixarei de sentir. Estarás sempre em minhas orações. Não te quero ver sofrer. Desejo do fundo do meu coração que sejas feliz.

Pedro olhou para Jesus e sentiu-se, pela primeira vez, como um filho se sente quando está diante do pai. Um pai que o ama, mas que abre mão de tê-lo a seu lado em nome da sua felicidade. Como que por encanto, a sua raiva se dissipou dando lugar a um amor imenso que tomou o seu peito. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele chorou. Abraçado ao Mestre, chorou como uma criança que teme o desconhecido e que precisa da mão paterna para seguir caminhando.

— Não temas, Pedro. Estarei sempre contigo. – disse Jesus enquanto abraçava aquele homem que soluçava de encontro ao seu peito.

Tempos depois, a mesma raiva tomou conta de Pedro. Quando perguntaram a ele se conhecia Jesus ele disse:

— Não conheço esse homem.

Com o coração carregado de um profundo sentimento de incompreensão, Pedro teve certeza de que não conhecia aquele homem que um dia disse a ele que não o abandonaria e que agora estava longe dele e encaminhando-se para a morte.

Oráculo

As facas atiradas contra o tronco da árvore, uma após a outra, formavam um desenho.

O cigano, antes de atirá-las, pedia que a resposta à pergunta que havia sido feita viesse através das facas consagradas.

Ele havia recebido o jogo das mãos do seu Rei, e jogava para os comerciantes da região que buscavam respostas sobre o resultado do plantio ou de qualquer outro negócio que estava próximo de ser fechado.

Aproximou-se da árvore e viu a figura do pássaro com as asas abertas. Disse, então, ao homem ansioso à sua frente:

— O que me perguntas alcançará limites maiores do que os que o senhor é capaz de ver neste momento. Caso resolva concretizar seu desejo, deve esperar prosperidade e rumos até então impensados, mas que são benéficos e positivos.

O homem entregou as moedas de ouro pedidas pela consulta, agradecendo e feliz.

O cigano aguardou para ver se mais alguém desejaria consultar-se. Isso porque as ciganas costumavam ser as mais procuradas, pois as cartas delas eram mais atraentes. Por essa razão, as tendas das ciganas estavam sempre cheias de pessoas se consultando nos dias destinados para isso. Mas ele não se aborrecia. Havia desejado o jogo e ele o encontrara.

Fazia-lhe bem levar alento às pessoas. Mesmo quando a resposta não era positiva, ele tratava de incentivar a pessoa a repensar o fato, possibilitando-lhe encontrar outras respostas por ela mesma. Enquanto pensava, distraído, foi surpreendido por uma voz feminina atrás de si:

— Com licença, senhor. Posso fazer perguntas para as facas?

Ele estranhou. Era a primeira vez que uma mulher o procurava. Bem, mas não havia restrições do jogo quanto a isso e ele respondeu:

— Pois não, senhora. Devo primeiro perguntar o seu nome e verificar se o jogo poderá ser aberto.

Como de costume, ele disse o nome da moça três vezes e jogou as facas juntas que caíram ao solo separadas, denunciando que o jogo estava aberto.

— Muito bem, senhora. O seu jogo está aberto. Pode perguntar.

A moça corou um pouco e com voz baixa disse:

— Estou enamorada de um rapaz que não pertence ao meu povo. Esse amor se realizará? Devo me declarar?

Ele achou mais estranho ainda. Todas as moças faziam esse tipo de pergunta para as ciganas nas tendas fechadas. Essa moça era mesmo muito estranha. Mas o jogo estava aberto e ele tinha que prosseguir. Antes, porém, fechou os olhos buscando orientação e foi então que soube que aquela moça estava se referindo a ele.

Na sua inocência, ela havia planejado um modo de declarar-se. O que ela não sabia é que o povo cigano era guiado por forças imateriais que os auxiliavam, quando solicitadas.

Ele ficou um tempo em silêncio e quando abriu os olhos já sabia o que iria dizer a ela. Jogou as facas apenas para cumprir o ritual do jogo. Em seguida, foi até a árvore e lhe disse:

— Aproxime-se senhora. Precisamos conversar. As facas estão lhe enviando uma mensagem.

A moça corou mais fortemente, aproximando-se do cigano. Ela o havia visto várias vezes na feira e em todas elas o seu coração havia disparado ao vê-lo. Hoje tomara coragem, aproximando-se dele da maneira mais protegida possível: pedindo para jogar. Ele não desconfiaria e ela sairia com uma resposta. Não importava qual fosse, mas ela precisava de uma.

Disse ele:

— As facas dizem que a senhora está enganada. O fato do rapaz pertencer a um povo diferente do seu, não é impedimento para que fiquem juntos. Todavia, é preciso avaliar as consequências de tudo o que escolhemos na nossa vida. Às vezes, as nossas escolhas são baseadas apenas naquilo que vemos. Quando se trata da nossa vida, precisamos avaliar melhor antes de escolher. As facas lhe aconselham a conhecer melhor esse rapaz e a prestar atenção nos outros rapazes a sua volta. Depois de observar bem a conduta de todos e avaliar o quanto são generosos, atenciosos e trabalhadores, poderá fazer a sua escolha.

A moça escutou com atenção e viu o quanto o cigano parecia mais velho enquanto falava. Sim, ela havia se enganado e se deixado levar pelas aparências. De fato, ele era um belo homem, mas ela não conhecia nada sobre ele e sobre o seu povo.

— Muito grata, senhor. Seguirei o seu conselho, disse ela. Observarei melhor para fazer a minha escolha da melhor maneira possível.

— Eu é quem agradeço pela confiança. Desejo que o melhor para a senhora aconteça.

A moça pagou a consulta e se afastou aliviada. Parecia que um peso enorme havia sido retirado de cima dela.

O cigano acompanhou-a com o olhar enquanto ela se afastava. Um lampejo de vaidade tomou conta dele, trazendo conforto ao seu coração, e pensou: “Tomara que ela encontre alguém que a ame de verdade e a faça feliz, tanto quanto eu sou feliz com a minha amada” – e sorriu, na certeza de que, em breve, a teria em seus braços.

Lianovah

Ela devia ter uns quinze anos. Estava alegre e brincava com suas amigas no imenso gramado que ligava as duas tribos. Rodavam de mãos dadas cantando, dançando e gargalhando alto, com a alegria de quem ainda não encontrou o sofrimento e tem toda a vida pela frente.

Eram todas parecidas nas suas saias rodadas em tons alegres com barrados bordados a mão e seus corpetes pretos amarrados sobre blusas de linho branco. Os cabelos balançavam ao vento e brilhavam com a luz do sol. Conheciam-se desde crianças. Tinham segredos guardados a sete chaves que foram confessados aos cochichos. Um deles era a paixão de Lianovah por Petersen, o filho mais velho de um vizinho mais distante da sua tribo.

Hoje ela estava feliz. Não demoraria para que a festa da colheita começasse e ela poderia vê-lo. Esta festa durava uma semana e os ciganos eram a atração principal com seus jogos de adivinhação e a sua música alegre e contagiante.

As amigas zombavam dela, mas ela não se incomodava. Gostava delas e deixava para lá.

— Vamos Lianovah, diga-nos, disse uma delas, rindo. O que você vai fazer quando o vir?

— Vou olhar bem fundo nos seus olhos. É isso o que vou fazer, respondeu Lianovah, dando um suspiro.

— Mas vejam como está apaixonada a nossa amiga, disse a outra. Acho que ela precisa de um banho de rio.

Lianovah saiu correndo em disparada para não ser pega pelas outras. Correu muito e, quando parou para retomar o fôlego, viu que perdera as amigas de vista. Olhou em volta, respirando afogueada. Imediatamente, reconheceu onde estava. A propriedade dos pais de Petersen estava bem próxima.

Foi então que ela escutou o trote de um cavalo. Como num passe de mágica, ele estava na sua frente. Parou o cavalo e apeou num único pulo, fazendo uma mesura educada.

— Bom dia, senhorita.

Lianovah, corando com o cumprimento, respondeu:

— Bom dia, senhor. Perdoe-me por entrar em suas terras, mas corri para fugir das minhas amigas que desejavam dar-me um banho no rio e, sem perceber, me afastei um pouco demais – e corou mais intensamente.

— Não se preocupe senhorita. Será um prazer levá-la de volta à sua casa – disse ele, cortês.

Ela não acreditou no que ouviu. Iria cavalgar com ele, abraçada à sua cintura? Será que isso era decente para uma moça?

— Muito obrigada, senhor, mas não desejo incomodá-lo. Estou acostumada a caminhar. Devo me apressar antes que meu pai dê por minha falta e mande me procurar. Não desejo preocupá-lo.

— Muito bem. Se é assim que deseja, assim será feito. Permita-me ao menos, então, acompanhá-la, caminhando ao seu lado.

Como ele era gentil, pensou ela, e respondeu:

— Sou-lhe muito grata senhor. Me sentirei mais segura se me fizer companhia.

Os dois foram caminhando sem perceber que diminuíam o passo para aumentar a distância do caminho que os levaria de volta à tribo dela. Quando chegaram ao acampamento, o sol já não estava mais a pino, indicando que a hora do almoço já passara há algum tempo.

— Senhor, disse ela, faço questão que almoce conosco. O meu pai ficará muito bravo comigo se lhe contar que o senhor me acompanhou a pé até aqui e não compartilhou da nossa mesa.

— Se é assim, ficarei contente em ficar. Há muito que o meu estômago me avisa que está na hora de me alimentar.

Rindo, os dois se encaminharam para onde estavam as carroças, sendo recebidos com carinho por todos.

Até hoje, eles contam essa história para os seus netos que não se cansam de pedir que a repitam, e eles a repetem sem cansaço porque, toda vez que se lembram dela, sentem novamente o mesmo amor. Um amor que venceu o tempo e permanece vivo em seus corações.

Insanidade

Ela estava possessa. Nenhuma mulher olhava para o seu marido daquela maneira e ficava livre de levar uma surra. Os homens tentavam segurá-la, mas a força dela havia se transformado na força de muitos homens. O ciúme tomara conta dela e não seria contida sem uma medida drástica.

Consciente disso, o líder dos ciganos esbofeteou-a com força. A marca da sua mão ficou estampada no rosto dela que, atônita, olhava para ele como se não acreditasse no que ele havia feito.

Um tenso silêncio se fez. Ninguém ousava mexer um músculo do corpo. Então, o líder dos ciganos disse:

— É uma vergonha para toda a tribo que tenhamos que assistir a uma cena como essa. Isso envergonha as nossas tradições e o nosso modo de vida. O que pensarão todos os que assistem a isso? Aproveito para, em nome de toda a tribo, pedir desculpas pelo que acaba de acontecer.

As pessoas em volta balançaram a cabeça, aceitando as desculpas do líder dos ciganos. Todos conheciam a sua força e honestidade. Aquilo que aconteceu era algo fora do comum. Nunca antes os ciganos haviam se metido em brigas ou discussões. Provavelmente, aquela cigana estava com problemas. Isso podia acontecer com qualquer pessoa. O líder dos ciganos continuou a falar:

— É preciso que lembremos que ninguém está livre de que a fúria tome conta de seu espírito. Por isso, fazemos os nossos louvores e pedimos a Deus que nos proteja. O que acabamos de assistir é a capacidade que um ser humano, seja homem ou mulher, tem de se deixar levar pelo seu lado mais escuro, ao ponto de transformar-se em um animal insano e nocivo. Nada justifica essa fúria e esse desejo de agredir ao semelhante, como também nada justifica que uma mulher olhe para o marido da outra desejando possuí-lo.

A mulher que havia provocado a fúria da cigana abaixou a cabeça, envergonhada. O líder dos ciganos prosseguiu:

— Em nossa tribo, os casamentos são feitos após uma longa pesquisa espiritual. Isso porque, quando um homem se une a uma mulher e uma mulher se une a um homem numa cerimônia de casamento cigano, jamais poderão separar-se sem que isso cause a infelicidade de ambos. Por essa razão, não há como um homem ou mulher casados desta maneira fugirem desse compromisso. Quem desejar intrometer-se numa relação como essa estará condenado ao sofrimento e a infelicidade.

Conforme o líder dos ciganos falava, a energia instalada foi se transformando e dando lugar a um silêncio menos tenso, até que as pessoas foram se retirando e lentamente o tumulto se desfez.

O líder dos ciganos sabia o que estava fazendo. Chamara para si a atenção de todos, encantando-as com a sua fala e a sua energia de força e determinação. Tranquilizadas, as pessoas voltaram para as suas casas, carregando apenas uma leve impressão de que houvera uma desavença entre duas mulheres, mas não sabiam contar o ocorrido em detalhes. Desta maneira, o líder dos ciganos impedira que a energia ruim que se instalou a partir da briga se espalhasse e criasse um mal maior.

De volta para a tribo, ele chamou o casal para uma conversa em sua tenda. Conversa essa que durou algumas horas. Quando os dois saíram de lá, os seus olhos estavam inchados de chorar e um se apoiava no outro. Abraçados, caminharam de volta para a sua carroça, refeitos, na certeza de que se amavam e de que se amariam para sempre.

Dentro da sua tenda, o líder dos ciganos agradeceu à Mãe Maior a sabedoria que Ela lhe concedera e pediu, numa prece silenciosa, que sempre se lembrasse de que o melhor que nele existia vinha daquela fonte.

Tragédia

Celine era amada por todos. Sua bondade e inocência, aliadas a sua sabedoria, faziam com que toda a tribo a tratasse como um talismã da sorte. Quando ela entrava em alguma carroça, as pessoas abençoavam a sua chegada. Iniciada nos mistérios e com uma enorme intuição, Celine passava o dia conversando com as pessoas e visitando os doentes. A sua simples presença os confortava. Ela era feliz sendo útil aos outros e mais feliz ainda porque Pierre a convidara para um passeio até o rio.

Há muito sentia que seu coração se encantara por ele. Ela, porém, não ousava aproximar-se. Mas hoje seria diferente. Ela estaria sozinha com ele e poderia falar dos seus sentimentos.

Conversaram como dois bons amigos. Celine não conseguiu falar dos seus sentimentos. Teve medo de que ele a rejeitasse. Uma grande amizade surgiu entre eles. Ela sabia que ele não a amava, mas secretamente alimentava uma esperança de que ele, em breve, veria que ela era a mulher da sua vida e se declararia. Talvez ele estivesse apenas esperando a melhor oportunidade.

Chamada para acompanhar um doente em estado grave, Celine demorou-se alguns meses longe da tribo. Naqueles tempos, as viagens eram muito difíceis e o mal tempo não ajudava.

Ansiosa por voltar para a tribo, continuou a viagem durante a noite, apesar de haver sido aconselhada a esperar pelo amanhecer. Algo muito forte, porém, fazia com que ela sentisse que devia chegar ao acampamento o mais rápido possível.

Quando enfim estava próxima de onde a tribo estava acampada, ouviu o som da música alegre e das vozes. Uma festa estava acontecendo. O que seria? Não era o início da primavera e ela desconhecia que alguma criança estivesse prestes a nascer por aqueles dias.

Pediu ao condutor da carruagem que parasse um pouco distante. Não atrapalharia a festa. Chegaria silenciosa e iria direto para a sua carroça. Estava muito cansada. Orientou o cocheiro para que acampasse ali. Que alimentasse os cavalos e os levasse a beber água, apontando na direção do riacho cujas águas corriam ali perto.

Silenciosamente para não incomodar, Celine foi se aproximando do acampamento. As vozes foram aumentando e o som dos pandeiros e tambores a fez sorrir. Como as festas da tribo eram alegres!

Então, ela viu. Dançando no meio da roda, Pierre. Vestido ricamente com roupas de casamento dançava com Poline. O vestido dela, dourado como era o costume, esvoaçava no ar enquanto ele a rodava.

Celine sentiu uma dor imensa e levou a mão ao coração. Pela sua mente, as imagens dela e de Pierre conversando na beira do rio, dos sorrisos que ele lhe dava, das palavras carinhosas. O que estava acontecendo? Pierre a enganara. Mentira para ela com aquele sorriso falso e aquelas palavras mentirosas.

Imediatamente, ela se tomou de um sentimento nunca antes experimentado. Esse sentimento gelou o seu corpo, fazendo com que a dor deixasse de existir. Seus olhos perderam o brilho e ela sentiu como se dobrasse de tamanho, o que lhe trouxe uma sensação de enorme poder. Não deixaria que aquilo continuasse. Todos da tribo precisavam saber o que Pierre havia feito.

Com determinação, dirigiu-se ao centro da roda. Quando a viram, todos pararam. Algumas mulheres fizeram menção de abraçá-la, mas, com um gesto impositivo de mão, ela as impediu.

Aos gritos, acusou Pierre de mentir para ela e de enganá-la com falsas promessas. Pierre tentou falar que ela entendera tudo errado. Quanto mais ele tentava se explicar, mais a raiva crescia dentro dela. Ele não percebeu o quanto o que ele dizia fazia crescer dentro dela um monstro. E ele continua a falar que ela estava enganada na tentativa de que ela se acalme. Humilhada diante de toda a tribo e num ímpeto de ódio, ela retira a sua adaga da cintura e a enterra no coração dele.

Os gritos são altos. Ela olha para a sua mão suja de sangue e, movida por uma força maligna, enterra a faca em seu próprio coração.

Ashmira

Os três homens montados em seus cavalos correm no campo aberto liderados pelo cigano Igor, jovem, belo e forte. Sua força e determinação em vencer o colocam na liderança da corrida. Essa força vem da certeza de que ao voltar para a tribo como campeão receberá o olhar orgulhoso de Sarah, a linda cigana pela qual se apaixonara perdidamente.

Nuvens negras se juntam no céu, anunciando o temporal que não tarda a cair. É preciso buscar abrigo fora das copas das árvores e em lugar fechado e seguro.

Igor, Ramirez e Solano se dirigem para a casa pequena que veem ao longe. Ao se aproximarem, os ciganos são saudados por um homem velho que os convida a entrar. Eles entram e se acomodam como é possível no pequeno espaço da sala onde há uma lareira, uma mesa de madeira grossa e duas cadeiras. Acomodada em um pequeno banco de madeira, está uma menina que não teria mais do que quatorze anos.

— É minha neta, Ashmira. – diz o velho. Ela perdeu seus pais numa emboscada e hoje vive comigo.

O cigano jovem cumprimenta-a com um sorriso largo:

— Meu nome é Igor; muito prazer.

O rosto da jovem avermelha-se com o cumprimento e ela não consegue dizer nenhuma palavra.

A chuva rapidamente passa e os homens, agradecidos, despedem-se, convidando seu anfitrião e sua neta a irem ao acampamento para a festa da primavera que em alguns dias acontecerá. Igor se compromete a ir buscá-los em retribuição pela acolhida.

O dia da festa chegou. As carroças em círculo estão enfeitadas com fitas coloridas e lampiões que a noite, quando forem acesos, darão brilho e alegria à festa. A grande fogueira ao centro já está montada.

Igor se prepara para cumprir a promessa feita ao velho senhor e sua neta. Enquanto se dirige à pequena carroça utilizada para fazer pequenas viagens, encontra Sarah que lhe acena ao longe, sem muito entusiasmo. Igor sempre soube que ela não o queria. Alimentara falsas esperanças, mas agora ele já estava determinado a esquecê-la e, para isso, sabia que precisava encontrar um novo amor.

Durante a festa, Igor fica bastante tempo com Ashmira e seu avô. Nasce entre os dois uma amizade bonita que, com o tempo, se transforma em amor.

Igor a pede em casamento, para a felicidade do avô que, agora, não precisa mais preocupar-se: Ashmira tem quem cuide dela.

Depois de casados, passam a viver na tribo. Certa noite, Ashmira está aflita. Igor está demorando. Onde estará?

Quando está prestes a dar o alerta, ouve sua voz. Ela olha pela janela da carroça e vê uma mulher de costas que conversa com o seu marido. A energia que emana deles é de intimidade. Ashmira havia sido iniciada nos conhecimentos e podia sentir essa energia.

Igor entra na carroça, calado e de olhos baixos. Ela se aproxima dele e cheia de sabedoria lhe diz:

— Que o meu amor te proteja de ti mesmo. Que o meu amor seja para mim e para ti. Que ele te salve de tuas fraquezas e te liberte dos sonhos que não são realidade, fazendo com que me enxergues ao teu lado, pronta para amar-te e acolher-te. Não importa pelo que foste vencido. Estarei ao teu lado sempre.

Tomado de forte emoção, Igor cai em prantos pedindo-lhe que o perdoe. Ashmira o abraça. Em seu coração, ela sabe que, por um instante, ele se fora dela, mas agora ele estava ali. Isso bastava para ela.

Poline

Poline se agarra a Pierre. As pessoas a retiram de cima dele. Ela se desprende e começa a correr. Vai correr até que seus pulmões arrebentem.

Poline corre. Suas pernas já não respondem. Ela não aguenta mais. Quer esquecer tudo. Nada mais há na sua vida. Tudo lhe foi tirado. A dor que sente no peito colocará fim a sua vida. Ela vai correr até que não tenha mais forças para viver. Com um último suspiro, cai desfalecida.

O cheiro da comida desperta em seu corpo a luta pela vida. Geme baixinho. Mal tem forças para respirar. Sente que a erguem da cama. Com uma colher, a mulher força a sua boca a abrir-se, derramando dentro dela um líquido quente e saboroso.

Lentamente, seu corpo esquenta. A mulher, carinhosamente, fala com ela pedindo que seja forte. Que para tudo nessa vida há conserto. E a sopa é devorada lenta e em pequenos goles. Poline dorme novamente. Seus sonhos são povoados de imagens. Uma fogueira. Festa. Seu vestido de noiva lindo, feito com renda comprada por sua mãe que amorosamente o havia costurado para ela. Um pedaço enorme de carne é assado no espeto que é girado pelos homens da tribo. As mulheres dançam ao som dos pandeiros e tambores. Cantam e bebem o vinho da celebração.

Uma mulher se aproxima. Seu rosto está desfigurado pela dor. Ela grita loucamente. Uma faca. Seu amado sangra. Dá-lhe um último adeus.

Com um grito, acorda. Seu corpo arde em febre. A mulher canta ao lado da cama. Ou seriam palavras mágicas o que ela diz? Ervas queimam ao seu lado. Um líquido quente é colocado em sua boca. O ar fresco entra pela janela da carroça. Ela se acalma. Em meio ao seu delirar, Poline ouve a mulher conversando com alguém cuja voz lhe é familiar.

— Não se preocupe senhora, cuidarei dela até que se recupere fisicamente. A tragédia que lhe aconteceu tirou dela a vontade de viver. Ela precisa de cuidados espirituais para que o mal acontecido em torno dela não a contamine mais. Venha todos os dias se desejar, que eu lhe darei notícias com o maior prazer, mas agora ela precisa de cuidados energéticos e espirituais.

Poline se recupera lentamente. Os cuidados de Sanmira são fundamentais para que ela volte a vida.

— Há quanto tempo estou aqui? – pergunta Poline.

— Há três semanas, minha querida. – responde Sanmira. O tempo necessário para que você desperte novamente para a vida.

— Não sei como lhe agradecer… – diz Poline tomada pela emoção da gratidão.

— Apenas lute pela sua vida. – responde Sanmira. Fortaleça a sua fé no amor e na vida, buscando a compreensão mais profunda. Faça sempre uma oração ao deitar-se e ao levantar-se. Seja grata pela vida e por tudo o que possui. O amor de seus familiares e amigos, seus bens materiais e sua força interior. Com o tempo, todas as feridas cicatrizam. O remédio para curá-las é o amor divino que encontramos nas boas ações e nos bons pensamentos.

— Muito obrigada, senhora. – diz Poline dando-lhe um forte abraço.

Sanmira acompanha a jovem mulher com o olhar até que a vista já não mais pode alcançá-la. Em seu coração. agradece pelo seu amado e por ser uma iniciada nos mistérios.

Margot

O vestido de veludo vermelho escarlate, fazia com que a pele branca da mulher se sobressaísse ainda mais. Não havia sol naqueles dias de inverno e o trabalho intenso com os doentes, fazia com que ela ficasse o dia todo dentro da Igreja levando algum conforto àqueles que já não tinham mais esperança de viver.

As casas de saúde não recebiam mais ninguém. Estavam lotadas de doentes. Os mortos eram queimados, porque não havia mais covas para enterrá-los. A peste estava aniquilando com a cidade.

– Tão linda Paris e tão amaldiçoada, pensou ela com tristeza.

O seu marido não a queria envolvida com os doentes, mas ela não podia ficar impassível diante da tragédia que se abatera sobre as classes menos favorecidas da cidade. E ainda mais, quem poderia garantir que a peste não atingiria também os ricos que andavam dentro das suas casas com lenços no rosto, numa tentativa desesperada de não respirar o ar infectado?

Dizia-se que o mal vinha da água. Os mais abastados, estavam substituindo a água por chá quente ou suco de frutas. Por enquanto, não se sabia de nenhuma família abastada, cujos membros tivessem sido infectados pela doença. Com certeza devia haver alguma coisa na água.

Ela caminhava tentando evitar as poças com água fétida. Podia ser que o contato daquela água com qualquer parte do corpo também fosse um meio de contagio.

Cuidava dos doentes sem tocá-los com as mãos. Usava luvas grossas e mantinha o tempo todo, um lenço amarrado em torno do nariz e da boca. Todo o cuidado era pouco e ela, apesar de generosa, não iria colocar a sua vida em risco.

Chegando à igreja, colocou o lenço e as luvas e entrou. Em camas improvisadas espalhadas pelo salão da igreja, os doentes gemiam. As freiras, de mangas arregaçadas, atendiam a todos como podiam. Ao entrar, uma das irmãs veio até ela, dizendo:

– Senhora, uma de nossas irmãs não estava passando bem e foi até lá fora respirar um pouco de ar puro. A senhora poderia, por favor, ver se ela esta bem?

– Claro irmã. Irei imediatamente, respondeu Margot, sem hesitar. As irmãs eram tão caridosas, mas às vezes esqueciam-se delas mesmas, pensou ela balançando a cabeça.

Percorreu a nave da igreja para chegar até a porta dos fundos. Quando lá chegou, encontrou a mulher caída no chão, respirando com dificuldade. Margot percebeu imediatamente que ela estava doente. Havia contraído a moléstia.

Seu coração encheu-se de compaixão por aquela mulher jovem e um pensamento lhe ocorreu:

– Que ironia, essa mulher dedicou a vida para cuidar de outros e essa dedicação termina por matá-la.

E com suspiro, concluiu:

– Mas quem pode saber dos mistérios dessa vida?

Levantou a mulher do chão. Ela era tão leve que poderia carregá-la sem dificuldade. Colocou-a numa cama vazia e cuidou dela até o fim. Durante os três dias em que seu corpo lutou para mantê-la viva, ela não voltou a si e quando morreu, Margot viu o seu rosto se iluminar e pensou:

– Mais um anjo volta para casa.

Decisão

Ela não estava interessada em se prender a ninguém. Desejava conhecer outros lugares, além das terras do seu pai. A imensa propriedade onde vivia já não bastava para ela. Conhecia cada canto dela e queria mais.

Havia sido criada livre pelos campos. Sua mãe morrera quando ela era ainda uma criança e seu pai não se casara novamente. A ideia de ter outra mulher no lugar da sua amada esposa era dolorida demais e ele decidiu dedicar-se à criação de sua única filha, mimando-a e concedendo-lhe todas as vontades.

Ele havia prometido a ela que a deixaria viajar assim que tivesse idade bastante para se defender, e ela aguardava ansiosa para que esse dia chegasse.

Já recusara vários pretendentes, para aborrecimento de seu pai. Hoje, um cavaleiro os estava visitando e ela sentira que esse homem seria mais um candidato à sua mão.

Nascera bonita como a mãe e herdara a simpatia e a calma do pai. Os moços encantavam-se por ela, mas ela não queria casar-se. O seu sonho era sair pelo mundo.

Seu pai veio lhe falar sobre a proposta do cavaleiro, feita após o almoço em que ela se incomodara com os olhares dele acompanhando cada gesto seu como se avaliasse a compra que iria fazer.

Ela admitia que ele era um homem forte e interessante, mas não lhe despertara nenhum afeto a não ser a cordialidade com que sempre tratava a todos que vinham a casa de seu pai, pelo mesmo motivo.

Disse ao seu pai que não desejava ser cortejada pelo cavaleiro e nem por nenhum homem. E, pela primeira vez, pediu que o pai cumprisse a promessa feita de deixá-la conhecer outros lugares.

O pai fez um silêncio que para ela pareceu uma eternidade, e finalmente concordou.

Ela ficara exultante e agora estava ali, arrumando as malas.

Partiria em breve para a França. Passaria um tempo na casa de uma tia distante que concordara em hospedá-la. Partiu num dia de primavera, abraçando seu pai com promessas de voltar em breve.

No caminho, sentiu uma estranha vontade de voltar. “Deve ser medo” – pensou. Afinal, se afastaria pela primeira vez de perto do seu pai e da segurança da sua casa. Respirou profundamente, afastando os pensamentos e seguindo viagem.

Ficou doente após auxiliar nos cuidados com os que haviam sido infectados pela peste. Teve feridas por todo o corpo e febre muito alta. No seu delírio, via lugares que gostaria de conhecer e o seu pai triste, andando pela casa.

Confortou-a o canto das pessoas dentro da Igreja que, juntamente com ela, aguardavam por um milagre..

A cigana

O fogo se espalhou por toda a parte. Mulheres gritavam, chorando a morte dos seus filhos; corpos de homens e mulheres jaziam mutilados no caminho. A jovem cigana subiu a montanha apavorada. Quando tudo começou, ela estava na beira do rio.

Ela adorava aquele lugar. Sempre que podia ia até lá. Naquela noite, algo lhe dizia que ela devia ir. A lua estava minguante e o espetáculo que ela veria não seria grandioso, mas a sua intuição falou mais alto, determinando a sua ida.

A noite estava fria, mas ela sentia um calor insuportável. O fogo ardia por toda a parte e o seu sangue cigano estava fervendo com a revolta que ela sentia diante do que via. Sem saber para onde ir, subiu a montanha num movimento instintivo. O templo da Ordem sempre fora um lugar seguro e seu corpo, acostumado a isso, a estava levando para lá. Depois, procuraria por seus pais e sua irmã. “Deus permita que estejam a salvo”, pensou, sentindo um arrepio percorrendo o seu corpo, como um sinal de mau presságio.

Imediatamente, segurou a medalha que carregava pendurada no pescoço e que ela acreditava que a protegia. Procurou esconder-se como pode. Ela não sabia o que teria desencadeado aquela chacina, mas sabia que o seu povo era o alvo. Se ela fosse pega seria morta, com certeza.

Quando estava próxima ao topo da montanha, ela ouviu gritos vindos do interior da caverna. Num movimento de autoproteção, decidiu esperar até que tudo ficasse em silêncio. Muito tempo se passou. Escondida atrás de uma grande pedra e protegida por folhagens, ela procurava ouvir alguma voz conhecida, mas nada acontecia. Pensamentos assustadores povoavam a sua mente: “Até quando ficaria ali? O que aconteceria com ela? Poderia voltar ao acampamento?”.

Eram perguntas sem resposta. Exausta, ela foi tomada de um sono incontrolável e bem-vindo. Quando acordou, o dia já amanhecera. Saiu de seu esconderijo com cuidado e iniciou a subida que a levaria à entrada da caverna.

O silêncio reinava no grande salão coberto por corpos de homens e mulheres mortos. Todos conhecidos seus. Pálida e tremendo muito, ela entrou nos corredores iluminados pela luz azulada. Não havia ninguém, só o silêncio. Voltou ao salão e notou que o marcador de tempo não estava mais lá. Eles o haviam roubado e destruído todo o resto. Sentou-se na beira da fonte de pedra que ainda jorrava água, apoiou a cabeça nos braços e caiu num choro compulsivo e desesperado.

De repente, sentiu que não estava sozinha. Ao seu lado, um ser de luz sorria para ela. Na sua mente, ela escutou as palavras dele:
— Tudo o que aqui está será destruído. Você deve partir e guardar em seu coração todos os bons momentos que aqui viveu e os ensinamentos que recebeu. Não tema, nada acontecerá a você. Desça a montanha pelo lado oposto ao do acampamento cigano e encontrará mulheres generosas que a auxiliarão. Coragem! Que a força divina acompanhe você!

Ela agradeceu com um gesto de cabeça e saiu da caverna, tomando o rumo indicado pelo ser de luz. Tempos depois, ela soube que a caverna havia ruído, enterrando dentro dela mais uma possibilidade de redenção para os homens. Um pensamento a confortou:
“Tudo finda e retorna”. Assim é, e assim sempre será.

Návia

Návia estava encolhida num canto da cela. Ali se aninhou, na esperança de que aquele canto de parede a protegesse. Não aguentava mais as dores provocadas pela tortura. Não havia mais o que dizer e eles insistiam em perguntar. A maior das dores era a solidão e a sensação de abandono.

O que pode um ser humano sem amor? Era assim que ela se sentia. Absolutamente só e sem amor. Quase não lhe importava mais o que fizessem ao seu físico. Essa dor já era sua conhecida. Mas a dor que sentia na alma, essa ela nunca mais curaria e sofria ainda mais com esse pensamento.

Já não tinha raiva e nem lutava. Resignara-se. Que a matassem logo, era o que desejava. Não comia há dias. A única coisa que lhe davam era água e um pedaço de pão mofado impossível de comer. A água era escura e mais parecia ter sido tirada de uma poça de lama. Mas ela bebia. A sede era insuportável para ela. Tudo o mais ela aguentava como podia.

Ouviu o som das botas batendo no chão do corredor da prisão e um arrepio passou pelo seu corpo. Sabia que a sua hora chegara. O que ela mais desejava era receber um sorriso ou um olhar de carinho para não morrer com aquela dor na alma; dor que traria de volta em seu coração numa outra vida, como um peso a ser transformado.

Enquanto a empurravam na direção da saída que levava ao poste onde seria amarrada e queimada, ela olhava a multidão buscando esse olhar.

Repentinamente, chamou-lhe a atenção um religioso alto e forte que usava um capuz que escondia parcialmente o seu rosto. Os seus olhos, porém, eram visíveis e estavam cheios de amor. Como um náufrago que encontra uma tábua no meio do oceano, ela prende o seu olhar no daquele homem durante todo o tempo que foi possível, enquanto caminhava. Quando não mais pode vê-lo, sentiu-se abandonada mais uma vez. Quando já estava amarrada ao poste, pode vê-lo novamente.

Durante todo o tempo em que as chamas ainda não eram altas o suficiente para cobrir a sua visão, ela ficou olhando para ele que, corajosamente, ali permaneceu enviando a ela, com o seu olhar, um amor tão grande que confortou os seus últimos momentos de vida.

A fumaça tirou-lhe o ar, fazendo com que ela desmaiasse mas, antes disso, a última coisa que viu foi uma lágrima correndo pela face do homem.

Quando ele percebeu que ela já estava desmaiada, virou as costas e, com um gesto silencioso, cobriu o rosto com o capuz, caminhando em direção à saída da praça. Bernardo, mais uma vez, fez o que devia ser feito.

Coragem

Ela grita, apavorada. Seus olhos ardem e a sua garganta está seca. O fogo se aproxima dela. Gritando, chama pelos amigos que não podem ouvi-la. Todos estão presos e muitos já morreram nas mãos dos inquisidores.

O que fez ela para merecer isso? Aquilo tudo estava errado. O que ela sabia do poder das ervas, havia aprendido com a sua mãe que, por sua vez, aprendera com a sua avó. Esse conhecimento ajudara muitas pessoas. Por que ela tinha que sofrer por isso?

A tosse arranhava sua garganta e o calor era insuportável. “Meu Deus!” – pensou ela. Quando o fogo chegasse ao seu corpo, seria uma dor terrível. Por um segundo, lembrou-se dela na horta, ao lado de sua mãe que lhe dizia:

— O mastruz ajuda no combate aos males dos pulmões. O poejo auxilia na cura da constipação e a hortelã limpa a garganta e o peito. Essas três ervas, juntas, curam qualquer mal da respiração. Você deve colhê-las antes do nascer do sol para que elas acordem em suas mãos. Sinta-as acordando e converse com elas, pedindo que realizem a cura do mal físico da pessoa que você estiver tratando. Pense na pessoa enquanto mexe nas ervas. Mentalmente, diga o nome da pessoa três vezes enquanto fala: “Que o mal físico dessa pessoa seja curado pelo milagre que essas ervas hão de realizar. Pela Glória de Deus, nosso Pai. Lembre-se, sempre, minha filha, o que nós fazemos é o trabalho de Deus. Somos suas operárias, mas devemos respeitar a escolha das pessoas. Esse assunto de escolha não nos compete. Fazemos apenas a nossa parte, que é muito valiosa e honra a Deus.

Um acesso de tosse a fez voltar para a realidade. A noite estava fria e a chuva fina impedia que as chamas lambessem de uma vez a lenha toda, apesar do unguento colocado sobre elas e sobre o seu corpo, para que ardesse logo.

Apesar da situação em que estava, lembrar-se da mãe fez-lhe um enorme bem. Em breve estaria com ela. Sabia disso e não temia a morte. O que a apavorava era a eminência de sentir a dor que o fogo provocaria nela.

A multidão quase já havia se dispersado. O espetáculo fora fraco. A chuva fina estava atrapalhando.

— Mas que má hora para cair essa chuvinha! – disse uma mulher que, desapontada, deixava a praça.

Somente o carrasco e o padre responsável aguardavam o desfecho da pena.  “Por que a chama não queimava de uma vez? Que martírio era aquele?” – pensava o padre, que já sentira seu estômago reclamar de fome.

Para ela, parecia que muitas horas já haviam se passado sem que as chamas conseguissem tocar o seu corpo.

— O que faremos? – perguntou o carrasco ao padre, que balançou a cabeça sem ter o que responder.

Subitamente, um pequeno homem com vestes de frade entra na praça, gritando:

— Milagre, milagre. Deus poupou essa mulher porque nela não há pecado. Bendito seja por nos possibilitar não cometer um erro tão grave! E, continuando a gritar, dizia:

— Glória a Deus! Glória a Deus!

As pessoas presentes não acreditaram no que estavam ouvindo. Olhando para o frade e vendo que a fogueira não ardia o tanto que queimasse a bruxa, concluíram que ela não era bruxa e caíram de joelhos com medo do castigo divino, começando a gritar juntamente com o frade:

— Glória a Deus! Glória a Deus!

Vendo que a multidão poderia se virar contra eles, o padre voltou-se para o carrasco e disse com tom de preocupação:

— Desamarre-a antes que a multidão acabe conosco.

— Mas, senhor, como vou passar entre as chamas? – perguntou o carrasco um tanto preocupado.

— Ora, disse o padre, vire-se. Você é pago para isso. E tire-a de lá sem nenhum arranhão ou seremos linchados.

Batendo nas toras, o carrasco foi abrindo caminho através do fogo. Quando chegou diante da mulher amarrada ao poste, viu que ela havia desmaiado, sufocada pela fumaça.

— Vai ver já está morta, pensou o carrasco, maldizendo o padre que o fez enfrentar o fogo por nada.

Desamarrou-a e saiu correndo, passando de volta pelo fogo que, após ter sido batido por ele, estava mais forte.

Ao chegar fora da fogueira, foi aplaudido pela multidão que gritava encabeçada pelo frei: Graças a Deus! Graças a Deus!

Imediatamente, o pequeno frei aproximou-se do carrasco e disse:

— Deixe que os franciscanos cuidem dela agora. E, virando-se para o padre, disse:

— Deus abençoe a sua missão. Graças à sua ordem, o mundo se livra dos horrores do mal. Mas, agora, cabe a minha irmandade cuidar dela. A nossa missão é cuidar dos doentes e essa mulher precisa se recuperar da injustiça à que foi submetida. Glória a Deus, irmão! – e fez o sinal da cruz, abençoando o ar.

Naqueles tempos, havia muita competição entre as ordens religiosas. Existia um acordo velado de que uma não se metia nos assuntos da outra. O padre respondeu, aliviado:

— Pode levá-la irmão. Abençoada seja a sua ordem pelo grandioso trabalho que realiza.

O frei deu-lhe as costas após fazer um cumprimento, inclinando levemente o seu corpo para frente e saiu, arrastando a mulher com ele, ajudado por dois homens.

“Que a levem”, pensou o padre com desdém. “Escreverei ao meu superior relatando o caso. A polícia da inquisição ficará de olho nela e, em breve, ela estará de volta à fogueira, por qualquer outro motivo.”

Pela fresta da porta de uma casa próxima dali, Bernardo sorriu. Bento era mesmo um homem muito corajoso. Seu coração encheu-se de gratidão pelo amigo. Sem ele, as coisas seriam muito mais difíceis. Quando a mulher melhorasse, pediria ajuda aos seus amigos e a enviaria para terras bem distantes dali. Nunca mais se ouviria falar dela.

A carta

— Eu não desejo viver! – disse ela à sua mãe.

A mãe já não sabia mais o que fazer. Tentara de tudo, mas nada animava a filha a comer. Ultimamente, passava a maior parte do tempo rezando e pedindo a Deus que a iluminasse para encontrar uma resposta que ajudasse a sua filha.

Essa última frase da sua filha havia sido a gota que faltava para que ela perdesse a esperança de fazê-la alimentar-se. A frase tinha sido dita num tom de determinação tamanha que ela se sentira impotente para falar qualquer coisa. A sua filha havia decidido morrer e ela não podia fazer mais nada, a não ser rezar.

O segredo que havia em seu coração morreria com ela até que fosse revelado numa carta deixada à sua mãe.

“Mãe,

Perdoe-me por tudo que a fiz sofrer. Estar com a senhora foi a melhor coisa da minha vida. Tudo o que aprendi de grandioso foi ao seu lado. Mas não posso continuar vivendo aqui. Nada me interessa. Sinto saudade de um lugar que não sei qual é. Tudo o que aqui vejo não é sequer uma sombra do que sinto que há em outro lugar que sequer sei onde é.

Preciso encontrar esse lugar. Sinto que não posso encontrá-lo se não morrer. O meu corpo físico me atrapalha. Quero flutuar e só ter bons sentimentos. Quero amar sem precisar justificar o meu amor e ser feliz apenas por existir.

Tudo me cansa e me entedia. Nada me dá prazer ou desejo de continuar. Tudo se esgota muito rápido para mim. Devo ser orgulhosa e egoísta, mas não sei como encontrar a porta para sair disso. O meu eterno amor sempre a acompanhará.

Sua filha”.

Do outro lado, longe das coisas materiais, ela entendeu. Enviou então uma mensagem à sua mãe, que foi emoldurada em um quadro que fica na sala, para que todos possam lê-la e refletir sobre as suas vidas:

“Somos como crianças em busca do carinho e da proteção de quem nos cerca. A porta que nos leva de volta à vida chama-se “o outro”. Por ele, seguimos vivendo e temos forças para prosseguir. Hoje, sei que o que nos faz felizes e vitoriosos é fazer da nossa vida uma ajuda ao próximo. Nisso há caridade e sabedoria. Se vamos ao outro, recebemos de volta o que ofertamos. Esse ciclo não pode cessar. Se o interrompemos, ficamos sós e correremos o risco de não encontrar mais o prazer de viver, porque as coisas materiais se esgotam. Assim foi comigo. Hoje sou mais sábia e desejo compartilhar a minha descoberta. Finalmente abri a porta certa, e espero nunca mais fechá-la”.

O anfitrião

O velho senhor emocionou-se quando olhou o pregador parado em pé, na soleira da sua porta.

— Entre, senhor. Seja muito bem-vindo à minha casa que, embora humilde, se alegra e se sente honrada com a sua presença.

— Muito obrigado, disse Jesus, olhando com amor para aquele homem que tinha idade para ser o seu avô que ele não conhecera, mas que sabia ter sido um homem muito bem-humorado e um artesão que trabalhava a madeira como ninguém.

— Eu é que me sinto honrado que me receba em sua casa, continuou Jesus. Espero não incomodá-lo.

— De forma alguma, retrucou o homem. Sente-se, por favor.

Em seguida, pediu às suas filhas que trouxessem água fresca para os pés do pregador, o que foi prontamente atendido.

Uma de suas filhas, atenciosa, ofereceu-se para lavar-lhe os pés. Jesus ficou tocado pelo carinho daquela moça que não o conhecia, mas que se curvava diante dele para lavar-lhe os pés. E, então, emocionado, ele falou:

— Não há maior prova de amor do que esta: quando alguém nos lava os pés concedendo-nos o alívio após uma longa caminhada. Sou um homem bem-aventurado por ter a oportunidade de usufruir da atenção de vossa filha e guardarei para sempre em meu coração esse gesto de extrema bondade.

O velho homem sentiu o seu coração aquecer. Para um pai, não há presente maior do que o elogio a um filho.

— Muito obrigado, senhor. Agradeço por suas palavras a mim e à minha filha. Agora, vamos comer e beber para saciar a fome e a sede. Depois continuaremos a conversar. Teremos boa parte da noite para isso. Sois muito bem-vindo à minha casa também para que passe a noite. Reservamos um aposento para que o senhor possa descansar e, amanhã, se desejar, poderá continuar a sua jornada.

Jesus agradeceu pelo convite, aceitando a gentileza do seu anfitrião. Comeram, beberam e quando o dia se fez noite, Jesus contou uma história que seria lembrada pelo velho homem para sempre, como um presente que lhe fora dado por um pregador, que um dia ele hospedara em sua casa.

“Era uma vez um rei que nunca sentia que o que ele fazia pelo seu reino era suficiente. Por mais que ele se preocupasse com os seus súditos, sempre ficava com a sensação de que podia dar mais. A sua esposa vivia a lhe chamar a atenção para os exageros, mas ele nunca se apercebia disso, ao contrário, desejava sempre dar mais e mais.

Até que, um dia, um mendigo bateu à sua porta. Os empregados, sabendo o quanto o seu senhor era generoso, foram perguntar o que deviam fazer. O rei então ordenou que dessem de comer e de beber ao mendigo e que oferecessem um trabalho a ele. Assim ele teria com o que se manter dali para frente.

No dia seguinte, o mendigo foi embora. O rei pensou que o haviam maltratado e mandou que o trouxessem de volta. Quando o mendigo retornou, o rei foi ter com ele, perguntando-lhe:

— Senhor, por que foi embora de minha casa? Acaso o trataram mal?

— De maneira alguma, meu senhor. Ao contrário, fui muito bem tratado – disse o home. E agradeço a oportunidade de, pessoalmente, poder dizer-lhe isso.

— Mas então por que foi embora recusando a oferta que lhe fiz de trabalho?

— Bem, meu senhor, não sou homem de me prender a lugar algum. Gosto de andar livre pelo mundo e descobrir por mim mesmo o quanto existem pessoas generosas como o senhor. A comida e o abrigo que me ofereceu por uma noite estão muito bom para mim, senhor.

Com essas palavras, o mendigo despediu-se do rei e seguiu viagem. O rei ficou pensando que o que é menos para ele pode ser mais para outra pessoa.

Deste dia em diante, ele não mais se preocupou se estava devendo algo a alguém. Faria sempre o seu melhor, mas estaria aberto para escutar aquilo que o outro desejava, respeitando a sua vontade. Afinal, todo o ser humano é livre para decidir o que fazer com a sua vida.”

O velho homem sorriu e disse:

— Muito obrigado. O senhor acabou de me dar um presente. Eu também, a partir de hoje, vou escutar o que o outro deseja antes de oferecer aquilo que eu acho que é o melhor para ele.

No dia seguinte, Jesus seguiu viagem. Sua próxima parada seria determinada pela luz que o guiava.

Lihana

A mãe embala a criança que acabou de mamar no seu peito. A emoção toma conta dela. Como é linda a sua filha! Que bem-aventurada ela é por ter tido um bom parto e manter-se viva para vê-la crescer e se tornar uma linda mulher. Lágrimas escorrem do seu rosto e ela diz baixinho: Lihana. Esse será o nome dela, muito parecido com o seu: Lhana, e ela não questionaria a sua intuição.

Juntas assim, mãe e filha guardam um segredo cuja chave só possui quem esteve em braços amorosos do amor incondicional materno e viveu tão plenamente que é capaz de lembrar-se dele sempre que desejar.

Um amor incondicional e divino é o amor de todas as mães. Que elas nunca pereçam para que todos os homens tenham a chance da libertação.

Por um instante, Lhana mergulha nos olhos marrons da criança ao seu colo. Olhos límpidos de quem ainda não teve a chance de escurecê-los com as adversidades da vida. Iniciada nos mistérios, Lhana mergulha na alma de sua filha para reconhecer a sua missão. Lentamente, as imagens vão se formando.

O Mestre sorri. Abençoadas aquelas crianças que brincam ao seu redor. Quanto o fazem esquecer-se de suas dores nas costas que teimam em doer a despeito dos cuidados de Maria. O que sente por essas crianças é a expressão de todo o amor que seu coração pode sentir.

Sua neta mais nova se aproxima, sobe em seu colo e lhe pergunta:

– Vovô, por que você não é como os outros?

O Mestre sorri, sabendo que o que ela estranha é seu rosto desfigurado.

– Vou contar-te uma história, minha querida Lia.

Rapidamente, as outras crianças se aproximam. Todos adoravam as histórias dele.

O Mestre fala:

– Era uma vez um carneirinho que, ao nascer, mostrou um pelo muito escuro. Sua mãe, a grande ovelha branca, estranhou, mas pensou: “Conforme ele for crescendo, o seu pelo vai clarear”.

O carneirinho foi crescendo e seu pelo só fazia escurecer, até que ficou todinho negro. Seus irmãos brincavam com ele e por vezes eram malvados, chamando-o de feioso e de outras palavras que o magoavam. Um dia, sua mãe, vendo que os carneirinhos brancos não o deixavam em paz, levou todos para o alto da montanha onde tudo era branco, porque a neve tinha tomado conta de toda a terra e de toda a grama verde. De repente, ela se escondeu atrás de um monte alto de neve e os carneirinhos, sentindo-se sós e perdidos, começaram a chamar por ela. No meio de tanta neve branca, o carneirinho escuro era o único que todos viam e, assim, ficaram ao lado dele que serviu de guia para todos, levando-os de volta para casa, sãos e salvos.

Quando a mãe ovelha voltou para casa, disse:

– Que boa lição aprendemos hoje todos nós. Não importa o quão diferente sejamos. O que importa é que façamos a diferença na nossa vida e na vida das pessoas que amamos.

Lia ficou um tanto pensativa e abraçando o avô disse:

– Eu amo você vovô, assim mesmo como você é.

O coração do Mestre bateu no peito de felicidade. Ela seria uma mulher cheia de amor para com o seu semelhante.

Lhana retorna de seu mergulho e diz em voz alta:

– Que assim seja!

Traição

As pessoas se aglomeravam. Não havia lugar onde ele pudesse ficar para escutar o que o Mestre dizia. Não havia problema. Já o ouvira falar várias vezes. Uma a menos não faria falta.

Atrasou-se conversando com os políticos, pessoas influentes que lhe diziam que Jesus deveria explicar-se o quanto antes. Estava sendo malvisto pelos poderosos que temiam que sua influência inflamasse o povo.

Judas não duvidava que isso fosse possível e até desejava que isso acontecesse. Já estava na hora das coisas mudarem. Jesus, porém, não se mostrava desejoso de ser um político. Era tão ingênuo, o seu Mestre, pensava Judas. Ficava ali falando de um reino que ninguém conhecia. Judas pensava mesmo que, às vezes, Ele parecia não estar no seu juízo perfeito.

Mas Ele era tão amoroso e perto Dele tudo era tão agradável que as pessoas iam ouvir as Suas histórias e rir das Suas brincadeiras.

Judas, porém, estava preocupado. As finanças não iam bem. Ele precisava de dinheiro e pensava no seu futuro. O Mestre não desejava riquezas, então, através Dele não ficaria rico. O que fazer?

A oferta foi tentadora. Não teria tanta importância. Jesus seria preso, lhe fariam algumas perguntas e logo veriam o quanto Ele era inofensivo e manso e O soltariam. Judas, por outro lado, guardaria a soma que lhe dariam e o seu futuro estaria mais bem garantido.

Mas as coisas não saíram como ele previra. De repente, uma massa humana gritava pedindo que O crucificassem. Judas, desesperado, tentava gritar em favor do seu Mestre, mas a sua voz era abafada pelos gritos de raiva da multidão, insuflada pelos políticos. Judas não suportou a culpa. Morreu impregnado dessa energia.

Maria

O círculo estava formado. Todos estavam sentados em seus tapetes. A luz das velas dava ao ambiente uma atmosfera de recolhimento e magia. Maria levantou-se e caminhou em volta do círculo abençoando as pessoas e pedindo a Deus que elas permitissem que o melhor delas se manifestasse naquela noite.

A tarefa que cabia a ela não era fácil. Representaria o seu filho que ainda estava doente e fraco para assumir o lugar que era dele. Ele lhe pedira que conduzisse o ritual. Indicou-lhe o caminho a seguir, mas deixou-a livre para seguir o seu coração.

Ela o havia embalado em seus braços. Vira-o crescer e se tornar um homem doce e amoroso. Eles conheciam profundamente um ao outro. Ele confiava nela. Era a sua mãe. Amava-a com toda a força do amor que era capaz de sentir. Amava-a com a força da sua alma.

E agora ela estava ali, caminhando em volta do círculo que tantas vezes viu formar-se sob o comando do seu filho. Já perdera a conta das vezes em que ela mesma participou dos rituais, vivenciando experiências místicas que só compreenderia quem houvesse passado pelas mesmas experiências.

Terminando o seu caminhar em volta do círculo, ela convidou a todos para que fechassem os olhos na intenção de que os sentidos mais profundos se manifestassem. Ela sabia que o seu filho não estava ali fisicamente, mas ela podia senti-lo presente em energia e isso lhe dava força e segurança para continuar.

Em seguida, pediu aos presentes que permitissem a manifestação de um som. Que buscassem esse som no mais profundo do seu ser. Que esse som trouxesse para perto de cada um a sua porção divina. Que ela se manifestasse para cada um na medida de seu entendimento e compreensão.

Lentamente, os sons foram brotando até que uma massa sonora invadiu o espaço e criando uma frequência vibratória elevada. Ouvidos treinados podiam ouvir outros sons que se somaram àqueles, vindos de outro lugar. Sons que respondiam ao chamado dos Iniciados como a compartilhar esse momento, num abraço fraterno e cheio de amor.

Maria ficou ali em pé, ouvindo e sentindo as energias presentes. Por um momento pareceu a ela que levitava, tamanha era a paz que sentia.

Como se houvesse uma regência naquele coro de anjos, as vozes foram abaixando até que o silêncio se fez.

Ninguém ousava abrir os olhos ou se mexer. Parecia a todos que o menor movimento podia ferir a energia que se estabelecera ali. Maria sentiu que poderia ficar ali para sempre, naquele estado de comunhão e de paz.

E então, de sua boca brotou um canto. Sua voz soou acordando os que dormiam e os que ainda estavam em transe. Caminhando novamente em torno do círculo, ela cantou. O seu canto trouxe todos de volta, docemente. O colo que ela oferecia cheio de amor maternal deu-lhes força para voltar. A presença dela garantia a todos que não estavam sós.  O seu colo amoroso e protetor os acolheu na volta para o momento presente. De onde estava, o seu filho sorriu.

Pedro

Pedro descansava apoiado no barco ancorado na areia da praia enquanto olhava para a concha que rodava entre os dedos, pensando: “Como é feito isso? Como é possível que nasçam essas coisas no mar? Quem as plantou lá?”

Inúmeras perguntas vinham à sua mente enquanto o seu olhar se dividia entre a concha que rodava entre os dedos e o mar à sua frente de um azul intenso, naquela hora da tarde. Dali a pouco escureceria e o céu se tingiria de estrelas. Outro mistério para ele.

Que luzes eram aquelas? Quem as colocou ali? Será que um dia apagariam?

Ele sabia que de nada adiantava perguntar-se essas coisas para as quais não havia resposta, mas ele não tinha controle sobre o seu pensamento.

Gostava de olhar o mar e o céu repleto de estrelas. Sentia-se pequeno diante da sua imensidão. Essa sensação lhe trazia forças para continuar o árduo trabalho de manter-se vivo. Afinal, devia haver alguém que zelava por todos. Senão o que seria dele e de todos os homens e mulheres que habitavam ali? Eram todos tão pequenos diante da imensidão do mar e da grandeza do céu estrelado e eram tão impiedosamente explorados pelos poderosos cruéis e insaciáveis. Pedro não aguentava mais tanta injustiça. A cada dia, ele perdia mais a esperança de que pudesse haver um mundo melhor para quem era pobre e vivia do seu trabalho.

Foi então que soube a respeito do pregador. Tiago havia lhe dito que havia um homem que andava pela praia, pregando a existência de um mundo novo onde havia paz e amor. Pedro ficou curioso e preparou-se para encontrar o tal homem do qual lhe falara Tiago. Quem sabe ele seria a resposta para o seu desejo de justiça.

No dia marcado, ele caminhou até as pedras onde encontrou várias pessoas ao redor de um homem que falava. Aproximou-se lentamente para não ser percebido. Queria ver de longe. Avaliá-lo primeiro, antes de apresentar-se.

O homem era simpático e sua voz suave era ouvida por todos. O vento que soprava, auxiliava a trazê-la até mais longe. Pedro ficou escutando o que ele dizia:

“Sabeis vós que não há homem ou mulher que não seja amado pelo Pai de todos nós. Deus, nosso Pai, nos ama igualmente e de nós apenas pede que amemos uns aos outros. Que perdoemos aquele que nos fere para que sejamos perdoados por ele. Porque com a mesma medida que medis o vosso semelhante sereis medidos por ele. Amados serão aqueles que amarem e abençoados aqueles que perdoarem. Peço-vos que espalhem a alegria e o amor e não desejem mal ao seu semelhante, mas sim, que ele prospere e seja feliz. Assim atraireis para vós prosperidade e felicidade”.

Pedro aproximou-se um pouco mais, encantado com as palavras daquele homem. O que ele dizia era algo novo para ele. Ele não compreendia direito. Precisaria conversar mais com ele para que lhe explicasse o sentido de suas palavras.

Lentamente foi se aproximando, passando por entre as pessoas, até que ficou muito perto. De repente, o olhar do homem cruzou com o seu e ele sentiu no peito um calor diferente. Uma calma se instalou no seu coração e ele sentiu como se não houvesse problemas na sua vida. Acomodou-se como pode no chão de areia e escutou a tarde toda o que o homem dizia.

Quando o sol estava baixando, um dos seus seguidores pediu que ele fizesse uma pausa para o jantar. Sorrindo, o homem levantou-se, convidando a todos para apreciarem o pôr do sol. Em silêncio, todos que ali estavam ficaram olhando o sol abaixar-se por detrás das montanhas.

Pedro não tirou os olhos do homem um instante sequer e pode ver que quando o sol se escondeu atrás das montanhas, ele fechou os olhos como se fizesse uma prece silenciosa.

Desse dia em diante, Pedro acompanhou aquele homem, amando-o profundamente e sendo igualmente amado por ele.

Tomé

O capuz da túnica de tecido rústico em tom de terra caia por sobre o seu rosto. Ele gostava que ficasse assim. Isso lhe dava a vantagem de observar sem ser observado.

Naquele dia, isso era muito importante. Precisava ouvir bem. Prestar muita atenção a tudo o que seria dito para que, depois, anotasse o melhor que pudesse.

Procurou um lugar onde ficasse bem próximo ao Mestre. Os companheiros não implicariam com ele. Afinal, a sua tarefa era bem-vinda por todos. A palavra precisava ser registrada e ele fora escolhido porque mexeu com livros durante toda a sua vida. Faria um bom trabalho.

Não era difícil registrar as coisas que o Mestre dizia. Na maioria das vezes, contava histórias para ilustrar o que queria dizer. Bastava que ele guardasse na memória as histórias e estaria tudo bem.

A multidão já se aglomerava em volta da pedra onde o Mestre estava sentado. Pessoas de toda parte vinham para ouvi-lo. A sua fama de milagreiro corria de vilarejo em vilarejo e, quando ele chegava, a sua fama já o havia precedido.

A tarde estava quente. As árvores traziam algum frescor, mas o aglomerado de pessoas aumentava a sensação de ar parado e quente.

Tomé escutou a voz do Mestre:

— Sejam todos bem-vindos. Vós que sois filhos de Deus e por Ele muito amados.

Lentamente, a multidão foi se calando até que só a voz do Mestre foi ouvida por todos.

— Não desejem riquezas nesta vida. Buscai antes o vosso tesouro onde estiver o vosso coração. Ele é a resposta para todas as suas perguntas. Quando ouvimos o que diz o nosso coração, não nos enganamos. Vou contar-lhes uma história:

“Era uma vez um jovem rico, que durante toda a sua infância e adolescência brincou e fez confidências à filha do jardineiro de seu pai, Sophia. Eram grandes amigos e um não se retirava para dormir sem dar boa noite ao outro.

O tempo passou e os dois jovens cresceram. Até que chegou o dia em que seu pai disse a ele que deveria escolher uma mulher para casar-se.

— Me casarei com Sophia, a filha do jardineiro, meu pai. Conheço-a desde criança e sei o quanto ela é prendada e carinhosa. Eu a amo e sei que ela também me ama e juntos seremos muito felizes.

O pai não pareceu muito satisfeito com a decisão e propôs ao filho que avaliasse outras jovens que pertenciam a sua classe social. Eram lindas e inteligentes e dariam ótimas esposas. O filho não quis contradizer o pai e aceitou conhecer as jovens.

Durante várias semanas, o pai ofereceu almoços para várias moças acompanhadas de seus pais. O rapaz era cortês com todas elas, mas nenhuma lhe despertou interesse. Ao final de um mês, o pai o chamou.

— Meu filho, vejo que nenhuma das moças que lhe apresentei o interessou. Isso me faz acreditar que o seu coração já tem dona.

— Sim meu pai, amo Sophia e é só a ela que desejo. Não posso trair o meu sentimento, mas entenderei se o senhor não quiser aceitá-la como nora.

O pai abraçou o filho dizendo:

— Meu amado filho, fiz vir até a nossa casa essas moças para testar se realmente era verdadeiro o seu sentimento por Sophia. Eu também a amo como uma filha e não poderia deixar que vocês se casassem sem ter certeza de que você lhe será fiel. Você passou no teste. Apresentei a você as moças solteiras mais lindas, inteligentes e carinhosas da região e nenhuma delas o seduziu. Sim, meu filho, eu dou a minha bênção. Que vocês sejam felizes para sempre. E assim foi. Casaram-se e viveram felizes”.

Concluindo a história, o Mestre disse:

— Quando algo é verdadeiro em nosso coração e somos fiéis ao que ele nos diz, nos sentimos realizados. Assim, sejamos todos nós fiéis ao nosso coração e seremos abençoados por isso.

Tomé sorriu ao observar o rosto das pessoas que ouviam o Mestre. Estavam encantadas. Olhavam para ele como se tivessem sido tocadas por uma força nova e transformadora. Ele conhecia essa força. Ela vinha de seu Mestre. Em seu coração, Tomé sabia que seria fiel a ele por toda a sua vida.

Frei Bento

Frei Bento caminha ao lado de Frei Bernardo. Ele sabe que o que farão hoje é muito arriscado, mas também sabe que uma força estranha protege Bernardo. Então faria o que ele pedisse, sem titubear.

Ao chegar aos porões, Bernardo, com o tom de autoridade que sempre usava nessas ocasiões, diz aos guardas:

— Deixem-me a sós com o prisioneiro.

Os guardas não ousavam desagradá-lo. Ele tem o aval dos bispos, o que o torna poderoso. Sua fama corre até aos lugares mais distantes. Ele é tido como o mais cruel dos inquisidores. Aqueles que ele interroga, morrem nos interrogatórios após confessarem seus crimes com carta assinada.

Quando os guardas saem, Bernardo aproxima-se do homem agonizante e o desamarra. Com a soltura das cordas, o seu corpo, até então esticado ao máximo, sofre um ajuste nos ossos que arranca do prisioneiro um grito horroroso de dor. Os guardas saem da porta da cela, apavorados. Um grito desses não é esquecido por noites e noites insones. O homem chora de dor, mergulhado em fezes e urina.

Frei Bento rapidamente lhe dá a poção para aliviar a dor. O homem bebe, desejando que aquilo fosse o veneno que lhe trará a morte e o alívio para as dores. Mas, ao contrário, rapidamente o seu corpo se anestesia e ele consegue respirar sem sentir uma dor lancinante. Frei Bento umedece um pano em água limpa e passa-o no corpo do homem que recebe esse gesto com profundo alívio. Após banhar o prisioneiro, veste nele uma túnica limpa e o coloca sentado.

Enquanto Frei Bento faz isso, Bernardo grita como se o estivesse interrogando e chicoteia as madeiras do aparelho de tortura.

“Que homem louco!” – pensa o prisioneiro que lentamente percebe que ele não lhe fará mal. Mas o que vai querer dele, então? Bem, de qualquer maneira, ele iria aproveitar essa trégua de tortura, vinda em tão boa hora.

Enquanto Bernardo grita e bate nas madeiras, chutando as ferragens, Frei Bento diz ao ouvido do prisioneiro:

— Grite. Grite o mais que puder para salvar a sua vida.

O prisioneiro então percebe a farsa e auxilia os dois na empreitada. Depois de algum tempo, fazem silencio. Frei Bento fala ao seu ouvido:

— Vamos dar-lhe uma bebida que o deixará como morto. Quando acordar, já estará fora daqui, em segurança com os seus.

Perplexo e assustado, o prisioneiro olha para aqueles dois homens a sua frente e só consegue dizer:

— Obrigado.

Em seguida, Frei Bento lhe dá a poção. Bernardo chama os guardas e pede que retirem o corpo dali e o levem para a sua família. Eles que o enterrem.

Muito tempo depois, no alto da montanha, Viriato lembra o que aconteceu, sem conter a gargalhada que o leva ao chão com dores na barriga.

— Como aqueles padres foram espertos, que Deus os abençoe! Essa Santa Madre Igreja bem que mereceu! E continuou a gargalhar até que caiu prostrado na relva olhando para o céu, sentindo uma imensa alegria por estar vivo e desejando que aqueles dois estivessem tão felizes quanto ele.

Magia da libertação

A jovem e bela cigana abre passagem por entre as folhagens do caminho que a levará à beira do rio. Seu rosto está transtornado. Ao chegar ao rio, senta-se numa pedra e continua a chorar, cobrindo o rosto com as mãos. Ela ama um homem que não a ama.

Ele é casado. Ela decidiu falar-lhe do seu amor, mas ele não correspondeu a esse sentimento e pediu a ela que se afastasse dele. Não queria problemas com a sua esposa e com o Conselho da Tribo.

Ela está desolada. O que fazer? Como arrancar do peito esse amor? Quem pode ajudá-la? A quem deve recorrer e confiar? Ela sente vergonha por ter sido rejeitada. Todos dizem que ela é bela. Então, por que a sua beleza não o fez apaixonar-se por ela?

Sozinha na floresta, ela chora. O seu sentimento se alterna da vergonha para a tristeza, do orgulho ferido para a raiva. Está desesperada e só.

Um arbusto balança ao seu lado. Ela se assusta e pula do lugar onde está sentada.

— Nossa, deve ser algum animal, diz em voz alta. Preciso voltar ao acampamento.

Ela, então, toma o caminho que vai levá-la de volta ao acampamento, pensando: “Vou direto para a minha carroça para que ninguém me veja com os olhos inchados de tanto chorar.”

Quando está próxima ao acampamento, encontra uma das ciganas do Conselho que nota a sua tristeza, mas nada diz, respeitando o seu silêncio. Entretanto, decide observá-la de longe. A tristeza pode levar uma pessoa a não desejar mais viver. Ela ficaria atenta para que nada acontecesse à jovem cigana.

A cigana mais velha, conversando com um e com outro, descobre o que tem deixado a jovem cigana abatida e cada vez mais magra. Ela sofre por um amor não correspondido. A cigana mais velha sabe que se ela não recuperar a sua autoestima poderá ser infeliz para sempre.

Aos poucos se aproxima dela e conquista a sua confiança, levando-a a realizar a magia que vai libertá-la da energia daquele homem ao qual ela escolhera se prender.

Magia da libertação 

Numa noite de lua cheia, recolha duas sementes de abacate. Para uma das sementes você deve dar o seu nome e para a outra, o nome do homem do qual você deseja libertar-se energeticamente.  

Vá para um lugar bem distante onde você não terá, nesta vida, a chance de voltar. Lá chegando, abra um buraco bem fundo na terra e plante as duas sementes juntas. Feche o buraco e saia dali sem olhar para trás. Quando essas plantas brotarem, apesar de estarem juntas, serão duas e crescerão próximas, mas cada uma trilhará o seu próprio caminho, livres uma da outra.

A jovem cigana terminou de cobrir o buraco com terra, levantou-se, virou de costas e subiu no cavalo tomando o caminho que a levaria de volta ao acampamento. Ao seu lado, a cigana mais velha que a acompanhava pediu, numa prece silenciosa, que aquela jovem e bela cigana, um dia, encontrasse o amor e fosse amada.

Lorenzo

Os sons das sandálias de couro batendo nas pedras era o único ruído que se escutava naquela hora da madrugada. Frei Lorenzo, da Ordem dos Jesuítas, caminhava escondendo-se nas sombras. A Lua ia alta no céu, fazendo com que tudo parecesse misterioso e agourento. Sua roupa preta com capuz ajudava na camuflagem. Ele tinha apenas alguns minutos. Precisava apressar-se.

Chegando diante da porta pesada de madeira, bateu como combinado: dois toques rápidos, seguidos de mais um, depois de um tempo maior.

De dentro da casa uma voz perguntou: A senha.

Lorenzo respondeu:

— Amare benedictus

A porta se abriu, permitindo que o Frei entrasse. Atravessando um cômodo escuro, viu ao fundo a luz de uma vela única. Em torno de uma mesa, alguns homens estavam reunidos. Via-se que nem todos eram clérigos. Um deles dizia:

— É preciso acabar com essas perseguições. Pessoas inocentes estão sendo mortas. Exterminadas, na verdade. Não se pode olhar diretamente para alguém que já se é acusado de ter parte com o demônio.

Os religiosos presentes se benzeram, como a afastar a influência do nome que foi dito.

— Sim, disse outro. Mas como fazer isso? A Igreja apoia essa causa e, mais do que isso, incentiva as denúncias. Há um verdadeiro caos correndo pelos corredores da Santa Madre Igreja.

Lorenzo pigarreou, pedindo a palavra.

— Desculpem-me senhores, mas tenho pouco tempo. É necessário que eu volte imediatamente ao colégio antes que sintam a minha falta. Vim apenas para dizer que um homem está sendo interrogado nos porões da Inquisição. Ele necessita de auxílio. É um homem correto, cujo único erro foi levar alento aos doentes, utilizando-se de ervas medicinais, prática que aprendeu com a sua mãe, já morta. Eu mesmo o conheci. Tive uma ferida, que não cicatrizava de jeito nenhum, curada por ele. Vim pedir ajuda aos amigos para que encontremos um meio de tirá-lo de lá.

— Bem, mais uma vez teremos que recorrer a Bernardo, disse o homem cuja fala foi interrompida por Lorenzo. Somente ele tem acesso aos porões da Inquisição. Daremos um jeito, caro Lorenzo, não se preocupe e vá com Deus.

Com uma inclinação de cabeça, Lorenzo agradeceu, sem deixar de notar o traje que o seu interlocutor usava e que delatava sua origem: confeccionado em rico tecido, muito bem cortado. Em sua mão, um anel que, se vendido, alimentaria uma família inteira por um bom tempo, pensou Lorenzo enquanto saia para a noite fria, desejando que Bernardo pudesse ajudar o seu amigo. Rezaria muito para que Deus o inspirasse e o guiasse.

Escolha

A montanha era íngreme e difícil de subir. A dificuldade era ainda maior porque as ovelhas se espalhavam e ele tinha que juntá-las para que não se perdessem. Estava acostumado com essa tarefa e as ovelhas o conheciam. Dormia com elas. O seu pelo quente já o salvara de muitos e intensos invernos.

Ali naquela montanha, cuidando das ovelhas, ele via a vida passar. Era um menino ainda, mas conhecia a vida. Muito cedo perdera a mãe e o pai numa tragédia. Ambos foram queimados vivos num incêndio que alguns diziam ter sido criminoso. Os seus pais abrigavam pessoas perseguidas pela igreja, acusadas de bruxaria. Felizmente, uma família vizinha o acolhera, mas ele não se sentia parte dela. Sentia saudade dos pais e não tinha irmãos. Seus pais já eram idosos quando ele nasceu e sua mãe temia engravidar novamente. Usara o poder das ervas para impedir que isso acontecesse.

Agora ele estava ali, sozinho e saudoso de seus pais. Pedira para pastorear as ovelhas porque isso o afastava da casa e da memória dos pais, de lembranças que o faziam sofrer cada vez que ele via as cinzas da casa onde, um dia, morou com eles.

Passava o dia na montanha. Quando voltava, já era noite. Comia e ia dormir com as ovelhas. No dia seguinte, tudo se repetia como em todos os outros dias.

Quis o destino, porém, que a sua história chegasse aos ouvidos de Frei Bernardo. Certa tarde, ao voltar para sua família adotiva, observou uma carruagem parada em frente à casa. Já ia desviar-se para o curral das ovelhas quando ouviu que a sua mãe adotiva o chamava.

— Venha até aqui, menino. Alguém deseja conhecê-lo.

Curioso, ele entrou na casa e deparou-se com um homem alto, vestido de padre, sentado na cadeira da sala. Assim que entrou, o homem levantou-se, estendeu-lhe a mão e disse:

— Olá, meu caro, como vai? Meu nome é Bernardo.

O menino estendeu-lhe a mão, impressionado com a altura do homem.

— Bem, disse a mãe, vou deixá-los a sós. E saiu, fazendo uma reverência para o padre.

O menino permaneceu em pé, calado, aguardando o que o homem iria dizer.

— Se você não se sentar, eu também não me sentarei. Como sou muito alto, a nossa conversa pode doer-lhe o pescoço, disse o homem num tom de brincadeira.

O menino gostou dele e sentou-se, seguido do padre.

— Eu conheci os seus pais, foi a primeira frase que o padre disse.

O menino sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e abaixou a cabeça.

— Eu também sinto falta deles, continuou o padre. Eram pessoas generosas e tementes a Deus. Eu devo a eles muitos favores e estou aqui para convidar você a vir morar em minha casa. Você poderá estudar e ter uma vida tranquila. Terá o seu quarto e eu serei seu amigo pelo tempo que você desejar.

O menino levantou o rosto e fixou os seus olhos nos olhos daquele homem que ele não conhecia, e teve medo.

— Eu sei que tudo isso é muita novidade para você e posso esperar para que possa pensar melhor, disse o padre com voz tranquila.

O menino não disse nada e continuou a olhar o homem a sua frente. Em sua mente, passavam vários pensamentos. O que seria da sua vida ali, naquela aldeia, com aquela família? Cuidaria das ovelhas pelo resto dos seus dias? Viveria para sempre lamentando a morte dos pais? O que aquele homem lhe oferecia era algo que lhe dava medo, mas os seus pais o ensinaram a olhar para além do rosto das pessoas e aquele homem na sua frente era um homem de bem.

— Eu vou com o senhor, disse ele.

O padre não mostrou nenhuma surpresa e nem alegria. Simplesmente disse:

— Muito bem. Você fez uma escolha. Que sejamos abençoados e protegidos. Pegue as suas coisas. Para mim e para você, uma nova vida se inicia.

Em toda a aldeia, até hoje, se fala do menino que virou padre e que se tornou um homem generoso que de vez em quando visita os pais adotivos. No lugar da casa que queimou, ele plantou um jardim onde, até hoje, as flores florescem na primavera.

Távios

Távios olhou para o Cavaleiro ao seu lado e seu coração se encheu de amor por aquele homem silencioso e correto. Nunca o vira levantar a voz para outra pessoa ou maltratar alguém. Nas noites em que ficavam na taberna bebendo vinho e desfrutando da companhia feminina, ele ficava num canto, sereno, observando a tudo e a todos. Parecia que cuidava para que nenhum mal acontecesse aos companheiros.

O amor que Távios sentia por ele já fora tema de muitas conversas com a Sacerdotisa. Um dia, ela lhe dissera:

— O amor é divino. Quando amamos o nosso semelhante, colocamos Deus em nós e naquele que amamos. Por isso, meu filho, não tema o amor que você sente pelo seu companheiro. Ele é divino e a Deus não se deve temer, mas sim permitir que Ele cresça cada vez mais dentro de nós para que, um dia, possamos ser só amor e, então, voltarmos para o colo do nosso Pai e Mãe, que muito nos amam.

Ele entendera mas, mesmo assim, ficava constrangido com aquele amor que percorria todo o seu ser e fazia com que ele sentisse uma alegria inexplicável. Aquele sentimento lhe dava a absoluta certeza de que não estava só. Tinha Deus dentro dele.

Eles estavam acampados para pernoitar. Seguiriam viagem no dia seguinte. A Senhora dormia dentro da carruagem. Os outros companheiros roncavam, enrolados em suas cobertas. Ele estava de vigília e o Cavaleiro, daqui há pouco, renderia a sua guarda.

— Noite calma, não é? – disse o Cavaleiro, sentando-se ao lado de Távios.

— Sim, graças a Deus, tudo está em paz! – respondeu Távios.

Fizeram silêncio. Passados alguns segundos, o Cavaleiro deslocou o seu corpo de maneira que ficassem frente a frente e disse:

— Eu gostaria de lhe dizer algo.

Távios esperou, após concordar com um aceno de cabeça. Ele sentiu que o que aquele homem iria lhe dizer era algo muito importante. Imediatamente o seu treinamento místico o fez unir a sua energia à energia do homem à sua frente. O Cavaleiro fechou os olhos por um breve momento. Para Távios, pareceu que ele buscava algo no mais profundo do seu ser, ou talvez estivesse fazendo uma oração silenciosa. Abrindo os olhos, disse:

— Haverá um tempo em que pela tua mão hei de conhecer a verdade. Tenho o privilégio de sentir o amor que colocas em mim. E porque sei que o amor nunca acaba é que te escolho como meu guia num outro tempo e num outro lugar. Que eu seja digno de te reconhecer. Rogo a Allah, o Único e Verdadeiro Deus, que conceda luz aos meus olhos.

Tendo dito isso, curvou-se diante de Távios que permanecia silencioso, com a cabeça curvada e a mente aberta para permitir que os seus sentidos mais profundos aflorassem.

Alguns segundos se passaram até que o Cavaleiro levantou sua cabeça, seguido de Távios cuja emoção marejara seus olhos de lágrimas. Com voz firme, ele olhou nos olhos do Cavaleiro e disse:

— Muito me honra a sua escolha e espero do fundo do meu coração ser digno dela. Que o Deus todo poderoso também conceda aos meus olhos a luz, para que eu possa, sempre, enxergar o caminho por onde um dia te guiarei.

Num gesto muito conhecido entre os Cavaleiros, eles uniram as mãos e juntos disseram:

— Que assim seja! Um por todos e todos por um!

Ambos olharam para o alto. Bem acima de suas cabeças, a lua havia se posicionado clara e redonda, como a abençoar o compromisso que naquela noite foi assumido.

Pablo

Todo o seu corpo estava tenso. Daqui a pouco seria o centro das atenções e sentia-se mal com isso. Não gostava de ser notado. Acostumara-se a caminhar entre as pessoas com simplicidade e, agora, ele teria que atravessar por um caminho que o levaria diante do seu líder, sendo olhado por todos. Esse pensamento causava nele um desconforto muito grande. Elvira percebeu que algo não ia bem e perguntou:

— O que você tem meu irmão? Alguma dúvida tomou conta de seu coração?

— Dúvida nenhuma, minha irmã. O que me deixa assim preocupado é ter que me expor diante de toda a tribo. Não gosto da ideia de todos me olhando. Sinto-me mal com isso – respondeu ele.

Elvira conhecia o seu irmão. Sabia que ele amava Naruia do fundo do seu coração. Os três dias de recolhimento foram o suficiente para que ele tivesse a certeza de que foram feitos um para o outro. Essa timidez poderia tirar-lhe a alegria de ver toda a tribo abençoando essa união.

Então, ela fechou os olhos e pediu aos seus Mentores que lhe indicassem o que deveria dizer para aliviar o peso que se abatera sobre o seu irmão.

Uma recordação aflorou na sua mente: certa vez, quando criança, ela caíra e se machucara, afastando-se das outras crianças para que não a vissem chorar. Sua mãe, preocupada, chamava por ela em meio as árvores altas e a densa folhagem. Por fim, escutou o seu choro e foi até ela. Colocou-a sentada em seu colo e a embalou como quando ela era um bebê. Isso fez com que ela acalmasse. Quando ela parou de chorar, sua mãe lhe disse:

— Minha querida, quando algo de ruim nos acontece, podemos fazer duas coisas: correr e nos afastar de todos ou pedir ajuda. Você escolheu a maneira mais difícil. Eu precisei procurar por você. Se não a tivesse encontrado, você ficaria aqui sozinha, triste e com o seu machucado doendo, sem ninguém para consolá-la. Penso que, da próxima vez que algo ruim acontecer a você, deve pedir ajuda. As pessoas que a amam vão sentir um imenso prazer em ajudá-la.

Aquele havia sido um conselho muito precioso que ela seguia sempre quando estava diante de uma situação difícil em sua vida. Nunca mais ela deixou de pedir ajuda. Sua mãe estava certa, porque as pessoas nunca lhe haviam negado socorro.

Ela sabia o que devia dizer ao seu irmão. Virou-se para ele e disse:

— Meu querido irmão. Amo você e por isso devo dizer-lhe algo. Não impeça as pessoas que amam você de brindarem a sua alegria. Não tire delas o prazer de vê-lo realizar o seu maior sonho: unir-se a alguém que, juntamente com você, seguirá pela vida dando-lhe apoio e amor. Esse é um momento muito importante para toda a tribo. Através da sua energia, as pessoas poderão acreditar que um dia também encontrarão alguém para amar e que serão amadas. Não tire delas essa esperança. Sorria e acene, mostrando o quanto você está feliz. Isso os ajudará a acreditar na felicidade, auxiliando-os, energeticamente, a realizar também esse sonho.

Pablo olhou para a sua irmã e sentiu vergonha do seu egoísmo. Abraçou-a emocionado e grato. Agora sim, ele estava pronto para receber a sua amada e unir-se a ela para sempre.

Casamento

A felicidade que ela sente transpira pelos seus poros. O sorriso largo emoldura o seu rosto de pele clara, olhos grandes e castanhos. Ela está feliz, muito feliz. Vai se casar com o homem que ama. Desde sempre o amou e sempre o amará. Seu vestido azul claro com detalhes em dourado mostra o que ela quer dizer para ele: que ele era o seu céu, o lugar onde ela queria estar.

— Está na hora, disse a sua mãe, com voz emocionada. O seu pai está esperando por você.

Ela havia ficado recolhida por três dias. Tinham cuidado dela. Banhado o seu corpo com ervas especiais. Haviam feito com que ela encontrasse a certeza dentro do seu coração para realizar essa união. Para isso, ela mergulhara em outras vidas para encontrá-lo. E ele estava lá. Sempre ao seu lado. Como amigo, irmão, pai e companheiro. Sempre presente em sua vida.

A certeza viera como a força de um caudaloso rio cujas comportas são abertas para depois sair correndo, realizando a sua trajetória sem barreiras. Era assim que ela se sentia: cumprindo o seu destino e seguindo o seu curso sem que nada a impedisse.

Daqui a pouco o veria. Seriam saudados por toda a tribo, felizes com essa união. Cada vez que duas almas se uniam, era preciso comemorar. Era uma benção ter alguém em quem se pudesse confiar, caminhando conosco.

O vinho já estava preparado e a grande fogueira pronta para ser acesa. A carne assava no espeto e o pão saia do forno de barro pelas mãos das mulheres.

Todos estavam alegres e belamente vestidos. Nessas ocasiões, colocava-se a melhor roupa e as mulheres, as suas joias mais preciosas. Todos ficavam lindos em seus trajes ricos e coloridos.

O líder dos ciganos estava a postos. Em breve realizaria esse casamento tão esperado. Faria a ligação espiritual dos noivos que assim a desejavam por livre e espontânea vontade. A Lua Cheia era propicia. Quando ela estivesse acima do acampamento, a cerimônia seria realizada. Tirê olhou para o céu e viu que a hora era chegada. Com um gesto, determinou que os noivos fossem trazidos à sua frente.

Com música e gritos de vivas os noivos atravessaram o caminho que os levou diante dele. Tirê olhou-os com amor e perguntou:

— Vocês foram instruídos acerca daquilo que estão prestes a realizar?

— Sim, responderam ao mesmo tempo e olharam um para o outro sorrindo.

— E é de livre e espontânea vontade que o fazeis?

— Sim, responderam novamente em coro.

— Pois bem, pela autoridade que me é concedida através de todas as minhas encarnações, eu digo que o que aqui foi unido, jamais seja separado.

Dizendo essas palavras, envolveu as mãos de ambos em uma fita vermelha.

— Que essa união seja mantida em nome do amor, da amizade e da lealdade. Que assim seja! – disse Tirê, finalizando a cerimônia simples, mas cheia de força.

Quando olharam para o céu, a Lua estava exatamente acima de suas cabeças. Os dois fecharam os olhos e, cada um, individualmente, fez uma prece silenciosa para que a força divina protegesse e guiasse os seus passos para sempre.

Intolerância

A neve cobria as montanhas e a estrada por onde a carruagem tentava prosseguir viagem. Olhando-se a paisagem, o que se via era um imenso espaço branco com elevações. Não havia árvores e os animais estavam em tocas, aguardando que o mau tempo passasse.

Dentro da carruagem, as duas mulheres se esquentavam como podiam. Já tinham vendado todos os orifícios por onde o vento pudesse passar e a garrafa de conhaque já estava pela metade.

O cocheiro seguia viagem, sabe-se lá com que disposição. A lanterna balançando ao lado de onde ele se sentava iluminava parcialmente o caminho que ainda tinha um resto de luz natural, resultado do reflexo do sol na paisagem branca. Em breve seria noite e se não chegassem à aldeia teriam que acampar ali mesmo, usando a carruagem como escudo, estendendo sobre ela um grosso tecido. O cocheiro dormiria embaixo, enrolado em peles. Elas se ajeitariam como pudessem dentro da carruagem.

— Será uma noite infernal! – disse Sarah para a amiga.

— Sim, – respondeu a outra – mas, quem sabe, chegaremos ainda hoje à aldeia. Não se preocupe. Tudo vai ficar bem.

Sim, ela sabia que agora tudo ficaria bem. Escapara do marido. Isso já tinha sido um grande feito. Não seria uma noite dormida ao relento debaixo da neve que a assustaria. A sensação de liberdade que sentia valia qualquer preço e ela pagaria com prazer. Há muito tinha arquitetado o plano. O marido saia todos os dias para trabalhar e a trancava em casa. Dizia que uma mulher casada devia ficar dentro de casa e jamais mostrar-se na rua sem o seu marido. Havia contratado uma criada a quem pagava uma fortuna para que lhe fosse fiel. Mas ela descobrira que a criada tinha um filho e desejava muito que o menino estudasse e fosse alguém na vida. Assim, prometera-lhe algumas joias como recompensa, se ela levasse uma carta para a sua amiga Sarah.

A resposta veio logo. Sim claro que ela a ajudaria a fugir. Mas para onde iriam? E como viveriam?

— Não se preocupe minha amiga, ela respondeu por nova carta à amiga. Meu marido é um carrasco e meu carcereiro, mas adora ver-me enfeitada de joias para mostrar-me aos amigos quando saímos. Levarei todas comigo. Elas me pertencem.

E assim fizeram. Naquela manhã, ela tomou o desjejum como de costume com seu marido. Assim que o viu virar a esquina, chamou a criada estendendo-lhe uma caixa que continha um valor em joias o suficiente para que ela vivesse bem o resto de seus dias e para que seu filho fosse para a faculdade.

Graças a Deus, herdara as joias de sua mãe que mal usara desde o seu falecimento, visto que nunca saia de casa, e quando saia era seu marido quem escolhia as joias que ela usaria. Vaidoso, ele sempre escolhia as que havia lhe dado. Tinha-se em alta conta no gosto por joias.

A empregada pegou a caixa, suas coisas, abriu a porta e não a trancou por fora. Se o patrão lhe cobrasse pelo erro, diria que o filho estava doente e que ela estava muito abalada, o que a fez esquecer-se de trancar a porta.

Tudo pronto, ela vestiu-se sobriamente colocando um chapéu que cobria parcialmente o seu rosto. Não podia ser reconhecida. Afastou-se o mais que pode da casa, misturando-se às pessoas que passavam. Quando chegou ao café, sentou-se e pediu uma xícara de chá enquanto esperava a amiga, que não tardou.

Juntas pegaram a carruagem que as levaria a dez dias de viagem de onde estavam. Lá começariam vida nova. Sarah sabia costurar e ela ajudaria no que fosse preciso. Com o tempo, poderiam abrir uma escola de costura para meninas e seriam felizes.

O cocheiro anunciou que avistara luzes distantes. Alegres, as duas comemoraram com mais um gole de conhaque.

Ao chegarem, foram direto para uma pequena construção onde se via uma placa indicando que ali havia pousada. Estavam famintas e geladas. Ao entrarem, encontraram um prato de sopa e uma boa cama.

Com o tempo, se estabeleceram e ela já quase não se lembrava do marido. Os negócios prosperavam e ela não tinha nada do que reclamar.

Certo dia, ao final do expediente, enquanto se despedia de suas alunas, a criada entrou anunciando que um homem desejava vê-la.

Ela estranhou. Não conhecia nenhum homem que pudesse vir visitá-la em sua casa, ainda mais àquela hora tão próxima do jantar. Quem seria?

— Mande que ele espere um momento. Irei recebê-lo no escritório.

Recompôs suas vestes, ajeitou o cabelo e desceu. Quando entrou no escritório, o homem estava de costas para a porta.

— Boa tarde, senhor. Em que posso ajudá-lo?

A última coisa que ouviu foi um estrondo, seguido de uma forte queimação no estômago. O primeiro tiro acertou o seu estômago e o segundo foi direto ao seu coração.

Com um sorriso, o homem guardou a arma. Um pensamento passou pela sua cabeça ao olhar pela última vez aquela que um dia fora a sua esposa.

— Adeus, minha querida. Não se pode mudar aquilo que é imutável.

Passou pela empregada que vinha da cozinha, gritando pela sua ama. Abriu a porta e saiu para a rua, misturando-se à multidão.

A família

Naquelas terras ecoava a profecia da vinda de um messias. Um príncipe salvador que assumiria o reino de seu pai. Isto deixava os políticos preocupados, pois não sabiam como seria esse príncipe poderoso que viria ameaçar o cargo que ocupavam. Herodes, que governava sob os auspícios de Roma, foi avisado por um de seus aliados que corria o boato de que um sinal aparecera no céu, indicando que nascera o salvador. Preocupado, ordenou que procurassem o recém-nascido e dessem cabo da sua vida. Para não haver falhas, ordenou que todos os meninos nascidos naquele período fossem sacrificados.

Maria foi acometida de uma estranha febre e estava deitada em sua cama quando José, acompanhado de Gabriel, entrou. José fora chamá-lo para cuidar de sua mulher em virtude de seus conhecimentos na arte de curar, visto que esgotara todos os seus esforços na tentativa de combater aquela estranha febre.

Enquanto Gabriel analisava o estado de Maria, José contava a ela sobre os comentários a respeito de uma estrela brilhante que fora vista no céu. Repentinamente, da mesmo forma que veio, a febre desapareceu. Maria, sentando-se na cama, disse:

— Gabriel, és um anjo!

Momentos depois, tomavam um chá de jasmim quando chegou um mensageiro da jovem Ester pedindo a Maria e José que fossem a sua casa. Quando o casal lá chegou, o menino havia nascido fazia três dias. Ester, que havia escondido o fato de estar grávida, não sabia o que fazer e por isso, neste momento, pedia ajuda a Maria em quem confiava. Conhecia-a há bastante tempo, desde que se oferecera para o serviço de criada na sua casa.

Maria olhou para os olhos claros do menino e aconchegou-o ao peito num gesto de proteção. A mulher, em prantos, lhes pediu que levassem a criança para longe dali, pois, se ficasse, além de comprometê-la, seria sacrificada pelas ordens de Herodes.

Combinaram, então, que José, Maria e o bebê ficariam escondidos fora da cidade numa gruta conhecida a espera dos três criados de Ester: Baltazar, Belchior e Gaspar, que iriam levar-lhes dinheiro e suprimentos para que pudessem seguir viagem.

Maria, sem pensar um segundo sequer e sem questionar para onde seguiriam, enrolou a criança e a escondeu sob seu manto, saindo com José. Conseguia apenas sentir as batidas daquele coraçãozinho junto ao corpo, num diálogo com o seu próprio coração.

Coragem

Sorrateiramente, ele se esgueira pelas ruas em direção à torre, protegido pela escuridão. A noite escura o protegia, mas era preciso ter cuidado. Devia atingir a porta da torre antes que o vissem. Já havia atravessado a ponte durante o dia misturando-se à multidão. Aguardara até o anoitecer, procurando não chamar a atenção. O plano tinha que dar certo ou estariam todos perdidos.

Um dos guardas já havia sido comprado. A porta da torre ficaria aberta. Ele só precisaria empurrá-la e entrar. Lá dentro teria outro problema para enfrentar. Precisaria atravessar por entre a guarda montada na sala ao lado da cela. Ele só precisaria de alguns segundos. Tempo suficiente para que entregasse a poção que deixaria a prisioneira aparentemente morta.

Até ali foi fácil. Entrara na torre sem problemas. De onde estava, escutava as vozes dos soldados. Eram três e estavam bebendo e jogando. Esperaria até que pegassem no sono. Ele sabia andar como uma pluma. Depois que os soldados dormissem, passaria por eles sem ser notado. Enquanto esperava, deixou que a sua mente mergulhasse nas lembranças.

Ela era uma menina linda. Conheciam-se desde criança. Ele a amava como um irmão. Ele era filho de um casal que servia no castelo onde ela era a filha do rei. Vira-a crescer e se tornar uma linda mulher. Ele se casara primeiro do que ela e já tinha uma filha que ainda era um bebê. Quando o rei morreu, os nobres assumiram o poder, obrigando a princesa a se casar com um deles. Ela se recusara e agora estava presa na torre, aguardando julgamento pelo crime de assassinato. A sua mãe fora morta por eles que, agora, a acusavam de tê-la matado, para usurpar-lhe o trono.

Assim que o rei morreu, toda a criadagem foi substituída. Os seus pais agora viviam afastados do castelo em uma pequena propriedade que conseguiram comprar com as suas economias. Conversou com o seu pai e juntos arquitetaram o plano. O seu pai conhecia as ervas.

Subitamente, percebeu que os soldados estavam silenciosos há algum tempo. Lentamente subiu as escadas e viu que dormiam. Passou entre eles alcançando a porta da cela. Pela pequena janela, ele viu uma luz de vela acesa. Ela estava ajoelhada e rezava.

Eles tinham um som de comunicação quando queriam se olhar sem que ninguém percebesse. Era um código da sua infância. Ele estalou baixinho a sua língua, fazendo com que ela se virasse para onde ele estava. Ela fez menção de gritar com o susto, mas conteve-se ao ver que ele fazia um sinal de silêncio para ela, levando o dedo indicador aos lábios.

Ela se aproximou da porta. Ele lhe estendeu o vidro com a poção fazendo sinal para que ela bebesse o seu conteúdo quando os primeiros raios de sol surgissem no céu. Ela concordou com a cabeça. Ele tocou em seus dedos pela fresta da pequena janela, olhando para ela com todo o amor que sentia em seu coração e saiu.

No dia seguinte, a notícia se espalhou. A princesa morrera em sua cela. Diziam que fora obrigada a beber veneno. Um vidro fora encontrado ao lado de seu corpo. Os soldados responsáveis pela sua guarda seriam punidos com a pena de morte.

“Que Deus os tenha”, pensou ele. “Sinto que paguem por um erro que não cometeram, mas eu não poderia deixar que a matassem.”
O enterro foi simples. Os nobres não queriam chamar a atenção para o acontecido. Ofereceram ao povo diversão e comida de graça, e isso fez com que a desgraça que se abatera sobre a princesa fosse esquecida.

Acompanhado de seu pai, ele entrou no mausoléu e retirou-a de lá. Quando ela acordou, estava na casa dele em segurança. Viajaram juntos para outras terras onde ninguém a conhecia e onde ela pode casar-se, ter filhos e ser feliz. A sua história ficou guardada por aqueles que participaram dela. Quando ele precisava de um alento qualquer, lembrava-se do quanto tinha sido capaz de amar e do que tinha feito. Era daí que ele buscava coragem para seguir em frente.

O marinheiro

Ele adorava o mar. Olhar para aquela imensidão de água que parecia não ter fim lhe dava uma deliciosa sensação de liberdade. Sentir isso era algo vital para ele e por isso voltava sempre que podia para o mar aberto.

Ele era pescador como o seu pai e como fora também o seu avô, mas ele queria mais. Sabia navegar e desejava ir além. Então, foi embora da sua aldeia e agora estava ali, pronto para zarpar numa viagem sem destino em busca de uma terra desconhecida. Enfrentaria o mar aberto, arriscando-se a não retornar. Ele sabia dos riscos, mas assumira todos.

Em algum lugar ele haveria de chegar. Se não chegasse, a morte o levaria de qualquer maneira para algum lugar igualmente desconhecido. Ele não temia a morte. Um homem que gosta do mar não pode temer a morte. Ela está ao lado dele, sempre. O mar e a morte são companheiros inseparáveis, e ele convivera com os dois durante quase toda a sua vida.

 

Sua família estava acostumada com isso e não colocara empecilhos. A mãe o abençoara, presenteando-o com um enxoval feito por ela mesma: duas camisas, dois pares de calças e duas meias. Para o frio e o vento do alto mar, ela tecera um casaco forrado de lã e por fora cobriu-o com um couro curtido de animal.

O capitão já estava dentro do barco e o sinal para içar as âncoras seria dado em breve. Do porto, as pessoas acenavam para os marinheiros, abençoando a sua viagem. Foi então que ele a viu. Parecia um anjo. Os cabelos compridos escuros e anelados emolduravam o seu rosto delicado.

Ele ficou observando para ver de quem ela teria vindo se despedir. E percebeu que ela fazia companhia à outra moça que, ao seu lado, abanava um lencinho branco que de vez em quando ela usava para enxugar uma lágrima que caia dos seus olhos.

“Então ela não veio se despedir de ninguém”, pensou ele com um sentimento de felicidade no peito. A sua vontade era de descer do barco e ir falar com ela.

“Mas que loucura, homem”, disse a si mesmo, não acreditando no que estava sentindo.

E foi então que ela abanou o lenço para ele, sorrindo.

“Santo Deus, como ela é linda”, disse em voz alta, retribuindo o aceno com a mão.

Os dois ficaram assim, acenando um para o outro, até que o navio de afastou do porto em direção ao mar alto.

Durante as tempestades, a fome, a sede e a febre alta, aquela imagem foi a única coisa que lhe trouxe algum alento.

Quando retornou após longos meses, iniciou uma busca pela jovem que vira no porto, mas sem sucesso. Ela parecia nunca ter existido. Quando já havia perdido a esperança de encontrá-la, inesperadamente ele a viu, entrando numa loja de tecidos. Com o coração pulando no peito, ele correu para lá. Ao entrar, reparou que ela estava sozinha nos fundos da loja, tocando os tecidos.

Ele se aproximou com calma e quando estava a uma distância que poderia falar-lhe em voz baixa, disse:

– Senhora.

Ela se virou e, ao vê-lo, sorriu.

Ele respirou, aliviado. Ela o havia reconhecido.

O mago

O mago girava o seu corpo, invocando a força do vento. Sua capa de um tom azul violeta esvoaçava com o movimento, criando uma sombra mágica nas árvores da clareira, iluminada pela luz da lua.

Para ele, era muito agradável sentir-se possuidor do dom de manipular os elementos. O vento era o seu preferido. Quando o chamava, era para ganhar asas que o levavam para os altos montes onde a terra era gelada. Ele voava e alcançava alturas inimagináveis para os homens. Lá do alto, ele avistava até onde a vista não podia alcançar.  Como era maravilhosa essa sensação de liberdade.

De repente, sentiu que o seu guardião o avisava de que havia perigo eminente, fazendo-o retornar ao ponto de partida.

A velocidade com que voltou o deixou tonto. Quando o alerta do guardião soava, era preciso prontidão de resposta. Ele já ouvira histórias de magos que ficaram presos no véu entre os mundos por não ter obedecido ao sinal de perigo do seu guardião. Ele não seria um deles. Ainda tinha muito que fazer.

Retornando à clareira, camuflou-se no tronco de uma árvore, permanecendo invisível aos olhos humanos. Essa foi a primeira magia que ele aprendera. Ela era muito útil naqueles tempos de perseguições e armadilhas.

Dois homens se aproximaram. Um deles disse:

— Não há nada aqui. O alerta foi falso. Vamos embora.

O outro, mais desconfiado, retrucou:

— Espere um pouco. Se o homem é um bruxo, pode ser que ele esteja aqui e não o estejamos vendo.

— Ora, deixe de tolices, homem! – respondeu o companheiro. Isso são histórias desse povo ignorante da floresta. Onde já se viu um homem ficar invisível?! Essa é muito boa. – concluiu com uma gargalhada.

O outro não se deixou convencer e forçou a vista procurando em volta. Do seu esconderijo, o mago pensou:

— Está ai alguém que eu faria meu aprendiz. É teimoso e sensível. Ele sente que algo está fora do seu lugar, mas não sabe o que é.

De repente, sentiu desejo de provocá-lo para ver o que ele faria. Não poderia proferir palavras de invocação, mas poderia firmar o seu pensamento para que algo se mexesse. Fixou, então, o olhar em uma folhagem próxima ao homem, fazendo com que as folhas se mexessem. Imediatamente, os dois homens deram um pulo para trás e olharam-se incrédulos.

— O que é isso? – perguntou o descrente. Não há vento, mas essa folhagem se mexeu. Vamos embora daqui. E saiu em disparada.

O outro ficou ali, com muito medo, mas curioso ao mesmo tempo. Então, ele falou em voz alta olhando para todos os lados em torno da clareira:

— Seja quem for que estiver aí, apareça. Não tenho medo de você com seus truques para assustar crianças. Venha, mostre-se.

O mago sentiu a indignação crescer dentro dele, e ficou tentado mostrar-se. Mas o que seria depois? Como explicar a um pobre homem o que ele havia feito? Então, engoliu a ofensa e silenciou.

O homem ficou ainda um tempo ali chamando por algo que ele não sabia o que era, mas sentia que estava lá. Finalmente, cansado de chamar, saiu praguejando.

O mago saiu do seu esconderijo desejando ir para o mundo além da névoa onde não havia perigos tão concretos. Um pensamento veio na sua mente: “Como é solitário um mago no mundo dos humanos. Preciso estar mais com os meus iguais”, concluiu com um suspiro.

Em seguida, envolveu-se na capa e pegou a direção que o levaria de volta ao castelo.

Liria e Gustav

Seu coração parecia que ia saltar do peito. A serva estranhou que ela mesma quisesse levar os sapatos para o conserto, mas Liria não podia perder a oportunidade de vê-lo nem que fosse por um momento, a sós.

Caminhava a passos largos querendo chegar logo na oficina de Gustav, um homem forte e reservado, com um lindo sorriso que encantara Liria desde a primeira vez que o vira. Foi na festa das flores que ela o vira sorrir. Gustav sempre se mostrava um homem calado e tímido, conversando apenas com os homens solteiros que se mantinham em rodas fechadas e reservadas. Mas agora ela teria a oportunidade de vê-lo a sós. Talvez ele não gostasse dela, mas ela precisava saber.

Fazia uma linda tarde de sol. A sua capa e o vestido comprido cheio de anáguas atrapalhavam o seu caminhar. Acalorada, desejou muito poder usar calças como os homens. Eles pareciam poder caminhar tão mais livremente…

Finalmente chegou. Ao pé da escada que dava acesso à oficina de Gustav, ela respirou tentando se acalmar. Limpou o suor do rosto e desacelerou os batimentos do coração. Prestou atenção ao ouvir um martelar que vinha de dentro da oficina.

“Meu Deus, ele está lá dentro”, pensou. E seu coração começou a acelerar novamente.

Acalmou-se uma vez mais, iniciando a subida da escada íngreme de poucos degraus.

Ao se aproximar da porta que estava aberta ela chamou:

— Senhor, pode me atender?

Gustav, ao ouvir tão doce voz feminina, imediatamente se levantou esfregando as mãos cheias de graxa no avental. Limpou o suor do rosto, verificou como estava seu cheiro enquanto gritava:

— Um momento, por favor.

Deu uma rápida olhada em volta e praguejou ao ver a desordem do lugar. Em voz baixa, falou:

— Está mesmo na hora de arrumar uma mulher. Em seguida, disse em voz alta:

— Por favor, Senhora, entre. A porta está aberta.

Quando Liria apareceu no batente da porta foi como se o sol tivesse entrado no aposento. Seus cabelos loiros cacheados e seus profundos olhos azuis pareciam clarear o ambiente. Sim, ele já havia notado aquela moça várias vezes, mas jamais se permitiria falar com o pai dela para propor qualquer coisa. Ela era bonita demais e delicada demais para ele, com aquelas mãos cheias de calos e manchas de graxa.

Bem, mas ela estava ali e que estranho, pensou, porque não mandara a sua serva, como sempre? Estaria doente a pobre mulher?

— Bem-vinda, minha senhora, em que lhe posso ser útil?

— Bem, eu lhe trouxe alguns pares de sapatos para serem consertados, disse Liria, corando.

— Senhora, perdoe-me a indelicadeza, mas a sua serva está bem?

Liria corou mais intensamente, abaixou os olhos e disse:

— Sim, ela está bem, senhor. Grata por perguntar. Eu mesma trouxe os sapatos porque Berta tinha muitos afazeres e, já que eu vinha mesmo para esses lados, resolvi dar-lhe uma ajuda, respondeu Liria tentando manter a voz firme e o olhar altivo. Uma mulher nunca deve transparecer seu interesse por um homem. Isso seria indecente.

O coração de Gustav saltou no peito. Pensou: “Quer essa maravilhosa senhora estar por alguns instantes ao meu lado? Não. Seria um verdadeiro milagre que entre tantos pretendentes ela me quisesse.” Bem, ele teria que verificar isso. Falaria com o pai dela, próspero comerciante de sacarias e conhecido por toda a aldeia como um homem bondoso e gentil. Ele não o trataria mal.

— Bem, senhora, quanta generosidade a sua. Sua serva deve dar graças ao Senhor por tê-la como ama. Deseja um copo de água ou alguma outra bebida? – perguntou já calmo e com um sentimento de alegria no coração.

— Muito grata, senhor, mas tenho que ir. Deixo os sapatos que provavelmente serão pegos por Berta quando estiverem prontos – disse Liria.

Os dois se olharam para as despedidas e, por um segundo, seus olhos se encontraram e assim permaneceram, hipnotizados pelo instante único de resgate de tantas outras vidas vividas juntos e de tantas parcerias e lutas pelos tempos que vão e vem.

Eles já se conheciam e esse amor era muito, muito antigo. Naquele momento, suas almas se encontraram e ambos sabiam que ficariam juntos para sempre.

E assim foi. Três dias se passaram. Tempo que para Liria pareceu uma eternidade. Até que no terceiro dia ele bateu na sua porta, vestido com um terno sério de domingo. Liria o viu do alto da janela de seu quarto e correu para contar a sua mãe, sua confidente e amiga, que logo correu a chamar o pai no balcão da loja.

— Max…Max… venha atender a um visitante.

— Sim…sim…estou indo. Mas que aflição mulher!

Max abriu a porta, dizendo:

— Boa tarde, senhor, queira entrar.

Gustav entrou na casa e sentou-se na cadeira que lhe apontara o velho Max.

— Obrigado por me receber, senhor Max. E, pigarreando, continuou: Bem, o assunto que me traz aqui, sei que é uma ousadia de minha parte, mas preciso respeitar o meu coração e me sinto pronto a fazê-lo. Não sou um homem que possui riquezas acumuladas, mas tenho meu próprio negócio que floresce a cada dia, uma casa levantada por minhas próprias mãos e honestidade de propósitos.

O velho Max observava o homem, lembrando-se dele mesmo. Essa lembrança o fez sentir certa ternura pelo rapaz à sua frente.

— Hum…sei…sei… – disse o velho Max.

Em seguida, Gustav completou:

— Bem, senhor Max, o que me traz aqui é a imensa vontade que tenho em tornar a sua filha, a senhora Liria, minha esposa.

O velho Max pigarreou. Rapidamente, avaliou que ali estava um bom homem para a sua Liria. Então, que ela desse a última palavra.

— Senhor Gustav, muito nos honra esse seu desejo. Sabemos o quanto o senhor é trabalhador e respeitoso. Sempre discreto e cumpridor de seus deveres, mas tenho que saber o que pensa minha filha sobre tudo isso. Em seguida, chamou em voz alta:

— Marta.

— Sim, meu querido? – respondeu a mulher que prontamente apareceu, cumprimentando Gustav que já havia se levantado assim que ela entrou.

— Chame Liria, por favor, minha querida

— Sim, agora mesmo. Com licença senhor Gustav.

Quando Liria entrou na sala, seus olhares se cruzaram e ele sabia que ficariam juntos.

Pai e filha saíram da sala para conversar e, quando voltaram, o compromisso foi selado.

Casaram-se um ano depois. Amaram-se ardente e profundamente. Tiveram três filhos e doze netos. Ficaram juntos até a velhice, sempre carinhosos um com o outro.

O amor e a dedicação um ao outro eram motivo de histórias por toda a aldeia. Sempre que se sentavam na varanda da casa para ver o sol se pôr, ficavam de mãos dadas.

Envelheceram juntos tendo ao seu redor os filhos e os netos a quem, sempre que podiam, contavam a sua história.

Quem se foi primeiro? Conta a lenda que se deitaram para dormir e, no dia seguinte, não mais acordaram.

Tchachaluanam

O sol já ameaçava abaixar por detrás da montanha. Tchachaluanam correu ao poço para apanhar água antes que escurecesse. Como sempre, levava a faixa em torno do seu rosto. Se os guerreiros do Sacerdote a vissem pensariam que ela era defeituosa e não se interessariam por ela.

O calor era imenso e naquela hora da tarde não haveria mais guerreiros andando pela aldeia. Com esse pensamento, Tchachaluanam retirou o pano do rosto para refrescar-se com a água que acabara de retirar do poço. Prazerosamente, levantou o rosto para o céu, recebendo nele os últimos raios de sol. De olhos fechados, não viu o guerreiro que se aproximava. Somente o percebeu quando sentiu um forte aperto em seu braço, tirando-a da contemplação em que estava.

— Mas vejam só se não é um belo exemplar que temos aqui, disse o guerreiro. O meu senhor ficará muito satisfeito.

Tchachaluanam sentiu um pavor que fez arrepiar todo o seu corpo. Não havia escapatória. Sua sentença de morte acabara de ser dita.

Arrastada pelo guerreiro, teve tempo de deixar cair o pano que levava enrolado no rosto para que seus pais soubessem o que havia acontecido a ela.

Diante do sacerdote, ela foi forçada a ajoelhar-se enquanto ele a examinava atentamente.

— Muito bela, minha jovem. Considere uma honra ser oferecida em sacrifício aos deuses. Poucas são as que alcançam tamanha honra, disse o sacerdote cuja aparência causava medo no mais valente guerreiro. Seus olhos eram frios e sem brilho. Seu rosto lembrava o de um animal feroz e seus gestos pareciam dizer que ele poderia atacar a qualquer momento.

Tchachaluanam tremia sem conseguir se conter. Isso parecia animar ainda mais o sacerdote.

— Não tema, minha querida. Ainda hoje você estará na mesa juntamente com os deuses. Levem-na e preparem tudo, finalizou o sacerdote com um gesto de braço.

Banharam o seu corpo com óleos aromáticos que a deixaram tonta. Vestiram nela uma túnica branca tecida com finos fios que garantiam leveza ao tecido. Após o banho, ela parecia que delirava. Os aromas dos óleos fizeram com que ela ficasse com o corpo entorpecido e já não era mais senhora de sua vontade. Sentia uma enorme vontade de dormir. Uma das servas lhe trouxe uma bebida espessa e escura, retirada de uma planta sagrada, que era ingerida em ocasiões muito especiais por aqueles que haviam agradado aos deuses.  Ela bebeu ajudada pelas servas.

Por um momento acordou e sentiu frio. Estava deitada numa pedra fria. Gemeu baixo e seu olhar encontrou o rosto acima do seu. Era o de um animal horrível, que tinha braços os quais levantava para o alto, enquanto soltava sons que pareciam vir dos lugares mais profundos onde não há luz e nem vida. Tentou gritar, mas a sua boca estava anestesiada. Sentiu apenas uma dor muito forte na garganta e, lentamente, foi perdendo os sentidos.

Acordou sentindo-se renovada. Ao abrir os olhos encontrou os de sua avó querida. Soube, então, que havia atravessado o véu que separa os mundos.

Moaçabe

Com a lança na mão, ele bate os pés na cadência dos tambores; gira o corpo em sentido horário, juntamente com os outros guerreiros. A batalha já vai começar. Quem vencer ganha o privilégio de ser o primeiro a escolher as mulheres que estão prontas para o casamento e a procriação.

Ter filhos e uma esposa era essencial para um guerreiro. Sem isso a sua vida não fazia sentido. Ele não teria razão para lutar. Um guerreiro precisava ter por quem lutar e um lar para retornar após a luta ou mesmo um motivo para manter-se vivo quando todas as esperanças já não existissem.

Moaçabe tinha a sua preferida. Uma jovem forte e muito bela. Outros também a queriam e ele precisava ser o mais forte de todos para conquistar o privilégio de possuí-la.

As mulheres sentiam-se como rainhas. Os homens lutavam por elas. Elas também tinham o seu preferido e mostravam isso, entregando-lhes secretamente um adorno que eles colocavam na lança juntamente com os outros enfeites para que ninguém percebesse. Moaçabe não havia ganho um adorno da sua eleita, mas isso não tirava dele a vontade de vencer. Pois bem, ela não o queria, mas ele lutaria assim mesmo por ela e se ele a ganhasse, ela teria que aceitá-lo.

Ao sinal do líder da tribo, os guerreiros se juntaram e a luta corpo a corpo começou. Durante longos e intermináveis minutos, os guerreiros se enfrentaram, até que um a um foram caindo exaustos e sendo eliminados da competição.

Moaçabe resistia. Sua boca sangrava e já havia perdido um dente. Os joelhos estavam esfolados e os braços doíam no esforço de conter o inimigo. Faltavam poucos agora, pensou, chamando com o seu pensamento a grande força para que viesse em seu auxílio.

Tomado por essa força nascida da certeza na vitória, Moaçabe foi eliminando seus opositores até que o líder da tribo deu a ele a vitória.

Seu olhar encontrou o de sua escolhida, Janecira, que sustentou esse olhar com frieza.

A um comando do líder, Moaçabe saiu da arena do combate e seguiu para dentro da mata sendo acompanhado por Janecira que seguia atrás dele cerca de dois passos. A ela competia, agora, cuidar de suas feridas e servi-lo.

Quando chegaram à beira do rio, ela fez uma cama de folhas na qual ele se deitou exausto. Com uma cuia, Janecira recolheu a água do rio e, com suas mãos, umedeceu o rosto de Moaçabe, limpando-o do sangue e poeira. Em seguida, mascou uma erva e colocou-a sobre os ferimentos. Fez tudo isso com gentileza, mas sem paixão. Ela não o amava, ele sabia disso, mas acreditava que o tempo faria com que ela o desejasse e, se isso não acontecesse, estava feito. Ele vencera a luta e a ela cabia resignar-se.

Montaram a sua cabana auxiliados pela tribo toda e, com o passar do tempo, cumpriam as suas obrigações sem muita conversa ou expressão de afeto. Os filhos vieram e Janecira cuidava deles como mãe zelosa, mas Moaçabe sabia que ele não conseguira despertar, dentro dela, amor por ele.

Pois bem, pensou ele. Não seria nessa vida, mas ele continuaria tentando até que ela o amasse. Esse pensamento o confortou porque ele sabia que um homem não nasce uma única vez. Eles se reencontrariam e ela o amaria. Disso, ele tinha certeza.

O anjo

O anjo desolado começou a chorar baixinho. Onde estavam os seus irmãos? Para aonde tinham ido? Por que o deixaram para trás?

Imediatamente, sentiu o abraço da sua mãe que muito o amava e sempre estava alerta, pronta para consolá-lo a qualquer momento.

— Não chore meu amor, disse ela. Um dia eles voltarão. Tenha paciência e aguarde. Os seus irmãos mais velhos já foram buscá-los. É preciso esperar e ter paciência porque eles não se lembram mais qual é o caminho para voltar para casa. Eles estão muito bravos e, por essa razão, eu mesma não posso ir buscá-los. Se eles me virem, vão fugir e se afastar mais ainda. Então, temos que ter paciência e aguardar até que os seus irmãos consigam convencê-los de que sempre foram amados e que jamais deixarão de ser.

O anjo então se acalmou e pensou:

— Bem que eu queria procurá-los também.

A mãe, atenta a tudo, escutou o desejo do pequeno anjo e disse:

— Você ainda é muito jovem para procurar os seus irmãos. O caminho até lá é cheio de perigos e você ainda não está crescido o suficiente para se proteger deles.

O anjo, inconformado, respondeu:

— Quando eu ficar mais velho poderei ir, mãe?

A mãe, amorosa como sempre, apertou-o ao peito temendo por ele, mas sabendo que não poderia prendê-lo. Se a sua vontade era de ir, ela somente poderia segurá-lo até que fosse mais velho, mas depois disso teria que deixá-lo partir. E, então, respondeu:

— Sim, meu amor. Se quando você ficar mais velho ainda desejar ir em busca dos seus irmãos, eu não o prenderei; mas, até lá, você deve observar como os seus irmãos mais velhos se comportam. Isso vai ajudar você, quando for a sua vez.

Feliz, o anjo correu para observar os seus irmãos mais velhos.

A mãe, com o coração apertado, desejou que quando mais esse filho se fosse, que voltasse logo. A saudade era um sentimento doloroso demais.

Vaidade

O corredor iluminado pelas tochas projetava na parede a sombra do Cavaleiro, fazendo com que ele parecesse maior e mais imponente. Ele avança pelo corredor com passadas largas. Àquela hora da noite não havia mais guardas a postos ao longo do corredor. Mesmo que houvesse, não ousariam interceptá-lo. A sua patente lhe conferia passagem livre pelos corredores do castelo.

Ao chegar diante de uma pesada porta de madeira, bateu duas vezes com o nó dos dedos. Ao escutar a permissão, abriu a porta e entrou na sala fazendo uma reverência.

— Trago notícias, senhor, diz ele com voz firme.

O homem sentado à mesa levanta-se irritado e responde:

— E o que o faz pensar que as tuas notícias me interessam? Acaso pensas que és muito importante ao ponto de poder interromper o que estou fazendo? Como ousa me impor a tua presença? Não me interessam as tuas notícias. Nada tens para me dizer que eu já não saiba. Saia daqui.

Essas últimas palavras foram ditas aos berros e bem próximas ao rosto do Cavaleiro que sente a vergonha e a raiva crescerem dentro dele. Seus músculos se retesam e ele não se move. A raiva o prende ao chão. O que o trouxe até aquela sala foi a lealdade, mas parece que, para aquele homem, isso nada significava.

O homem continua a gritar para que ele saia, mas ele não se move, paralisado pela incredulidade. A espada está ao alcance da sua mão e ele a toca por alguns segundos como se avaliasse o que estava prestes a fazer.

Determinado, o Cavaleiro saca da espada e a enterra com força no corpo do homem a sua frente que arregala os olhos olhando para a mancha vermelha na sua túnica, como se não acreditasse no que está acontecendo.

O sangue jorra pelos dois orifícios feitos pela espada: um na frente e outro atrás do corpo do homem, que cai no chão. Num gesto de clemência, o Cavaleiro enterra a espada no coração do homem agonizante.

Em seguida, sai da sala sem nenhum sentimento de culpa. Aquele homem teve o que mereceu. Quem zomba de um Cavaleiro merece pagar a zombaria com a própria vida.

Novas terras

O mar estava bravo. Na proa do navio, ele se agarrava como podia à murada, rezando para que o mal tempo passasse. A noite estava caindo e, em breve, eles só teriam as estrelas como guia.

Aceitara embarcar naquela aventura pelo dinheiro oferecido. Qualquer um aceitaria. Era uma pequena fortuna que lhe garantiria abrir um negócio e iniciar uma nova vida.

A lida no mar era ingrata. O corpo sofria demais. Ele mesmo havia ficado doente várias vezes. Se não fosse o cuidado e as rezas de sua mãe, não estaria mais neste mundo.

Os marujos seguravam o mastro com a corda tentando equilibrar a embarcação que balançava assustadoramente, sendo carregada pelas ondas – algumas quebravam na amurada, jogando os homens uns contra os outros.

O capitão, aos gritos, incentivava os homens e dava ordens. Ele fazia o que podia. Num mar revolto assim, só se podia esperar pelo pior. Bem, que fosse. O trato que ele havia feito garantia que sua mãe receberia o que lhe era devido, caso ele não voltasse. Isso lhe deu mais força para fazer aquela viagem e dava-lhe força agora, e precisava dela redobrada.

Como por milagre, a tempestade passou. Como era impressionante a vida no mar. Uma hora podia-se dar como morto e na outra se tinha a vida toda pela frente. Ele gostava dessa sensação. Isso fazia com que se sentisse mais homem e mais vivo.

Mais alguns dias e chegariam ao seu destino. Terras desconhecidas. Falava-se de um lugar onde havia bichos que pareciam humanos, animais nunca vistos e tantas coisas misteriosas. Ele gostava disso. O novo e o diferente. Veria quem eram esses bichos que pareciam gente e o que mais haveria por lá.

Quando avistaram a terra, estavam mais mortos do que vivos. Baixaram os botes e atracaram numa praia deserta, circundada por árvores altas e por uma densa mata. O sol brilhava causando uma sensação de calor intenso no corpo que era muito desconfortável.

Não viram nada e ninguém. Subitamente, foram cercados por seres estranhos. Todos nus. Homens e mulheres. Eram como eles, mas com a pele morena. Traziam lanças que apontavam ameaçadoramente.

Mas o que podia uma lança contra uma arma de fogo? O primeiro tiro foi dado pelo capitão e acertou o que parecia ser o chefe deles. Os outros saíram correndo apavorados, enquanto o capitão atirava para cima.

— Bem, pensou ele. Conseguimos mostrar quem é o mais forte.

Ennia

Ela queria se apaixonar. Havia uma aflição em seu peito quando pensava que nunca encontraria o seu amor. Tinha medo que isso acontecesse. Esse medo causava-lhe uma angústia muito grande que ela não ousava revelar a ninguém. Olhava para os rapazes da sua idade e nenhum deles despertava nela um sentimento maior. Todos eram seus amigos. Crescera com eles. Para ela, era como se fossem seus irmãos. Quando conheceria alguém que lhe despertaria o coração? E quando isso acontecesse, como ter certeza de que ele também a quereria? E se ele não a quisesse? Que tristeza, pensava ela antecipando o sofrimento.

Um dia, estava sentada numa pedra próxima ao rio quando viu um cigano se aproximando. Sorriu para ele. Gostava dele. Quando era criança, ele sempre brincava com ela, levando-a para passear em seu cavalo.

— Olá, pequena Ennia. Como está você nesta manhã, perguntou o cigano sentando-se ao seu lado.

— Estou bem, respondeu ela, abaixando os olhos azuis que sempre revelavam o que ela sentia.

Ele percebeu que algo a estava afligindo e perguntou num tom paternal:

— Algo me diz que esse coraçãozinho está sofrendo. Vamos lá, confie em mim. Prometo que essa conversa ficará entre nós dois para todo o sempre.

Ennia sabia que um cigano jamais quebrava uma promessa feita. Isso a tranquilizou.

— Bem, disse ela um tanto envergonhada, é que às vezes fico pensando que morrerei sem conhecer o amor. Todos os moços da tribo são como irmãos para mim. Quando penso nisso fico triste. Não quero morrer sem ter conhecido o amor, disse ela com os olhos marejados de lágrimas.

O cigano sentiu uma ternura imensa por aquela menina que ele vira crescer e que agora estava se tornando uma mulher linda, cuja pele muito branca pela pouca exposição ao sol conferia a ela uma feminilidade encantadora que aumentava pelo contraste dos cabelos negros com os olhos azuis, herdados da mãe, igualmente bela.

— Então é isso que está preocupando você? – disse ele, divertido. Bem, então, é hora de fazermos uma magia para que os caminhos do amor se abram para você.

Ennia olhou espantada para ele. Então era simples assim? E ela tinha sofrido todo esse tempo à toa? Bem, agora tudo ficaria bem. Ele iria ajudá-la.

— Sim, por favor, me ajude. Quando faremos esse trabalho? – falou ela com ansiedade.

— Este trabalho precisa de uma lua crescente para ser realizado. É nessa lua que todas as coisas que desejamos florescem – respondeu o cigano, encantado com a urgência da adolescência. Enquanto esperamos por ela, você pode ir se preparando. Todas as noites, antes de dormir, fixe no seu pensamento o desejo de encontrar um amor. Alguém que seja bom para você e que a ame muito. Depois, solte o pensamento para que as estrelas possam procurá-lo para você.

Magia para encontrar um amor

Na noite da lua crescente, faça um caminho com flores brancas e vermelhas, misturadas. Em seguida, pingue gotas de alfazema nesse caminho, desejando que esse perfume auxilie o seu amor a encontrar o caminho que o levará até você.

Em seguida, diante da entrada do caminho, erga os braços em direção à lua e diga as seguintes palavras:

“Enquanto a lua cresce, que o meu amado encontre o caminho que o trará até mim. Que eu esteja preparada para reconhecê-lo e aceitá-lo na minha vida. Que assim seja”.

Depois, entre no caminho com uma braçada de flores brancas e vermelhas nos braços, oferecendo-as às fadas do amor para que elas a ajudem a encontrar o seu amado e trazê-lo até você.

Enquanto caminha, visualize na sua mente que o seu amado está percorrendo o caminho que o trará até você, e deseje que o caminho que vai unir vocês dois esteja aberto e protegido. Ao caminhar, você estará colocando a sua energia para que ele possa encontrá-la.

Quando chegar ao final do caminho, vire-se e, de olhos fechados, visualize na sua mente o seu amado vindo em sua direção e sinta o seu abraço amoroso.

Quando terminar, você poderá oferecer a braçada de flores para alguém que esteja desacreditado do amor, para que essa energia se espalhe, realizando a transformação da desesperança em fé. 

Ennia encerrou o trabalho com o rosto molhado de lágrimas. Agora ela tinha certeza de que encontraria o amor. Deixaria que o tempo e as fadas fizessem o seu trabalho.

Mirela

A menina estava feliz. Em breve faria quinze anos e haveria uma linda festa. Sua mãe já estava costurando o seu vestido que era mantido em segredo. Cada ponto era feito com amor. Era preciso costurá-lo em recolhimento e isso levava tempo. Era uma tradição da tribo. A roupa que uma menina usasse na sua festa em comemoração à passagem para a vida adulta era especial e teria a energia de proteção de sua mãe.

Esse cuidado era para que ela se tornasse herdeira do melhor que houvesse na linhagem das mulheres de sua família.

Os vestidos eram sempre únicos e continham materiais que pareciam estranhos a princípio, mas que foram colocados ali com um propósito mágico e secreto. Todos sabiam disso e respeitavam. Depois, esse vestido era guardado para ser usado novamente em encontros feitos somente para as mulheres da tribo, quando ela fosse mais velha.

O que Mirela mais desejava era encontrar um amor que a levasse para conhecer o mundo. Ela queria muito sair da tribo e conhecer outros povos. Os seus pais tinham receio dessa vontade dela. Não queriam que ela se afastasse da tribo. Não falavam no assunto na esperança de que fosse um capricho de menina.

Mas não era um capricho. Assim que completou quinze anos e fez a sua iniciação na vida adulta, ela voltou a falar com a sua mãe, que a proibiu de tocar no assunto novamente.

Pois bem, pensou ela, fugiria e faria o que desejava. Já era considerada adulta para os afazeres domésticos, então também era adulta para sair pelo mundo.

Secretamente arrumou as suas coisas. Primeiro uma peça de roupa, depois uma faca, um cantil, uma manta e assim por diante. Quando se deu por satisfeita, esperou que todos dormissem e partiu.

A lua estava cheia, iluminando o caminho. As sombras das árvores causavam-lhe medo, mas ela era teimosa e não voltaria atrás. Cavalgou por duas horas sem parar quando foi vencida pelo sono. Precisava dormir um pouco. Só alguns minutos. Depois seguiria viagem. Precisava se afastar o máximo possível do acampamento. O alarme seria dado assim que a sua mãe notasse a sua ausência. Ela precisava ganhar terreno.

Apeou do cavalo, entrou na mata, esticou sua manta em um vão formado pelas raízes de uma enorme árvore e deitou-se, adormecendo imediatamente.

Acordou com a luz do sol no rosto. Nossa! Dormira demais. Já havia amanhecido. Os homens da tribo já deviam estar próximos dela, pensou, estranhamente desejando que isso fosse verdade. Estaria arrependida? Não seria melhor voltar para o acampamento e pedir perdão?

Esses pensamentos causavam nela um estranho conforto. Imaginar que tinha para onde voltar aquecia o seu corpo dolorido pela noite mal dormida. Ela estava com fome. Lembrou-se do café da manhã que sua mãe preparava. Pão quente com mel e uma caneca de chá fumegante. Sua boca encheu de água e seus olhos de lágrimas. O que ela fizera? Por que não teve paciência de esperar? A tribo estava sempre andando e ela conheceria outros lugares. Não precisava fazer isso sozinha. Subitamente escutou a voz do seu pai chamando por ela. Em resposta gritou:

— Pai! Estou aqui.

O seu pai desceu do cavalo abraçando-se a ela. Beijou inúmeras vezes o seu rosto enquanto lágrimas caiam dos seus olhos.

— Minha filhinha amada. Você está bem? Está machucada? Tem fome? Sede? Venha minha querida, descanse aqui.

Dizendo isso sentou-se no chão, colocando a cabeça de Mirela em seu peito. Assim lhe parecia que ela nunca mais sairia de perto dele.

Os outros ciganos ficaram emocionados com a cena do pai que recupera a filha, quando já não tinha esperança de revê-la.

— Pai, disse ela. Perdoe-me. Eu fiz algo muito terrível.

— Não importa, minha querida. Eu sei que a sua lição foi aprendida. O que importa é que você está bem. Venha, vamos embora. A sua mãe está muito preocupada.

Os dois caminharam abraçados em direção ao cavalo e montaram juntos.

Mirela, aninhada nas costas do pai, desejou: se um dia ela encontrasse um amor, que ele fosse igual ao seu pai. Um homem generoso e forte. Assim, ela sempre se sentiria protegida, exatamente como naquele momento.

Fibra

O barulho do chicote batendo no chão lhe dava uma sensação de poder. Ele sabia que os negros tinham horror àquele barulho e que ouvi-lo criava uma atmosfera de medo que impunha respeito e fazia com que possíveis revoltas fossem abafadas no início.

Não era ele quem chicoteava, mas mandava chicotear. Para isso tinha empregados pagos que faziam o serviço sujo. Ter as suas vestes respingadas de sangue de negros o deixava enojado.

Tinha aprendido com o seu pai que negro era como bicho. Não pensava. Só obedecia. E ele acreditava nisso com convicção. Eles eram burros e fracos. Não conseguiam fazer nada por conta própria. Tudo tinha que ser ensinado a eles e, muitas vezes, eram castigados com firmeza para que não esquecessem a lição.

Naquele final de tarde, ele se dirigia à senzala para pegar uma negrinha. Precisava descarregar a sua raiva. Quem era aquela sinhazinha emplumada para rejeitá-lo? Ele tinha posses e poder. Ela devia ficar honrada por ele querer cortejá-la. E agora ele estava ali, raivoso e querendo se satisfizer com uma negrinha. Fecharia os olhos e pensaria que ela era a tal sinhazinha. Assim sua vingança estaria feita.

— Venha das Dores, chamou ele.

A menina, que não tinha mais do que quinze anos, abaixou a cabeça e saiu para a escuridão que já caia. Dentro da senzala, sua mãe abraçada ao seu irmão menor pedia ao deus do trovão que enviasse um raio para fulminar aquele senhor cruel e impiedoso. Que se isso não fosse possível, enviasse a morte para a sua filha. Isso era melhor do que servir de montaria para um animal como aquele homem. E, por fim, quando já não sabia mais o que pedir, pediu a própria morte para não ter que ver a sua filha de volta, humilhada e machucada diante de todos.

As horas passavam e nada da menina. Clareou o dia. Anastácia não pregara os olhos, aguardando a volta da filha.

Quando finalmente a porta da senzala se abriu, um corpo foi jogado para dentro e ela soube. Sua filha levara um tiro porque se recusara a servir ao seu senhor. Antes, porém, havia cortado o rosto do homem com uma faca.

De joelhos e com a cabeça baixa, Anastácia agradeceu aos deuses. O seu pedido tinha sido atendido. Mais tarde, faria uma oferenda aos deuses em agradecimento e para pedir que a sua filha fosse recebida por uma deusa amorosa que cuidaria dela e a prepararia para outra vida.

Que ela renascesse em um lugar onde não precisasse servir a nenhum homem contra a sua vontade. Com esse pensamento, Anastácia enrolou o corpo da filha e levou-a para ser enterrada em solo sagrado, atrás da igreja, como era o costume com as meninas que morriam virgens.

Por um momento, esse pensamento lhe trouxe um sentimento de orgulho. Sua filha teve fibra. Quem sabe, agora, os senhores pensassem melhor antes de arrastar outra menina para a sua cama.

Anita

Os dois corriam alegres. Ela na frente e ele atrás, tentando alcançá-la. O vestido comprido atrapalhava um pouco a sua corrida. Quando finalmente ele conseguiu alcançá-la, enlaçou-a pela cintura e os dois caíram no chão rindo muito. Eram tão amigos! Adoravam estar juntos. As famílias viviam apostando que dali sairia casamento, mas nada! Eram ainda crianças e não davam nenhum sinal de algo a mais que amizade. Suas conversas avançavam horas e horas e era preciso que fossem chamados insistentemente para dentro de casa.

— Anita, venha minha filha, o almoço está servido, gritou de dentro da casa grande a sua mãe.

— Tenho que ir, se não minha mãe vem me buscar de vara na mão e olha que a varinha de marmelo dela dói muito, disse Anita, ainda sentindo a dor da última surra.

— Vá então, disse Lívio. Nos encontraremos mais tarde na beira do rio, combinado?

— Combinado, respondeu Anita, saindo em disparada.

Entrou na casa pela porta da cozinha, para dar tempo de lavar o rosto e arrumar-se um pouco. Encontrou com a preta Lina enchendo as travessas com a comida.

— Vá Sinhá, vossa mãe há de lhe dar outra surra se a Sinhazinha não se apressar.

— Já vou Lina, já vou, respondeu Anita desgostosa. Ela preferia mil vezes ficar conversando com Lívio do que sentar-se para almoçar. Com esse pensamento, bufou antes de chegar à sala. Entrou no aposento, pediu benção aos avós e aos pais, e sentando-se à mesa.

Sua mãe olhou-a com reprovação e posicionou as mãos para a oração.

— Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dê a graça de sempre termos o alimento em nossas mesas. Amém.

— Amém, responderam todos.

— Lina, pode trazer o almoço, gritou sua mãe.

Comeram em silêncio. Quando finalmente acabaram, seu pai deu, o que lhe pareceu à época, a sua sentença de morte.

— Anita, dentro de uma semana irás para o colégio das freiras a ver se te aprumas na vida e dás em algo bom.

Com os olhos arregalados, Anita olha para a mãe pedindo socorro. Sua mãe nem se abala. De certo estava de acordo com aquele absurdo, pensa Anita.

Ela nada podia falar. Desobedecer significaria levar uma surra de seu pai, que era muito pior que a de sua mãe.

Terminou o jantar engolindo o choro, pedindo licença para sair, ao que o pai lhe concedeu dizendo:

— Por hoje não sairás mais de casa. Ficarás em teu quarto preparando-te para a viagem. Lina, disse ele voltando-se para a negra, tu cuidarás para que ela não saia mais por aí como se fosse um moleque.

— Sim senhor, respondeu a preta.

Anita levantou-se, fez uma mesura e saiu. Subiu as escadas de dois em dois degraus e chegando em seu quarto tratou de escrever para Lívio, explicando o que lhe acontecera. Em seguida, encarregou a preta Lina de entregar o bilhete, dando-lhe em troca um par de brincos valiosos. Diria depois que os perdera.

Os anos se passaram e Anita tornou-se uma linda mulher. Certo dia, passeando no largo da basílica, reparou que um rapaz não tirava os olhos dela. De braços dados com uma amiga, disse:

— Clara, disse ela ao ouvido da amiga, olha discretamente para um rapaz parado ali do outro lado, que não tira os olhos de mim. Já estou corando feito uma brasa acesa.

— É verdade, ele olha fixamente para ti, respondeu Clara após avaliar a situação.

— Pois vou lá ter com ele para saber o que deseja de mim, disse Anita.

— Qual o quê Anita, isso seria uma vergonha. Se te veem fazendo isso, vão rápido dizer ao teu pai que vai te prender no quarto outra vez, disse Clara em tom de preocupação.

— Que nada, vamos lá. Diz Anita, já cruzando o largo na direção do rapaz. Parou a um metro de distância dele que, com olhar divertido, a observava.

— Senhor, vejo que me olha atentamente. Por acaso nos conhecemos? Perguntou Anita, levantando ligeiramente o queixo.

— Creio que nos vimos sim, senhora. Muitas vezes nos passeios à margem do rio, ou sentados no tronco da árvore velha que ficava próxima à porteira, ou ainda lambuzados de caldo de milho verde que nos servia a preta Lina, escondido de vossa mãe. Deixe ver, são tantas as situações que precisaria da sua memória para me ajudar a lembrar, disse o rapaz já às gargalhadas e de mãos dadas com Anita, que girava com ele, enquanto ele ia lembrando os fatos da infância de ambos.

— Querido Lívio. Que saudade. Essa é minha amiga Clara. Mas por que não te aproximaste? Ao contrário, ficaste zombando de mim. Que rapaz cruel você se tornou, disse ela enquanto dava-lhe tapinhas nos braços.

— Bem, já que nos encontramos, que tal um copo de refresco? Convidou Lívio

— Sim claro, vamos Clara, vamos conosco, voltou-se Anita para a amiga, radiante de felicidade.

— Obrigada minha amiga, respondeu Clara, mas tenho que ir. Minha mãe deu-me até as três da tarde e já preciso voltar.

— Está bem querida, dê lembranças a sua mãe, disse Anita em tom pesaroso.

Lívio tocou a beira de seu chapéu com a mão e fez um cumprimento com um leve inclinar do corpo.

— Até logo, senhorita Clara, espero que nos reencontremos em breve.

Quando Clara se afastou, ela tomou o braço que ele lhe oferecia e os dois seguiram caminhando pela calçada.

Os anos se passaram e eles sempre se lembravam dessa história quando juntavam os filhos e os netos, dando a ela diferentes versões. Ora ele é que a tinha abordado, ora ela que havia ido falar com ele. Acabavam por rir muito e fazer rir a todos os ouvintes, encantados com aquela bela história de amor.

Laurinha

Sentada no degrau da escada da entrada da casa, Laurinha esperava. Já estava pronta há algum tempo. Vestia o vestido azul cheio de anáguas brancas por baixo. Por cima do vestido, um aventalzinho de organza com enfeites de renda.

Quando chegassem à igreja, a sua mãe o tiraria. Na festa, ela o vestiria novamente. Nos pés ela calçava sapatinhos brancos com fivela prateada e meias brancas. Cachinhos castanho claro caiam ao lado do seu rosto e uma fita larga e branca, amarrada com um laço no alto da cabeça, completava o enfeite dos cabelos.

Ela já estava cansada de esperar. Sua mãe havia lhe dado uma ordem para que esperasse ali sentada. Que não corresse para não arriscar sujar-se. Mas já fazia muito tempo que ela estava ali sentada. Não faria mal dar uma espiadinha através do portão com grades altas que ficava permanentemente fechado. Só quando batiam é que ele era aberto para deixar passar uma visita ou um entregador qualquer.

Laurinha olhou para os lados e vendo que não estava sendo observada levantou-se bem devagar e, pé ante pé, foi até o portão. Na rua, a criançada era uma correria só. O Carlinhos corria para pegar as outras crianças no pega-pega. As gêmeas brincavam de casinha na calçada em frente à sua casa. Ao vê-la no portão saíram em disparada, correndo em sua direção.

— Oi Laurinha. Você não quer brincar com a gente? – perguntou alegre uma das meninas.

— Não posso. Vou ao casamento do meu tio, respondeu Laurinha.

— Está bem, então. Quando você voltar a gente brinca, respondeu a menina.

— Tchau Laurinha, disseram as gêmeas em coro.

— Tchau, respondeu Laurinha, voltando para o degrau onde a sua mãe a havia mandado esperar.

E Laurinha ficou lá sentada, esperando…esperando…

Até que a sua mãe apareceu na janela da sala.

— Laurinha, minha filha, venha para dentro. Já está tarde.

— Está bem, mamãe, disse ela.

Já estava mesmo cansada de brincar de faz de conta. Qualquer dia desses pediria a sua mãe para costurar um vestido azul com um avental branco, exatamente igual ao do mundo do faz de conta.

Tenório

O coco estava bem duro. Era bom assim. Quando estava bem duro por fora significava que, dentro, a carne era macia e suculenta.

Tenório forçou a barra de ferro para dentro do coco com uma martelada bem dada. Na sua frente o coco se partiu em dois, revelando uma carne branca e suculenta. Sua irmã haveria de gostar do fruto.

Tanta gente ia lá ter com ela… Era um entra e sai danado naquela casa. Sua irmã, benzedeira de mão cheia, tirava quebranto, curava cobreiro; de quebra fazia uma garrafada e levava para o doente que não podia andar. Isso quando não saia pedindo aos ricos para depois sair dando aos pobres.

— Ela é mesmo arretada, pensou Tenório, dando uma gargalhada de satisfação.

Tinha orgulho dela. Era sua irmã do meio, um pouco mais velha que ele. Eram amigos e companheiros. Ele ajudava no que podia. Ajeitava o povo, oferecia uma caneca de água, colhia as ervas, fazia os escalda pés, e assim a vida ia sendo tocada.

Debaixo daquele poeirão era duro conseguir boa pousada, mas a sua casa sempre estava aberta a um viajante cansado. Era só esticar a rede na varanda e estava posto.

A Lua embalava o sono. Refletida nas águas do rio, servia de inspiração para as histórias contadas à beira da fogueira, regadas a uma bebida forte que levava cajuína, mel e limão. Todos se agradavam de beber dela. Era muito boa para trazer o sono.

Tenório deixou-se de divagação, apanhou o coco aberto e dirigiu-se para a cozinha. Já estava na hora do ponto da canjica e sua irmã já devia estar precisada do fruto.

Quem de longe o visse caminhando, pensaria que aquele homem estava com todo o tempo da vida à sua disposição. Seu caminhar era lento, na certeza de que o tempo passava independente do tanto que ele corresse. Então, iria no seu passo mesmo. Com esse pensamento, Tenório deu mais uma gargalhada e entrou na cozinha.

Aninha

Se não fosse tão tarde, ela ainda poderia brincar mais. “Que coisa chata”, pensou Aninha. Por que o tempo era dia e noite? Devia ser só dia para as crianças brincarem bastante e não precisarem dormir.

Ela não gostava de dormir. Tinha que ficar parada e às vezes sentia medo. Não gostava. Hoje ela fez um bonequinho de lama que virou seu amigo com nome e tudo. Ia pedir para a sua mãe que o deixasse dormir com ela.

— Oba! Uma borboleta! – grita feliz.

Rápido se levanta e corre atrás da borboleta. O bonequinho de lama fica ali esquecido. Na correria, tropeça numa pedra e cai, machucando o joelho. Seu choro atrai a mãe que a pega nos braços ralhando com ela.

— Mas que menina mais sapeca! Vive caindo.

Aninha chora. O ferimento dói enquanto a mãe o lava. Agora vai ter que ficar dentro de casa. O que fazer? Todas as outras crianças estão brincando lá fora. Triste, ela se senta numa cadeira, enquanto sua mãe cozinha.

— Vou te contar uma história Aninha, você quer ouvir? Pergunta a mãe enquanto escorre o arroz.

— Quero sim, mamãe, responde Aninha já animada. Conta aquela do menino perdido? Ela adorava essa história porque o menino conhecia vários lugares diferentes e depois voltava para casa. Ela também queria conhecer lugares diferentes, com gente diferente, de olhinhos puxados e tudo, como na história.

— Não filhinha, hoje eu vou contar a história da menina sapeca, falou a mãe olhando para ela com um sorriso no rosto.

— Essa não mamãe. Essa é chata, retrucou Aninha pressentindo algo que não sabia bem o que era, mas sentia que tinha algo a ver com ela.

— Por que querida? Diz a mãe. Essa menina da história foi muito feliz por ser sapeca.

Aninha se interessou.

— É mesmo mamãe. E como ela foi feliz?

— Bem, disse a mãe, ela ajudou muita gente e conheceu muitos lugares. Seu jeito sapeca fez com que ela não tivesse medo de conhecer novos lugares e novas pessoas.

Os olhos de Aninha se arregalaram e ela perguntou para a mãe:

— Então ser sapeca é bom, mamãe?

— Tudo nesta vida pode ser bom ou ruim, minha querida. É a gente quem faz com que as coisas sejam de um jeito ou de outro. Para a menina da história, ser sapeca ajudou-a a ter o que sempre sonhou.

— Então eu posso ser sapeca, mamãe?

— Claro que sim, minha querida, desde que você olhe para onde está indo e observe tudo o que estiver a sua volta. Assim, você não sofrerá muitos acidentes.

Aninha ficou pensando que, da próxima vez que corresse atrás de uma borboleta, precisaria da ajuda de um amigo para olhar para onde ia a borboleta, quando ela olhasse para o chão.

Aninha. Linda Aninha. Cresceu sendo amada por todos e trouxe alegria e amor para aqueles que a cercaram. Por onde passou, distribuiu bondade. Quando se foi, as pessoas diziam que um raio de sol havia se recolhido da terra.

Isabel

Sentada numa cadeira de rodas, poucas coisas ela podia fazer. Ficava na janela do seu quarto durante várias horas ao longo do dia, a olhar quem passava. Vez por outra, alguém lhe acenava ou puxava um dedinho de prosa.

Nascera assim a menina Isabel. Desde criança, apresentara pernas fracas e nada a fazia ficar em pé. Os médicos diziam que não tinha jeito. Fora malformada na barriga da mãe. Esta se desdobrava em cuidados pelo amor que lhe tinha e um pouquinho, também, porque achava que em parte tinha culpa.

Devia ter insistido que o marido achasse o pé de jaca e lhe trouxesse o fruto. Na ocasião, um pensamento maldoso, resultado da raiva, lhe ocorreu: Podia ficar sem pernas aquele um. Quem sabe, assim, valorizasse mais as que tinha e ia buscar o que ela estava pedindo. Mas qual, ele nem se abalou!

Achava aquilo chilique de mulher prenha e ele é que não ia dar-se a esse desfrute, ora veja! Pensou o marido que ficou a ler o seu jornal sem mexer um músculo do corpo.

Pois aí estava. Nasceu a menina fraca das pernas. Os médicos diziam que se insistissem podia ser que andasse, mas com o tempo foram desistindo e ela ficou foi mesmo na cadeira de rodas.

Era bonita a menina, mas não tinha futuro. Quem haveria de querer uma mulher sem as pernas? Não. Para o casamento ela não daria. Mas o que faria da vida sua filha, pensava a mãe, balançando a cabeça sem encontrar a resposta. Um dia, a resposta chegou.

Soube pela vizinha que havia chegado à escola uma professora.

— Professora mulher? – perguntou à vizinha, com ar de espanto.

— Sim, senhora! – disse a vizinha, enfatizando a notícia. Uma mulher.

Então, ela pensou: Esta ai a resposta. Sua filha não tinha pernas, mas cabeça ela tinha e era bem boa.

Entrou em casa, chamando pela filha:

— Isabel! Isabel…

A menina, que do quarto olhava da janela para fora, respondeu:

— Estou aqui, mãe. Onde sempre estive e onde sempre estarei – disse Isabel com certa melancolia.

— Que nada, minha filha. Hoje soube de uma notícia que há de te alegrar. Chegou à cidade uma professora – disse a mãe com entusiasmo na voz.

— Professora? Mas existem professoras? – perguntou Isabel com ar de quem não tinha entendido direito.

— Pois não é o que estou lhe dizendo?

Isabel sentiu uma alegria no coração. Olhando para a mãe, cujo rosto mostrava o contentamento que sentia, disse:

— Mãe. Eu posso dar aula!

— Sim, minha filha. Pode. Falarei com o seu pai e nós construiremos, aqui mesmo, no nosso quintal, um galpão não muito grande, por enquanto, e veremos se você consegue alunos. Podem ser os pobres primeiro porque esses não têm muita escolha e virão com certeza.

A obra começou e em pouco tempo o galpão já estava construído e as crianças foram chegando. Sua mãe servia refresco de limão e bolachinhas de nata no lanche. As crianças adoravam. Com o tempo, precisaram fazer um puxado no galpão e ela se revezava em duas turmas, atravessando de uma sala para a outra por uma rampa construída especialmente para ela e a sua cadeira com rodas.

Os anos se passaram e Isabel continuou dando aulas até não poder mais enxergar. Quando já estava bem velhinha, numa tarde acordou com um barulho embaixo de sua janela. Ajudada pela criada, abriu as cortinas e olhou para fora. Na rua havia mais de uma centena dos seus ex-alunos que, ao vê-la, cantaram em coro, numa homenagem pelo dia do seu aniversário e pelo tanto que tinham a lhe agradecer.

Tal homenagem jamais seria esquecida por todos daquela cidade. Professora Isabel. Vive até hoje na memória das pessoas que contam as suas histórias e falam do quanto ela fez por todos.

Eithan

O menino Eithan corre pelo campo para buscar ajuda. Corre muito, mas as suas pernas de criança não são suficientes para a urgência da situação. Seu coração ameaça saltar do peito e seus pulmões parecem que vão explodir.

— Poderia haver menos montanhas neste caminho, pensa ele.

Ao longe, ele vê a vila. Precisa chegar o mais depressa possível à casa de Zustra, a maga das ervas. Quase desfalecendo, chega ao seu destino aceitando, de bom grado, a cadeira e o copo com água que lhe foram oferecidos.

As ervas que ela iria precisar já estavam acomodadas no recipiente de barro próprio. Eram ervas especiais, plantadas em lugares secretos. Como sempre, ela buscava a resposta do que iria precisar elevando a sua mente. Quando soube que as ervas seriam aquelas, ela rezou para que a sua amiga ficasse em segurança. Rapidamente, os dois subiram na carroça e partiram em direção à casa onde estava Mirna, a mãe do menino Eithan e grande amiga de Zustra.

Mirna está na cama e delira. O encontro com o cavaleiro negro a deixou impregnada de energia maligna. Zustra fala palavras de encantamento, invocando a luz maior, enquanto macera as ervas, gerando um líquido espesso. O líquido é colocado, aos poucos, na boca da mulher que lentamente se acalma.

A noite cai. O fogo da lareira é aceso e Zustra faz uma sopa com cevada, que todos comem satisfeitos. O ambiente está calmo. Eithan percebe que sua mãe dorme tranquila. Zustra passa a noite ao lado dela. Pela manhã, o canto dos pássaros acorda a todos. Mirna abre os olhos e encontra os olhos de Zustra que lhe sorri, perguntando como ela está.

— Estou bem, responde Mirna. Graças ao meu querido filho e a você, minha amiga.

— Agora me conte o que aconteceu, disse Zustra, sabendo que seria bom para Mirna compartilhar o que havia acontecido.

— Um cavaleiro que serve ao senhor em cujo castelo trabalho, tentou me possuir a força. Eu me debati e consegui escapar. Agora tenho medo de sua represália, disse Mirna assustada.

— Não tema, minha amiga. Você e seu filho são muito bem-vindos à minha casa. Ficarão lá o tempo que for necessário. Os cavaleiros do castelo não ousam arrumar problemas na Vila que está sob a proteção de várias bandeiras de Lordes simpáticos à nossa causa.

E assim foi. Os dois se mudaram para a casa de Zustra e passaram a conviver em harmonia. Com o passar do tempo, Zustra percebe que o menino tem o dom para manipular as ervas. Aos poucos, ele passa a auxiliá-la nos trabalhos de cura. Sua presença constante ao lado dela e sua agilidade em buscar ajuda, torna-o conhecido em toda a Vila e redondezas. Passa a frequentar as reuniões no Templo e é iniciado nos conhecimentos.

Resgate

Estava escurecendo. O homem caminhava apressado pelo atalho feito por muitos que por ali passaram antes dele. O céu estava repleto de nuvens negras e o vento anunciava a chuva que não tardava. A grama baixa que ladeava o caminho permitia que ele visse a montanha a sua frente. Precisaria transpô-la para chegar até a Vila. Por mais que se apressasse, não conseguiria tal feito antes que desabasse o aguaceiro. Decidiu, então, encontrar um abrigo na mata. Quem sabe um tronco oco de árvore ou uma caverna feita por pedras. Não importava. Desde que ele não ficasse ao relento arriscando-se a ser queimado por um raio, qualquer lugar estaria bem.

Entrou na mata e apurou os ouvidos. Se escutasse um rio correndo ou algum som humano, se encaminharia para lá.  Para a sua surpresa, não tardou a escutar vozes. Estavam distantes. O vento as trazia de longe. Resolveu seguir na direção delas, respeitando a sua intuição. Ela já o salvara de várias situações. Aprendeu a respeitá-la.

Olhou para o céu que dera uma trégua. O vento havia espalhado as nuvens e a chuva tardaria. Acelerou o seu passo em direção às vozes.

Através da mata caminhou cortando galhos e vencendo obstáculos. As vozes foram aumentando, somadas agora ao som do correr das águas de um rio. De repente, ele avistou o acampamento. Eram carroças grandes e coloridas paradas em círculo. De onde ele estava, podia ver os cavalos pastando próximos e uma grande fogueira prestes a ser acesa.

— O senhor deseja algo? – soou uma voz atrás dele.

Antero deu um pulo com o susto que levou e respondeu, afogueado, ao cigano alto e forte à sua frente:

— Chamo-me Antero. Estava subindo a montanha em direção à Vila pelo atalho. Fiquei com medo da tormenta que ameaçava cair e me embrenhei pelo mato, seguindo o som das vozes que o vento levou até mim. Não tive a intenção de ofendê-lo. Perdoe-me. – e fez uma inclinação respeitosa.

— Ora, vamos, deixe disso. Os visitantes são sempre muito bem-vindos em nosso acampamento. Venha, passe esta noite conosco. Prove do nosso assado e do nosso vinho. Amanhã seguirá viagem.

Impressionado com a cortesia do homem, Antero respondeu:

— Sou muito grato, senhor, mas não tenho como pagar. A minha viagem está sendo feita a pé por falta de recursos. Preciso chegar à Vila para encontrar ajuda para minha mãe muito doente. Ficarei apenas por perto para me proteger dos animais durante a noite, mas não devo importuná-los.

— O que lhe faço é um convite – disse o cigano num tom sério. Considerarei uma ofensa se recusar a minha hospitalidade.

— Bem, se é assim, eu aceito e agradeço a generosa oferta.

— Ora, homem, deixe disso. Venha, vou apresentá-lo aos outros.

Antero ficou encantado. Jamais imaginou que pudesse haver pessoas como aquelas. Os homens eram fortes e altos, e as mulheres lindas, atenciosas e prendadas. A alegria que ali reinava era algo diferente. Havia uma luz naquela gente. Uma luz diferente. Todos pareciam compartilhar da mesma natureza, onde não cabia tristeza ou revolta. Todos serviam uns aos outros. Os pratos com alimentos passavam de mão em mão em torno da fogueira. O vinho era servido pelos homens e a comida pelas mulheres. Quando todos já estavam servidos, um homem levantou-se e com voz alta disse:

— Esta noite é especial para nós. Temos um convidado inesperado e, por essa razão, muito bem-vindo. O acaso o trouxe até nós. Que a sua vida sempre floresça!

Dito isso, levantou o seu cálice de vinho, acompanhado por todos e bebeu um gole, dizendo:

—Vamos comer.

Ao final da refeição, houve música e dança. Todos dançavam. Mulheres, homens, crianças e velhos.

Quando a lua já estava alta, o mesmo homem que ergueu o brinde abençoou a todos, dando por encerrada a noite.

Antero foi acomodado em uma carroça que servia para transportar mantimentos e que estava vazia. Dormiu como uma criança que não teme o perigo e se sente protegida. Pela manhã, acordou e foi ao rio lavar-se. Quando estava terminando, ouviu um cumprimento às suas costas:

— Bom dia, disse a jovem.

— Bom dia, respondeu ele, compondo-se como pode.

— Vejo que o senhor dormiu bem. A sua expressão acusa isso, disse ela sorrindo.

— Sim, dormi maravilhosamente bem, graças a todos vocês. Há muitos anos não me sentia assim, tão feliz. Não há palavras que expressem o meu agradecimento.

— O prazer foi nosso em poder ajudá-lo. Espero que o senhor possa vir visitar-nos outras vezes, disse ela corando um pouco.

Antero observou com mais atenção a moça a sua frente. Sua beleza não era estética, mas dela emanava uma energia tão leve que a tornava bonita.

— Talvez fique difícil, pois moro um pouco distante daqui, mas quem sabe um dia destes nos encontraremos novamente, não é?

— Sim, quem sabe, respondeu ela, afastando-se na direção do rio.

Ele a acompanhou com o olhar por um breve tempo. Quando ela estava a alguns passos de distância, virou-se e acenou para ele.

— Até um dia.

Ele acenou de volta.

— Até um dia.

De repente, Antero constatou que não sabia o nome dela, mas ela já estava distante demais para perguntar-lhe.

— Bem, que importa. Nunca mais a verei. – esse pensamento, estranhamente, causou-lhe tristeza.

— Mas o que estou sentindo? É a primeira vez que vejo essa mulher e estou triste porque não a verei mais. Muito estranho.

Com esse pensamento, voltou ao acampamento na intenção de despedir-se de todos e seguir seu caminho. Ao aproximar-se do acampamento, encontrou uma das ciganas mais velhas que o cumprimentou olhando fundo em seus olhos.

— Como vai? Passou bem a noite?!

— Vou muito bem, senhora, obrigado. Tive uma excelente noite de sono, mas agora preciso seguir o meu caminho. – respondeu ele com uma tristeza na voz que espantou a ele próprio.

— Vejo que tem tristeza em seu coração por partir. – disse a cigana.

— A senhora é muito observadora. Realmente, estou triste em partir e não compreendo por quê. Todos foram muito gentis comigo, mas eu não teria tempo de me apegar em apenas uma noite, disse ele com certa angústia na voz.

— O senhor tem um tempo para que possamos conversar? – perguntou a cigana, gentilmente.

— Sim, minha senhora. Claro que sim. – respondeu Antero satisfeito; afinal, ficaria um pouco mais na companhia daquelas pessoas.

Os dois caminharam, adentrando um pouco na mata. Sentaram-se num tronco de árvore e a cigana começou a falar:

— O que vou lhe dizer é um conhecimento herdado pelo meu povo há muitos séculos. Esse conhecimento é passado de pai para filho e de mãe para filha. O meu coração me diz que o senhor precisa dele para poder tomar uma decisão.

Antero ficou perplexo. Ela falava como se ele fosse um deles. E o mais estranho é que isso não o desagradava.

— Muito obrigado pela sua generosidade, senhora. Escutarei com atenção e respeito.

— Muito bem, disse a cigana. Nós acreditamos que uma pessoa não vive uma única vez. Nascemos, morremos e nascemos novamente. A cada vida vivida, aprendemos coisas que ficam registradas em nós, assim como as pessoas que conhecemos em outra vida também ficam guardadas em nossa memória. Quando renascemos e reencontramos com elas, sentimos como se já as conhecêssemos. Ou quando aprendemos algo com facilidade, temos a sensação de que já sabíamos como fazer aquilo. Sou levada a acreditar que uma antiga memória foi despertada. E que, talvez, seja essa a razão da sua tristeza.

— Sim, senhora. Isso explicaria a minha tristeza em partir. Sinto como se estivesse em casa. Mas porque, então, não nasci nessa tribo cigana?

— Aquilo que escolhemos para nós antes de nascer só nós sabemos, mas, com conhecimento, podemos despertar também essa memória e compreender muitas coisas na nossa vida. O senhor deve fazer uma escolha. Ficar ou partir. Se ficar, um mundo novo se abrirá na sua vida. Se partir, continuará a viver como sempre viveu e esse dia ficará na sua memória como um presente, mas cada vez que se lembrar dele terá saudades porque devo dizer-lhe, Antero, aqui há um lugar para você.

Antero pensou na sua vida, na sua mãe e na sensação que sempre o acompanhava: a de que nenhum lugar era onde ele queria estar. Mas ali, com os ciganos, ele queria estar.

— Já tomei a minha decisão, senhora. Vou ficar. Devo antes cuidar de minha mãe que está doente. Depois voltarei, e espero que me aceitem.

Com as bênçãos da lua crescente e diante do Conselho da Tribo, ele bebeu o vinho sagrado, sendo recebido por toda a tribo que se alegrou por aquele que voltava.

Num outro tempo de dores e desavenças, ele havia sido expulso. Mas, agora, voltava e isso era tudo o que importava.

Ensinamento

Rosália caminha dançando por entre as pessoas, seguida pelas crianças que se divertem com a brincadeira. A fogueira alta ilumina a noite fria que começa a cair. O vinho e a dança esquentam o corpo. Os sapatos fortes com solado de madeira ajudam a esquentar os pés. A neve ainda não chegara, mas as noites estavam cada vez mais frias. Isso era indício de que em breve a neve cairia e as atividades da tribo seriam interrompidas. As famílias ficariam reclusas nas carroças, esperando até que o mal tempo passasse.

Durante o inverno, era comum as mulheres e as crianças se reunirem em uma das carroças maiores para beber chá quente, contar histórias e costurar. Rosália era boa contadora de histórias. As crianças a adoravam. Ela contava histórias que ouvira nos lugares por onde a tribo já havia passado ou inventava outras que sempre traziam algum ensinamento. Por isso, ela, juntamente com outras moças, era escolhida para cuidar das crianças quando havia trabalho para os adultos, como agora. As mulheres dançavam e jogavam, e os homens faziam negócios com os comerciantes da aldeia próxima de onde a tribo estava acampada.

Ela caminhava dançando, seguida pelas crianças que, com ela, entravam na brincadeira de seguir o mestre. A noite já caíra e Rosália precisava colocar as crianças para dormir. Então, conduziu todas até a carroça destinada para abrigar as cinco crianças que estavam sob a sua responsabilidade naquela noite. Ao chegar diante da carroça, reuniu-as a sua volta e disse:

— Agora nós vamos entrar na carroça e eu vou contar uma história para vocês.

As crianças bateram palmas de alegria.

Quando todas estavam aconchegadas nas almofadas e cobertas pelas peles e mantas, Rosália começou:

Era uma vez um lobo muito malvado. Ele corria atrás dos lobos pequenos, dizendo que iria arranhá-los com as suas garras grandes e suas unhas afiadas. Os lobinhos viviam com medo dele e não conseguiam brincar em paz, sempre pensando que ele poderia aparecer a qualquer momento. Um dia, um lobinho muito valente disse:

— Se ele aparecer, eu não vou correr.

— Mas ele vai arranhar você! – disse um.

— Vai machucá-lo! – disse outro.

— Não vai, não. Vocês vão ver! – respondeu o lobinho valente, cheio de si.

Os outros não acreditaram nele e continuaram a brincadeira. De repente, ouviram o uivo do lobo malvado, anunciando que estava perto. Todos se prepararam para correr para perto de seus pais. O lobinho corajoso, porém, permaneceu onde estava.

Seus amigos, vendo que ele não se mexia e que também não atendia ao apelo deles para que corresse, saíram em disparada, pensando que avisariam os seus pais de que ele corria perigo.

O lobinho corajoso esperou. Quando o lobo malvado chegou e deu com o lobinho parado ali sem medo, espantou-se.

— Ora, ora, disse ele. Temos um lobinho corajoso aqui.

— Olá, senhor lobo – disse o lobinho. Eu não sou corajoso. Na verdade, eu fiquei aqui porque queria vê-lo de perto. Há muito tempo que ouço os meus pais falarem do senhor e do quanto todos o temem. Agora, vendo o senhor de perto, eu entendo o porquê. O senhor é mesmo muito bonito, com essas patas tão grandes e unhas tão afiadas. Seus dentes são muito fortes mesmo e seu pelo parece o manto de um rei. Sinto vontade de me curvar diante do senhor.

Dizendo isso, o lobinho corajoso ajoelhou-se nas suas duas patas dianteiras, em frente ao lobo malvado.

— Bem, disse o lobo malvado, pigarreando. Tudo isso que você está vendo eu já sei há muito tempo. – completou cheio de si.

O lobinho corajoso, ainda de joelhos, respondeu:

— Sim, meu senhor, é verdade, mas eu não sabia. E os meus pais e os pais dos meus amigos também não sabem. Quando o senhor aparece, todos correm perdendo a oportunidade de admirá-lo.

— Eu nunca havia pensado nisso… – refletiu o lobo malvado.

— É como estou lhe dizendo: precisa permitir que todos o vejam para que possam curvar-se diante do senhor, respeitando a sua realeza. Se o senhor quiser, eu posso chamar os outros para que o vejam. – disse o lobinho corajoso.

O lobo malvado pensou que seria muito bom ver o bando todo curvar-se diante dele, como estava fazendo aquele lobinho. Sentiu crescer dentro dele a vontade de brilhar diante de todos e respondeu:

— Muito bem, vá buscar os outros que esperarei aqui. Mas não tente me enganar. Se você não aparecer com o bando todo, eu o encontrarei e você não me escapará.

O lobinho saiu correndo, disposto a chamar seus pais e todos os outros para ver que maravilha era o lobo malvado.

Quando estava no meio do caminho, encontrou com seus pais e os outros que estavam indo em seu socorro. Todos se espantaram ao vê-lo. Rapidamente, ele contou o trato que havia feito com o lobo malvado. Quando terminou a sua história, todos estavam de queixo caído.

— Como é possível? – perguntou o pai do lobinho. Bem, não importa. Nós temos é que ver isso de perto. Com tantos de nós juntos, ele não terá coragem de atacar e pode ser que resolvamos esse problema de uma vez por todas.

Quando chegaram ao local onde o lobinho corajoso havia deixado o lobo malvado, encontraram-no dormindo.

— Ei, acorde! – disse o pai do lobinho corajoso.

O lobo malvado acordou. Olhando em volta, viu que havia muitos lobos. Todos eram maiores do que ele. Virou-se para o lobinho corajoso e perguntou:

— Por que você disse que eu era bonito e forte quando, na verdade, eu sou o menor e o mais feio de todos eles?

— Porque, para mim, você pareceu tudo o que eu lhe disse. Estou vendo, agora, que você é mais fraco do que todos. – respondeu o lobinho tão surpreso quanto o lobo malvado.

— Sim. – disse o lobo malvado. Agora eu sei a verdade, e sei também que vocês não vão me deixar ir embora sem me dar uma boa lição, não é?

— Você já teve a sua boa lição. – disse o pai do lobinho corajoso. Fique em paz e nos deixe em paz.

O lobo malvado saiu de cabeça baixa, envergonhado. O lobinho corajoso olhou para o seu pai e disse cheio de orgulho:

— Pai, você é muito mais bonito do que ele.

Todos riram, e saíram correndo de volta para casa.

Rosália terminou a história quando as crianças já estavam dormindo. Menos o pequeno Amoriah, que permaneceu acordado até o final. Assim que ela terminou a história, ele disse:

— Rosália, por que o lobo malvado não sabia que os outros eram maiores do que ele?

— Porque, meu querido Amoriah, às vezes teimamos em não acreditar numa verdade e até convencemos alguns de que estamos certos. Até que chega um dia em que alguém nos mostra qual é a verdadeira verdade. Nesse dia, não conseguimos mais não vê-la e tudo a nossa volta se modifica.

Ele não entendeu direito. Estava com muito sono.  Amanhã perguntaria novamente para Rosália. Com esse pensamento, fechou os olhos e dormiu.

Mombaça

O chicote estalava no chão. O castigo ia começar. Os olhos do feitor eram como duas bolas negras cheias de ódio. O negro amarrado ao tronco tremia, antecipando a dor que sentiria. Os outros negros estavam em volta do tronco, aterrorizados e sem poder fazer qualquer movimento. Apenas encostavam uns nos outros como se buscassem proteção.

O feitor não batia. Parecia que lhe dava prazer estalar o chicote no chão e ver o negro que estava no tronco encolher o corpo como se já tivesse levado a chibatada. Ou poderia ser que ele estivesse apenas se aquecendo e preparando o seu braço para que aguentasse bater mais.

Os minutos que se passaram foram como horas. O negro no tronco já estava emporcalhado com urina e fezes. O medo faz essas coisas com um ser humano.

A negra Mombaça, altiva e forte, da linhagem de reis africanos, desejou que a mãe das tormentas intercedesse por eles e enviasse do céu um raio que partisse o feitor ao meio. A tormenta podia não vir, mas que ela faria uma boa mandinga para aquele homem cruel e maldito, ela faria. Após esse pensamento, ela jurou em silêncio.

E assim foi. Quando tudo acabou, o negro jazia pendurado no tronco, envolto em uma poça de sangue. Morreu de tanto apanhar. Na senzala, o lamento da morte soava – mas Mombaça não tinha tempo a perder. Precisava reunir os ingredientes para a mandinga que não podia passar desta noite, a noite em que a raiva do povo negro se juntaria ao trabalho, dando a ele mais força.

A negra moldou a cabeça de um homem com barro, deixando oco o seu interior. Batizou-a com o nome do feitor e iniciou o trabalho. Quando terminou, a noite escura e sem lua já ia alta. Adentrou na mata em busca do local para a entrega do trabalho. Realizou o ritual de arriamento, deu as costas e voltou em silêncio para a senzala. Muito em breve, ela veria o feitor enlouquecer e a vingança estaria feita.

A notícia correu por toda a fazenda. O feitor acordou no meio da noite aos gritos, gritos de quem estava sendo enforcado enquanto dormia. Deu-se busca na casa toda e não havia ninguém.

Toda noite era a mesma gritaria, até que o senhor da fazenda mandou interná-lo num hospital para loucos. Naqueles tempos, virava e mexia, um feitor enlouquecia. Isso era coisa dos negros. Não se podia judiar demais deles. O senhor da fazenda avisara. Mandou ter cautela. Devia bater quando preciso, mas não humilhar ou torturar. Uma surra bem dada bastava. Aquele feitor havia passado dos limites.

— Teve o que merecia. – disse o senhor da fazenda em voz baixa, dando de ombros e já preocupado em contratar um novo feitor.

Castigo e libertação

Para ele, era insuportável vê-la dançar diante de toda a tribo. Somente ele devia vê-la assim, linda e sedutora. Ela parecia não se importar com ele e com os seus sentimentos. A música parecia fazer com que ela levitasse. Seu corpo girava ao som dos tambores e pandeiros. As palmas davam um ritmo frenético a sua dança. Quando ela girava, sua saia, em vários tons de verde, se abria num leque colorido. Seu sorriso encantava a todos: homens, mulheres e crianças.

Brigas sucessivas haviam feito com que quase não se falassem. Ele a amava e não compreendia por que ela insistia em se expor desse jeito, como se fosse solteira e sem ninguém por ela. “As mulheres deviam manter-se recatadas depois de casadas” –  pensava Ramirez. O seu rei havia falado, certa vez, o contrário disso. Que as mulheres eram tão livres quanto os homens. Para Ramirez, essa ideia era avançada demais. Ele não a compreendia. A mulher era do marido e dos filhos, e era nisso que ele acreditava.

Triste e angustiado, ele se afasta da festa, sentando-se solitário. De repente, sente que alguém se aproxima. Levanta a cabeça e a vê. Ela vem em sua direção. Ele sabe o que ela vai falar. Sabia que ela já tinha consultado o conselho da tribo, mas se recusava a acreditar.

Quando ela lhe comunica que vai deixá-lo, o seu coração se fecha e esfria como uma pedra de gelo. Todo o seu corpo endurece e já não sente qualquer emoção. Silencioso e com um ódio que beira a insanidade, ele arranca seu punhal da cintura, abraça-se a ela e, num golpe só, arranca-lhe a vida.

Ela cai desfalecida. Um lampejo de consciência toma conta dele e, antes que enterre a faca em seu próprio peito, condena-se a nunca mais ser feliz.

O soldado

O sentimento patriótico enchia o seu coração. Sentia-se honrado em vestir aquele uniforme e ser parte da multidão de soldados enfileirados. Ele fazia parte de algo grandioso. A sua solidão tinha se acabado desde que se alistara para aquele exército que agia sobre o comando daquele homem que falava de uma raça superior e de homens valentes que lutavam pela sua pátria e pela sua gente.

Ele era um deles. Passou a vida sendo escorraçado pelos seus companheiros de infância por ser muito magro e alto. Chamavam-no de tudo que era nome. Salsicha comprida era o que ele mais odiava. Mas ele se tornara um homem grande e forte. Os anos de serviço no exército deram-lhe ombros largos, braços musculosos e uma força invejável. Sempre vencia na queda de braço e a sua reputação fazia com que o temessem. Ninguém mais o insultava. Ao contrário, ele era admirado por homens e mulheres. Gostava disso e procurava se exibir sempre que podia.

Naquele dia especial, o exército estava na praça para comemorar mais uma vitória. As tropas sob o comando dos seus oficiais estavam alinhadas. O próprio comandante, em instantes, desceria do palanque para apertar a mão dos oficiais e dos soldados que mais se destacaram nas batalhas. Ele era um deles. Isso era uma grande honra. Depois ele iria para um salão onde seria servido um banquete para todos os oficiais e os melhores soldados e ele poderia, finalmente, aproximar-se do grande líder.

Quando entrou no salão onde o banquete seria servido, encontrou vários oficiais e alguns soldados conhecidos. Cumprimentou a todos com cordialidade, mantendo-se educadamente em pé enquanto o líder máximo da nação não chegava. Quando ele entrou no salão, uma salva de palmas arrebentou num crescendo, seguida da saudação costumeira: todos erguiam o braço direito saudando seu comandante em chefe.

O grande homem sentou-se para escutar a música que seria tocada ao piano antes que servissem o banquete. Em silêncio, todos ouviram a música de Wagner tocada magistralmente pelo seu pianista preferido.

O soldado emocionou-se, ao ponto de sentir que seus olhos marejavam. Que líder magnífico! Além de grande estrategista militar e político, era um homem que sabia admirar as artes. O amor por aquele homem brotou no seu peito fazendo com que ele tivesse certeza de que jamais abandonaria os exércitos, enquanto fossem comandados por ele.

Quando tudo foi revelado, ele, juntamente com outros soldados e oficiais, lideraram um grupo que forjaria provas para inocentá-lo. Se para o inimigo não havia pudor em forjar provas para acusá-lo, para eles também não haveria pudor em forjar provas para inocentá-lo.

Mas eles eram muito poucos contra várias nações ultrajadas e o movimento sucumbiu, sem ter conseguido apresentar uma defesa sequer.

Ele não acreditava em nada do que diziam. Era impossível para ele acreditar que aquele homem que ele vira no banquete, com uma personalidade encantadora, teria sido capaz de ordenar aqueles horrores dos quais estava sendo acusado.

Quando não havia mais pelo que lutar e tudo estava acabado, ele voltou para o campo e guardou o seu uniforme como recordação de um tempo em que havia sido muito feliz.

Marguerite

Marguerite caminha com passos acelerados pela rua calçada com pedras grandes e irregulares que dificultam a caminhada. Seus sapatos, já gastos, machucam os pés em contato com a irregularidade das pedras.

Ela está apressada. As pessoas precisam da sua ajuda. Está calor e o bafo morno faz com que o suor escorra pelo seu rosto. Com a barra da saia de tecido rústico, ela enxuga a testa após parar por um instante para descansar. Ela sabe que não está bem. Não se alimenta há muitas horas e não há água que seja confiável. Dizem que a urina dos ratos é que trouxe a doença e isso pode estar contaminando as águas. É preciso ferver a água para depois beber. “Mas quem tem tempo para isso com tanta coisa a fazer e pessoas a acudir?” – pensa ela.

Sente que tudo a sua volta começa a girar. Tenta gritar pedindo ajuda aos que passam apressados como ela, mas não consegue. Cai e ninguém a ajuda. Todos têm medo da doença. Dizem que só de olhar, a pessoa já se contamina. Rapidamente arrastam seu corpo para um vão existente entre duas construções e lá a deixam, imaginando que ela está morta.

Agonizante e com o corpo coberto de ratos que devoram as extremidades do seu corpo, Marguerite pede a morte – que chega, após uma intensa hemorragia causada pelos ferimentos.

Encontro

Os três homens montados em seus cavalos correm no campo aberto liderados pelo cigano Igor, jovem, belo e forte. Sua força e determinação em vencer o colocam na liderança da corrida. Essa força vem da certeza de que, ao voltar para a tribo como campeão, receberá o olhar orgulhoso de Sarah, a linda cigana pela qual se apaixonara perdidamente.

Nuvens negras se juntam no céu, anunciando o temporal que não tarda a cair. É preciso buscar abrigo fora das copas das árvores e em lugar fechado e seguro.

Igor, Ramirez e Solano se dirigem para a casa pequena que veem ao longe. Ao se aproximarem, os ciganos são saudados por um homem velho que os convida a entrar. Eles entram e se acomodam como é possível no pequeno espaço da sala onde há uma lareira, uma mesa de madeira grossa e duas cadeiras. Acomodada em um pequeno banco de madeira está uma menina que não teria mais do que quatorze anos.

— É minha neta, Ashmira, diz o velho. Ela perdeu seus pais numa emboscada e hoje vive comigo.

O cigano jovem cumprimenta-a:

— Meu nome é Igor – diz ele com um largo sorriso.

O rosto da jovem avermelha-se e ela não consegue dizer palavra alguma…

A chuva rapidamente passa e os homens, agradecidos, despedem-se convidando seu anfitrião e sua neta a irem ao acampamento para a festa da primavera que acontecerá em alguns dias. Igor se compromete a ir buscá-los em agradecimento pela acolhida.

O dia da festa chegou. As carroças, em círculo, estão enfeitadas com fitas coloridas e lampiões que à noite, quando forem acesos, darão brilho e alegria à festa. A grande fogueira ao centro já está montada.

Igor se prepara para cumprir a promessa feita ao velho senhor e sua neta. Enquanto se dirige à pequena carroça utilizada para fazer pequenas viagens, encontra Sarah que lhe acena ao longe, sem muito entusiasmo. Igor sempre soube que ela não o queria. Alimentara falsas esperanças, mas agora ele já estava determinado a esquecê-la e, para isso, sabia que precisava encontrar um novo amor.

Durante a festa, Igor fica bastante tempo com Ashmira e seu avô. Nasce entre os dois uma bela amizade que, com o tempo, vai se transformando em amor.

Igor a pede em casamento – para a felicidade do seu avô que, agora, não precisa mais se preocupar: Ashmira tem quem cuide dela.

Depois de casados, passam a viver na tribo. Certa noite, Ashmira começa a ficar aflita. Igor já deveria ter chegado… Por onde andará?

Quando está prestes a dar o alerta, ouve a voz dele. Ela olha pela janela da carroça e vê uma mulher de costas que conversa com o seu marido. A energia que emana deles é de intimidade. Ashmira havia sido iniciada nos conhecimentos e podia sentir essa energia.

Igor entra na carroça, calado e de olhos baixos. Ela se aproxima dele e, cheia de sabedoria, diz:

— Que o meu amor te proteja de ti mesmo. Que o meu amor seja para mim e para ti. Que ele te salve de tuas fraquezas e te liberte dos sonhos que não são realidade, fazendo com que me enxergues ao teu lado, pronta para amar-te e acolher-te. Não importa pelo que foste vencido. Estarei ao teu lado sempre.

Tomado de forte emoção, Igor cai em prantos pedindo-lhe que o perdoe. Ashmira o abraça. Em seu coração, ela sabe que, por um instante, ele se fora dela mas, agora, ele estava ali. Isso bastava para ela.

Um presente

A noite está fria. Sozinha no alto do castelo, Anne chora.

Todos dormem. Ela não consegue dormir porque se arrepende de tê-lo mandado embora. É seu grande amor.

Apesar de não ser de linhagem real, é o comandante da guarda e seu pai, por certo, pesaria isso e não o puniria, caso viesse a descobrir. Do que ela tem medo então? Por que o mandou embora?

No silêncio da noite, Anne ouve passos que sobem silenciosamente as escadas em direção à torre. “Provavelmente, algum guarda fazendo a ronda”, pensa. Dar-lhe-á qualquer desculpa. Atrás dela, ouve uma voz conhecida:

— Senhora.

Ela se volta e ele está lá, como um milagre.

— Mas como? Diz ela sem acreditar. Eu o mandei embora.

O cavaleiro alto e forte ajoelha-se e, emocionado, declara:

— Sinto senhora, não pude ir e não posso deixá-la. Mesmo que me enxote como a um cão, eu permanecerei na sua porta até que me aceites novamente. Não posso viver sem a vossa presença e sem o vosso amor. Perdoa-me.

As lágrimas correm pela face de Anne e seu coração parece que vai explodir. Fica tonta e sente que suas pernas amolecem.

Percebendo que ela vai cair, ele a segura em seus braços. Ao se tocarem, é como se tudo em volta deixasse de existir. São levados por um sentimento que é maior que eles próprios. É além da compreensão humana. É quase divino. São um do outro. São complementares. Não podem viver separados. São um só. Duas partes que se juntam e são todo o Universo. Juntos, são capazes de explicar a criação e de traduzir a unicidade.

Naquele momento, tudo isso lhes é revelado e descobrem que por toda a eternidade se buscarão. Pela graça divina, puderam se reencontrar naquela vida. Isso é um presente.

Acerto de contas

O que ele sentia o deixava confuso. Como uma mulher podia provocar isso num homem? Era algo que ele se perguntava e não encontrava a resposta. Sempre que a via por trás da cerca viva que separava a sua casa da estrada, o seu coração batia acelerado no peito e um calor tomava conta do seu corpo. Era desejo, misturado a um sentimento que ele nunca havia sentido. Era como se ele pudesse ser capaz de dar a sua vida para salvá-la, se fosse necessário.

— Aquilo era uma loucura, pensou o Cavaleiro. Um ser humano não pode ser invadido assim por outra pessoa e entregar-se a isso sem lutar.

Ele lutaria. Trataria de saber dos defeitos da sua amada para colocá-la num lugar mais real dentro dele. Não podia permitir que ela se tornasse dona dele, mesmo não tendo a menor ideia de que tinha esse poder. Ele cuidaria de modificar isso antes que ela percebesse o poder que tinha sobre ele.

Com esses pensamentos fervilhando na sua mente, o Cavaleiro acelerou a cavalgada que o levaria à casa de seu amigo, cuja filha havia lhe tirado o sossego desde a primeira vez que a vira.

Ao chegar à casa foi saudado pelo amigo que o convidou para entrar, oferecendo-lhe uma caneca de vinho e convidando-o para o almoço. “O convite veio em boa hora”, pensou o Cavaleiro. Seria uma boa oportunidade de observar a sua amada mais de perto.

Ao vê-la entrar no aposento, levantou-se e fez a reverência de praxe.

— Como vai, senhora? Perguntou num tom cortês que em nada denunciava a sua emoção ao vê-la.

— Muito bem. E o senhor, como tem passado? – perguntou a moça educadamente.

— Sinto-me muito bem e agradeço pela hospitalidade de seu pai e a vossa.

— Sinta-se à vontade. – respondeu ela, e voltando-se para o pai completou:

— O almoço está pronto. Devo pedir que o sirvam?

O pai olhou para a filha com orgulho. Ela crescera sem a mãe que morreu ao dar-lhe a luz. Assim que se tornou adulta, assumiu as responsabilidades da casa com graça e competência.

— Sim, estou faminto e creio que o nosso convidado não se importará em ter um suculento prato de cozido de carneiro a sua frente, não é meu caro? – disse o pai voltando-se para o Cavaleiro.

— Pelo contrário, senhor. Será muitíssimo bem-vindo nesse momento. – respondeu prontamente o Cavaleiro.

Os dois riram do comentário e levantaram-se indo em direção ao aposento onde a mesa estava posta.

Os três sentaram-se, sendo servidos pelos empregados que aos poucos foram trazendo os pratos: cozido de carneiro com ervilhas, uma torta de galinha, alcachofras cozidas no azeite e favas ao molho de ervas. Um vinho tinto seco acompanhava a refeição.

Todos comeram satisfeitos enquanto conversavam sobre a época do ano, as colheitas, a segurança nas estradas e outros assuntos do cotidiano.

O Cavaleiro, entretanto, discretamente, observava o comportamento da sua amada. Era uma mulher simples que tratava os empregados com carinho. Alimentava-se bem e sem pudor. Não era como as outras moças que comiam pouco diante de um homem para que parecessem regradas e frágeis a um possível pretendente. Ela parecia não se importar se ele era ou não um possível pretendente. “Isso podia ser um mal sinal”, pensou ele. Um sinal de que, para ela, ele nada significava. Bem, suspirou, teria que conviver com isso, caso fosse verdade.

Terminado o almoço, levantaram-se e passaram para a outra sala para saborear um licor. Quando se viram novamente a sós, o Cavaleiro e seu amigo, ele encheu-se de coragem e disse:

— Meu caro amigo, devo lhe dizer o que me trouxe aqui sem me fazer anunciar com a antecedência que requer a boa educação.

Vendo que o amigo ia interrompê-lo para dizer que ele era sempre bem-vindo a qualquer hora em sua casa, o Cavaleiro fez um gesto com a mão, dizendo:

— Sei que sou bem-vindo a sua casa e espero não ofendê-lo com o que vou dizer, mas preciso ser leal a sua amizade. Apaixonei-me por sua filha e desejo fazer-lhe a corte.

O pai ficou em silêncio por um tempo, sentindo certa pena do rapaz a sua frente. Mais um apaixonado pela sua filha. Ele tivera pelo menos umas cinco visitas antes desta, com o mesmo objetivo. Como sempre, a sua resposta seria a mesma.

— Meu caro amigo, a mim alegraria enormemente que você cortejasse a minha filha. Sei que você seria capaz de fazê-la muito feliz e de honrá-la, mas eu a criei para ser livre e cabe a ela dar a resposta. Para que isso não se estenda por mais tempo, peço-lhe que espere aqui, enquanto falo com ela.

Dito isso, levantou-se, sendo seguido pelo Cavaleiro que, polidamente, também se levantou e saiu da sala. Enquanto caminhava para encontrar a filha, pensava se a havia educado da forma correta, livre para decidir sobre a sua vida. Ele não aguentava mais dizer não aos pretendentes que visitavam a sua casa. “Quem sabe ela aceita esse.” –  pensou, dando um suspiro que indicava desesperança.

— E, então, filha, o que me diz? – perguntou ansioso.

— Pai, não me sinto envolvida por ele e nem preparada para o casamento. Desejo estudar e conhecer outros lugares. Se me casar agora, não terei essa oportunidade. Não estou apaixonada por ele e nem por ninguém. – respondeu a moça olhando fundo nos olhos de seu pai para que ele tivesse a segurança de que ela dizia a verdade que habitava o seu coração.

— Está bem, minha filha. Farei com que ele não se ofenda e que se conforme com a sua decisão. – respondeu o pai pesaroso.

Enquanto retornava para a sala onde estava o Cavaleiro, o pai pensou que era melhor permitir que a filha viajasse e estudasse antes que todos os homens solteiros da região fossem até a sua casa e ele tivesse que dizer não a todos eles.

Ao entrar na sala, encontrou o Cavaleiro em pé, aguardando ansioso. Respirou profundamente e falou com o tom mais suave que conseguiu imprimir à sua voz:

— Meu caro amigo, a minha filha vai viajar e estudar. Eu prometi isso a ela e, antes que eu cumpra essa promessa, ela não aceitará a corte de nenhum pretendente. Quem sabe quando ela retornar possamos conversar novamente sobre isso.

O Cavaleiro levantou-se, fez uma mesura, agradeceu a hospedagem e partiu. Quando já estava na estrada um pensamento o confortou: “Se ela não foi capaz de enxergar o que tenho para lhe oferecer é sinal de que não me merece.”

E seguiu o seu caminho cantarolando uma canção, sentindo-se liberto do poder dela. A sua recusa o havia libertado. No que dependesse dele, nunca mais a veria.

Mirah

Mirah estava linda! Seu vestido amarelo, bordado com fios dourados, e a coroa de flores coloridas que trazia em sua cabeça faziam com que ela parecesse uma fada saída da floresta. Seus dez anos estavam sendo comemorados por toda a tribo. Ela era uma criança muito amada. Toda a tribo estava em festa pelo seu aniversário.

Quando Mirah nasceu, trouxe grande alegria. Ela não era esperada. Mavna, sua mãe, morrera ao dar-lhe a luz, deixando duas outras filhas: Sanmira e Sarah que já eram mulheres feitas.

— Ganhei muitos presentes, mas o melhor deles estava sendo aquela festa, pensou Mirah.

Sua irmã, Sarah, dançava lindamente em torno da fogueira e, de vez em quando, pegava em suas mãos e a girava, brincando com ela. Mirah amava a sua irmã. Sarah era tão alegre e linda… Mirah queria ser como ela. Alegre e linda. Sua outra irmã, Sanmira, estava noiva de Solano, com quem se casaria em breve.

Mirah nasceu antes do tempo e cresceu uma criança franzina e doente. Sanmira cuidava dela como se fosse sua filha. Sarah também ficava com ela, mas era livre demais para preocupar-se com remédios e cuidados. Sarah trazia para Mirah a festa e o riso, e Sanmira, os cuidados e o conforto.

Quando Sanmira atendia as pessoas que vinham para ler as cartas e saber de negócios, amores ou saúde, Mirah sempre ficava junto a ela e, muitas vezes, dormia aconchegada nas almofadas da tenda.

Solano, noivo de Sanmira, amava a menina e ela a ele. Viviam as gargalhadas e, para Mirah, era muito doloroso vê-lo partir para caçadas ou para fazer algum negócio em terras distantes. Sentia sempre muita saudade dele.

Com a chegada do frio, Mirah foi acometida por uma doença grave nos pulmões. Sanmira, Solano e Sarah desdobraram-se em cuidados e não saíam de perto dela, em nenhum momento. Revezavam-se à beira de sua cama até que, numa noite fria de inverno, ela morreu.

Antes de morrer, de mãos dadas com Solano e com a cabeça apoiada no peito de Sarah, ela desejou encontrá-los novamente num outro tempo e num outro lugar.

Quando Sanmira chegou, Mirah já estava morta. Sanmira sentiu em torno deles uma forte vibração energética e pediu aos Mentores de Luz que pudesse estar por perto para que, na hora e no tempo certo, ela fosse digna de auxiliar no que fosse preciso.

Solidariedade

Poline corre. Suas pernas já não respondem. Ela não aguenta mais. Quer esquecer tudo. Nada mais há na sua vida. Tudo lhe foi tirado. A dor que sente no peito colocará fim à sua vida. Ela vai correr até que não tenha mais forças para viver. Com um último suspiro, cai desfalecida.

O cheiro da comida desperta em seu corpo a luta pela vida. Geme baixinho. Mal tem forças para respirar. Sente que a erguem da cama. Com uma colher, a mulher força a sua boca a abrir-se, derramando dentro dela um líquido quente e saboroso.

Aos poucos, seu corpo esquenta. A mulher, carinhosamente, fala com ela pedindo-lhe que seja forte, dizendo que para tudo nesta vida há conserto. E a sopa é devorada lentamente e em pequenos goles. Poline dorme mais uma vez. Seus sonhos são povoados de imagens.

Uma fogueira. Festa. Seu vestido de noiva lindo, feito com renda comprada por sua mãe que amorosamente o havia costurado para ela. Um pedaço enorme de carne é assado no espeto que é girado pelos homens da tribo. As mulheres dançam ao som dos pandeiros e tambores. Cantam e bebem o vinho da celebração. Uma mulher se aproxima. Seu rosto está desfigurado pela dor. Ela grita loucamente. Uma faca. Seu amado sangra. Dá-lhe um último adeus.

Com um grito, acorda. Seu corpo arde em febre. A mulher canta ao lado da cama. Ou seriam palavras mágicas o que ela diz? Ervas queimam ao seu lado. Um líquido quente é colocado em sua boca. O ar fresco entra pela janela da carroça. Ela se acalma.

Em meio ao seu delirar, Poline ouve a mulher conversando com alguém, cuja voz lhe é familiar.

— Não se preocupe senhora, cuidarei dela até que se recupere fisicamente. A tragédia que lhe aconteceu tirou dela a vontade de viver. Ela precisa de cuidados espirituais para que o mal acontecido em torno dela não a contamine mais. Venha todos os dias se desejar e eu lhe darei notícias mas, agora, ela precisa de cuidados energéticos e espirituais.

Poline se recupera ao longo de dias. Os cuidados de Sanmira são fundamentais para que ela volte à vida.

— Há quanto tempo estou aqui? – pergunta Poline.

—Há três semanas, minha querida. O tempo necessário para que você desperte novamente para a vida. – responde Sanmira.

— Não sei como lhe agradecer. – diz Poline tomada pela emoção da gratidão.

— Apenas lute pela sua vida. Fortaleça a sua fé no amor e na vida, buscando a compreensão mais profunda. Faça sempre uma oração ao deitar-se e ao levantar-se. Seja grata pela vida e por tudo o que possui: o amor de seus familiares e amigos, seus bens materiais e sua força interior. Com o tempo, todas as feridas cicatrizam. O remédio para curá-las é o amor divino que encontramos nas boas ações e nos bons pensamentos. – fala Sanmira com voz doce e aveludada.

— Muito obrigada, senhora! – diz Poline, dando-lhe um forte abraço.

Sanmira acompanha a jovem mulher com o olhar até que a vista já não mais pode alcançá-la. Em seu coração, agradece pelo seu amado e por ser uma iniciada nos mistérios.

Esperança

O cavalo empinou reagindo ao susto que lhe provocou a cobra que, displicentemente, passava pelo caminho. O cavaleiro praguejou e tratou de firmar-se na sela.

— Com tantos perigos a enfrentar, ainda mais essa, pensou.

Seu manto cor de terra cobria todo o flanco do cavalo que, por ser marrom, tornava aquela figura um tanto mágica. Quem os visse de longe, poderia imaginar que ali havia um centauro, meio homem meio cavalo.

De fato, a ligação que aqueles Cavaleiros tinham com o seu animal era algo muito especial. Conversavam com ele e sentiam um ao outro. Nas batalhas, essa relação era imprescindível. Ele mesmo já havia sido salvo por ela algumas vezes. Numa delas, o seu cavalo antecipou um golpe de espada, desviando-se dele, quanto ele mesmo não o havia percebido.

As batalhas eram muitas naquela época. Lutava-se por tudo, e ele lutava para que a palavra do Mestre fosse dita nas terras mais distantes.

Sua roupa era seu passaporte. Com a cruz vermelha entalhada no peito da roupa que vestia, ele atravessava longas distâncias sem ser incomodado. Os templários eram conhecidos pela sua força e generosidade.

Quando chegavam a alguma aldeia, logo as pessoas se reuniam para ouvi-los falar. Falavam de um lugar onde a dor tinha conforto e onde os homens eram livres. Falavam do amor e da caridade. Suas palavras tinham o poder de aliviar os aflitos e dar esperança aos desesperados. Era como se uma luz entrasse no coração dos homens. Eram temidos também, por serem bravos guerreiros possuidores de uma força desconhecida.

Arianto desceu do cavalo e com palavras suaves e carinhosas o acalmou. Num riacho que havia próximo dali, deu de beber ao seu animal e refrescou-se também.

A jornada ainda era longa, mas seu coração estava em paz. Levaria a palavra do Mestre. Essa era toda a sua verdade.

Madeleine

Ela não sabia mais para onde ir. Sentia fome e frio. Fora enxotada da casa onde trabalhava por comida e abrigo. Esfregava o chão, limpava os urinóis, lavava e passava a roupa, dia após dia.

Antes de dormir, comia as sobras dos donos da casa. Essa era a sua única refeição do dia. Quando todos se recolhiam, ela estendia um pano surrado ao lado do fogão e dormia um sono sem sonhos. Há dias não tomava banho. A senhora dizia que ela não podia gastar água lavando-se a si mesma. Ela aproveitava a água da roupa suja para lavar-se às escondidas. Se fosse pega, levaria uma surra que deixaria marcas doloridas em seu corpo por vários dias.

Ela não teve culpa. Fora o senhor que no meio da noite tentou agarrá-la a força. Ela gritou e foi acusada de tê-lo seduzido.

— Sua zonza, dizia a senhora. Fica andando pela casa como uma cobra sorrateira. Eu que lhe dei cama e comida. Ponha-se daqui para fora, sua meretriz.

Tudo isso foi dito aos berros enquanto ela era arrastada no meio da noite pelos cabelos e jogada na rua gelada em meio a neve que caia.

Madeleine não tinha ninguém por ela. Seus pais haviam morrido com a peste e seus irmãos foram doados para famílias que precisavam de empregados. Ela também fora doada, mas era bonita demais e, apesar de ter somente doze anos, despertava o ciúme das senhoras.

Gelada e cansada, ela encontrou abrigo no vão de uma escada. Encolheu-se como pode e caiu no sono, desligando-se de tudo. Acordou com um chute na costela. Uma mulher muito bem vestida e muito bonita estava a sua frente. Quando viu que ela abriu os olhos disse:

— O que faz aqui, mendiga? Vamos, saia debaixo da minha escada. Daqui a pouco os clientes chegarão e não vai ficar nada bem eles virem uma mendiga na porta do meu estabelecimento.

— Me desculpe senhora, respondeu a menina levantando-se e arrumando a saia.

— Ora, vejam só. Até que você é educada. Como se chama?

— Madeleine, senhora, disse a menina abaixando o corpo num cumprimento.

— Olhe para mim, Madeleine, disse a mulher num tom autoritário.

A menina, receosa de que pudesse levar outra surra, levantou o rosto para a senhora que pegou em seu queixo, examinando-a.

— Abra a boca! – ordenou, analisando os dentes da menina.

— Já se deitou com algum homem? Perguntou a mulher olhando fundo nos seus olhos.

A menina corou muito e nada disse.

— Pelo rubor no seu rosto vejo que ainda não conheceu um homem. Muito bem. Você quer trabalhar para mim, mocinha?

A menina não acreditou no que ouviu. Era muita sorte. No dia seguinte à expulsão da casa onde trabalhava, conseguir um emprego assim, caído do céu. Ela não teve dúvida. Com um aceno de cabeça aceitou o convite, acompanhando a mulher.

Anos depois, quando se lembrava daquele dia, ficava imaginando o que teria acontecido se ela não tivesse dormido debaixo daquela escada e se aquele homem não tivesse tentado violentá-la. No final, ela sempre concluía que jamais saberia.

O fato é que, apesar da dor sofrida por todas as humilhações pelas quais passou, ela tinha um teto seu para morar, comida na sua mesa e uma pequena fortuna em joias e propriedades. Perdera a conta de quantos abortos havia feito e com quantos homens se deitara. Tivera a febre das prostitutas e conseguira sobreviver. Foi ameaçada de morte e escorraçada nas ruas pelas senhoras de família, mas sobrevivera a tudo isso e sobreviveria sempre. A sua vida lhe pertencia e ela faria dela o que bem entendesse, a qualquer dia, hora ou lugar.

Cheia de determinação, terminou a maquiagem, colocou o chapéu alto, última moda naquele verão em Paris, apanhou a bolsa e desceu para pegar a carruagem que a levaria ao castelo.

Simeão

Anoitecia. Os cavalos estavam cansados e era preciso apear para alimentá-los e para descansar. O dia seguinte seria puxado. Eles precisariam chegar ao seu destino, de qualquer maneira.

Com um gesto de mão, Aragorn deu o sinal de parada. Simeão estava bem atrás dele e repetiu o gesto que foi passado a todos os outros. Todos apearam e, de joelhos, fizeram a oração costumeira: “Mãe de todos nós, que a Tua luz nos proteja durante toda a noite a fim de que possamos levar a palavra de Vosso Filho, nosso amado Mestre Jesus, a todos que a esperam. Por amor a Vós. Amém”.

Fizeram a reverência costumeira, um círculo com os cavalos e riscaram um outro círculo em volta deles. Retiraram os alforjes e as selas, conversando com os animais e acariciando-os. Os templários amavam os seus cavalos como se amavam mutuamente.

Simeão levou o seu cavalo para a beira do rio para que ele bebesse água e aproveitou para beber também. Estava cansado. Já não era tão jovem. Os mais novos contavam com a sua sabedoria e astúcia naquelas viagens. Ele era capaz de sentir o perigo a distância e de pressentir quando uma caça estava próxima, o que rendia a todos ótimas refeições.

Esta noite comeriam em volta da fogueira, que já ardia no centro do círculo, o que restou do almoço e ele lhes contaria uma história.

Olhou para o céu e silenciosamente pediu numa prece que a Mãe Maior lhe inspirasse, para que ele encontrasse uma boa história que animasse a todos.

Simeão retornou ao acampamento e aproximou-se do fogo, servindo-se de um naco de carne e de um pedaço de pão.

Os companheiros já estavam em volta da fogueira, sentados como podiam, em tocos ou pedras, com suas mantas enroladas em torno do corpo. A noite na mata era fria e era necessário aquecer-se.

O jovem Agripino, que já havia terminado a sua refeição, falou:

— Então, caro Simeão, que história tem para nós esta noite?

—Calma, meu rapaz, respondeu Simeão. Espere até que eu termine a minha refeição. Ao final dela, saberei que história lhes contar.

Agripino sorriu feliz. Que bom, pensou, as histórias de Simeão eram sempre tão bonitas e cheias de significados.

Enquanto mastigava, Simeão transportou sua mente para outro tempo.

O Mestre dizia, enquanto todos comiam:

— Feliz do homem que tem amigos e que com eles se alimenta. Pois não é a comida o alimento para o corpo e a amizade o alimento para o espírito? Sabeis todos vós: afortunado é o homem que tem amigos, muito mais do que aquele que possui riquezas.

Lembro-me de um homem cuja riqueza somava propriedades e joias, óleos e vinhos caros. Esse homem não nasceu rico. Ao contrário, construiu a sua riqueza com o suor do seu rosto. Desde a infância, tinha um único amigo o qual visitava regularmente. Com o passar dos anos e devido ao crescimento dos negócios, afastou-se dele e quando pode procurá-lo novamente, soube que ele havia se mudado e ninguém sabia de seu paradeiro. O homem rico ficou pesaroso, mas confiou que veria novamente o seu amigo, em qualquer daqueles dias. 

Os anos se passaram. Um belo dia, ele estava sentado em sua cadeira de repouso após o almoço quando um servo veio lhe avisar que um homem, vestido em farrapos, insistia em falar com ele. O que deveriam fazer? Dar-lhe um prato de comida e mandá-lo embora? Perguntou o servo.

— Não. Nada disso. Vou ver do que se trata. 

Então, para a surpresa do homem, seu amigo estava ali, na sua frente, velho, abatido e vestido em farrapos. 

Imediatamente, o homem rico chamou os seus servos e ordenou que cuidassem dele. Que chamassem um médico e lhe oferecessem toda a assistência necessária para a sua recuperação.

 O amigo, caindo em prantos e de joelhos diante do homem rico, disse:

— Perdoe-me meu amigo. Eu fui embora porque não aguentei ver a tua prosperidade, quando eu mesmo nada tinha. Mas a vida foi dura comigo e eu não tive escolha senão bater a tua porta e pedir-te ajuda e perdão. 

Ao que o homem rico respondeu:

— Pois de agora em diante, tu morarás comigo e serás, além de meu amigo, meu conselheiro particular. Dar-te-ei um bom salário e tu viverás para sempre bem e confortável. 

Ao terminar a história Simeão completou:

— Ao verdadeiro amigo nada se nega. Tudo se concede quando ele, de boa vontade e de coração aberto, lhe pede. A um verdadeiro amigo se estende a mão. Isso honra a Deus e a nós mesmos.

Dito isso, deu boa noite a todos, virou-se para o lado e adormeceu, embalado pela intensa luz prateada que havia à sua volta e que todos podiam ver.

Descoberta

As bandeiras tremulavam em seus mastros colocados em torno da grande arena. Arquibancadas foram dispostas ao redor de onde as lutas aconteceriam para que todos pudessem assistir a cada detalhe do torneio.

De cada lado das arquibancadas se reuniam as pessoas que torciam por cada bandeira. Os que apreciavam a da Ordem sentavam-se espalhados entre os admiradores das bandeiras amigas. A Ordem não podia competir com a sua bandeira, mas usava a dos Lordes, amigos da causa.

O cavaleiro estava a postos. Em poucos minutos, estaria no centro da arena lutando com o seu adversário. Já purificara suas mãos com o óleo sagrado feito especialmente para aquela ocasião com ervas especiais que tinham o poder de protegê-las contra o mal e a sua influência. A luta levava os homens ao desejo de matar. Os cavaleiros da Ordem não podiam correr esse risco. As lutas nos jogos eram diversão, muito embora todos soubessem tratar-se de uma demonstração de força. Os que venciam ganhavam respeito, admiração e proteção durante o ano todo.

Ele sabia disso e desejava vencer. Porém, não a qualquer preço. Saberia parar quando fosse preciso, mas lutaria com coragem e desejo de vitória.

Ao sinal do juiz, montou em seu cavalo, empunhou a lança e sentiu uma estranha energia. Algo dentro dele brotava, fazendo com que se sentisse superior e orgulhoso. Sabia que era forte e se agradava disso. Essa energia fazia com que fosse tomado de uma sensação de poder muito grande. Era algo que já sentira outras vezes, mas, agora, estava muito forte. Suas mãos começaram a queimar e a suar. A lança escorregava e ele não conseguia firmá-la. Vendo que o amigo não se mexia, seu companheiro correu até ele:

— O que se passa meu amigo. Não se sente bem?

Ele estava possesso de raiva e respondeu agressivamente:

— Estou ótimo! São as minhas mãos que não param de suar, impedindo que eu empunhe a lança!

O companheiro compreendeu imediatamente. O óleo estava cumprindo a sua função, impedindo que ele lutasse. Algo de muito ruim, energeticamente, estava acontecendo.

— Meu amigo, vamos pedir a troca de cavaleiros. Assim, você poderá recuperar-se e lutar em seguida – disse o companheiro com uma voz cheia de amor.

O juiz já havia dado a partida e o tempo estava passando. Se não tomassem uma decisão rápida, a vitória seria dada ao outro cavaleiro sem que a luta houvesse acontecido. A vergonha seria maior.

— Muito bem, peça a troca! – respondeu descendo do cavalo, largando a lança no chão e afastando-se com passos largos.

O companheiro subiu no cavalo, anunciando que ele próprio competiria naquela prova. “Os outros cuidarão de nosso amigo…” – pensou enquanto batia com a sua bota no flanco do cavalo que, atendendo ao seu comando, saiu em disparada para encontrar o cavaleiro que vinha a galope à sua frente.

Inconformado, ele se dirigiu à tina de água na qual mergulhou as mãos que ardiam. O frescor da água aliviou o ardor. O que havia acontecido? Por que ele não conseguira segurar a lança? Precisava de respostas.

Montou em seu cavalo e num galope veloz subiu a montanha em direção à caverna. Precisava falar com a Sacerdotisa.

Ao chegar, encontrou o guardião da porta que o impediu de entrar na Câmara de Recolhimento. A Senhora estava em profundo transe. Se fosse incomodada, poderia morrer.

Contrariado, voltou ao salão central. Sentou-se próximo de onde estava a cisterna com a água energizada e cobriu o rosto com as mãos num gesto de desespero. O silêncio era quebrado pelo marcador de tempo. Lentamente, o som do marcador foi invadindo a sua mente, trazendo-lhe tranquilidade. Tomado por uma grande letargia, recostou-se como pode e ali mesmo entregou-se a um profundo sono.

O Mestre dizia:

— Não se pode obrigar uma pessoa a ser o que ela não é, Judas. As pessoas devem por si só perceber que podem ser diferentes e desejar mudar. Não tome o que não é seu, meu amigo. Permita que do seu coração só venham bons sentimentos e que de sua boca só saiam boas palavras.

 Judas olhou para o Mestre e pensou o quanto ele era ingênuo. As pessoas eram maldosas por natureza e nada iria mudar isso. 

— Meu amigo, vou contar-te uma história – disse o Mestre, parecendo ler os seus pensamentos. Era uma vez um menino manco. Havia nascido com uma perna menor do que a outra. Por isso não podia brincar com as outras crianças porque tropeçava e atrapalhava a brincadeira.  Elas não tinham paciência com ele. O pai dele, que muito o amava, depois de muito pensar, foi a um sapateiro. “É possível, sapateiro, fazer um calçado com um solado maior do que o outro e que seja tão confortável que uma criança possa correr com ele sem que lhe saia dos pés?” “Bem, terei que fazer alguns testes. Volte daqui a uma semana e terei a resposta.” 

O pai do menino esperou com ansiedade. Ao final de uma semana, voltou ao sapateiro que lhe apresentou um calçado fantástico. Pagou o que ele pediu e voltou correndo para casa. Quando lá chegou, encontrou, como sempre, o seu filho triste encostado no batente da porta olhando para as outras crianças que estavam brincando. “Veja o que eu trouxe para você, filho!” O menino calçou os sapatos, amarrando-os bem e… Quando ficou em pé, surpresa. Ele não mancava mais.

Com um enorme sorriso no rosto, abraçou o pai e saiu correndo em disparada para brincar com as outras crianças. 

— O que me diz, meu caro Judas? – perguntou o Mestre sorrindo. Se até para uma criança manca é possível conserto, o que dirá para um adulto que pode, por si só, tomar as próprias decisões? É preciso, entretanto, que ele reconheça quem verdadeiramente é. E, para isso, muitas vezes, precisa de ajuda. 

Judas olhou para o Mestre e nada disse. Não encontrou nada que pudesse dizer diante dessa verdade. 

Ele despertou em prantos. Com a água da cisterna, lavou o rosto banhado em lágrimas. Que o amor divino permitisse que ele reconhecesse quem era, a fim de que o seu melhor sempre aparecesse. Do fundo do coração, agradeceu ao sagrado óleo que o havia impedido de lutar naquela tarde.

Abandono

O pai se agarra às gêmeas sem compreender. A mãe beija as filhas, dizendo que as ama e que elas, um dia, compreenderão. Pede perdão ao marido e entra na carruagem que a espera.

Ela precisa ir. Está tomada por uma força que é maior que ela. Pela sua sanidade, das suas filhas e de seu marido, ela precisa ir.

Quando o conheceu, não poderia imaginar que a força desse sentimento a tomaria de tal maneira que se ele partisse levaria junto com ele a sua respiração e, portanto, a sua vida. Então, por amor as suas filhas, ela partiria para que não morresse. Um dia voltaria. Sempre poderia voltar a ver suas filhas e, quem sabe, obter delas o perdão. Mas agora, ela tinha que ir. Pierre exigira isso dela, não lhe deixando alternativa. Ou seguia com ele ou morreria.

O pai deprime a tal ponto que já não pode mais cuidar das meninas. Suas irmãs, solidárias, tinham decidido cuidar das pequenas.

— Eu levo essa, disseram as duas ao mesmo tempo, arrastando cada uma para um lado. As meninas gritavam, apavoradas.

O pai, resignado, concordou. Suas filhas estariam melhor com as suas irmãs. Moravam distante uma da outra, mas o que se havia de fazer? Uma desgraça se abatera sob a sua casa.

As meninas são separadas e gritam até não terem mais forças. São levadas pelas tias para viver cada uma em um lugar diferente. Nunca mais se encontrarão nesta vida.

A mãe volta algum tempo depois e já não há mais a casa, o marido e as filhas. Ninguém lhe responde às perguntas e nem lhe dirige a palavra. Sozinha e cheia de culpa, inicia uma busca sem fim pelas filhas que abandonou.

Rancho Querência, Piracaia. Mergulhando na alma, se lembram…

Winston

A armadura pesava. Feita em ferro, servia para proteger os cavaleiros das lanças pontiagudas dos inimigos. Nos jogos, elas eram usadas como símbolo de masculinidade e força.

Em cima de seu cavalo, Winston era a figura do cavaleiro forte e arrojado. Já não era tão jovem, mas os anos de muito treino lhe conferiam a força da sabedoria aliada à força física.

Seu cavalo empinava, aguardando a luta que se iniciaria em breve. Pela bandeira do Duque Ófillo, Winston competiria, mas por quem lutava só ele e os seus companheiros de fé sabiam.

Sua Sacerdotisa aguardava, em recolhimento, as notícias que eles levariam das vitórias obtidas. Isso garantiria mais um ano de paz para a Montanha e a Vila. Ninguém ousaria atacar lugares em que havia cavaleiros que mostravam sua força vencendo nos jogos.

Winston sabia disso e, quando fechou o seu elmo, fez uma prece silenciosa para que a Mãe de todos os homens guiasse os passos de seu cavalo e o seu braço que empunhava a lança.

Sentiu por um momento a prece silenciosa de seus companheiros invadirem o seu campo de força e soube que não estava só. Que jamais estaria só enquanto existisse nessa terra e para além dela. Havia aprendido que o amor atravessa o tempo e as dimensões. Então, tudo estava bem. Faria o seu melhor.

Ao sinal do juiz, bate com as botas no flanco do seu cavalo que, entendendo o seu comando, sai em disparada. À sua frente, no lado oposto ao seu, o cavaleiro negro dispara para chocar-se com ele. Quem derruba o cavaleiro de seu cavalo, vence a luta.

Já do outro lado da arena, Winston vê o cavaleiro negro no chão. Mal tem tempo de dar-se conta do ocorrido, quando seus companheiros o arrancam da sela e saem em desfile pela arena carregando-o nos ombros. Comemoram com grande alegria mais uma vitória da Ordem.

Em seu recolhimento, Zuria sorri e de seu pensamento sai uma prece:

— Abençoada seja a força de todos os homens, tão necessária nestes tempos de evolução humana.

Suriad

O adorno de sua cabeça subia para o alto. Ali se juntava a um diadema de pedras vermelhas, verdes e azuis que rodeavam uma imensa pedra negra. O seu rosto emoldurado por esse adorno estava pálido. O que a aguardava? Que homem seu pai havia escolhido para seu marido?

Suriad escutava as batidas de seu coração, enquanto caminhava pelo chão forrado de pétalas de rosas vermelhas. Seus pés e mãos haviam sido adornados com desenhos pintados à mão pelas artesãs contratadas para essas ocasiões. Era um trabalho muito delicado e bonito. Suas vestes riquíssimas espalhavam as pétalas com o seu balançar, enquanto ela caminhava.

As mulheres faziam aquele som alegre, batendo com a língua no céu da boca; os homens batiam palmas, fazendo um leve cumprimento com um movimento de corpo à sua passagem. Uma cortina finalmente se abriu e ela o viu, sentado na cadeira do noivo. Um rapaz não muito alto, moreno como os povos do deserto e com um olhar tão assustado quanto o dela.

Assim que ela atravessou a cortina, ele se levantou dirigindo-se a ela com um colar de flores nas mãos. Colocando o colar em seu pescoço, disse:

— Seja bem-vinda, futura esposa. Ao que ela respondeu, colocando também no  pescoço dele um colar de flores que sua mãe lhe entregara:

— Agradeço o seu cumprimento e retribuo com a minha aceitação.

Em seguida, sentaram-se nas cadeiras dos noivos enquanto esperavam o início da cerimônia.

Suriad, tão bela, não havia tido muita sorte na vida. Filha de comerciantes, cresceu coberta de cuidados. De saúde frágil, atrasara-se no tempo em que deveria casar-se. Finalmente, seu pai conseguira para ela um marido pagando um preço exorbitante pelo seu dote.

Quando entraram no quarto que lhes fora destinado, Suriad espantou-se com a elegância com que fora decorado. Sua sogra não havia poupado esforços nem dinheiro.

Ricos tapetes nas paredes e no chão, e almofadas cobertas com tecidos finos com bordados em ouro adornavam o aposento. Ao lado, uma grande cômoda servia também de penteadeira com um espelho adornado de flores douradas. Encostada na parede, via-se uma arca. Suriad levantou a tampa da arca encontrando várias túnicas, uma mais rica que a outra.

— Seja bem-vinda ao nosso quarto, esposa – disse Aman.

Suriad olhou para o homem a sua frente que mais parecia um menino, e teve pena dele.

— Muito obrigada, esposo. Sei que seremos felizes aqui.

Mas Suriad não estava feliz. Quando podia, subia ao alto da casa de onde podia ver as estrelas e conversar com o firmamento. Tinha saudade de sua mãe e de suas irmãs. Não desejava estar ali, mas o que fazer? Ela era uma mulher, e uma mulher apenas obedece primeiro ao seu pai e depois ao seu marido.

Seu marido mal a via ou tocava. Na noite de núpcias, ele fora rápido e cumprira suas funções de marido. Dormia ao lado dela, mas via-se que ele também não era feliz. Às vezes a procurava, apenas para cumprir suas obrigações de esposo. “Por que as coisas eram assim?” Perguntava-se Suriad. E não havia resposta.

Então, um dia ela sentiu algo diferente. Um filho! Sim, ela estava esperando um filho. Pela primeira vez depois de casada, seu coração encheu-se de alegria. Quando contou para a família de seu marido, todos passaram a tratá-la como uma rainha. Até seu marido antes desinteressado, agora a cobria de presentes e joias.

Quando seu primeiro filho nasceu, ela soube que a felicidade era possível. Finalmente achara uma razão para viver. O amor que nascera em seu coração por aquela criança a havia salvado da solidão e da descrença. Cuidaria de seu filho como dela mesma. Depois vieram as meninas e outro menino.

Um dia, olhando para a sua neta mais nova que já estava se tornando uma moça, ouviu dela a seguinte frase:

— Vovó, as mulheres estão se reunindo para escutar a pregação de um homem que veio de terras distantes. Ele diz que todos devem ser livres e que o amor deve ser sempre a resposta para todas as nossas perguntas.

Suriad sorriu e pensou: “Sim. Isso eu sei há muito tempo”.

Paco

O dia está frio. O sol aparece um pouco pálido, mas o suficiente para esquentar o corpo do menino que tira o pesado colete de pele de carneiro que veste sobre a roupa rústica feita de grossa de lã, tecida no tear de sua mãe. Ele reúne o rebanho de ovelhas para que não se percam pela montanha, arriscando-se a quebrarem uma pata.

Do alto da montanha, de um lado, ele vê a sua casa de cuja chaminé sai a fumaça do fogão a lenha de sua mãe que prepara o almoço, enquanto bate a roupa na pedra agachada no chão ao lado da cozinha.

Mais ao longe ele vê o seu pai que, sentado num pequeno banco, cuida da horta retirando as ervas daninhas e o mato que, do dia para a noite, cresce por ali.

Seus três irmãos menores brincam correndo atrás das galinhas e dos patos numa brincadeira alegre que termina por jogar todos ao solo, exaustos.

Do outro lado da montanha ele vê a cidade onde as pessoas caminham apressadas pelas ruas com os seus negócios por realizar e compras por fazer. Ele não gosta de ir muito à cidade. Sempre que vai, volta aturdido com a multidão. Tem gente de toda a espécie. Árabes, judeus, cristãos, brancos e negros. Todos convivem em harmonia e se respeitam mutuamente. As diferentes religiões são professadas sem preconceito. Todos entendem que há um único Deus e não importa de que maneira Ele seja louvado.

Paco tinha quinze anos, mas apesar de jovem, compreendia as diferenças e aprendera a respeitá-las. Ele frequentava a Ordem da Rosa que não professava nenhuma religião, mas estudava e se valia do melhor de todas elas.

Era uma Ordem muito antiga que passara de geração em geração pela sua família. Sua mãe o levara nas reuniões desde que se tornara capaz de entender o que se estudava lá. Ele gostava de ir às reuniões e aprender sobre o mistério das coisas.

Como todos os que frequentavam a Ordem da Rosa, ele tinha o compromisso de manter em segredo o que aprendia e cumpria à risca esse acordo.

Naquela manhã, algo o estava incomodando. Na última reunião, os Iniciados disseram que Jesus havia sido um homem comum e que tivera uma família. Paco sentiu algo diferente dentro dele ao ouvir essa história. Ele não sabia explicar, mas sabia como buscar a resposta para esse sentimento de familiaridade que brotara dentro dele ao escutar aquele ensinamento.

Assim, reuniu as ovelhas próximas a ele e pediu a elas que não se afastassem enquanto ele estivesse com os olhos fechados. Por uma estranha razão que nem ele entendia, as ovelhas sempre obedeciam ao que ele lhes pedia.

Feito o pedido as ovelhas, Paco sentou-se encostado numa árvore frondosa, fechou os olhos, respirou profundamente e limpou a sua mente de qualquer pensamento, entregando-se para escutar a sua alma.

Jesus desenha na terra fofa, enquanto conta histórias para seus filhos menores, sendo escutado pelos mais velhos que, mesmo estando crescidos, continuam adorando as histórias de seu pai e sempre que podem se juntam aos menores para escutá-las.

— Então o menino assobiou, chamando as ovelhas porque já era hora de todos descerem da montanha para o jantar. Ele conhecia a todas elas e jamais perdera alguma.
Naquele dia, porém, ele deu falta de uma delas. Preocupado, assobiou novamente e esperou. Nada. A ovelha não apareceu. Então ele pensou:

— Será que ela se perdeu na montanha ou foi pega por algum lobo? Não! Isso é impossível. As ovelhas conhecem o terreno e não há lobos por esses lados. Então ele decidiu:
— Vou procurá-la. Levarei as outras para casa e depois vou voltar à montanha para procurá-la.

E assim ele fez. Desceu até a sua casa, guardou as ovelhas no cercado e foi avisar a sua mãe que subiria a montanha novamente para procurar a ovelha que se perdera. Sua mãe preocupada disse:
— Meu filho, já vai anoitecer e pode ser perigoso. Amanhã você procura por essa ovelha.
— Mãe, respondeu o menino, se eu for procurá-la somente amanhã, ela poderá estar morta. Fique tranquila, sei caminhar pela montanha e nada vai me acontecer.

A mãe não teve alternativa, senão concordar.
— Leve ao menos esse pedaço de pão e esse cantil com água, disse a zelosa mãe estendendo-lhe o pequeno pacote.
— Obrigado, mãe, respondeu o menino saindo em disparada de volta à montanha.

Ele precisava se apressar. Em breve não teria mais a luz do dia e a busca ficaria difícil. Mas ele confiava na sua intuição e ela lhe dizia que encontraria a ovelha perdida.
E realmente a encontrou. Lá estava ela, com uma das patas presa num buraco entre as pedras. Ao vê-la, o seu coração se encheu de alegria e, carinhosamente, retirou-a do buraco conversando com ela para que se acalmasse.

Voltou para casa quando o céu já se tingia de negro com o cair da noite. Lavou-se, comeu o jantar que a sua mãe lhe ofereceu e dormiu em paz.

— O que vocês acharam da história crianças, perguntou Jesus.
O seu filho mais novo, sempre silencioso e muito observador, perguntou:
— Pai, a ovelha perdida chorou muito?
— Enquanto ela estava sozinha e presa na pedra, ela chorou sim, filho. Mas quando viu o seu pastor e recebeu dele o carinho e o salvamento, tudo ficou bem. Essa ovelha para sempre vai acreditar que quando ela estiver perdida e sozinha poderá contar com o seu pastor que jamais vai abandoná-la. Assim é com o amor de Deus para conosco. Ele nos ama tanto que jamais nos abandona. Basta que confiemos que Ele nos salvará, sempre.

As crianças correram para abraçar Jesus que, feliz, deixou que o beijassem, retribuindo o carinho.

Paco respirou profundamente, voltando do transe. Por uma dádiva do divino, ele havia estado com Jesus. Compreendeu, então, que aquele momento vivia dentro dele. Levantou-se feliz e foi cuidar das suas ovelhas.

Gentileza

Ela não sabia dizer com certeza. Talvez fosse oito ou nove horas da noite. No inverno ficava mais difícil precisar as horas porque o dia se ia mais cedo e a noite demorava-se a ir embora.

O castelo estava em silêncio. O jantar já havia sido servido e as crianças já estavam na cama com suas amas. As coisas todas estavam em seus lugares. Com uma xícara de chá fumegante nas mãos, ela se senta diante da lareira na qual arde a lenha, recém colocada. Eles eram tão importantes, os empregados. O que ela faria sem eles? Sempre que podia, dava a eles um agrado. Uma peça de carne, uma saca de farinha ou de grãos para que levassem para as suas casas a fim de darem o sustento às suas famílias. Seu marido e senhor não se importava – sabia que era generosa quando se casou com ela.

Seus pensamentos soltos, uma vez mais, a fazem enxergar aquele dia em que um homem alto, forte e com um ar de poderoso pediu a sua mão ao seu pai. Ela não sabia direito o que fazer, mas ele foi gentil e, com o tempo, o amor foi crescendo. Eles se amavam. Ela confiava nele e ele, nela. Ele a escolheu porque observou nela as suas atenções para com as outras pessoas. Ele queria uma mulher generosa. Aprendera com a sua mãe o poder da gentileza. As pessoas gratas são aquelas que seguem ao seu lado mais felizes e, portanto, mais leais. Lealdade era algo muito precioso naqueles tempos.

Ela sorriu ao lembrar-se disso. Ele havia lhe contado essa história várias vezes e, em todas elas, podia sentir o sorriso brotar em seus lábios. Sentia-se especial por ter sido escolhida por algo que era seu de verdade, e não pelo seu dinheiro ou posses. Claro que isso ajudou, mas ele poderia ter qualquer uma, inclusive, mais ricas do que ela.

Gostava de pensar que seus filhos seguiriam seus passos e que seriam mulheres e homens fortes como o seu pai e gentis como a sua mãe.

Bocejou, cansada. Sentia a sua falta. Quando ele voltaria? Tudo estava tão calmo… Era bom, mas ela sentia falta da presença dele indo de lá para cá e de cá para lá, a dar ordens e fazer reuniões.

O fogo trepidando na lareira soava calmo e ela foi se embalando naquele trepidar das chamas. Ajeitou-se ali como pode. Pensou que só fecharia um pouco os olhos e que, logo em seguida, levantaria para deitar-se em sua cama. Adormeceu profundamente.

Ele entra silencioso. Não quer acordar a casa toda. Está muito frio e ele vai direto para o salão onde sabe que a lenha arde na lareira. Então, ele a vê. Ali adormecida, tão linda como sempre foi. Sua beleza agora era de mulher, mãe e senhora de um castelo. Mas, ali adormecida, ela só era bela. Ele ficou olhando para ela sem conseguir desviar o olhar, pensando em como era grato por ter seguido a sua intuição, tão treinada para acessar os mistérios. Era ela, sempre seria ela. Sua companheira de jornada, seu amor.

Então, ela abriu os olhos, despertando. Encontrou os olhos dele e pensou que devia estar sonhando. Uma emoção tomou o seu peito e ela se deixou levar por aqueles braços fortes que ela amou, até o fim da sua vida.

Contam que ele se foi primeiro. Logo depois, ela. Também contam que ali houve prosperidade para todos enquanto eles viveram. Os que olham suas lápides, que estão lado a lado, podem ler a inscrição: “Aqui estão os senhores desta terra, cuja gentileza fez prosperar a todos. Que descansem em paz!”

Fuga

“Se for preciso, atirem!”

Um arrepio percorreu a sua espinha. Uma coisa era empunhar uma arma para impor respeito, outra era matar. E por qual razão? Porque tinham fome! Ele sabia o que era a fome. Estava ali como guarda do galpão de suprimentos para que ele e sua família não passassem por isso.

Porém, a fome chegou; não para ele, mas para muitos – e com ela a raiva e o desespero que faz os homens tornarem-se animais e, para seu senhor, merecedores de serem mortos.

… não para ele. Ele sabia que dor era aquela. O que fazer? Sua família dependia desse emprego para ter garantido o sustento. Ele não podia conviver com a culpa de largar o trabalho e colocar todos na condição de fome.

Matar? Ele sabia que não faria isso. Então… perderia seu emprego de qualquer maneira. Melhor que saísse agora. E se não houvesse o saque? E se, por um milagre, chegassem doações? De onde elas viriam? Afinal, todos estavam na mesma situação. Já não havia ricos nem pobres. As colheitas foram escassas. Só os fazendeiros tinham algum estoque e, assim mesmo, não se podia prever até quando. O que fazer? Sair agora? Esperar? Se saísse, traria tristeza para a sua família. Uns diriam: “Você saiu porque não quis atirar e, por isso, vai matar todos nós de fome?!” Outros entenderiam, e ele se sentiria pior porque não merecia essa compreensão.

A dor que estava sentindo era imensa. Não sabia o que fazer. Os pensamentos iam e vinham. A favor e contra. Já não respirava direito e sentiu um pavor tomar conta do seu corpo. Não conseguia parar de tremer. Não podia continuar ali. Num impulso, largou a arma no chão e correu. Correu mata adentro até cair exausto e sem forças. A noite chegou. Ele ficou ali. Adormeceu de cansaço.

O dia clareou. Os pensamentos vieram novamente. Retorno? Vou embora aproveitando que estou longe? E de novo a culpa e a dor. Mas, agora, era diferente. Não seria ele o responsável por matar ou morrer. Estava livre. Aliviou-se com esse pensamento e decidiu seguir em frente. E assim foi. Diante de cada decisão, descobriu que se fugisse não precisaria decidir. E, então, descobriu que fugir sempre foi uma decisão.

Um poema

No quarto escuro tremula a luz de uma única vela que já estava pela metade. O chão de terra batida mostrava a pobreza do cômodo. No entanto, o velho homem estava deitado em lençóis limpos e tudo estava organizado.

A pequena cômoda encostada na parede debaixo da janela ficava em frente à sua cama. Ainda guardava em seu tampo os últimos escritos. O poeta estava doente. Seus pulmões não resistiram ao frio intenso em condições de extrema pobreza.

Sem família, só lhe restavam os amigos que se revezavam para cuidar dele. Dora fazia o serviço mais pesado de limpeza do cômodo e dele. Fazia-lhe a barba e, com um pano úmido, lavava-lhe o corpo como podia. A febre estava alta. O médico já o havia desenganado. Era apenas uma questão de tempo. Mas Dora estava ali, ao lado de sua cama, cochilando, a pobre mulher. Cuidava dos filhos e do marido e depois ia ao seu quarto para ajudá-lo como podia.

— Queria tanto fazer algo por ela, pensou ele, olhando para o seu rosto tranquilo que dormia. Mas não tinha nada. Só os seus poemas. E de que valiam? Em toda a sua trajetória literária conseguira vender alguns poucos poemas a algum apaixonado angustiado ou um amante enlevado. No jornal publicara um ou dois, sem grande repercussão. Vivia da caridade dos poucos amigos que tinha e de uns trocados ganhos por escrever textos para lápides aos que podiam pagar por esse luxo. Que ironia! A morte havia lhe dado o sustento e agora vinha buscá-lo. Era a sua paga. Estava certo.

Respirava com dificuldade e a tosse acordou a mulher.

— Você está bem? Perguntou-lhe Dora, aproximando-se, preocupada, da beirada de sua cama.

— Fique tranquila, minha cara. A minha hora não tarda, mas ainda não chegou, respondeu ele num tom de brincadeira.

— Não diga isso, meu amigo. Você vai se recuperar, respondeu ela sem muita convicção na voz.

Ele deu um sorriso e ficou em silêncio. Agradava-lhe que ela quisesse despertar-lhe esperanças. De repente, tomou-se de um sentimento doce que o inspirou. Precisava registrar isso num poema. Mas não tinha forças para levantar-se até a cômoda, então pediu:

— Dora, minha cara. Você poderia me fazer um favor?

— Sim, claro, respondeu prontamente a mulher.

— Poderia anotar um poema para mim?

Por um momento, Dora não soube o que dizer. Ela, escrever? Suas mãos, que sempre eram usadas para cozinhar, lavar e cozer, agora iriam escrever? Há muito tempo não fazia isso. Ela nem sabia direito se conseguiria.

— Meu amigo, disse ela, o que me pede é um tanto inusitado. Se me pedisse uma sopa ou mais uma manta eu saberia rapidamente atendê-lo, mas escrever, temo que não  consiga realizá-lo.

— Não se preocupe minha cara. Serei paciente e saberei esperar até que conclua cada palavra. E se por acaso não terminar hoje, continuaremos amanhã. Mas me permita escrever um último poema, peço-lhe.

Dora não tinha como recusar o pedido de um moribundo. Assim, sentou-se diante da cômoda, que a colocava de costas para ele, apanhou uma folha de papel em branco, verificou se havia tinta no tinteiro e se a ponta da pena estava afiada e esperou.

As palavras do poeta foram ditas devagar, como ele havia prometido.

Àquela a quem devo a vida

A tua respiração é como um sopro na manhã ensolarada

Os teus gestos doces e amorosos espalham luz

Se me olha enquanto durmo, posso sentir a vida que pulsa

Na intenção dos teus cuidados

Sou um homem tocado pela beleza sem volta

Porque assim o desejo e assim é.

Minha alma se enleva no aprendizado que me inspira os

teus cuidados de mulher bondosa e destemida

Se me tocas é como se um bálsamo curasse meu corpo

Se fala comigo é como se a voz dos anjos cantassem para mim

Se me alimenta, saboreio vida

Se está ao meu lado, sou afortunado em poder olhá-la

Salvaste-me de uma morte dolorosa e solitária

Tua presença me trouxe a possibilidade da redenção eterna aqui e além

Amo-te com um amor que atravessará o tempo.

Até qualquer dia, minha amiga.

Dora esperou um tempo. Enquanto escrevia, não prestou atenção ao sentido do que estava sendo dito. Preocupada em acertar as palavras, não se deu conta de que foram ditas para ela.

Após um silêncio um tanto longo, ela repousou a pena, compreendendo que o poema estava terminado. Pegou o papel e assoprou para que a tinta secasse mais depressa. Depois arrastou devagar a cadeira para levantar-se na intenção de não perturbar o seu amigo que devia ter adormecido.

Olhou para ele e viu que os seus olhos estavam abertos e que ali não havia mais vida.

Hassan

Quanto maior o turbante, maior a importância de quem o usava. Hassan ostentava um bem alto, adornado com uma pena de ave real azul. Tinha a barba rente ao queixo que se juntava ao bigode, rodeando a boca. Seu nariz adunco se projetada por entre os olhos pequenos e astutos. Era magro e tinha uma agilidade invejável. Há quem diga que numa ocasião, seu camelo tropeçou e ele pulou antes caindo no chão em pé e sem nenhum arranhão! Muito esperto, Hassan construiu sua fortuna sabendo a quem servir na hora certa.

Ele agora aguardava calmamente que o recebessem. Era um homem influente na sua aldeia e sabia que o marajá queria usar essa influência para conseguir ampliar seu poder. Se ele tivesse em suas mãos o comércio das sedas, seu poder seria ilimitado. Os comerciantes locais sabiam como produzi-la e guardavam esse segredo a sete chaves.

Mas Hassan sabia como descobrir um segredo. Uma mulher apaixonada é capaz de qualquer coisa. Até mesmo trair o seu próprio sangue. E ele já estava atento em qual delas jogaria a sua rede. Havia umas três ou quatro solteiras, bem-apanhadas e em idade de casar. Ele poderia cortejá-la, descobrir o segredo e depois forjar uma traição para livrar-se do casamento. “Muito fácil”, pensou ele com um leve sorriso no rosto, enquanto aguardava ser anunciado.

Quando o criado o convidou a entrar, ele levantou-se calmamente. Era parte do seu plano não mostrar nenhuma ansiedade e calmamente aguardar que o seu interlocutor falasse tudo o que desejava. Depois disso, sim, ele falaria, já com todo o plano traçado o que dava ao seu oponente pouca chance de raciocinar.

Ao entrar na sala de visitas do palácio, seu olhar perdeu-se em tanta riqueza. Ele era um homem acostumado ao conforto e a opulência, mas aquilo era além de qualquer coisa que ele tivesse visto algum dia em sua vida. Até o teto da sala era pintado em ouro, sem falar nas colunas, tapetes, lustres, pinturas e estátuas. Tudo arranjado com muito bom gosto e requinte.

Outra porta se abriu, dando passagem ao marajá. Com uma inclinação de corpo, Hassan o cumprimentou retribuindo o gesto de saudação convencional: com a mão direita encostava-se a ponta dos dedos no coração, nos lábios e na testa, o que representava que ambos estariam colocando o seu coração, as suas palavras e o seu melhor pensamento naquela conversa.

Após os cumprimentos, sentaram-se nas almofadas que estavam distribuídas em torno de uma mesa. Ao som das palmas do marajá, os criados entraram trazendo várias bandejas com iguarias finas, doces e salgadas e um bule de chá quente e outro com uma bebida fria a base de tamarindo e mel, muito consumida na época de calor intenso.

Conversaram amenidades enquanto provavam de um ou outro alimento. Ao fundo, três músicos tocavam seus instrumentos e trazendo ao ambiente um clima de leveza e sofisticação.

— Bem, disse o marajá, vejo que o senhor é bem versado nas artes da hospitalidade. Tem paciência e não atropela as etapas da boa convivência. Acho que seremos bons parceiros.

— Meu caro senhor, respondeu Hassan cauteloso, para mim já é uma honra estar aqui ao seu lado usufruindo de sua magnânima hospitalidade. Para mim, só isso já seria motivo de alegrar-me por muitos dias e muitas noites.

— Mas poderíamos aumentar para mais dias e mais noites a sua alegria – respondeu o marajá, olhando atentamente aquele rosto que não deixava transparecer nenhum sentimento.

— Isso seria muita bondade sua, senhor. Proponho então que o nosso próximo encontro seja em minha casa. Não chega aos pés da sua e não tenho a intenção de ofendê-lo convidando-o para conhecê-la. A minha intenção é apenas retribuir com a minha humilde hospitalidade tudo o que hoje recebo. Que a sua casa floresça e seja prospera. Que Alá o abençoe, senhor! – dizendo isso, ajoelhou-se e tocou o chão com a testa num gesto que reforçava os seus desejos, sendo seguido no gesto pelo marajá, como previa o protocolo.

Assim permaneceram por algumas horas. Um insinuava e o outro fingia que não havia compreendido. Esse era o jogo. Um bom negócio se baseava no quanto os negociantes se respeitassem pela esperteza e inteligência demonstrados durante a negociação. Hassan era um mestre nisso e o marajá deu por concluída a conversa, quando percebeu que as cartas não estariam em suas mãos, mas sim nas do homem a sua frente. Ele precisaria medir melhor as consequências disso.

— Muito obrigado pela maravilhosa tarde, senhor – disse Hassan fazendo o cumprimento de praxe.

— Eu que agradeço por sua presença em minha casa. Muito me alegrou conversar consigo. Nos falaremos em breve, com certeza – disse o marajá, retribuindo o cumprimento formal.

Hassan saiu e, enquanto atravessava os jardins do palácio em direção à sua carruagem que o esperava fora dos portões, pensou que devia dar início ao processo de descobrir o segredo da seda. Esse marajá era um homem esperto. Não tanto quanto ele, mas não devia ser subestimado. Escolheria uma das moças e marcaria a conversa com o seu pai para acertar as visitas pré-matrimoniais. Essa escolha teria que ter como base aquela que fosse a mais romântica e inocente. Para isso, seguiria a todas e obteria informações, utilizando os seus contatos.

Hassan: um homem calculista. O que lhe dava prazer era montar estratagemas para obter aquilo que desejasse. Sua mente ardilosa estava sempre em busca de desafios. Viveu assim até a sua morte, deitado em uma cama rica e trancado em seu quarto. Os criados só perceberam que ele havia morrido quando o seu corpo já estava em avançado estado de putrefação.

Determinação

A neve caia, abundante. Com os dois filhos presos ao seu corpo, ela caminha com dificuldade. Eles nasceram em meio a um inverno rigoroso. Ela sabia que se não os mantivesse presos ao corpo, eles morreriam. Assim, amarrou um nas costas e outro na frente do seu corpo e fazia tudo o que precisava com eles presos assim. Só os soltava quando lhes dava de mamar ou trocava-lhes as fraldas.

O período mais difícil foi durante os seis primeiros meses de vida. Ela tinha que soltá-los e amarrá-los de três em três horas porque choravam, exigindo comida. Ela os alimentava, um em cada seio, e depois aproveitava para limpar as suas sujeiras.

Não seria fácil, mas ela não desistiria. Seus filhos viveriam para serem grandes homens que fariam, daquele mundo, um mundo melhor. Ela ensinaria a eles as duas coisas mais importantes que aprendera com a sua mãe: respeitar o semelhante e ter força e determinação para viver e alcançar o que desejasse. Naquele momento da sua vida, o seu maior desejo era que seus filhos vivessem. Para isso, ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Isso incluía carregá-los presos ao seu corpo, pelo tempo que fosse necessário.

E assim foi. Ela os carregou até completarem um ano de vida quando, então, sentiu que eles poderiam seguir por si só. Quando tomou essa decisão, foi como se tivesse dado à luz a eles novamente.

Eles cresceram e, sempre que podiam, contavam a sua história para quem quisesse ouvir. Que a sua mãe os carregou para que sobrevivessem. Essa história passou de geração em geração e se transformou numa lenda que todos contavam, quando queriam falar sobre o que o amor de uma mãe é capaz. Que sejam todas elas, muito abençoadas!

Perda

Chorando, a menina diz:

— Não posso entrar lá.

Carinhosamente, Rosa fala: “Eu vou entrar na sua frente. Não tenha medo. Segure na minha mão. Vamos entrar juntas. Não vou largar a sua mão em nenhum momento”.

A menina olha para ela e, encontrando em seu olhar sinceridade, lhe dá a mão. Entram juntas na casa pintada de amarelo. Rosa vai à frente sabendo que, se não for assim, a menina não terá coragem de entrar. Passam por dois cômodos vazios e seguem pelo corredor que as leva até uma sala onde há muitas pessoas. Um corpo está sendo velado.

A menina aperta a mão de Rosa. Seu corpo todo treme. Abraçadas, aproximam-se de onde está o corpo e, no grito da criança, Rosa compreende.

—Mãe!

Agarrando-se a Rosa, a criança chora. Suas pequenas mãos estão tão firmemente agarradas à roupa da mulher que os nós dos pequenos dedos estão esbranquiçados.

“O quanto é grande a dor de uma criança”, pensa Rosa. São tão pequenos para aguentar tamanha aflição…

Com esse pensamento, Rosa a abraça mais forte com a intenção de dar a ela a certeza de que não está só. Conversa com a criança, explicando que o amor nunca morre e que ela sempre vai sentir a sua mãe pertinho dela. Que ela deve sempre se lembrar de que a sua mãe a ama muito e que sempre vai amá-la.

Olhando nos olhos da mulher, a menina se acalma. Para sempre se lembrará daquela mulher que, com o seu amor, salvou-a da dor permanente.

O peregrino

O homem sentou-se por um momento. Já não aguentava longas caminhadas. Sua túnica de tecido rústico de um tom avermelhado e suas sandálias de couro estavam cobertas de pó. Em seu alforje, que trazia atravessado ao peito, havia poucos pertences pessoais: uma pequena faca, um cantil com água, ervas de cura, que ele sempre renovava assim que as colhia frescas na beira da estrada, e um pequeno pedaço de pano branco para lavar o rosto e as mãos. O que mais necessitasse, encontraria nos abrigos para peregrinos.

“Que boa gente aquela”, pensou ele, “dando de comer e de dormir aos que fazem a peregrinação em busca de respostas ou, no meu caso, em busca do perdão.” Maltratara a muitos. Ferira inocentes e usou muito mal o poder que tinha. Era preciso muita caminhada e penitência para que ele sentisse que havia alcançado o perdão.

Seu estômago avisava que a hora do almoço chegara. Uma marca na estrada orientava que ele ainda estava no meio do caminho que o levaria até o próximo abrigo. Abriu o seu alforje e viu que nada tinha para comer. “Bem”, pensou, “encontrarei algo no mato”.

Levantou-se e penetrou na mata densa, vencendo os obstáculos das folhas com os braços e cuidando para não pisar em uma cobra ou cair em algum buraco. Seus ouvidos treinados escutaram um som distante de água corrente. Continuou a andar em direção ao som que escutara. “Sempre há peixes onde há água”, pensou, sentindo a sua boca salivar imaginando o peixe fresco assando na fogueira.

De fato, havia um rio que corria manso, mas era muito raso e ali não havia peixes. Ele se decepcionou, mas resolveu aproveitar a água limpa. Lavou-se e bebeu o quanto quis, enchendo o seu cantil. Depois, encostou-se numa árvore que havia ali para descansar um pouco se deliciando com o som da água que corria e com o ar fresco propiciado pela mata cerrada que impedia a forte ação dos raios solares. Na calma do lugar e olhando a água que corria, permitiu que a sua mente se enchesse de memórias. Houve um momento na sua vida em que já não pode mais ferir o seu semelhante. “Foi aquela criança”, lembrou-se ele.

Quando o seu olhar encontrou o olhar da criança cujo pai estava sendo castigado por não pagar os impostos, foi como se uma seta transpassasse o seu coração. Ela não chorava e não havia medo nos seus olhos, só uma profunda tristeza. Ele jamais esqueceria aquele olhar. O que estava lhe dizendo? Que ela tinha pena dele? Que ele, na verdade era um fraco?

Ele não sabia responder a essas perguntas, mas sentiu-se profundamente envergonhado do que havia mandado fazer. Subitamente, ordenou:

—Parem! Soltem esse homem.

Os soldados estranharam, mas obedeceram. Uma ordem de um superior não devia ser desobedecida, sob pena de prisão imediata.

Depois desse dia, nas noites em que conseguia dormir, a primeira imagem que vinha aos seus sonhos era a daquela criança com aquele olhar cheio de mensagens que ele não sabia decifrar.

Deixou tudo para traz. Vendeu tudo, guardou as economias que tinha, pediu baixa da sua patente e saiu pelo mundo. Soube daquele caminho, onde as pessoas alcançavam graças e se redimiam das dores.

Ali estava ele, buscando a paz interior e o perdão dos pecados. Não sabia se encontraria o que procurava, mas uma coisa ele já havia compreendido: um homem só precisa de um pano sobre o corpo, um bom par de sapatos para os pés, um cantil com água e boas pessoas que lhe deem abrigo e um prato de comida.

Emocionou-se com esse pensamento. Lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Primeiro devagar e, depois, como um rio que há muito tempo estava represado, elas caíram soltas e abundantes. Como uma criança, ele chorou e soluçou sentindo em seu peito uma dor que se assemelhava a de estar sozinho num buraco fundo e escuro, sem a esperança de luz.

Deitado na relva com o rosto entre as mãos, chorou todas as lágrimas guardadas por anos de isolamento. Fora uma criança maltratada pela mãe que cresceu sem conhecer o pai. Muito jovem, entrou para o exército. Toda a sua vida fora dedicada a lutar e a fazer cumprir a lei a qualquer custo. Galgara alto posto, mas não era feliz. Não tinha esposa e nem filhos. Não tinha para quem voltar. Esses pensamentos o fizeram chorar mais ainda.

Aos poucos foi se acalmando. Levantou-se, lavou o rosto na água fria do rio e deitou-se novamente, cansado e sem esperança. Um vento começou a soprar, balançando a copa das árvores e acariciando o seu rosto. “Estranho”, pensou ele, erguendo um pouco o corpo, “uma brisa repentina”.

Como respondendo ao seu pensamento, o vento soprou uma vez mais. Ele sorriu, tendo uma estranha sensação de que não estava só. Mais uma vez, o vento soprou como a confirmar o seu pensamento.

Agora ele já estava em pé, tomado por uma estranha alegria. Teve vontade de brincar como uma criança. Lembrou-se de uma canção de sua infância e começou a cantá-la. O vento soprava como se acompanhasse o seu movimento de girar enquanto cantava.

Era encantador vê-lo cantando e girando com o vento soprando a sua volta, fazendo um redemoinho com as folhas que lentamente subiam pelo seu corpo.

Ficaram assim por um bom tempo, ele e o vento, até que ele caiu no chão exausto, mas leve. Era uma sensação que ele nunca havia sentido. Um milagre havia acontecido. Disso ele tinha certeza. Havia dançado e cantado com o vento. Seguiria a sua jornada confiando que seus passos eram protegidos e, quando nada mais houvesse, ele chamaria o vento e tudo ficaria bem.

Vanirah

Felicidade. Alegria. Sensação plena de que a vida é um presente de Deus. Vanirah gira enquanto bate no pandeiro. Seu riso largo lembra um imenso céu carregado de nuvens brancas. Ela gira ao som da música e tem a sensação de que pode voar. Vez por outra, encontra o olhar de uma de suas amigas que, junto com ela, comemoram a passagem para a vida adulta.

Vanirah tem quinze anos, mas a sua sabedoria acumula muitas vidas. Seus pais a adoram. Sempre gentil e pronta a oferecer uma palavra amiga e um consolo a quem necessita; por onde ela anda, espalha a sua alegria.

— Que viva para sempre! – pede seu pai, num pensamento fervoroso, ao vê-la dançar com as outras ciganas de sua idade.

— Que encontre um belo amor que a faça feliz! – deseja a mãe, reparando que seu corpo já é de uma mulher.

A tribo toda está em festa. Mais meninas se tornam mulheres que, cheias da força feminina, farão do mundo um lugar melhor para se viver. Os rapazes olham-nas embevecidos. Não sabem por qual delas se apaixonar. Todas são lindas e alegres com uma energia que encanta a todos.

A noite cai. A fogueira é acesa e os pedidos de todos são queimados no fogo. Fazem assim para que eles rapidamente aconteçam. O fogo transforma e ilumina. Os homens se preparam para a guarda da noite e as mulheres cozinham a mistura de leite com aveia, favos de mel e especiarias, iguaria servida nessas ocasiões. Todos tomam a bebida doce que aquece e enleva os corações. Os casais dão boa noite, as crianças são recolhidas e os pais das meninas-mulheres cumprimentam-se desejando, mais uma vez, que o caminho de suas filhas seja claro e cheio de amor.

Vanirah pede a mãe que a deixe sentar-se no alto da grande pedra para apreciar a lua que, linda, brilha redonda no céu, antes de dormir. Sua mãe concorda. “Afinal, ela já é uma mulher”, pensa ela. Mas como mãe zelosa que é, enchê-a de recomendações para que se agasalhe e não se demore.

Vanirah sobe na pedra e olha diretamente para a lua. Seu coração está tão pleno de alegria que não contém a emoção. Num impulso, ela faz uma prece:

“Senhora de todos os homens, concedei-me a graça de reconhecer o melhor do meu semelhante. Concedei-me a virtude de proferir somente palavras de alento e de carinho. Que minhas mãos sirvam muito mais para o afago que para a luta. Que meus gestos sejam mansos e firmes. Que no meu caminho a tua força e luz brilhem, a fim de que eu saiba sempre para onde devo ir. Que os meus inimigos não tenham vitória em fazer-me o mal, mas sejam capazes de enxergar a tua luz que brilha em mim.
Que assim seja!”

Como em resposta à sua prece, uma estrela corre no céu e outra muda a sua luz, variando as cores. Em seu coração, Vanirah sabe que sua prece foi ouvida.

Isaac

O bom homem sempre se sentava na beira do poço. Gostava de ficar ali. Todos em algum momento do dia teriam que pegar água; então, ele poderia conversar um pouquinho com cada um.

Desde que falecera sua esposa, a boa Rute, Isaac não tinha mais com quem conversar. Seus filhos haviam saído pelo mundo. A cada seis meses, ele recebia uma notícia de um, outra notícia de outro. E assim era.

Ele não gostava de ficar sozinho e não queria importunar as pessoas. Por isso, ia à beira do poço e lá ficava. Quando era preciso, ele auxiliava uma senhora ou uma criança a pegar a água.

Com o tempo, ele passou a ser conhecido como Isaac do Poço. Quando alguém queria um conselho ou precisava de uma palavra amiga, lá ia ter com ele.

Para seu maior conforto, mandou construir um banco de dois lugares e o fixou próximo ao poço. Tinha sempre com quem conversar. Às vezes as pessoas iam até lá e voltavam para as suas casas porque ele já estava conversando com alguém e não havia hora para terminar a conversa.

E assim, as horas e os dias iam passando e Isaac estava feliz. Era útil e o seu tempo passava rápido.

A noite voltava para casa, fazia uma refeição leve com pão, queijo, azeitonas e uma taça de vinho. Já não tinha tanta fome e comer sozinho lhe tirava mais ainda o apetite.

Certa noite, ele já estava para se recolher quando ouviu batidas na porta. “Quem será a essa hora?” – perguntou-se. Atravessou o corredor em direção à porta e perguntou:

— Quem deseja?

— Perdoe-me, senhor, disse uma voz de mulher. Sou Ana, avó de Josias. Ele não está passando bem e insiste em vê-lo.

Abrindo a porta imediatamente, Isaac convidou-a a entrar.

— Deseja beber algo? Parece abatida. Sente-se um pouco e descanse.

A mulher agradeceu. Estava mesmo cansada. Subiu muito rápido até a casa dele e já não era tão jovem.

— Muito obrigada! Agradeço-lhe demais pela hospitalidade. Sinto muitíssimo importuná-lo, mas o meu neto, Josias, está delirando em febre e chama pelo seu nome. Desde que perdeu os pais, sou eu a responsável por ele. Ele é um menino muito bom, mas hoje se excedeu nas tarefas debaixo do sol. Já não posso trabalhar como antes e ele precisa fazer quase tudo. É apenas um menino de nove anos, mas é muito esperto o meu Josias– podia se ver um sorriso em seu rosto ao dizer essas palavras.

— Bem, fico feliz que seu neto lhe seja de tão boa ajuda. Tenho certeza de que também é uma boa avó para ele. Mas o que posso fazer pela senhora?

— Desculpe-me uma vez mais… Quase não falo com ninguém e quando encontro tão bons ouvidos, o que é raro, não paro de falar. Veja, lá vou eu novamente. Mas agora deixe-me dizer. O meu neto está febril e chama pelo seu nome. Ele fala sem parar no senhor. Então, pedi a uma vizinha que o olhasse para mim e vim procurá-lo, apesar da hora que já lá se vai avançada.

— Bem, disse Isaac compadecido da mulher, vou acompanhá-la de volta à sua casa e lá veremos do que se trata.

Desceram juntos, caminhando lado a lado, em direção à casa da senhora Ana. No caminho, ele lhe fez perguntas sobre a saúde de Josias, se um médico já havia sido chamado e outras coisas mais. Ela respondeu a todas as perguntas com riqueza de detalhes e, quando deram por si, já haviam chegado à casa.

— Passou rápido, não é mesmo, disse Ana

— Sim, concordou Isaac, quando temos boa companhia o tempo corre mais depressa.

Ana corou levemente com o elogio. Desviando o olhar e bateu na porta, anunciando que chegara. A vizinha abriu e ela entrou, seguida de Isaac.

— E então, minha amiga, perguntou Ana, como está meu neto. Trouxe comigo o senhor Isaac, que Deus o abençoe pela generosidade.

— Como vai senhor, cumprimentou a vizinha. Muito obrigada por ter vindo. Ana estava muito preocupada. Agora o menino está dormindo e parece que a febre cedeu.

Ana abriu um largo sorriso e disse:

— Deus seja louvado, que alegria! – e abraçou a mulher, que retribuiu o abraço.

Do canto da sala, Isaac olhou mais atentamente para Ana e pensou:

— Eis aí uma boa mulher. Apesar do perigo, venceu o seu medo para buscar ajuda para o seu neto. Esse pensamento o levou para a sua Rute, trazendo-lhe um sentimento de saudade que logo foi espantado pelas palavras de Ana

— Senhor Isaac, veja que felicidade. O meu Josias já está melhor. É um milagre que atribuo a sua generosidade e a sua presença. Muito obrigada, mais uma vez. Por favor, sente-se. Vou fazer um chá e servir-lhe um pedaço de pão feito por mim mesma ainda esta tarde.

— Preciso ir, cara Ana.  Meu marido já deve estar preocupado – disse a vizinha, e virando-se para Isaac: Até logo, senhor.

Isaac levantou-se e respondeu:

—Até logo, senhora.

Quando se viram a sós, um clima de constrangimento pairou na sala, sendo logo quebrado por Isaac.

— Bem, senhora Ana, devo me retirar. O seu neto já está bem e a senhora está a salvo em sua casa.

— Não, não. Por favor, sente-se. O chá logo ficará pronto e o senhor precisa experimentar o pão que faço. É uma receita muito antiga, passada na minha família de geração a geração.

A simpatia da mulher, juntamente com o quanto ele gostava de uma boa conversa, fez com que ele se sentasse novamente. Comeram, beberam o chá e conversaram sem parar. Um assunto levava a outro; assim, o bule de chá foi sendo esvaziado e alguns poucos raios de sol já surgiam no céu escuro. Ambos se espantaram com o passar das horas sem que nenhum dos dois notasse.

— Bem, senhora Ana. Creio que pelo adiantado da hora, vou direto para o meu banco ao lado do poço.

Os dois riram da brincadeira e Isaac saiu, dando-lhe até logo com certa dor no coração.

Naquele dia, ele voltou ao banco que ficava ao lado do poço mas, no dia seguinte, não foi e no outro também não.

Conta-se que agora ele passeia com a senhora Ana todas as tardes. Juntos, vão ao mercado e à sinagoga. Outro dia, correu a notícia de que ele a pedira em casamento e que ela aceitara. Os que vão ao poço buscar água, sentam-se para descansar no banco do Isaac do Poço, lembrando de suas histórias e dando uma pausa para o devaneio e a contemplação. Pois não é para isso que servem os bancos colocados ao ar livre?

Amidalah

Amidalah caminha apressado, atravessando o jardim de sua casa. Apesar da tarde quente, o caminho que o leva até a entrada da casa é agradável graças à maravilhosa engenhosidade do seu povo que aprendeu a cultivar plantas e folhagens, garantindo o frescor que vem delas. O seu povo era conhecido por propiciar boa estada aos hóspedes, e ela começava pela entrada das casas. Amidalah sorri, orgulhoso daquele pensamento enquanto caminha.

Ele era um comerciante bem sucedido. Não tinha muita riqueza, mas seu negócio de tecidos prosperava. As pessoas de todas as raças o conheciam e ele sabia como tratar a todos para se fazer agradável, conseguindo sempre boas vendas. Aos árabes possibilitava a barganha e aos judeus, descontos. Aos seguidores do Cristo, oferecia uma bebida para refrescá-los e ouvia-lhes as histórias antes de conversar sobre negócios. Essa estratégia sempre funcionava. Amidalah pertencia a um povo que adorava contar as suas histórias.

Para ele, o melhor de tudo era que todos viviam em harmonia. Todos tinham o seu Deus que era o mesmo Deus. Davam-lhe nomes diferentes, mas todos sabiam que se tratava do mesmo Deus. Para ele, Alá, O Único, O Onipresente, O Verdadeiro Deus a quem ele prestava homenagens em vários momentos do seu dia, colocando sua testa no chão.

Estava ansioso. Mandaram-lhe chamar. Sua mulher, Mirnarah, estava dando à luz ao seu terceiro filho. Outro homem, pensou ele. Que Alá seja louvado!

Com esse pensamento, ajoelhou-se no chão e com a testa tocou o solo em reverência ao pensamento que teve. A serva já vinha em sua direção.
— Outro menino, Senhor, outro menino!

Amidalah ajoelhou-se novamente no chão e, com voz embargada pelas lágrimas, agradeceu recitando poemas em louvor a Alá. Ficou ali alguns minutos. Quando se levantou, seu rosto mostrava a face da felicidade. Como um filho homem é bem-vindo. Mais um filho para honrar seu nome, preservá-lo e seguir com os seus negócios. Ele já podia morrer feliz. Três filhos. É muita sorte para um homem. As pessoas de seu povo encheriam a sua loja. Comprar de alguém tão afortunado assim trazia boa sorte. Sua fama correria a cidadela e as outras pessoas viriam nem que fosse por curiosidade. Esfregou as mãos de tanto entusiasmo e entrou na casa aos gritos:
— Mirnarah, Mirnarah, minha amada e adorada esposa. Dar-te-ei mais joias do que o seu braço vai conseguir carregar. Para cada dia do ano terás uma joia que eu mesmo mandarei talhar. Juro-te por Alá, minha amada.

Enquanto andava em direção ao quarto de sua mulher, ele falava:
— Digo em voz bem alta para que todos sejam testemunhas. Que Alá me fulmine se eu não cumprir com a palavra empenhada em nome Dele.

Quando estava próximo à porta, ouviu um choro fraco de criança. Seu filho!
Bateu na porta. Amidalah era um homem respeitoso. Ele não invadiria os aposentos de uma mulher que houvesse acabado de ter um filho, nem que sua mão direita fosse cortada. Aguardou ansioso para que a abrissem. Finalmente, a serva abre a porta.
— Entre, meu senhor. A senhora já pode recebê-lo.

Amidalah desejou que sua aparência fosse a melhor possível. Nestes últimos meses, vira sua esposa apenas de longe. Não era bom que o marido visse sua esposa nos últimos meses de gravidez, para não lhe criar nenhum constrangimento. Era prudente manter-se afastado. Uma mulher que espera um bebê deve ficar em paz e maridos podem fazer com que as esposas grávidas percam a paz, prejudicando o nascimento dos filhos.

Ao entrar no quarto, Amidalah percebeu o quanto sua esposa havia feito falta para ele nesses últimos tempos. O quanto o seu carinho e palavras de conforto eram abençoados e o quanto ele a amava.

Negociara casar-se com ela porque sentiu em seu peito, desde a primeira vez que a vira, um sentimento nunca experimentado. Era esse mesmo sentimento que aflorava agora que ele a via diante dele, deitada na cama. Como era bela. Que belo cabelo, longo e negro, e que pele clara e olhos brilhantes ela tinha. Sentiu o desejo invadir o seu corpo e imediatamente afastou esses pensamentos. Aquela não era hora para isso.

Mirnarah estendeu seus braços para ele que, sentando-se à beira da cama, abraçou-a desejando que esse gesto mostrasse a ela o quanto a amava. Em seguida, retirou um pequeno embrulho da faixa que trazia à cintura, entregando-o a ela.
— Que bela joia, querido esposo. Muito obrigada – disse Mirnarah com voz emocionada.
Em suas mãos, um lindo pássaro em ouro com olhos de esmeralda brilhava.
— Ela será a minha joia da sorte porque me foi dada no dia mais feliz da minha vida. Hoje completo três filhos homens que farão a alegria e a prosperidade da nossa casa.
— Dar-te-ei uma joia durante todos os dias deste ano, até que chegue esse mesmo dia no próximo ano, como prova da minha alegria e do meu amor – diz Amidalah num tom firme de quem empenha a palavra.

Mirnarah enlaça com seus braços o pescoço de seu marido, pensando no que teria ela feito em outra vida para ser tão feliz nesta.

Augustine

Por todo o lado, o cheiro da morte está no ar. “Isso só pode ser castigo” – pensa a freira, enquanto se dirige ao hospital. Ouvira falar que pessoas doentes estavam sendo instaladas nas igrejas. Não havia mais lugar nos hospitais, nem nas casas de saúde.

Irmã Augustine se apiedara daquela gente que, mesmo sofrendo, cantava e rezava. No caminho para o hospital, ela podia ouvir suas orações.

Não havia muito o que pudesse ser feito. Aqueles que ficavam doentes tinham pouca chance de sobreviver. A peste não poupava ninguém. A ela cabia levar alento, fazer compressas para baixar a febre e alimentar aqueles que ainda podiam comer.

O hospital estava repleto de doentes. Os corredores cheios de camas. Pessoas gemendo e gritando, pedindo ajuda. Eram tão poucos para atender a tantos…

Augustine fazia o que podia, mas naquele dia não estava bem. Sentiu uma leve tontura ao caminhar em direção ao hospital, mas atribuiu isso ao dia quente e ao odor forte das ruas por onde trafegavam as carroças cheias de corpos que seriam queimados e enterrados.

Sentindo-se fraca após cuidar de alguns doentes, ela vai até a porta em busca de ar fresco. A última imagem que vê são as nuvens brancas no céu azul.

Em seu delírio, ela vê uma menina de cabelos brancos e escuta um nome: Zúria. Ela lhe estende a mão, encontrando conforto e paz.

Huntah

Huntah vivia nas terras geladas e juntara-se à tribo porque, para ela, não havia mais esperança na aldeia em que vivia. Enxotada pelo povo por fazer intrigas e colocar em risco a segurança dos moradores, ela pedira asilo ao líder dos ciganos, Tirê, que a aceitou, porque se apiedara dela e confiara que entre eles, ela aprenderia algo que a levaria para a luz.

Não era bonita. Seus traços eram grosseiros e seu corpo opulento. Para ela, nunca havia tempo para as tarefas diárias. Sempre tinha uma desculpa e todos a toleravam porque o seu líder, Tirê, havia pedido que tivessem paciência com ela e eles o obedeciam porque o amavam.

O maior sentimento que Huntah nutria era a inveja. Invejava a beleza das mulheres da tribo e o colorido das suas vestes. A cada dia ela se fechava mais nos seus sentimentos escuros, criando à sua volta uma nuvem de energia que afastava as pessoas.

Certo dia, Vanirah foi buscar água no rio quando sentiu a presença de alguém. Olhou a sua volta e seu olhar encontrou um pouco distante dali a mulher que Tirê havia aceitado na tribo.

Vanirah nunca havia conversado com ela, mas ao perceber que ela também a havia visto, deu-lhe um aceno de mão amigável. A mulher não retribuiu ao aceno e baixou novamente a cabeça. Vanirah estranhou. Não estava acostumada a que não lhe respondessem a um aceno de mão e pensou que talvez a mulher não estivesse se sentindo bem.

Resolveu aproximar-se. Quando estava próxima, sentiu uma estranha energia que reconheceu ser muito diferente da sua e pensou: “Essa mulher está doente”.
— Senhora, disse, necessita de ajuda?

Huntah levantou a cabeça e respondeu:
— Não lhe respondi ao aceno, porque não desejo falar com ninguém.

Vanirah chocou-se com a resposta, mas teve a confirmação da enfermidade da mulher. Então disse:
— Perdoe-me, não quis incomodá-la, mas percebo que a Senhora não está bem.

Huntah olhou novamente a jovem cigana. Tão bela e doce. Suave como a brisa que soprava. Sua intenção em ajudá-la parecia verdadeira. “Pois bem, vamos ver o que essa pequena criança pode fazer por mim”, pensou Huntah, desdenhando.
— Será que você pode mesmo me ajudar? Você tem um corpo bonito para me dar? Ou um rosto claro e belo? Ou será que você teria aí um pouco de graça para a dança. Não, imagino que não. Então, até logo – finalizou com um tom de agressividade.

Vanirah respondeu:
— Engana-se! Tenho tudo isso para lhe dar, desde que a Senhora faça o que eu lhe disser.
— Mas ora, vejam só. A menina é petulante. E o que devo então fazer, na sua opinião?

Magia da Beleza

Na noite de Lua Cheia, em meio à natureza, dispa-se, jogue a roupa bem distante de você e banhe-se com uma água na qual deve haver pétalas de flores vermelhas e essência de almíscar.

Após banhar-se, levante os braços para o alto e diga: Que a força da natureza esteja em mim. Que eu seja contaminada pela beleza das flores e dos pássaros. Que em minha vida só haja luz e bons pensamentos e que o melhor para mim aconteça”.

Em seguida, queime a roupa e vista-se com uma túnica branca. Volte para a sua carroça, tome um chá de flores brancas e durma.

Huntah não acreditou no que ouviu. A menina estava lhe dando uma receita de como ser bela e bastava que ela seguisse essa receita?
— Isso eu quero ver, respondeu Huntah. Quando faremos?
— Vou prepará-la para esse dia e, na próxima lua cheia, faremos – respondeu Vanirah.

Vanirah passou a visitar Huntah todos os dias. Sua presença e carinho, aos poucos, foram penetrando no campo de força dela, modificando a sua energia.

Passado algum tempo, Vanirah concluiu que Huntah já estava pronta.
Huntah, sem que percebesse, já estava mais bonita. Sua energia já não era tão ácida e seu corpo havia mudado com as constantes caminhadas que Vanirah impunha a ela, como parte da preparação para o grande dia. Quando a Lua cheia chegou, foram para a floresta.

Vanirah juntou às palavras de Huntah todo o seu desejo de que ela fosse feliz e se libertasse dos seus recalques e pensamentos ruins.

No dia seguinte, Huntah acordou e encontrou na beira de sua cama um lindo xale colorido, presente de Vanirah. Correu para olhar-se no espelho. A imagem que viu chocou-a. Quem era aquela mulher? Seu rosto era o mesmo, mas a sua pele estava mais clara e seu nariz já não parecia tão grande. Seus olhos estavam brilhantes e seu cabelo sedoso.

Lágrimas brotaram dos seus olhos e ela sentiu em seu coração uma emoção até então desconhecida. Mais tarde, conversando com Vanirah, ela soube que era gratidão.

O Ferreiro

O som do martelo batendo na bigorna causava nele uma sensação única. Era como se o martelo, a bigorna e ele fossem um só. Há anos era ferreiro. Havia herdado esse ofício de seu pai, que herdara de seu avô, que herdara do pai dele.

Vonsés não sabia o quanto essa linhagem era distante. O que ele sabia é que, desde sempre, os homens da sua família ferravam animais e forjavam espadas.

Naquele dia, porém, ele havia ficado curioso e de certa forma impressionado com o cavaleiro que o visitara. Ele chegou montado em seu cavalo, um animal fabuloso, forte e garboso como era o próprio cavaleiro. Ao descer do cavalo, Vonsés pode ver que ele era alto, moreno e forte.

Com um sotaque carregado, que Vonsés não reconheceu a procedência, pediu-lhe que forjasse uma espada leve e de bom corte. Tendo dito isso, pagou-lhe adiantado pelo trabalho, pedindo urgência na confecção.

Vonsés já ia dizer que tinha muito trabalho e que a espada que o cavaleiro lhe pedia havia de demorar a ficar pronta, mas vendo a urgência na voz do homem e diante do saco de moedas, calou-se. Agora estava lá, altas horas da madrugada, batendo o ferro.

Os vizinhos já estavam reclamando. Mas o que fazer? Havia prometido que em três dias faria a espada e ele não era homem de descumprir um trato.
— Que aguentassem, pensou ele, levantando os ombros.

Com parte do dinheiro que recebera pela espada, faria um bom almoço e convidaria seus vizinhos para saboreá-lo. Sua amada Virna era prendada nas artes da cozinha e não faria feio. Todos se alegrariam e esqueceriam as noites mal dormidas por conta do bate-bate do martelo.

O fio da espada já estava quase no ponto. Era preciso bater com cuidado, caso contrário, todo o serviço estaria perdido. Seu pai o havia ensinado que é preciso sentir o ferro. Que ele se molda na mão quando tratado com gentileza e suavidade. A cada batida, devemos fazer uma prece por aqueles que a espada ferirá. Quem forja a espada é responsável por ela, e para que o ferreiro que a fez não carregue os espíritos dos que morrerão através dela, ele deve buscar o perdão da espada. Isso era o que levava mais tempo, mas era preciso fazer. O seu pai lhe contara longas histórias de ferreiros que morreram misteriosamente, e cujas almas ficaram a vagar sem saber para onde ir.

Bem, com isso não se brinca e ele é que não iria duvidar de uma tradição tão antiga. Honraria seu pai e todos os seus antepassados, fazendo uma espada que, ao final, não teria a sua energia, mas sim a energia de quem a empunhasse. Esse que acertasse, por ele mesmo, as contas com Deus.

A última martelada soou. Vonsés aproximou o ouvido do metal e escutou por um tempo. O silêncio foi a prova final. A espada estava pronta.

Cansado e dolorido do esforço físico, lavou-se e foi deitar-se. No dia seguinte o cavaleiro estaria lá bem cedo para buscar a sua espada que, graças a Deus, estava pronta.

O sol estava nascendo quando o cavaleiro se aproximou da casa do ferreiro. Ele já havia ouvido falar naquele homem. Sabia que ele tratava a espada da forma correta. Poucos faziam o ritual de purificar o metal. Essa forma antiga e cheia de magia estava se perdendo. Mas ainda havia esse ferreiro, que haveria de servir a cavaleiros como ele por muito tempo. Com esse pensamento, o cavaleiro curvou a cabeça dizendo em voz baixa: “Que assim seja!”

O ferreiro saiu da casa cumprimentando o cavaleiro. Em suas mãos via-se um embrulho feito com couro curtido de um animal que o cavaleiro não reconheceu. Pegando o pacote, desenrolou-o, segurando a espada com as duas mãos.

Assim que a teve em suas mãos, afastou-se do ferreiro e se ajoelhou, virado para o sol que nascia. Fincou a espada na terra, abaixou a sua cabeça e assim ficou.

O ferreiro ficou parado, mudo e sem mexer nenhum músculo do seu corpo, com receio de interromper o cavaleiro que parecia estar rezando. De fato, o cavaleiro devia estar fazendo o seu ritual antes de empunhar a espada. Isso ele sabia bem o que era e o que significava.

Quando o sol já havia clareado o dia, o cavaleiro levantou-se, agradeceu o ferreiro, montou em seu cavalo e partiu. Vonsés ficou olhando o homem até que a sua vista não pode mais vê-lo. Um pensamento lhe ocorreu:
— Deus permita que esse homem não precise matar, mas se tiver de fazê-lo, que seja por uma causa justa e para o benefício de muitos.

De dentro da casa, Virna o chamava para o café da manhã. Mais um dia começava.

Thiago

Com um graveto, o homem desenha figuras na areia. A suave brisa do mar sopra a areia e apaga os desenhos que ele torna a desenhar, enquanto fala.

Thiago fica curioso e se aproxima. Seu irmão João e os outros companheiros de pesca estão em torno dele. Quando está mais próximo do grupo, o homem se vira para ele e sorri.

Thiago é tomado de um sentimento estranho. Esse homem sorriu para ele. Os homens quando se conhecem não sorriem uns para os outros. Ao contrário, olham-se sempre sérios, demonstrando força. Mas esse homem lhe deu um sorriso. Thiago fica por um momento paralisado sem saber o que fazer. Após um segundo de perplexidade, ele balança a sua cabeça como resposta, permanecendo sério.

Desviando o seu olhar de Thiago, o homem continua a história que estava contando. Conforme vai falando, desenha figuras na areia.

Thiago escuta a história quando ela já está pelo meio, mas a narrativa o prende.
O homem fala de um comerciante muito rico que juntava as riquezas que obtinha, sempre pensando que um dia as gastaria. Então, ele morreu sem nunca ter usado nada do que ganhou. Seus parentes, ao contrário, gastaram tudo em pouco tempo, sem valorizar o que foi ganho à custa de muito trabalho. O homem finalizou a história, dizendo:

— De que vale acumular riquezas se não podemos tornar a nossa vida melhor de ser vivida, usufruindo delas? De que vale trabalharmos tanto se logo morreremos sem ter experimentado o que é banhar-se neste mar quente e reconfortante?

Dizendo isso, largou o graveto que usava para desenhar e disse:
— Venham todos, vamos nadar. E se atirou no mar, rindo e espalhando água para todos os lados.

Fazia um calor intenso. Thiago olhou para seus companheiros que, olhando uns para os outros, disseram:
— Se formos todos, ninguém há de dizer nada.

Assim, mergulharam todos na água do mar que, de verdade, estava maravilhosa.
As pessoas que estavam por ali lançaram olhares: uns, de perplexidade; outros, de reprovação e outros ainda, de divertimento. Mas a verdade é que, naquele dia, Thiago sentiu crescer em seu coração um sentimento especial por aquele homem alegre e bem humorado, o qual seguiu até o final dos seus dias.

Deodato

O canavial era muito grande. Até onde a vista alcançava, via-se a cana despontar por entre a folhagem que feria como uma navalha a pele dos negros que, há horas, cortavam a planta, amarrando-a em grandes feixes para depois transportá-la para a moenda e fazer a rapadura. Ali também havia negros impulsionando a moenda, mexendo grandes tachos e fervendo o líquido extraído da cana.

Mexer o tacho era o pior trabalho. Depois que a água evaporava, formava-se uma massa densa que continuava fervendo e formando bolhas que espirravam, queimando a pele.

A negra mexia o tacho procurando esquivar-se das bolhas que estouravam. Ela adquirira uma prática interessante para não se ferir no manuseio das colheres de pau usadas para mexer o tacho. Revestia o seu braço com grandes folhas de bananeira que eram amarradas por cipós. Isso a livrava das queimaduras nos braços, mas não protegia o resto do corpo. O tacho era muito grande e o fogo ateado a sua volta podia fazer arder a roupa de um escravo desavisado. Muitos tiveram queimaduras horríveis mexendo o tacho da rapadura, que os levaram à morte.

Subitamente, ela ouviu o seu nome sendo chamado por um grito distante. Era um dos negros do canavial. Mas o que teria acontecido de tão grave para que um negro deixasse o trabalho àquela hora do dia para ir chamar por ela? Sentindo a tensão endurecer o seu corpo delgado e forte e sem titubear, ela largou a enorme colher de pau que usava para mexer o tacho no chão de terra batida e correu para a porta.

— Venha Cínara, corra. Deodato está sendo espancado pelo feitor, que pode matá-lo de tanta pancada! – disse o negro, afogueado com a corrida.

Ela correu como nunca havia corrido antes. Se perdesse o seu amor, ela morreria juntamente com ele. Quando se aproximou do tronco, viu uma massa disforme, sangrando. O feitor, possuído por um espírito ruim, batia sem ver que o homem que ele espancava estava desacordado e não sentia mais nada.

Com a fúria de uma mulher apaixonada, ela se colocou à frente do feitor quando ele estava prestes a dar mais uma chicotada, gritando:

— Pare! Ele está morto!

O feitor olhou nos olhos da negra à sua frente e voltou à realidade. O que ela estava dizendo?

— Saia da minha frente negra! – disse ele empurrando-a para o lado.

E foi então que ele viu o corpo ensanguentado à sua frente. Isso não era bom. Se esse negro tivesse morrido, ele teria que prestar contas ao Coronel. Já matara outros três da mesma maneira e tinha pagado essa perda com o seu salário. Desta vez, o castigo seria pior.

— Tire-o do tronco. Vamos! – ordenou o feitor aos seus capatazes.

— E você, negra, cuide dele. Se ele morrer, vou acertar as contas contigo! – essas últimas palavras foram ditas com o chicote apontado para Cinara.

Quando o corpo foi retirado do tronco, Cinara ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Colocou-o deitado em seu colo, enquanto os capatazes traziam água para lavar os ferimentos a mando do feitor. Trouxeram também uma pasta que era usada para ajudar na cicatrização dos ferimentos que provocava uma dor horrível, mas impedia que eles infeccionassem e levassem o castigado a uma morte horrível, após uma febre intensa.

Ela chamou por ele, beijou-lhe o rosto e lavou as suas feridas devagar, ali mesmo no chão do terreiro. Os outros negros cantavam em volta dos dois, pedindo aos deuses que tivessem piedade deles. Deodato não respirava mais. Lentamente, o seu corpo foi perdendo o calor que denuncia vida. Todos já sabiam que ele morrera, mas ela ainda cuidava dos ferimentos como se, assim, ela pudesse fazer com que ele voltasse à vida.

Antes de começar a passar a pasta nas feridas, conversou como se ele ainda vivesse, dizendo que o remédio ia doer muito, mas que seria bom para ele. As lágrimas corriam pelo rosto de Cinara, e ela cuidou de cada ferimento. Quando terminou, pediu uma camisa limpa. Ajudada pelas outras mulheres, vestiu o corpo dele pela última vez.

Quando as chamas subiram, queimando o corpo que ela tantas vezes amou, podia-se da casa grande ouvir os seus gritos e o seu choro desesperado, compadecendo as mulheres que lá viviam.

A dor que ela sentia era forte demais. Foi quando Cinara percebeu, com muita força, a presença dele ao seu lado e confortou-se. Ele viveria para sempre no coração dela.

Do outro lado, ele sorriu. Ela sentira a sua presença. Tudo ficaria bem, agora.

Galileu

O lugar era escuro e fétido. Ele podia escutar os pingos de água que caiam em intervalos regulares, provocando um som ritmado ao caírem na pedra que cobria o chão sujo e escorregadio.

Muito acima da sua cabeça, via-se uma pequena janela por onde entrava um pouco de claridade que iluminava muito mal o calabouço onde ele se encontrava. Estava preso há muitos dias. Os magistrados não chegavam a uma conclusão sobre a sua sentença.

Ele era um homem de posses e muito conhecido pelo seu conhecimento das ciências e das artes. Um teórico, diriam uns. Um cientista, diriam outros. Ele mesmo não sabia quem era, sabia apenas que em sua mente havia muitas perguntas e poucas repostas.
Sempre fora curioso e essa característica havia feito com que, desde menino, construísse engenhocas, desafiando seus amigos a experimentarem-nas. Muitas pernas e dedos foram quebrados nestas tentativas heroicas, mas ele não desistia. Fora assim que construíra para sua mãe um sistema de captação da água do rio que desaguava em uma cisterna ao lado da casa.

Isso havia facilitado demais o trabalho dela. Com o tempo, foi contratado para construir esse mesmo sistema em outras casas – o que lhe trouxe fama e dinheiro. Lendas corriam: ele era um bruxo poderoso e tinha pacto com o demônio.

Depois vieram outros pequenos inventos dos quais mal se lembrava. O fato era que dessa vez desafiara a Igreja Católica com as suas afirmações. Isso eles não tolerariam.
Pois bem, pensou ele, se retrataria sem problemas. Não era uma questão de certo e de errado. Era o que era, e mais tarde ou mais cedo, eles teriam que se render aos fatos: a Terra era redonda.

Galileu ajeitou-se como pode ao ouvir os passos que vinham em direção à sua cela. A porta abriu-se, dando passagem ao magistrado.

— Chegou-se a um veredicto! – comunicou o magistrado. Concluíram que, se o senhor se retratar, será solto e perdoado. O que me diz? Perguntou, com certa impaciência na voz. Esse julgamento estava tirando o seu sono e não era para tanto. O que tinha demais saber se a Terra era redonda, quadrada, ou seja lá o que fosse? Esse homem era um lunático e pronto!

Galileu sorriu e respondeu:

— Concordo plenamente, senhor. Foi através de um delírio meu que sonhei que a Terra é redonda. Tudo não passou de mera fantasia, essa que é a verdade. Vamos lá então. Direi isso publicamente.

Diante de todo o júri e das pessoas que assistiam ao julgamento, ele disse:

— Por minha honra e pela honra de minha família, juro que a Terra não é redonda. Quando afirmei isso, estava delirando, tomado por uma noite mal dormida em que sonhamos absurdos que nos parecem verdade.

O júri sorriu aliviado. O clérigo presente relaxou na cadeira e o magistrado, batendo com o martelo na mesa, deu por encerrado o julgamento.

Ao sair para o dia claro, Galileu caminhou de volta à sua casa, apoiado pelo seu servo. Enquanto caminhava, bateu levemente no ombro de seu criado e disse:

— Sabe de uma coisa, Venâncio. Apesar de ter jurado por mim e pela minha família, arderei no fogo do inferno por perjúrio porque, de fato, a Terra é redonda.

O criado tremeu diante das palavras de seu Mestre e benzendo-se para afastar o mal, disse:

— Senhor, não fale mais isso. Se vos ouvem, voltarás para o calabouço e desta vez não haverá jura que o solte.

— Não tema, meu amigo, todos agora me tomam por um arauto de invencionices tolas. Sou agora desacreditado. Hora digo uma coisa e depois desminto o que acabei de afirmar. Quem vai acreditar em mim daqui para frente? Estou condenado à descrença, Venâncio. Para sempre.

Galileu mergulhou no seu trabalho, registrando todas as suas conclusões. Muito pouco saiu de casa depois do julgamento que o transformou em um homem desacreditado. Mais tarde, seus escritos serviram de base para o aprofundamento de vários estudos astronômicos.

Lucia bate a roupa na pedra. Os lençóis de linho precisam estar imaculados. É assim que ela gosta deles. O sol está quente. Daqui a pouco, será a hora do almoço e ela voltará para o acampamento para alimentar o seu filho único que ficou brincando com as outras crianças da tribo, enquanto ela ia até o rio lavar a roupa.

Ouvindo o trotar de um cavalo, ela levanta o rosto e vê o cigano Toráh. Ele desce do animal e caminha na direção dela. No rosto dele, ela vê a marca da tristeza. A roupa escorrega das suas mãos e um grito sai da sua garganta.

— Meu filho!

Diante de Zúria, ela pede a morte. Nenhuma mãe que perde o seu filho deve manter-se viva. A Sacerdotisa, com a voz carregada de amor, lhe diz:
— Se não queres mais a vida, toma a minha. Se não tens mais fé, usa a minha. Ficarás ao meu lado para que tomes o que é meu para que seja teu.

Por dias, ela fica ao lado de Zúria. A ferida aberta, lentamente se cura no colo da mãe.
Quando ela volta para a tribo, é uma mulher mais forte e mais sábia.

Sephi

Está muito escuro. O cavaleiro continua andando apesar da dor que sente no corpo todo. Ele sabe que a dor não é só física. É uma dor na alma. O seu peito parece que vai explodir pelo esforço, mas ele precisa continuar. Dessa vez, nada vai impedi-lo de alcançar a saída. Já tentara muitas vezes, sempre desviando o seu caminho, dando ouvidos a uma oferta sedutora ou a um apelo dolorido. Dessa vez, porém, nada o tiraria do seu objetivo.

Por entre a densa folhagem que por vezes corta o seu braço e fere os seus pés, ele continua em frente. Tropeça, cai e machuca o rosto numa pedra. A face sangra, mas ele continua. As vestes estão em farrapos e o cabelo emaranhado, mas ele não para. Algo maior o guia. É a sua definição. Ele deu um basta em tudo. Não machucaria mais ninguém, não seria mais marionete de nenhum senhor cruel. Não sacrificaria mais seres humanos como um animal enraivecido e não tiraria mais a felicidade das pessoas.

Estava acabado!

Só a morte o deteria e, mesmo assim, ele voltaria exatamente para o ponto em que parasse. Então, nem mesmo ela, a morte, tão desejada em alguns momentos, era bem vinda agora. Ele só tinha a si próprio e estava decidido. Por ele e pela sua sanidade de alma não voltaria mais. Sequer olharia para trás para que não corresse o risco de titubear. Dessa vez usaria a sua força de cavaleiro para realizar a maior de todas as travessias: aquela que nos leva do mundo das trevas para o mundo da luz.

Sabia que no começo sentiria um desconforto. Não estava acostumado. Mas sabia que encontraria ajuda e, se ela não aparecesse, ficaria lá pelo tempo que fosse necessário até que alguém se apiedasse dele e o ensinasse a como ser do outro lado.

A mata ficava cada vez mais densa. Um pavor indescritível tomava conta do seu ser, mas ele conhecia o jogo. Ou era pavor ou era sedução. Ele não se deixaria conduzir por nenhuma dessas armas. Quando não as conhecemos, é difícil vencê-las mas, para ele, elas eram velhas conhecidas e estava cansado. Não queria mais nada daquilo. Queria ser feliz e calmo. Desejava paz e experimentar o que significava possuir o olhar claro que tantas vezes vira nas vítimas que passaram pelas suas mãos.

Ele estava exausto. Se não fosse merecedor de encontrar o caminho, ficaria ali e morreria sufocado pelas plantas rasteiras e venenosas que abundavam pelo caminho.
Subitamente parou levado por um pensamento: “Por que não olha para o alto?”.

Esperou um momento, antecipando a visão que teria. Saboreou cada movimento lento de sua cabeça erguendo-se para cima. Fez isso com os olhos fechados,
propositalmente. Iria abri-los quando a sua cabeça já estivesse totalmente levantada.
Ainda de olhos fechados, sentiu um calor no rosto e viu que uma luz incidia sobre ele.

Era a luz do sol. Manteve os olhos fechados, sentindo o calor do sol sobre o seu rosto. Permitiu que aquele calor percorresse todo o seu corpo. Depois levou a mão ao rosto e acariciou a sua face machucada. Sentiu um amor imenso por ele mesmo, como se estivesse se perdoando. Ficou assim por um tempo que lhe pareceu alguns segundos, mas que tiraram dele a dor física e espiritual. Quando abriu os olhos, ele era outro em outro tempo e outro lugar.

Acmella

A doce senhora atravessava o gramado em direção ao canteiro de ervas. Ela adorava quando o vento trazia o aroma das plantas, antecipando a visão do canteiro. Era como se, assim, ela se preparasse para o mágico encontro com as ervas. Sua mãe, e antes a sua avó, e antes ainda a mãe da sua avó, haviam feito este ritual: primeiro o pensamento intuído, depois o aroma e em seguida a colheita. Esse ritual era muito antigo e pertencia às mulheres da sua linhagem há séculos. Era passado de uma para a outra, em segredo.

Os medicamentos eram preparados nas cozinhas das casas, utilizando os seus utensílios para não chamar a atenção. Para algum visitante inesperado, pareceria que a dona da casa estava cozinhando algo especial para a família. As mulheres sempre estavam às voltas com o preparo das refeições. Essa era uma tarefa que cabia a elas. Ninguém estranharia que estivessem, a qualquer hora do dia, às voltas com preparos na cozinha.

O dia estava claro e as madressilvas pareciam cantar. Afastou um pouco as flores para encontrar a erva que desejava. Era uma erva muito especial. Custara a pegar, porque gostava de lugares quentes. Sua mãe havia descoberto que, se fosse plantada por baixo de outras plantas, teria o calor que desejava. E lá estava ela: Acmella.

Suas folhas tinham um tom de verde escuro e podiam produzir um remédio poderoso que tirava a dor de qualquer lugar do corpo, permitindo-lhe terminar uma tarefa começada que não pudesse ser interrompida, devido a uma dor muito forte. Porém, ela tinha uma consequência grave: podia piorar um problema. A dor é uma aliada do homem. É ela quem avisa que algo está errado. Se não sentimos dor, continuamos a machucar o que já está machucado.

Assim, eram poucas as vezes que ela se concedia ao uso desta erva e aquele era um desses momentos. A mulher estava sofrendo muito. O bebê não nascia. Ela já tinha acompanhado outros partos difíceis, mas aquele estava demorando muito. Se ela não fizesse algo rápido, mãe e filho podiam morrer.

Tocou o arbusto com carinho, pedindo a erva que lhe concedesse o seu poder a fim de que pudesse auxiliar uma mulher que sofria para dar à luz. Como em resposta, a erva soltou um líquido em suas mãos. Então ela soube que podia arrancá-la e fazer as compressas e o chá. Retirou o que precisava e nenhuma folha a mais.

— Não se pode desperdiçar as ervas, dizia a sua mãe. São seres vivos que precisam cumprir a sua missão. Se forem jogadas fora, podem perder o seu poder trazendo consequências graves para quem as desperdice.

Eulália correu de volta à cozinha. Colocou um pano limpo dentro do pilão e, em seguida, as ervas. Pilou bastante até que, ao torcer o pano, obteve um líquido escuro e espesso. Quando tudo estava pronto, com cuidado, espalhou um pouco em cima da barriga da mulher, pedindo que dessem a ela uma colher de sopa para que bebesse do mesmo líquido. Depois queimou folhas da erva numa tigela de madeira, espalhando a sua fumaça pelo aposentou. A mulher, lentamente, foi se acalmando.

Quando ela percebeu que a erva estava fazendo efeito, espalhou o líquido por entre as pernas da mulher e, com uma tesoura, fez um pequeno corte para que a cabeça do bebê pudesse passar.

A mulher deu um pequeno gemido que foi seguido pelo choro do bebê que acabara de nascer. Eulália pegou a criança, envolvendo-a num pano limpo. Era um menino. Em seguida, deu um nó no cordão que ainda estava preso ao seu umbigo. Trouxe-o ao peito e, com a ponta dos dedos, colocou em seus lábios um pedacinho de sal. Em voz baixa, pediu que o menino soubesse conduzir a sua vida com sabedoria, assim como o sal, que, quando usado da forma correta, é o tempero da vida. Depois, com as mãos em concha, derramou um pouco da água que energizara com a luz prateada das mulheres santas na cabeça do bebê. Com gestos rápidos e quase imperceptíveis, ela o batizara colocando nele a sua força. O pequeno bebê, agora, dormia em seus braços. Entregou-o a uma das mulheres que sempre estavam com ela nessas horas. Eram suas aprendizes e amigas leais.

Agora, ela precisava cuidar da mãe. O corpo já havia expulsado de dentro o que não era mais necessário. Suas aprendizes já haviam limpado tudo. Com um fio de seda muito fino e uma agulha igualmente fina, costurou o corte que abrira entre as pernas da mulher. Felizmente, a erva ainda estava fazendo efeito e ela quase não sentiu dor.
Com o bebê repousando ao lado da mãe que dormia profundamente graças a erva que lhe fora administrada, Eulália fez sinal às suas aprendizes para que a seguissem, deixando o quarto livre para que a mulher pudesse descansar.

Os parentes que aguardavam na sala já haviam escutado o choro do bebê. Sabiam que tudo estava bem e esperavam aliviados. Quando ela entrou na sala, o marido beijou-lhe a mão e, emocionado, falou:

— A senhora é uma santa. Qualquer soma em dinheiro que lhe dermos será insuficiente para recompensá-la por tudo que fez. Que a sua luz sempre brilhe a fim de que muitos sejam trazidos ao mundo pelas suas mãos.

E assim foi. Muitos já haviam nascido pelas suas mãos e muitos ainda nasceriam. Para ela, não havia dúvida de que essa era a sua missão. Soubera disso durante um ritual secreto que a consagrara para esse serviço.

Para que tudo corresse bem, bastava que ela silenciasse o seu coração e a sua mente. Seria guiada. Poucos sabiam, mas esse era o seu verdadeiro poder: a certeza de que seria guiada sempre que assim ela o permitisse. Tudo o mais, seria resultado dessa sua permissão.

O Mouro

Havia o rio para ser atravessado. A noite estava chegando e, em breve, eles não teriam mais a luz do dia. Os companheiros estavam aflitos e falavam todos ao mesmo tempo. O que fazer? Atravessar o rio correndo o risco de serem levados pela correnteza, colocando a segurança da Senhora em risco? Dar a volta até sabe-se lá onde, para encontrar uma travessia mais segura? Acampar ali e aguardar o dia seguinte que traria novas ideias?

Enquanto todos falavam, o Mouro permanecia silencioso. Como era o seu costume, observava. Esperava que o silêncio lhe trouxesse alguma resposta. Há muito aprendera que as palavras atrapalham o pensamento inspirado. O silêncio, ao contrário, libera o pensamento para que encontre a solução mais acertada.

Os companheiros o achavam diferente, mas, com o tempo, aprenderam a respeitar aquele homem moreno, alto, forte e silencioso. Ele não falava muito, mas suas atitudes mostravam o quanto ele amava a Senhora e acreditava na causa maior: libertar os homens do mal e trazer a luz ao mundo. Aprenderam a amá-lo e respeitá-lo.

De repente, sua voz soou alto:
— Eu puxarei a carroça, disse ele com um tom de voz que continha firmeza e determinação.
Os companheiros silenciaram. Na expressão do Mouro não havia dúvida: ele faria o que estava dizendo.
— Seja, então, disse Breuk, o líder da expedição. Nós nos distribuiremos em torno da carroça para que ela não tombe. Alguns irão atrás para auxiliar, empurrando.

Num gesto tão conhecido, formaram um círculo e ao centro dele colocaram suas mãos, umas sobre as outras e juntos disseram: Um por todos e todos por um!

Dentro da carroça, Zúria aguardava. Confiava em seus cavaleiros que, com certeza, encontrariam a melhor solução e assim, em breve, seguiriam viagem.

Ao saber da decisão, cuidou de agarrar-se firme dentro da carroça. Pela pequena janela à sua frente, ela via o ombro forte do mouro onde a grossa corda se apoiava para que ele pudesse puxar a carroça. Os músculos de suas costas se retesavam a cada esforço. O coração da Sacerdotisa encheu-se de amor e gratidão por aquele homem forte e corajoso. Silenciosamente, fez uma prece na intenção de que ele tivesse forças para realizar a tarefa que havia escolhido.

O Mouro puxava a carroça por dentro do rio em direção à margem oposta, tendo a impressão de que os seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento. Sua determinação, porém, gerava dentro dele uma força que era maior que a dos seus músculos. Era uma força que vinha da sua fé.

Ao chegarem à outra margem do rio, todos caíram no solo, exaustos. O Mouro, com um sorriso quase imperceptível nos lábios, pensou: Está feito!

Quando todos se acalmaram, comemoraram alegres a vitória, sabendo que ela só fora possível graças à determinação do Mouro e à união de todos.

— Que assim sempre seja! Disseram todos em coro.

Que assim seja! Soa o som de outras vozes, neste exato momento!