Histórias de todos os tempos

Por Roseli Câmara, com o testemunho de Helena Martins, dirigente da Ordem Princípio e Luz

As histórias contadas neste blog apresentam registros de mergulhos feitos em exercícios místicos que foram realizados após o contato com outras pessoas que, como nós, navegam nas mesmas águas.

Quando mergulhamos no mundo místico, o que sabemos é que faremos uma viagem. Para onde iremos e o que vamos encontrar não pode ser programado por nós. Entregamos o comando, na certeza de que viajaremos para onde devemos ir.

O que estará escrito aqui, uma história por vez, são os relatos de muitas viagens. Conhecemos lugares e ouvimos, assistimos e revivemos vários acontecimentos. As histórias estão aqui. Uma delas pode ser a sua história. O nosso convite é para que nelas mergulhem e recuperem o que é seu ou que, apenas, apreciem a paisagem.

Respirem profundamente, abram a sua tela metal, entreguem o comando e se conectem com os relatos. Após a leitura, se outro acontecimento lhes for contado, escrevam, porque se isso acontecer, significa que as histórias cumpriram a sua missão: a de abrir portas internas.

Sejam bem-vindos! Boa viagem!

Galileu

O lugar era escuro e fétido. Ele podia escutar os pingos de água que caiam em intervalos regulares, provocando um som ritmado ao caírem na pedra que cobria o chão sujo e escorregadio.

Muito acima da sua cabeça, via-se uma pequena janela por onde entrava um pouco de claridade que iluminava muito mal o calabouço onde ele se encontrava. Estava preso há muitos dias. Os magistrados não chegavam a uma conclusão sobre a sua sentença.

Ele era um homem de posses e muito conhecido pelo seu conhecimento das ciências e das artes. Um teórico, diriam uns. Um cientista, diriam outros. Ele mesmo não sabia quem era, sabia apenas que em sua mente havia muitas perguntas e poucas repostas.
Sempre fora curioso e essa característica havia feito com que, desde menino, construísse engenhocas, desafiando seus amigos a experimentarem-nas. Muitas pernas e dedos foram quebrados nestas tentativas heroicas, mas ele não desistia. Fora assim que construíra para sua mãe um sistema de captação da água do rio que desaguava em uma cisterna ao lado da casa.

Isso havia facilitado demais o trabalho dela. Com o tempo, foi contratado para construir esse mesmo sistema em outras casas – o que lhe trouxe fama e dinheiro. Lendas corriam: ele era um bruxo poderoso e tinha pacto com o demônio.

Depois vieram outros pequenos inventos dos quais mal se lembrava. O fato era que dessa vez desafiara a Igreja Católica com as suas afirmações. Isso eles não tolerariam.
Pois bem, pensou ele, se retrataria sem problemas. Não era uma questão de certo e de errado. Era o que era, e mais tarde ou mais cedo, eles teriam que se render aos fatos: a Terra era redonda.

Galileu ajeitou-se como pode ao ouvir os passos que vinham em direção à sua cela. A porta abriu-se, dando passagem ao magistrado.

— Chegou-se a um veredicto! – comunicou o magistrado. Concluíram que, se o senhor se retratar, será solto e perdoado. O que me diz? Perguntou, com certa impaciência na voz. Esse julgamento estava tirando o seu sono e não era para tanto. O que tinha demais saber se a Terra era redonda, quadrada, ou seja lá o que fosse? Esse homem era um lunático e pronto!

Galileu sorriu e respondeu:

— Concordo plenamente, senhor. Foi através de um delírio meu que sonhei que a Terra é redonda. Tudo não passou de mera fantasia, essa que é a verdade. Vamos lá então. Direi isso publicamente.

Diante de todo o júri e das pessoas que assistiam ao julgamento, ele disse:

— Por minha honra e pela honra de minha família, juro que a Terra não é redonda. Quando afirmei isso, estava delirando, tomado por uma noite mal dormida em que sonhamos absurdos que nos parecem verdade.

O júri sorriu aliviado. O clérigo presente relaxou na cadeira e o magistrado, batendo com o martelo na mesa, deu por encerrado o julgamento.

Ao sair para o dia claro, Galileu caminhou de volta à sua casa, apoiado pelo seu servo. Enquanto caminhava, bateu levemente no ombro de seu criado e disse:

— Sabe de uma coisa, Venâncio. Apesar de ter jurado por mim e pela minha família, arderei no fogo do inferno por perjúrio porque, de fato, a Terra é redonda.

O criado tremeu diante das palavras de seu Mestre e benzendo-se para afastar o mal, disse:

— Senhor, não fale mais isso. Se vos ouvem, voltarás para o calabouço e desta vez não haverá jura que o solte.

— Não tema, meu amigo, todos agora me tomam por um arauto de invencionices tolas. Sou agora desacreditado. Hora digo uma coisa e depois desminto o que acabei de afirmar. Quem vai acreditar em mim daqui para frente? Estou condenado à descrença, Venâncio. Para sempre.

Galileu mergulhou no seu trabalho, registrando todas as suas conclusões. Muito pouco saiu de casa depois do julgamento que o transformou em um homem desacreditado. Mais tarde, seus escritos serviram de base para o aprofundamento de vários estudos astronômicos.

Lucia bate a roupa na pedra. Os lençóis de linho precisam estar imaculados. É assim que ela gosta deles. O sol está quente. Daqui a pouco, será a hora do almoço e ela voltará para o acampamento para alimentar o seu filho único que ficou brincando com as outras crianças da tribo, enquanto ela ia até o rio lavar a roupa.

Ouvindo o trotar de um cavalo, ela levanta o rosto e vê o cigano Toráh. Ele desce do animal e caminha na direção dela. No rosto dele, ela vê a marca da tristeza. A roupa escorrega das suas mãos e um grito sai da sua garganta.

— Meu filho!

Diante de Zúria, ela pede a morte. Nenhuma mãe que perde o seu filho deve manter-se viva. A Sacerdotisa, com a voz carregada de amor, lhe diz:
— Se não queres mais a vida, toma a minha. Se não tens mais fé, usa a minha. Ficarás ao meu lado para que tomes o que é meu para que seja teu.

Por dias, ela fica ao lado de Zúria. A ferida aberta, lentamente se cura no colo da mãe.
Quando ela volta para a tribo, é uma mulher mais forte e mais sábia.

Sephi

Está muito escuro. O cavaleiro continua andando apesar da dor que sente no corpo todo. Ele sabe que a dor não é só física. É uma dor na alma. O seu peito parece que vai explodir pelo esforço, mas ele precisa continuar. Dessa vez, nada vai impedi-lo de alcançar a saída. Já tentara muitas vezes, sempre desviando o seu caminho, dando ouvidos a uma oferta sedutora ou a um apelo dolorido. Dessa vez, porém, nada o tiraria do seu objetivo.

Por entre a densa folhagem que por vezes corta o seu braço e fere os seus pés, ele continua em frente. Tropeça, cai e machuca o rosto numa pedra. A face sangra, mas ele continua. As vestes estão em farrapos e o cabelo emaranhado, mas ele não para. Algo maior o guia. É a sua definição. Ele deu um basta em tudo. Não machucaria mais ninguém, não seria mais marionete de nenhum senhor cruel. Não sacrificaria mais seres humanos como um animal enraivecido e não tiraria mais a felicidade das pessoas.

Estava acabado!

Só a morte o deteria e, mesmo assim, ele voltaria exatamente para o ponto em que parasse. Então, nem mesmo ela, a morte, tão desejada em alguns momentos, era bem vinda agora. Ele só tinha a si próprio e estava decidido. Por ele e pela sua sanidade de alma não voltaria mais. Sequer olharia para trás para que não corresse o risco de titubear. Dessa vez usaria a sua força de cavaleiro para realizar a maior de todas as travessias: aquela que nos leva do mundo das trevas para o mundo da luz.

Sabia que no começo sentiria um desconforto. Não estava acostumado. Mas sabia que encontraria ajuda e, se ela não aparecesse, ficaria lá pelo tempo que fosse necessário até que alguém se apiedasse dele e o ensinasse a como ser do outro lado.

A mata ficava cada vez mais densa. Um pavor indescritível tomava conta do seu ser, mas ele conhecia o jogo. Ou era pavor ou era sedução. Ele não se deixaria conduzir por nenhuma dessas armas. Quando não as conhecemos, é difícil vencê-las mas, para ele, elas eram velhas conhecidas e estava cansado. Não queria mais nada daquilo. Queria ser feliz e calmo. Desejava paz e experimentar o que significava possuir o olhar claro que tantas vezes vira nas vítimas que passaram pelas suas mãos.

Ele estava exausto. Se não fosse merecedor de encontrar o caminho, ficaria ali e morreria sufocado pelas plantas rasteiras e venenosas que abundavam pelo caminho.
Subitamente parou levado por um pensamento: “Por que não olha para o alto?”.

Esperou um momento, antecipando a visão que teria. Saboreou cada movimento lento de sua cabeça erguendo-se para cima. Fez isso com os olhos fechados,
propositalmente. Iria abri-los quando a sua cabeça já estivesse totalmente levantada.
Ainda de olhos fechados, sentiu um calor no rosto e viu que uma luz incidia sobre ele.

Era a luz do sol. Manteve os olhos fechados, sentindo o calor do sol sobre o seu rosto. Permitiu que aquele calor percorresse todo o seu corpo. Depois levou a mão ao rosto e acariciou a sua face machucada. Sentiu um amor imenso por ele mesmo, como se estivesse se perdoando. Ficou assim por um tempo que lhe pareceu alguns segundos, mas que tiraram dele a dor física e espiritual. Quando abriu os olhos, ele era outro em outro tempo e outro lugar.

Acmella

A doce senhora atravessava o gramado em direção ao canteiro de ervas. Ela adorava quando o vento trazia o aroma das plantas, antecipando a visão do canteiro. Era como se, assim, ela se preparasse para o mágico encontro com as ervas. Sua mãe, e antes a sua avó, e antes ainda a mãe da sua avó, haviam feito este ritual: primeiro o pensamento intuído, depois o aroma e em seguida a colheita. Esse ritual era muito antigo e pertencia às mulheres da sua linhagem há séculos. Era passado de uma para a outra, em segredo.

Os medicamentos eram preparados nas cozinhas das casas, utilizando os seus utensílios para não chamar a atenção. Para algum visitante inesperado, pareceria que a dona da casa estava cozinhando algo especial para a família. As mulheres sempre estavam às voltas com o preparo das refeições. Essa era uma tarefa que cabia a elas. Ninguém estranharia que estivessem, a qualquer hora do dia, às voltas com preparos na cozinha.

O dia estava claro e as madressilvas pareciam cantar. Afastou um pouco as flores para encontrar a erva que desejava. Era uma erva muito especial. Custara a pegar, porque gostava de lugares quentes. Sua mãe havia descoberto que, se fosse plantada por baixo de outras plantas, teria o calor que desejava. E lá estava ela: Acmella.

Suas folhas tinham um tom de verde escuro e podiam produzir um remédio poderoso que tirava a dor de qualquer lugar do corpo, permitindo-lhe terminar uma tarefa começada que não pudesse ser interrompida, devido a uma dor muito forte. Porém, ela tinha uma consequência grave: podia piorar um problema. A dor é uma aliada do homem. É ela quem avisa que algo está errado. Se não sentimos dor, continuamos a machucar o que já está machucado.

Assim, eram poucas as vezes que ela se concedia ao uso desta erva e aquele era um desses momentos. A mulher estava sofrendo muito. O bebê não nascia. Ela já tinha acompanhado outros partos difíceis, mas aquele estava demorando muito. Se ela não fizesse algo rápido, mãe e filho podiam morrer.

Tocou o arbusto com carinho, pedindo a erva que lhe concedesse o seu poder a fim de que pudesse auxiliar uma mulher que sofria para dar à luz. Como em resposta, a erva soltou um líquido em suas mãos. Então ela soube que podia arrancá-la e fazer as compressas e o chá. Retirou o que precisava e nenhuma folha a mais.

— Não se pode desperdiçar as ervas, dizia a sua mãe. São seres vivos que precisam cumprir a sua missão. Se forem jogadas fora, podem perder o seu poder trazendo consequências graves para quem as desperdice.

Eulália correu de volta à cozinha. Colocou um pano limpo dentro do pilão e, em seguida, as ervas. Pilou bastante até que, ao torcer o pano, obteve um líquido escuro e espesso. Quando tudo estava pronto, com cuidado, espalhou um pouco em cima da barriga da mulher, pedindo que dessem a ela uma colher de sopa para que bebesse do mesmo líquido. Depois queimou folhas da erva numa tigela de madeira, espalhando a sua fumaça pelo aposentou. A mulher, lentamente, foi se acalmando.

Quando ela percebeu que a erva estava fazendo efeito, espalhou o líquido por entre as pernas da mulher e, com uma tesoura, fez um pequeno corte para que a cabeça do bebê pudesse passar.

A mulher deu um pequeno gemido que foi seguido pelo choro do bebê que acabara de nascer. Eulália pegou a criança, envolvendo-a num pano limpo. Era um menino. Em seguida, deu um nó no cordão que ainda estava preso ao seu umbigo. Trouxe-o ao peito e, com a ponta dos dedos, colocou em seus lábios um pedacinho de sal. Em voz baixa, pediu que o menino soubesse conduzir a sua vida com sabedoria, assim como o sal, que, quando usado da forma correta, é o tempero da vida. Depois, com as mãos em concha, derramou um pouco da água que energizara com a luz prateada das mulheres santas na cabeça do bebê. Com gestos rápidos e quase imperceptíveis, ela o batizara colocando nele a sua força. O pequeno bebê, agora, dormia em seus braços. Entregou-o a uma das mulheres que sempre estavam com ela nessas horas. Eram suas aprendizes e amigas leais.

Agora, ela precisava cuidar da mãe. O corpo já havia expulsado de dentro o que não era mais necessário. Suas aprendizes já haviam limpado tudo. Com um fio de seda muito fino e uma agulha igualmente fina, costurou o corte que abrira entre as pernas da mulher. Felizmente, a erva ainda estava fazendo efeito e ela quase não sentiu dor.
Com o bebê repousando ao lado da mãe que dormia profundamente graças a erva que lhe fora administrada, Eulália fez sinal às suas aprendizes para que a seguissem, deixando o quarto livre para que a mulher pudesse descansar.

Os parentes que aguardavam na sala já haviam escutado o choro do bebê. Sabiam que tudo estava bem e esperavam aliviados. Quando ela entrou na sala, o marido beijou-lhe a mão e, emocionado, falou:

— A senhora é uma santa. Qualquer soma em dinheiro que lhe dermos será insuficiente para recompensá-la por tudo que fez. Que a sua luz sempre brilhe a fim de que muitos sejam trazidos ao mundo pelas suas mãos.

E assim foi. Muitos já haviam nascido pelas suas mãos e muitos ainda nasceriam. Para ela, não havia dúvida de que essa era a sua missão. Soubera disso durante um ritual secreto que a consagrara para esse serviço.

Para que tudo corresse bem, bastava que ela silenciasse o seu coração e a sua mente. Seria guiada. Poucos sabiam, mas esse era o seu verdadeiro poder: a certeza de que seria guiada sempre que assim ela o permitisse. Tudo o mais, seria resultado dessa sua permissão.

O Mouro

Havia o rio para ser atravessado. A noite estava chegando e, em breve, eles não teriam mais a luz do dia. Os companheiros estavam aflitos e falavam todos ao mesmo tempo. O que fazer? Atravessar o rio correndo o risco de serem levados pela correnteza, colocando a segurança da Senhora em risco? Dar a volta até sabe-se lá onde, para encontrar uma travessia mais segura? Acampar ali e aguardar o dia seguinte que traria novas ideias?

Enquanto todos falavam, o Mouro permanecia silencioso. Como era o seu costume, observava. Esperava que o silêncio lhe trouxesse alguma resposta. Há muito aprendera que as palavras atrapalham o pensamento inspirado. O silêncio, ao contrário, libera o pensamento para que encontre a solução mais acertada.

Os companheiros o achavam diferente, mas, com o tempo, aprenderam a respeitar aquele homem moreno, alto, forte e silencioso. Ele não falava muito, mas suas atitudes mostravam o quanto ele amava a Senhora e acreditava na causa maior: libertar os homens do mal e trazer a luz ao mundo. Aprenderam a amá-lo e respeitá-lo.

De repente, sua voz soou alto:
— Eu puxarei a carroça, disse ele com um tom de voz que continha firmeza e determinação.
Os companheiros silenciaram. Na expressão do Mouro não havia dúvida: ele faria o que estava dizendo.
— Seja, então, disse Breuk, o líder da expedição. Nós nos distribuiremos em torno da carroça para que ela não tombe. Alguns irão atrás para auxiliar, empurrando.

Num gesto tão conhecido, formaram um círculo e ao centro dele colocaram suas mãos, umas sobre as outras e juntos disseram: Um por todos e todos por um!

Dentro da carroça, Zúria aguardava. Confiava em seus cavaleiros que, com certeza, encontrariam a melhor solução e assim, em breve, seguiriam viagem.

Ao saber da decisão, cuidou de agarrar-se firme dentro da carroça. Pela pequena janela à sua frente, ela via o ombro forte do mouro onde a grossa corda se apoiava para que ele pudesse puxar a carroça. Os músculos de suas costas se retesavam a cada esforço. O coração da Sacerdotisa encheu-se de amor e gratidão por aquele homem forte e corajoso. Silenciosamente, fez uma prece na intenção de que ele tivesse forças para realizar a tarefa que havia escolhido.

O Mouro puxava a carroça por dentro do rio em direção à margem oposta, tendo a impressão de que os seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento. Sua determinação, porém, gerava dentro dele uma força que era maior que a dos seus músculos. Era uma força que vinha da sua fé.

Ao chegarem à outra margem do rio, todos caíram no solo, exaustos. O Mouro, com um sorriso quase imperceptível nos lábios, pensou: Está feito!

Quando todos se acalmaram, comemoraram alegres a vitória, sabendo que ela só fora possível graças à determinação do Mouro e à união de todos.

— Que assim sempre seja! Disseram todos em coro.

Que assim seja! Soa o som de outras vozes, neste exato momento!